Como consegue o fetiche ser, ao mesmo tempo, recusa e reconhecimento da falta de pênis materno?
A construção deste "objeto" tão concreto e no entanto evanescente dribla a falta,
de maneira singular. Mas ele aponta para uma possibilidade universal.
Tania Rivera é doutora em Psicologia pela Universidade católica de Louvain, Bélgica,
e professora da Universidade de Brasília no contexto de uma bolsa para Recém-Doutor do CNPq.
Uma versão original deste texto foi apresentada no colóquio "A Simbolização",
realizado na Universidade de Brasília em 24 e 25 de março de 1997.
"Quem sonda o símbolo assume todos os riscos."
Oscar Wilde
O símbolo sempre foi um conceito-chave em psicanálise. Não que esta disciplina proponha uma listagem de símbolos que apresenta entre os dois termos uma relação constante e inequívoca, como os populares manuais de interpretação de sonhos. Interessa à teoria psicanalítica sobretudo a discontinuidade entre o símbolo e o termo simbolizado, muito mais que qualquer "simbólica". Pois esta ruptura é uma condição básica do funcionamento psíquico concebido por Freud. Do trabalho do sonho à construção do sintoma, passando pelo lúdico labor do "brincar" infantil, que leva às mais altas realizações culturais, deparamo-nos com o ato de substituir, simbolizando.
Onde estão os não-neuróticos os psicóticos, os perversos senão na cultura? Não nos deixemos cair no estereótipo do "homem-lobo" essas histórias fascinantes de crianças perdidas na selva, que não têm nenhum tipo de relação com humanos durante anos, vivendo como lobos ou outra espécie que as tenha adotado. Os psicóticos e os perversos estão longe de ser homens-lobos, apesar de certas elaborações teóricas de Lacan, tomadas de forma extremamente superficial, poderem sugerir este tipo de imagem. Dizer que o psicótico rejeita, forclui, ou seja, coloca fora da simbolização sem apelação , não quer dizer que ele esteja totalmente excluído do funcionamento simbólico, e absolutamente incólume à castração. Afirmar que o perverso chega de alguma forma mais próximo da castração, sem no entanto que ela opere de maneira efetiva, não significa que ele permaneça à margem do universo simbólico.
Devemos abandonar esta espécie de etnocentrismo neurótico que costuma guiar a teorização psicanalítica, e abordar o que se distancia da configuração neurótica de maneira menos "negativa", apenas pelo que aí falta em relação ao neurótico. Devemos tentar conceber seus modos de funcionamento próprios. Pois psicóticos e perversos também "funcionam", bem ou mal e em que universo este funcionamento poderia se dar senão no simbólico?
Esta é a preocupação que guia as minhas observações sobre o fetichismo. Lançarei aqui algumas bases para um modelo do funcionamento indicado pelo fetiche, sem me ater à questão dele poder ou não ser expandido à perversão em geral. Nós veremos que o fetichismo lança um desafio, que eu aceitei: o de se conceber uma substituição simbólica que não realize de maneira efetiva a travessia da perda da coisa. Tal é o paradoxo do fetiche que será aqui focalizado.
Magia e desconhecimento
Segundo Freud, o fetichista recusa a realidade da falta de pênis na mãe, pois aceitar esta falta implica em reconhecer que sua própria possessão de um pênis está ameaçada. Ele encontra, então, um substituto ao pênis que falta à mãe: o fetiche. Mas a recusa (Verleugnung) da falta que aí está em jogo não deve em absoluto ser confundida com uma alucinação do pênis:
Parece, então, haver a possibilidade de se anular radicalmente esta percepção: ela corresponde à alucinação, e é, neste texto, ligada à psicose. Já a defesa colocada em prática no fetichismo seria menos radical, ela fica numa espécie de meio-termo, o que é indicado pela idéia de que duas correntes subsistem neste caso: tanto a corrente que está de acordo com a "realidade", quanto a corrente conforme ao fantasma. O fetichista conserva a crença de que as mulheres possuem um pênis, e ao mesmo tempo a abandona.
Apesar das aparências, a defesa psicótica que consistiria numa alucinação do pênis presente está longe de ser bem estabelecida teoricamente. No trecho citado ela tem, me parece, a função de atenuar o que o estudo do fetichismo traz de surpreendente: o fato dele recolocar em questão a própria noção de "reconhecimento" da realidade que funda o processo secundário. Pois a atitude ambígua do fetichista face à castração materna é a atitude de todo Édipo. É esta contradição que marca a clivagem do Eu, e deslancha a fuga metonímica do desejo. A recusa é inerente à inscrição desta percepção, ao seu reconhecimento efetivo. Temos uma ilustração disto num pequeno e curioso texto de Freud: "Uma nota sobre o bloco mágico", de 1924.
