O pânico e os fins da psicanálise:
a noção de "desamparo" no pensamento de Lacan
Mário Eduardo Costa Pereira
A partir da contribuição de Lacan ao problema do desamparo, pode-se pensar o pânico e o tratamento
psicanalítico como duas possibilidades distintas do sujeito se situar frente à falta de garantias definitivas
imposta pela linguagem.
Mário Eduardo Costa Pereira é doutor em Psicanálise e Psicopatologia Fundamental pela
Universidade Paris VII e professor do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da UNICAMP.
Meus agradecimentos ao Dr. João Baptista Laurito Jr. pela generosa interlocução no período de
preparação deste artigo.
A enorme repercussão da categoria psiquiátrica de transtorno de pânico - que remete a todo um corolário de concepções empíricas e biológicas sobre os estados ansiosos - interpela a psicanálise contemporânea a manifestar-se sobre suas próprias proposições a respeito do fenômeno clínico dos ataques de pânico.
Pânico e Desamparo em Freud
Sabe-se que Freud se interessou pelos acessos de angústia desde o início de sua obra. Em 1895, quando descreveu a "neurose de angústia", Freud já concebia esses acessos como constituindo uma das formas possíveis de apresentação clínica da Angstneurose, a outra sendo os estados crônicos e flutuantes. Sua descrição dos ataques de angústia é praticamente idêntica àquela estabelecida nas modernas classificações psiquiátricas: crises súbitas de ansiedade extrema, aparentemente inexplicáveis, com sensação de morte iminente, medo de ficar louco, de perder o controle de si, acompanhados de sintomas físicos intensos e assustadores tais como taquicardia, falta de ar, sufocação, opressão torácica, tremores, vertigens, etc.
A teoria por ele proposta para explicar essas crises é bastante conhecida: o acesso de angústia é a manifestação clínica de uma invasão de excitação de libido corporal, a qual não encontra representações psíquicas capazes de ligá-la e elaborá-la num plano mental. Esse transbordamento é o mecanismo fundamental de instalação da situação traumática e constitui um estado no qual o aparelho psíquico encontra-se em total desamparo face a um aumento incoercível de excitações.
Uma explicação semelhante mas mais sofisticada é apresentada quando Freud estuda diretamente o fenômeno do pânico em Psicologia das Massas e Análise do Eu, de 1921. Nesse texto, Freud busca demonstrar a natureza libidinal e "hipnótica" da relação de uma massa com seu líder. O pânico é estudado como uma "contra-prova" de sua tese, ou seja, como uma demonstração do caráter libidinal dos vínculos entre os elementos de um grupo que se evidencia justamente quando essas ligações se rompem. Os laços amorosos liberados manifestam-se clinicamente pela instauração do pânico.
A proposta de Freud é a de que uma massa mantém-se unida tanto quanto persistirem as ligações libidinais de cada um de seus elementos com a figura de um líder, colocado na posição de Ideal do grupo. Esse líder pode ser uma pessoa, uma idéia ou um valor. O pânico se instala quando os elementos do grupo descobrem subitamente que o lugar onde esperavam encontrar o líder amado e onipotente encontra-se irremediavelmente vazio. É nesse momento que os exércitos partem em debandada desorganizada e que as crenças religiosas esfacelam-se e desmoronam.
Dessa forma, o pânico aparece novamente correlacionado à constatação insuportável de uma condição de desamparo: verifica-se - a contra-gosto - que não há nenhum ser onisciente e todo-poderoso que vele sobre o grupo de um modo ideal. Desaparecem de uma só vez todas as ilusões de garantias sobre as incertezas. Entrar em pânico é, portanto, confrontar-se com essa realidade de desamparo sem se estar para ela preparado.
O mesmo é válido quando o pânico é considerado como um fenômeno individual (Freud supõe uma equivalência estrutural entre o pânico de um indivíduo e o pânico de uma multidão). O indivíduo entra em pânico quando liberam-se dentro dele os investimentos libidinais até então depositados no amor da figura ideal.
