WINNICOTT: UMA PSICANÁLISE NÃO-EDIPIANA

Zeljko Loparic (*)

Resumo: O presente artigo parte da tese de que o problema básico a partir do qual foi constituída a psicanálise freudiana é o do complexo de Édipo e que todas as outras dimensões da teoria psicanalítica tradicional remetem a esse "complexo nuclear". Em seguida, o artigo tenta demonstrar que o problema central da psicanálise winnicottiana não é do "andarilho na cama da mãe" mas o do "bebê no colo da mãe", para concluir que a psicanálise desenvolvida por Winnicott não é mais edipiana. No final, é apresentada um avaliação histórica e epistemológica desse desenvolvimento.

Palavras-chave: Winnicott, complexo de Édipo, paradigma edipiano, pardigma não-edipiano

 

1. A descoberta do Édipo e o surgimento da psicanálise

Na formulação inicial do complexo de Édipo, a diferença de sexos desempenha o papel fundamental: o menino gosta da mãe e é rival do pai ou seja, tem desejos de incesto e de assassinato. A menina, por seu turno, gosta do pai e rivaliza com a mãe. (1) Essa situação é conflituosa e, por isso, gera angústia, cuja forma básica é a de castração. A angústia, bem como os desejos que constituem a situação edípica, passam em geral desapercebidos, embora possam reaparecer na forma de sonhos e de sintomas neuróticos, analisáveis e compreensíveis em termos da lógica dessa mesma situação. Com o Édipo, Freud descobriu, ao mesmo tempo, a sexualidade infantil, o inconsciente reprimido, o conflito que causa as neuroses e o método de seu tratamento.

Foi a partir daí que Freud formulou a teoria psicanalítica. Como observa Bion com muita propriedade, o complexo de Édipo, reconhecido no material clínico, bem como o mito de Édipo e a sua versão em Sófocles, serviram a Freud de "instrumento para descobrir a psicanálise". Por essa razão, a psicanálise freudiana pode ser chamada de "edipiana". Sobre esse ponto também, Bion disse palavras decisivas: "Freud afirmou que um dos critérios segundo os quais um psicanalista deveria ser avaliado era o grau da sua fidelidade intelectual à teoria do complexo de Édipo. Ele demonstrou, assim, a importância que atribuía a essa teoria...". Bion não deixou dúvidas quanto a sua pessoal lealdade à teoria canônica de Freud. O passar do tempo, diz ele, não trouxe nenhuma indicação de que Freud estaria errado por fazer uma superestimação da importância do famoso complexo; a evidência do complexo "nunca está ausente, embora possa não ser observada".(2)

2. A teoria freudiana da situação edípica

Quando se discute o Édipo na psicanálise, convém distinguir entre a situação e o complexo propriamente dito. O complexo de Édipo é o efeito, sobre o sujeito, do conflito entre as forças que controlam a situação edípica.

A situação edípica pode ser descrita como a de um sujeito dotado de uma constituição inata. A constituição inata do sujeito edípico é caracterizada por mecanismos mentais, forças psíquicas (elementos dinâmicos e além disso energéticos, divisíveis em componentes) e forças biológicas, de natureza físico-química, ligadas a uma organização corpórea (zonas de excitação por meio dessas forças: a zona oral, anal e genital).

Os mecanismos mentais têm a capacidade de produzir representações de objetos e de transformar representações. As forças psíquicas são representantes psíquicos de forças físico-químicas que, ao lado dos mecanismos mentais, encontram-se embutidos num aparelho psíquico.

A idéia de uma tal constituição do sujeito humano não foi inventada por Freud. Os seus momentos básicos, mecanismos mentais e forças, foram introduzidos no século XVII por Leibniz, pensador que faz parte da tradição cartesiana da filosofia ocidental. As mônadas leibnizianas são caraterizadas pelo representatio e appetitus. (3) O que Freud acrescenta, sob a influência de Darwin, é a corporeidade biológica que se faz valer seja diretamente, seja representada pelos mecanismos mentais (em particular, a fantasia).