Freud eleva o bloco mágico à condição de metáfora do aparelho psíquico em sua totalidade. Nele, o papel da percepção como material básico do psiquismo é reiterado, mas a percepção nada mais é do que uma escrita feita de sulcos que atravessam as instâncias psíquicas, gravando-se. As marcas que a percepção inscreve passam pelo para-excitação (folha de plástico), em seguida pelo sistema Percepção-Consciência (folha de papel), até se fixarem definitivamente, como sulcos, na prancha de cera (Inconsciente). O inconsciente tem origem, desta forma, nos traços mnésicos, de acordo com uma elaboração freudiana muito precoce e persistente. Mas esta irrupção perceptiva propriamente traumática, tanto pelo excesso de prazer da primeira satisfação quanto pela irremediável frustração que se segue, é sobretudo um corte, incisão transversal ao aparelho psíquico em toda a sua profundidade.
Graças à sua possibilidade de desinvestir o Percepção-Consciência, o Inconsciente tem o poder de anular o ataque perceptivo. Basta, como no bloco mágico, que um movimento seja efetuado para que a marca sobre o sistema Pc-Cs seja apagada e eis a superfície lisa novamente, pronta para receber novas percepções. Mas que isso não nos engane: o sulco está mesmo assim traçado, indelével, sobre a camada de cera, ainda que ele não seja perceptível numa primeira mirada. Ora, este engodo caracteriza a atividade do aparelho apresentado por Freud como um instrumento de memória, que logo torna-se um aparelho de desconhecimento.
O fetichismo é compromisso, insiste Freud, entre reconhecimento e recusa de re-conhecimento da falta do pênis materno(6). O fetiche parece subverter esta falta, ao se propor como substituto do pênis materno; paradoxalmente, ele é um "monumento" ao próprio horror da castração(7). Já o neurótico parece reconhecer a falta e a ela se curvar. Mas ele está sempre disposto a contestá-la, construindo a partir da negação (Verneinung) toda uma rede de substituições, o que permite ao desejo encontrar seu impulso como busca do objeto perdido. Encontramos este funcionamento na célebre fórmula de Octave Mannoni: "Eu bem sei mas ainda assim", evocada como estrutura desta posição equívoca face à falta do pênis materno. "O neurótico, afirma Mannoni, passa seu tempo a articular [esta frase], mas ele ( ) não pode, sobre a questão da existência do falo, enunciar que as mulheres ainda assim o possuem: ele passa seu tempo a dizê-lo de outra maneira". "De outra maneira": pelo sintoma. Já o fetichista "bem sabe que as mulheres não têm falo, mas ele não pode acrescentar nenhum "ainda assim", porque, para ele, o "ainda assim" é o fetiche"(8).
Em vez de dizer "de outra maneira" o "ainda assim", em uma cadeia de transformações, o fetiche é estanque. Pode-se dizer que ele é a cristalização do "vaivém entre recusa e reconhecimento" em uma posição extrema, e neste sentido ele difere fortemente da solução neurótica. Contudo, esta posição extrema não corresponde a uma anulação radical do reconhecimento. A recusa fetichista não consegue tornar efetivamente não-ocorrida a falta. O fetiche só existe porque a mãe não tem pênis. Poderia-se até supor que o fetiche realiza a síntese inimaginável entre falta e não-falta, se ele não fosse constituído por esta falta, as duas possibilidades em jogo sendo não a falta e a presença, mas a recusa ou o reconhecimento da falta. A Verleugnung nunca é recusa de uma presença (o que levaria ao absurdo de dizer que o fetichista recusa a existência da vagina da mulher), mas sempre recusa da falta.
Trata-se de uma sequência quase cinematográfica, que deve suportar um "congelamento da imagem"(10), uma interrupção da sequência. A cena é de suspense: estamos no momento imediatamente anterior, mas já diante da terrível revelação. O fetiche é prefigurado neste hiato, neste instante de ansiosa expectativa. Esta suspensão é momento de gozo extremo onde parecem de fato se reunir a falta e a não-falta.
Se o processo de construção do fetiche parece ser guiado por um movimento metonímico, o fetiche produzido pode dar mostras de uma determinação aparentemente metafórica. Assim, o pé pode representar o pênis por semelhança, por ser apêndice. Mas o fetiche que toma, para Freud, valor de paradigma, é um certo tapa-sexo, que vela tanto a falta como a suposta não-falta, numa perfeita paralisação da imagem, um segundo antes da revelação. Se este tapa-sexo possui um caráter "metafórico", este apresentaria uma relação privilegiada com a falta do "objeto". Esta falta seria aí de alguma maneira reabsorvida, em um só movimento totalizante da imagem. Estranha metáfora, à qual voltaremos em breve.