Tal idéia é aprofundada por Ferenczi num artigo de 1922 (1), em que propõe que as diversas partes do Eu mantém-se coesas e integradas a partir de uma relação libidinal privilegiada de cada uma delas com uma instância ideal chamada "núcleo do Eu". Segundo Ferenczi, o sujeito entra em pânico por uma sorte de ruptura das ligações amorosas de suas diversas instâncias psíquicas com o núcleo do Eu. Ou seja, Ferenczi acompanha a teoria freudiana dos Angstanfälle e dos ataques de pânico naquilo que elas remetem a um momento de encontro súbito e inesperado com aquela dimensão fundamental que Freud chamou de "desamparo", a Hilflosigkeit. O pânico apareceria - no indivíduo ou na multidão - quando uma confrontação súbita com a dimensão de falta de garantias ocorresse sem que se estivesse preparado para tão brutal revelação (a idealização do líder da multidão responde justamente à necessidade de ocultar o desamparo).
No presente trabalho, pretendemos apresentar e debater uma contribuição essencial ao estudo do desamparo e que possui profundas repercussões sobre as possibilidades de compreensão psicanalítica dos ataques de pânico: a de Jacques Lacan.
A contribuição de J. Lacan ao tema do desamparo
Jacques Lacanfoi com certeza um dos primeiros psicanalistas a perceber o imenso alcance teórico da noção freudiana de desamparo, tendo realizado um esforço considerável no sentido de demostrar seu interesse metapsicológico. Desde seus primeiros escritos e ao longo de seus seminários, Lacan abordou esse tema em desenvolvimentos bastante sistematizados.
Como em Freud, a abordagem lacaniana do desamparo inicia pelo estudo das possíveis conseqüências do estágio inicial de impotência psicomotora do bebê sobre o desenvolvimento ulterior de sua estrutura subjetiva. Posteriormente, Lacan tratará do desamparo como horizonte insuperável da vida psíquica, enquanto esta é, em grande parte, um fato de linguagem.
Já em suas primeiras elaborações teóricas, Lacan fazia referência a esse «estágio» de insuficiência psicomotora primitiva nos termos de uma «prematuração» do ser humano quando de seu nascimento. No artigo sobre a «família», publicado em 1938 na Encyclopédie Française, Lacan trata explicitamente da prematuração do pequeno humano, considerando-a como uma «deficiência biológica positiva». A condição objetiva de incapacidade do pequeno para sobreviver por seus próprios meios é afirmada como um dado inelutável e que deve ser levado em consideração enquanto tal, como condição fixada desde o início da existência. Essa "deficiência" instituirá um tipo específico de relação da criança com seus pais e com o mundo adulto, na qual ela estará necessariamente colocada em uma posição de dependência absoluta face a estes. Trata-se, portanto, naquele momento do pensamento de Lacan, de situar as condições efetivas nas quais acontece a inscrição do recém-nascido no seio de sua família, em seu processo de humanização (ele não falava ainda de uma "ordem simbólica").
Para Lacan, o fundo essencial da questão não deve ser situado na perspectiva biológica enquanto tal, nem mesmo numa abordagem etológica, mas a partir do fato que esta situação deixa transparecer uma falta fundamental - cujo sentido subjetivo é o de uma perda ou de uma separação - à qual cuidado algum pode suprir. Ele explica seu ponto de vista na seqüência do texto:
Aqui, a importância fundadora do nascimento enquanto «protótipo» não se constitui, como em Freud, a partir da dimensão de uma excitação invasora mas a partir da instituição de uma brecha impossível de ser apagada, a da perda do objeto. Contudo, a natureza exata desta falta ainda carece ser melhor delimitada. Ainda estamos longe da elaboração precisa das categorias da falta, tal como apresentada no seminário sobre A relação de objeto e as estruturas freudianas (1956-1957) mas a orientação geral já é facilmente delineável: a problemática do objeto em psicanálise é, antes de mais nada, a do objeto enquanto perdido.
Isto permite desde já vislumbrar a forma que esta questão tomará nos desenvolvimentos lacanianos ulteriores. Nenhum objeto, nem mesmo o objeto materno, é capaz de suprir uma tal falta, radicalmente inscrita no sujeito e que Lacan passará a teorizar nos termos de uma «falta-a-ser». Essa falta é irremediável e intratável; ela é uma implicação necessária da linguagem uma vez que esta não tem a capacidade de dizer a última palavra sobre a verdade do ser. Segundo Lacan, enquanto efeito de linguagem, é justamente o ser que falta ao sujeito. Ou seja, em psicanálise, uma problematização do ser (être) é inconcebível sem o questionamento correlativo da palavra e da linguagem (implicando assim, o parlêtre, de que fala Lacan).
Correlativamente, qualquer abalo atingindo a garantia do reconhecimento simbólico primordial questiona radicalmente a própria estabilidade da imagem do eu. Aqui intervém um risco terrificante de desabamento.