A importância decisiva desse acréscimo para a psicanálise tradicional diz respeito às relações de objeto do sujeito assim constituído. Estas relações são ou dinâmico-energéticas (as biológicas e as sexuais) ou mentais. As biológicas são primárias. Isso significa que o funcionamento do aparelho corpóreo determina todos os outros modos de relacionamento com o objeto, a natureza e a escolha dos objetos, as metas, e a evolução ou a história do relacionamento. (4) Esse funcionamento é o protótipo para os desejos e as fantasias de incorporação ou identificação que determinam representacionalmente as relações objetais. "No seio de todas as relações do sujeito com o mundo", escrevem com propriedade, Laplanche e Pontalis, "estão as metáforas da incorporação e a forma como esta se reencontra como significação e como fantasma predominante". (5)

3. A psicanálise edípiana

O que acabamos de dizer explica o papel central do complexo de Édipo na teoria psicanalítica tradicional (Freud, Klein, Lacan, Bion).

Em primeiro lugar, ele é o fenômeno principal da vida sexual, por isso elemento essencial da explicação da vida sexual. Toda a teoria da função sexual é concebida como preparação ou como decorrência da situação edípica. Em segundo lugar, a estrutura do sujeito é concebida em termos de antecedentes ou de derivações do complexo. Em terceiro lugar, o complexo de Édipo é o complexo nuclear das neuroses e, de modo geral, das doenças psíquicas. Em quarto lugar, o complexo de Édipo está na origem da ordem cultural, isto é, da religião, da moral, da socialidade, da historicidade, da arte, da ordem humana em geral.

Por esse motivo, a teoria da situação edípica e dos seus efeitos pode ser chamada de paradigma, no seguinte sentido: o problema do Édipo é o problema central e a solução exemplar desse problema, a parte principal da psicanálise tradicional, um paradigma teórico, tanto para a análise individual como para o desenvolvimento e para a institucionalização da teoria psicanalítica. (6)

O paradigma edipiano foi aplicado a um grande número de problemas nos quatro domínios assinalados, em geral com sucesso estrondoso. Logo surgiram, porém, problemas, que ele em princípio deveria resolver, mas que se revelavam não- solúveis, isto é, anômalos. Alguns deles foram anotados por Freud ele mesmo: a dificuldade de demonstrar o caráter empírico da cena primitiva (1914), de dar uma explicação do luto e da dor da transitoriedade (1917), o caráter aberrante da reação terapêutica negativa (1920) e o problema da relação originária exclusiva da menina com a mãe (1925).

Freud desenvolveu, diante desses problemas, várias estratégias de preservação do caráter central do Édipo e da psicanálise edipiana. Entre estas constam uma melhor articulação interna da teoria, sua reformulação também interna, e a sua extensão por meio de hipóteses, seja empíricas seja especulativas.

4. Um exemplo de revisão do paradigma edipiano

Explicitarei essas estratégias freudianas através do último problema acima mencionado, problema da relação originária exclusiva da menina com a mãe. Uma razão adicional para a escolha deste exemplo é que ele traz um material que se constituirá na base do desacordo revolucionário entre Freud e Winnicott: segundo o psicanalista inglês, a relação inicial exclusiva, não só das meninas, mas dos bebês dos dois sexos, com a mãe, não pode ser tratada em termos de precursores do material edípico.

Em 1925, muito tardiamente portanto, Freud reconheceu que nas crianças de ambos os sexos a mãe é o primeiro objeto. (7) Isso implica, diz Freud, na existência de um problema adicional para a formação do complexo de Édipo nas meninas: além de trocarem de meta (esta passa a ser genital, como no caso dos meninos), elas também têm que trocar de objeto da pulsão sexual infantil, ou seja, a mãe pelo pai.