Se o fetiche é um objeto construído, a operação que rege esta construção parece atuar em outros palcos além do cenário sexual fetichista. Segundo Guy Rosolato,
. Este caso é exemplar da "posição cindida" que caracteriza o fetichismo, e Freud o qualifica de "sofisticado" e "particularmente sólido". Não é difícil notar aí o mais marcante traço estrutural do fetichismo, que Freud nos faz ver através do olhar da criança: sobrevôo em torno da coisa (de baixo para cima: sapato, tecidos, peças de lingerie), até o momento de congelamento da imagem, súbito foco em primeiro plano do objeto assim tornado fetiche. Exatamente antes mas já diante do "inquietante e traumático"(17)
: a cristalização se produz, em última análise, dentro da fenda, ela é concretização da falta. Esta fórmula é paradoxal de propósito, este é o próprio paradoxo que singulariza a construção do fetiche: de ser a falta presentificada, e assim tornada, segundo a expressão de Freud, sólida.
Já o tapa-sexo envolve a falta, sustentando simultaneamente duas possibilidades: seu mascaramento (já que ele a encobre) e seu desvendamento (posto que a reveste). Seria ele uma metáfora do pênis que falta? Não, pois ele não o substitui, mas o "representa" de maneira imediata, erigindo, por assim dizer, a falta como "objeto". Deste imediatismo vem sua contradição fundamental de remeter ao mesmo tempo à falta e à não-falta. O tapa-sexo, como o brilho do nariz, torna-se um puro olhar envolvendo o pênis que falta.
Se o pênis da mãe pode ser simbolizado por alguma coisa, isto supõe que sua falta foi efetivamente reconhecida, e que o pênis que falta entrou num jogo de substituições metafóricas e metonímicas. Ou seja, um símbolo do pênis da mãe deve percorrer a distância entre o "eu bem sei " e o "mas ainda assim". Esta distância é precisamente o que o fetiche vem preencher. Poderia-se então pensar que ele se fixa fora do domínio de toda e qualquer simbolização. Freud parece considerar tal hipótese, quando ele fala de alucinação do pênis materno mas é justamente, como vimos, para rechaçá-la energicamente. Ele insiste no trabalho de construção do fetiche. Afinal, não estaria aí toda a astúcia do fetichista, em construir um "símbolo" sem passar pela morte da coisa? A questão é saber como isto torna-se possível.
Vamos voltar ao "congelamento" na construção do fetiche: ele circunscreve a falta da coisa, em vez de levá-la em consideração para apresentar um substituto do pênis materno. O fetiche também é substituto (Ersatz); porém, ele substitui não o pênis, mas sua falta. É neste sentido que ele é um "monumento" à castração.
O Fetiche e o Ícone
No entanto, este estranho substituto da falta toma como protótipo, nota Freud, o pênis do homem(19). O fetiche apresenta em regra geral, apesar de tudo, uma certa semelhança ao pênis que falta à mãe. De fato, sua construção pode ser ligada à categoria da metáfora, ou pelo menos a um de seus "momentos". Este momento é apresentado, de forma inovadora, pelo lingüista americano Paul Henle em interessante estudo sobre a metáfora.
O ícone está longe de ser a "imagem mental" de um referente, no sentido de uma certa psicologia. Ele é um signo que, sendo imediato, pois remete diretamente a seu "objeto"(23), ao mesmo tempo apresenta traços análogos a seu "objeto", e mostramais sobre ele do que estes traços. Como diz Peirce: "importante propriedade característica do ícone é a de que, observando-o diretamente, podem ser descobertas outras verdades concernentes a seu objeto, além daquelas que bastam para determinar sua construção. Assim, por meio de duas fotografias pode-se traçar um mapa, etc"(24). Esta propriedade do ícone é extremamente importante: ela aponta para uma espécie de "magia" que não é estranha nem ao fetichismo nem, diga-se de passagem, à arte.
A estrutura do fetiche me parece especialmente próxima do diagrama colocado por Peirce como exemplo de ícone. O diagrama extrai de seu "objeto" apenas alguns traços que não são mais do que puros traços, relações entre suas partes, se preferirem e contudo é capaz de remeter a este objeto em sua "totalidade". Não poderia o fetiche ser concebido como a projeção geométrica dos contornos da falta, mas que no entanto significa o pênis (que falta)? Como se o puro "formato" do pênis se tornasse o "protótipo" para usar o termo de Freud de sua própria falta? Estas fórmulas parecem ecoar uma estranha propriedade do ícone que Peirce tenta, à sua maneira, explicitar no seguinte trecho:
Como vemos, o elemento icônico da metáfora indica uma possibilidade de que esta se situe, ao menos em um de seus "momentos" (como diz Henle), na dimensão peirceana da "primariedade", logicamente anterior ao símbolo que é determinado de maneira triádica. É importante frisar que não se trata de uma característica geral e definitória da metáfora, mas apenas de uma possibilidade indicada por seu modo de funcionamento. Não deixa de ser interessante que Henle tenha ido pinçar esta noção no domínio da poesia. Será que a metáfora poética escreve uma construção análoga à do fetiche?