Aspectos clínicos e metapsicológicos
da regressão dentro do Settng

D. W. Winnicott

Este fragmento de um conhecimento artigo de Winnicott apresenta questões extremamente interessante. Percurso propôs alguns colegas que o comentassem. Nas páginas seguintes, as reflexões a que ele deu lugar.

Há várias maneiras através das quais o indivíduo saudável lida com fracassos ambientais específicos, ocorridos no inicio da vida; é a uma delas que estou chamando aqui de congelamento da situação de fracasso. Deve haver uma relação entre isto e o conceito de ponto de fixação.

Na teoria psicanalítica, é freqüente afirmar que, no curso do desenvolvimento pulsional nas fases pré-genitais, situações desfavoráveis podem criar pontos de fixação no desenvolvimento emocional do indivíduo.

Em um estádio posterior, por exemplo, no estádio da dominância genital, isto é, quando toda a pessoa está envolvida em relacionamento interpessoais (e quando é bastante freudiano falar em complexo de Édipo e medo de castração), a ansiedade pode levar a uma regressão, em termos de qualidades da pulsão, ao que é operativo no ponto de fixação, e a conseqüência é um esforço da situação de fracasso original. Esta teoria provocou seu valor e é utilizada cotidianamente, não havendo necessidade de abordá-la enquanto a examinamos sob um novo ângulo. A alternativa é enfatizar o desenvolvimento do ego e a dependência e, neste caso, quando falamos de regressão, imediatamente falamos de adaptação ambiental com seus sucessos e fracassos. Uma das coisas que eu quero deixar especialmente clara é que nossa maneira de encarar este assunto tem se mostrado falho devido à tentativa de traçar as origens do ego sem desenvolver, á medida que avançamos, um interesse maior pelo meio ambiente. Podemos construir teorias do desenvolvimento da pulsão, concordando em deixar de lado o meio ambiente, mas não é possível fazer isto no que diz respeito à formulação do desenvolvimento inicial do ego. Sugiro que não deixemos de nos lembrar que o produto final de nossas considerações acerca do desenvolvimento do ego é o narcisismo primário. No narcisismo primário, o meio ambiente fornece um bolding parta o indivíduo e, ao mesmo tempo, o indivíduo não sabe da existência do meio ambiente e está em união com ele.

Se me fosse dado tempo, eu mostraria a maneira pela qual uma regressão organizada é às vezes confundida com retraimento patológico e com clivagens defensivas de vários tipos. Esses estados se relacionam com a regressão, no sentido de serem organizações defensivas. A organização que torna a regressão últil se destingue das outras organizações defensivas pelo fato de carregar consigo a esperança de uma nova oportunidade de descongelamento da situação congelada, e de proporcionar ao meio ambiente atual, a chance de fazer uma adaptação adequada, apesar de atrasada.

Disto deriva o fato, caso seja realmente um fato, de que é possível uma recuperação espontânea da psicose, ao passo que o psiconeurótico é capaz de se recuperar espontaneamente, sendo o psicanalista realmente necessário neste caso. Em outras palavras, a psicose está intimamente relacionada à saúde, na qual incontáveis situações de fracasso ambiental são congeladas, sendo porém, atingidas e descongeladas pelos vários fenômenos da vida cotidiana que tem um poder curativo, a saber, amizade, cuidados dispensados durante uma doença física, poesia, etc., etc...

Minha tese até este ponto pode ser expressa da seguinte maneira:

A doença psicótica se relaciona a um fracasso ambiental em um estádio primitivo do desenvolvimento emocional do indivíduo. A sensação da futilidade e de irrealidade faz parte do desenvolvimento de um falso self, que se desenvolve como proteção para o self verdadeiro;

O setting da análise reproduz as mais antigas técnicas de maternagem. Convida à regressão de um paciente é um retorno organizado à dependência inicial; é uma dupla dependência. O paciente e o setting fundem-se na situação de sucesso original do narcisismo primário.

O progresso para além do narcisismo primário se inicia de novo, com o self verdadeiro capaz de enfrentar situações de fracasso ambiental, sem organizar defesas que envolvem a proteção do self verdadeiro por um falso self;

Até este ponto, a doença psicótica só pode ser aliviada por uma provisão ambiental especializada, entrelaçada à regressão do paciente;

O progresso a partir da nova posição, tendo o self verdadeiro se rendido ao ego total, pode agora estudada em termos dos processos complexos do crescimento individual.

Na prática, há uma seqüência de eventos:

    1. Fornecimento de um setting que transmita segurança ;
    2. Regressão do paciente à dependência, com o devido senso de risco envolvido;
    3. Sensação, por parte do paciente, de um novo sentido do self, e o self até então oculto, submetendo-se ao ego total. Uma nova progressão dos processos individuais, que haviam cessado;
    4. Descongelamento de uma situação de fracasso ambiental;
    5. A partir da nova posição de força do ego , a raiva relacionada ao fracasso ambiental inicial é sentida no presente e expressa;
    6. Retorno da regressão à dependência, em um progresso ordenado em direção à independência;
    7. Necessidades desejos pulsionais tornando-se realizáveis com uma vitalidade e um vigor genuíno.