Freud indicou claramente que se trata de um problema especial. O reconhecimento de um tempo pré-edípico da menina foi uma surpresa, diz Freud, "semelhante à descoberta, num outro domínio, da cultura minóico-micênica por trás da grega". (8) Essa comparação é reveladora. Freud parece sugerir ter topado com um estato da vida humana anterior e diferente do edípico, assim como a civilização de Micenas é anterior e diferente da civilização de Tebas. Em seguida, ele descreve a sua surpresa sem diferenciar entre as meninas e os meninos: "Tudo no domínio dessa primeira ligação com a mãe parece-me difícil de ser compreendido analiticamente, por ser tão cinzento de velho, tão cheio de sombras, por tão dificilmente poder ser vivenciado de novo, como se tivesse sido submetido a um recalque particularmente inexorável". (9) A relação micênica com a mãe seria uma relação de objeto não apenas mais antiga e diferente, como também mais profunda - já que objeto de um recalque mais severo e precoce - do que a edípica, grega. Estaríamos aqui diante de uma dimensão não simplesmente pré-edípica, mas propriamente não edípica da vida humana?

O problema é mais sério do que se pode pensar à primeira vista. Por ser exclusiva e portanto dual, a relação inicial com a mãe não parece depender, de modo algum, da situação edípica definida por relações triangulares. Por ser precoce, ela não parece conter um momento fálico, e ainda menos genital. No caso específico da menina, a questão complica-se ainda mais devido ao fato de que, na ótica da teoria tradicional, as meninas já nascem castradas. Por todos esses momentos, o caso parece escapar ao domínio da sexualidade infantil. Como além disso a relação exclusiva com a mãe pode, segundo o próprio Freud, dar lugar a todas as fixações e recalques que são necessários para a formação de neuroses, parece inevitável concluir que é preciso rejeitar a tese de que o complexo de Édipo se constitui no complexo nuclear das patologias psíquicas.

Deveríamos abandonar o paradigma da situação edípica como a chave universal para a compreensão e o tratamento das neuroses? Não, responde Freud. O paradigma edipiano pode ainda ser defendido, diz ele, de duas maneiras. Primeiro, dando ao complexo "um conteúdo mais amplo, de modo que passe a incluir todas as relações das crianças com ambos os pais". Segundo, dizendo que a menina chega à situação edípica positiva superando um tempo anterior dominado pelo complexo negativo. Vemos as estratégias empregadas por Freud: rearticular, reformular, estender, os conceitos da psicanálise edipiana para evitar a sua rejeição.

Em 1925, Freud optou pela reformulação que diz que, no caso das meninas, o complexo de Édipo é secundário, não possibilitador, e sim possibilitado pelo complexo de castração. Ele admite que a relação com a mãe é pré-edípica, mas apenas no sentido de fazer parte da "pré-história" da situação edípica plena. A relação da menina com a mãe resulta de pulsões biológicas e sexuais, embora estas últimas não tenham atingido ainda a fase fálica ou genital.

Nos anos seguintes, Freud viu-se forçado a introduzir outras mudanças na teoria tradicional. Já em 1926, ele propõe uma "pequena modificação" na condição do desenvolvimento da angústia das meninas: esta não nasce da falta, real ou imaginária, de um objeto, real ou imaginário, mas da perda do amor por parte do objeto. No caso da histeria feminina, por exemplo, a perda do amor desempenharia um papel análogo à ameaça de castração nas fobias masculinas. (10)

Nos anos trinta, Freud ensaiou uma explicação mais de acordo com a ortodoxia edipiana. Ele diz observar nas meninas o desejo de gerar uma criança da mãe, como também o desejo de lhe fazer uma criança, ambos pertencentes, enfatiza Freud, à "fase fálica". Estamos muito próximos do Édipo pleno: fazer um filho na mãe implica em ser também o pai; ter um filho da mãe implica em que a mãe seja também o pai. Além desses desejos, no material relativo a esse caso, Freud encontra ainda uma fantasia de sedução semelhante àquela da qual derivam os sintomas histéricos, e que deu origem (erroneamente interpretada como fato real) à descoberta do Édipo. Só que nesse caso a sedutora é a mãe e a sedução tem um fundo de realidade, já que efetivamente a mãe, pelos seus cuidados físicos, "deve ter provocado, talvez até mesmo despertado, as sensações de prazer no órgão genital". (11)

Freud parece sentir que está forçando os conceitos e levanta, ele mesmo, a objeção de que elementos libidinais de ligação não são observados na relação inicial das meninas com a mãe. Freud responde: "Muitas coisas podem ser observadas nas crianças, quando se sabe observar". (12) O que Freud quer dizer é que o paradigma edipiano permite ver o que, sem esse paradigma, permaneceria imperceptível.

 

5. O Édipo precoce de M. Klein

Entre os que praticaram rearticulações e revisões do paradigma edipiano, um lugar de destaque ocupa M. Klein. Em Freud, os sentimentos de culpa, de perseguição e de angústia são considerados derivados do complexo de Édipo. Klein notou que tais sentimentos, associados à agressividade, surgem já nas fases pré-edípicas, em particular na relação supostamente exclusiva à mãe, observada por Freud. Concluiu dai que a situação edípica, sob pena de ser inaplicável a tais fenômenos, deve possuir uma forma precoce, desconhecida por Freud.

Como é possível que crianças muito pequenas, antes mesmo do complexo de Édipo formado, tenham sentimentos de culpa? Klein explica: crianças de ambos os sexos, em virtude da sua constituição pulsional e mental, têm desde o início da vida desejos genitais (fálicos) dirigidos tanto para a mãe como para o pai. Além disso, elas querem, desde a fase oral, aniquilar o objeto libidinal primário, o seio da mãe. Daí o sentimento de culpa. A agressividade aqui envolvida decorre em última instância da pulsão de morte, e não, como em Freud, da frustração causada pela perda do objeto ou do amor e da proteção do objeto.(13)

Em que medida a angústia assim gerada tem um sentido edípico? Na medida em que, para as crianças de ambos os sexos, o pênis do pai está contido no seio da mãe, de acordo com a equação simbólica: seio = pênis. (14) Por consegüinte, o ataque contra o seio equivale à castração do pai.

Klein sabe da objeção de Fenichel, formulada em 1930, e parcialmente aceita por Freud em 1931, contra o seu Édipo precoce: a idéia do Édipo precoce altera todas as outras relações produzidas durante o desenvolvimento, além de não ser compatível com a existência da ligação materna, pré-edípica, de longa duração e exclusiva observada por Freud. Esta implica em que a relação inicial com a mãe seja a dois e não a três, e que, portanto, não pode ser afirmado que nela existam "tendências edípicas".

Qual é a resposta de Klein? Ela afirma que, para salvar o Édipo, as relações produzidas durante o desenvolvimento precisam de fato ser reformuladas, mas que essa reformulação não implica em rejeitar as suposições básicas da psicanálise tradicional. O problema essencial é o de mostrar que a relação de crianças de ambos os sexos com a mãe é, desde o início, de fato, uma relação a três. O que torna essa relação triádica, e assim edípica, é o fato de que toda criança possui um saber inato sobre os assuntos relativos à estrutura da situação edípica. Munida desses argumentos, Klein poderá dizer que a sua teoria do Édipo precoce não contraria, no essencial, as afirmações do "professor Freud". (15)

A estratégia "revisionista" usada por Klein para salvar o complexo de Édipo, e garantir a aplicabilidade dos conceitos que o definem além do domínio inicial, consiste portanto em proceder a uma rearticulação da teoria do complexo (novas relações entre objetos parciais definidas por meio de equações simbólicas), além de introduzir novas hipóteses relativas à constituição inata do sujeito (aos conteúdos específicos do saber inato).

6. As anomalias descobertas por Winnicott

Essa estratégia é sem dúvida engeniosa, mas ela tem o seu custo: o significado dos conceitos deixa de ser acessível à experiência tanto dos analistas como da criança.

Nem todos os psicanalistas se mostraram dispostos a pagar esse preço. Nos anos trinta, quando o complexo de Édipo ainda era geralmente aceito como nuclear, Winnicott notou a existência de múltiplas formas de distúrbios, acompanhadas de angústias que não pareciam poder ser enquadradas como "regressões aos pontos de fixação pré-genitais", ligados à "dinâmica proveniente do conflito do complexo de Édipo plenamente desenvolvido". Winnicott concluiu: algo estava errado em algum lugar. (16)

Por um tempo, Winnicott trabalhou com as modificações do paradigma tradicional introduzidas pela teoria kleiniana da posição depressiva. Pouco a pouco, ele percebeu que nem mesmo o conceito de complexo de Édipo precoce, de Klein, pode ser usado para dar conta dos seus problemas.

Mas o fator decisivo para o surgimento da psicanálise winnicottiana foi a sua crescente convicção de que existem problemas iniciais da vida humana que podem ser claramente identificados e descritos, e que não são solúveis por meio dos elementos da teoria da situação edípica e do complexo de Édipo. Ele chamará esses problemas de angústias ou agonias impensáveis.

Que angústias são essas? As angústias diante de várias ameaças ao existir humano, tais como o medo de retorno a um estado de não-integração (e, nesse sentido, de aniquilação e de quebra da linha do ser), o medo da perda de contato com a realidade, da desorientação no espaço, do desalojamento do próprio corpo, pânico num ambiente físico imprevisível, etc. (17)

Por que essas angústias são chamadas de impensáveis? Porque não são definíveis em termos de relações pulsionais de objeto, baseadas em relações representacionais de objeto (percepção, fantasia, simbolização). Uma característica básica das angústias impensáveis é o fato de se darem, por muito precoces, antes que exista um indivíduo capaz de experienciá-las. Isto significa, que os estados que dão origem às angústias impensáveis acontecem antes do início da atividade relativa a mecanismos mentais e a forças instintuais. O que constitue as agonias como impensáveis, e assim como anomalias, para a psicanálise tradicional, é que elas não podem, em princípio, ser entendidas, pensadas, em termos do conflito gerado na situação edípica.

Como então surgem as angústias winnicottianas? Por que as angústias impensáveis deveriam ser levadas em conta pela psicanálise? Como tratar delas?

7. Uma psicanálise não centrada no Édipo

A obra winnicottiana pode ser interpretada como sendo, no essencial, uma tentativa de responder a essas três perguntas. A sua resposta à primeira delas é a seguinte: aquelas angústias dão-se diante do encontro com o mundo, inesperado e incompreensível para o bebê, num determinado estágio de amadurecimento. Essa resposta implica, portanto, numa teoria do amadurecimento humano.

O ser humano, diz Winnicott, é uma amostra temporal da natureza humana. (18) A única herança do homem é o processo inato de amadurecimento. (19) A sua vida ocupa um intervalo entre dois "estados" de não-vida, estados que fazem parte da estrutura do indivíduo. Esse intervalo surge do não-ser inicial sem razão alguma e vai se estendendo até o não ser terminal, até a "segunda morte", como diz Winnicott, unicamente devido ao concernimento do indivíduo pela continuidade do seu ser.

Apesar desse concernimento, a continuidade não pode ser assegurada pelo indivíduo ele mesmo. Ela depende essencialmente de um meio facilitador. A condição inicial do homem não é a de ser um Édipo em potencial, mas a de um ser humano frágil, insuperavelmente finito, que precisa do um outro ser humano para continuar existindo.

É essencial notar que a relação de dependência não é uma relação de objeto entre um sujeito e um objeto numa situação conflituosa a três. Examinemos essa afirmação ponto por ponto.

No começo da vida, o bebê não é um sujeito leibniziano, movido a forças internas, capaz de usar seus mecanismos mentais. No início, as forças instintuais são para ele coisas tão externas quanto os fenômenos naturais, fenômenos que não o movem, mas o ameaçam. O motor do bebê é o próprio fato de ele estar vivo. O bebê não se relaciona com o seio em termos de protótipos biológicos e filogenéticos. Em particular, o bebê não quer comer a mãe, diz Winnicott, nem, menos ainda, castrar o pai. (21) Ele quer a presença segura da mãe que lhe inspire a em si mesmo e no mundo. O bebê só adquire a capacidade de usar os seus mecanismos mentais se o seu contato com a mãe-ambiente for satisfatório (se o seio-técnica funcionar). Por isso mesmo, o bebê não pode ter ciúme de objeto algum, ele não pode nem mesmo ter inveja da mãe, já que não sabe o que é possuir algo diferente dele: a capacidade de possuir é ela mesma constituída na relação satisfatória com a mãe.

O seio da mãe de que o bebê winnicottiano depende não é um objeto interno ou externo, bom ou mau. O seio bom é o nome dado a uma "técnica", a técnica que realiza três metas: maternagem suficientemente boa (isto é, o holding, o manuseio e introdução do bebê ao mundo), a alimentação satisfatória, e por fim a união das duas primeiras coisas no ambiente, e depois na mente do bebê. (20)

A relação de dependência não é uma relação a três. Ela não é nem mesmo uma relação a dois, já que o bebê como tal não existe. Ela é antes um dois-em-um, sui generis, anterior à oposição entre o eu e o não-eu, entre o dentro e o fora, entre o meu e o não-meu, entre o antes e o depois cronológicos.

Por fim, o espaço inicial do bebê dependente não é uma situação caracterizada por relações externas e internas, mas um mundo subjetivo, anterior a qualquer distinção entre o interno e o externo. Numa "situação" dessas, não pode ainda haver ataques ao objeto externo, nem conflito interno.

É da condição de dependência de outrem que surgem, para o bebê, as suas necessidades (needs) e problemas fundamentais, como o de nascer, de se sentir real, de ter contato com a realidade, de assegurar a sua integração do ser no tempo e no espaço (isto é, num mundo), a de criar a distinção entre a realidade interna e externa, a de criar a capacidade de uso das coisas e a de ser si mesmo.

É também a partir da condição de dependência do bebê que Winnicott explica a origem das angústias impensáveis. Elas surgem de falhas no relacionamento da mãe-ambiente com o bebê, antes mesmo que este possa dar conta dessas falhas. Falhas de que tipo? Falhas que ameaçam a solução de tarefas impostas ao bebê nos estágios do processo de amadurecimento e de integração progressiva em que se encontra sucessivamente. O ambiente falha não por frustrar ou por ameaçar (isto é, por revidar, em termos da lei do talião aos ataques do bebê), mas por não ser confiável e suficiente para assegurar o crescimento e evolução pessoal do ser humano.

Agora é possível responder a nossa segunda pergunta sobre a relevância das angústias winnicottianas para a psicanálise. A resposta é simples: essas angústias são diretamente relevantes para a etiologia e o tratamento das psicoses.

Winnicott explica: "A psicose não fica atribuída a uma reação à angústia associada com o complexo de Édipo, ou a uma regressão a um ponto de fixação, nem é ligada especificamente a uma posição no processo desenvolvimento instintivo do indivíduo." (22) O quadro da compreensão das psicoses não é a teoria da evolução da função sexual, mas a teoria geral da "tendência inata" em direção da independência e da autonomia. A teoria tradicional da progressão das zonas erógenas perde o status de teoria fundante e fica redescrita em termos da teoria do amadurecimento da pessoa humana.

A idéia norteadora desse redescrição diz que só em certos estágios do amadurecimento, como o do concernimento e o do Édipo, os problemas principais são de natureza sexual e pedem soluções, seja reais seja fantasmáticas, de tipo sexual. (23) Um ponto central dessa redescrição diz ser possível que o indivíduo jamais atinja o grau de saúde psíquica em que o complexo de Édipo faça sentido. (24) Dependendo do processo de amadurecimento, o complexo de Édipo pode nem mesmo se formar, o que implica que ele não é uma necessidade empírica, nem um a priori, seja filogenético, seja formal, da existência ou do pensamento humanos.

Finalmente, como tratar dessas angústias? Para tanto é preciso, em primeiro lugar, distinguir entre dois tipos do inconsciente: o inconsciente reprimido, descoberto por Freud no complexo de Édipo, juntamente com a sexualidade infantil, e o inconsciente constituído de interrupções ou colapsos da integração progressiva; em segundo lugar, considerar dois tipos de regressão, a regressão ao inconsciente reprimido e a regressão à dependência em que se deu o colapso traumatizante; e, em terceiro lugar, deixar de praticar apenas a "caça às bruxas", isto é, às moções pulsionais bloqueadas, a fim de interpretá-las, para permitir aos analisandos refazerem, eles mesmos, a comunicação perdida com o ambiente e criarem o sentimento de confiabilidade. (25)

Em resumo, na teoria de Winnicott do amadurecimento humano, alteram-se todos os elementos teóricos com que foi descrita a situação edípica pela psicanálise tradicional: no lugar do sujeito com a constituição biológico-dinâmico-mental, o bebê que tem como única herança o processo de amadurecimento (que não é nem biológico, nem dinâmico, nem mental); no lugar da mãe-objeto pulsional, a mãe-ambiente; no lugar da experiência de satisfação instintual, as necessidades oriundas do próprio existir; no lugar da sexualidade infantil, a dependência; no lugar da mãe libidinal, a mãe da preocupação primária; no lugar da situação intramundana determinante a três, o bebê num mundo subjetivo de dois-em-um, próximo do estado de não ser. No essecial, a teoria da progressão programada das zonas erógenas fica substituída pelo processo sempre incerto e instável de integração progressiva do indivíduo.

Como avaliar essa contribuição à psicanálise? Creio que se possa dizer, do ponto de vista da teoria da ciência, que a teoria de Winnicott constitui uma revolução científica que substitui o paradigma de psicanálise tradicional por um novo. Em primeiro lugar, o antigo problema central, o do andarilho na cama da mãe, cede o lugar a um novo: o do bebê no colo da mãe. (26) E, em segundo lugar, o papel de solução exemplar, paradigmática, passa a ser desempenhado pela teoria do amadurecimento pessoal, e não mais pela teoria da história natural da função sexual.

A influência de Winnicott sobre a psicanálise atual é mais profunda do que pode parecer, fazendo-se sentir também no Brasil. Depois do psicanalista inglês, Heinz Kohut retomou a tese de que o complexo de Édipo não é "uma necessidade maturativa básica, mas apenas o resultado freqüente de falhas de ocorrência freqüente por parte de pais". (27) O mesmo Kohut reafirmou, com ênfase, a insuficiência do paradigma da psicanálise edipiana: "A teoria clássica", escreve Kohut, "não pode elucidar a essência da existência humana fraturada, debilitada, descontínua. (...) A metapsicologia dinâmico-estrutural não faz justiça a esses problemas do homem, não pode abranger os problemas do homem trágico". (28)

Que fazer desse desenvolvimento que vai da psicanálise edipiana à maturacional, de Freud e Klein a Winnicott? Não teríamos aqui talvez o eixo central da psicanálise do século? O que significaria isso para o futuro da psicanálise? Eu quis apenas trazer a público essas perguntas. Creio que elas não podem mais ser ignoradas.

 

Referências

Bion, W.R. 1963. Elements of Psychoanalysis. Londres: Karnac.

------ (1967). Transformations. Londres: Karnac.

Freud, S. (1900): A interpretação dos sonhos, in Studienaugabe II, p. 262.

Freud, S. (1925)."Algumas conseqüências psicológicas da diferença anatômica dos sexos", in Studienaugabe, V, p. 259;

------ (1926). Inibição, sintoma, angústia, in Studienaugabe, VI.

------ (1931). "Sobre a sexualidade feminina", in Studienaugabe, V.

------ (1933). S. Freud, Novas conferências introdutórias à psicanálise, in Studienaugabe, I.

Heidegger, M. (1961). Nietzsche, Pfullingen, Neske, 1961, vol. II.

KleiN, M. (1988). Envy and Gratitude and Other Works. Londres: Virago Press.

Kohut, H. (1988). A restauração do self. Rio de Janeiro, Imago.

Lapanche, J. e Pontalis, J.-B. (1967). Vocabulaire de la psychanalyse. Paris: P.U.F.

Winnicott, D.W. (1965). Maturational Processes and Facilitating Environment. Londres: The Hogarth Press.

------ D.W. (1987). The Spontaneous Gesture. Londres: Harvard University Press.

------ (1988), Human Nature. Londres: Free Association Books.

------ (1989). Psychoanalytic Explorations. Londres: Karnac Books.