Em seu seminário sobre A relação de objeto e as estruturas freudianas, acima mencionado, Lacan retoma a questão da dependência da criança em relação ao adulto. Ele faz aí a crítica da idéia sustentada por certos autores psicanalíticos, segundo a qual a pretensa onipotência da criança teria um caráter primordial. Para Lacan, a onipotência da criança deve ser situada antes de mais nada do lado do adulto - a mãe no caso - frente à qual a criança vê-se em relação de total dependência. É à mãe, enquanto suporte do Outro, que pertence tal "poder".
Contudo, esta onipotência do adulto não vai de si, ou pelo menos não se dá como evidência. A questão da dependência para com a mãe inscreve-se numa dialética da dádiva. Enquanto a criança recebe a satisfação desejada onde a espera, a questão do outro nem mesmo se coloca para ela. Nestas condições, a mãe ainda não é vivenciada como distinta do próprio indivíduo. No entanto, tudo se modifica no momento em que a mãe não traz mais a satisfação esperada. Neste exato momento, segundo Lacan, a mãe torna-se «real». Ela pode, a partir de então, não mais se inscrever, ou seja, não aparecer no lugar de satisfação que lhe era atribuído e a criança descobre, para seu desespero, que nada pode fazer.
A partir deste momento crítico, do ponto de vista da criança, as atenções da mãe para com ela vão entrar numa dialética da dádiva, onde a dádiva é, antes de tudo, dádiva de símbolos de amor. Contudo, para Lacan, as satisfações de pedidos de amor são fundamentalmente frustrantes, dado que o símbolo enquanto símbolo de uma ausência sempre deixa uma falta de satisfação em seu lugar: a demanda é sempre demanda de outra coisa.
A idéia segundo a qual a mãe se torna «real» ao falhar em trazer a satisfação esperada já havia sido exposta anteriormente em termos muito semelhantes por D. W. Winnicott em seu artigo sobre os fenômenos transicionais, publicado pela primeira vez em 1953. Winnicott sugere que precisamente essa «realidade» excessivamente brutal da independência da mãe em relação aos desejos de seu filho é o que se torna insuportável para a criança. Os fenômenos transicionais formam-se, então, para possibilitar uma «zona de ilusão» permitindo assimilar este estado de coisas, ou seja, a própria impotência frente à separação do objeto materno.
Para Lacan, os investimentos propriamente orais e anais dos objetos, com a crua intensidade descrita por Melanie Klein, constituem, na verdade, formas de compensação secundária para a insatisfação resultante com os símbolos - sempre insuficientes - de dádiva proporcionada pela mãe; trata-se de uma busca de compensação através do «consumo» do objeto da necessidade. A criança «devora» o objeto da necessidade como indenização da falta que o símbolo introduz.
Neste mesmo seminário, Lacan busca demonstrar como a relação de dependência aparentemente unilateral (sempre do lado da criança) é engajada numa dialética que pode colocar a criança como aquele que determina a satisfação da mãe. Desde o começo «banhada» (o termo é de Lacan) na estrutura de uma ordem simbólica a ela preexistente, a criança acaba por encontrar seu lugar como aquele que pode ou não realizar as expectativas maternas de reconhecimento. É da criança que a mãe espera receber o reconhecimento de seu papel de «mãe».
Deste modo, a criança descobre muito rápido que possui um poder decisivo nas aspirações da mãe e não deixa de lançar mão das prerrogativas de sua posição. Lacan cita o exemplo da anorexia mental em que a recusa em comer corresponde ao negativismo como único modo de opor-se à onipotência de uma mãe invasora.
Nesse mesmo seminário sobre o desejo, Lacan vai ao ponto de atribuir ao desamparo um lugar específico em seu famoso grafo do desejo. Trata-se da terceira etapa deste esquema. O objetivo de Lacan parece ser o de dar uma elaboração formal às conclusões às quais chegara no seu comentário sobre a fobia do Pequeno Hans desenvolvido no seminário sobre a relação de objeto. Segundo Lacan, os objetos fóbicos de Hans foram instalados para cumprir uma função de proteção contra a aproximação de seu próprio desejo, «enquanto está sem armas em relação ao que, no outro, no caso a mãe, se abre para Hans como o signo da sua dependência absoluta». O próprio fato de desejar acarreta o perigo do conflito mortal com o desejo inefável do Outro superpotente.
f Este encontro com o obscuro desejo do Outro - em relação ao qual o sujeito está impotente - é exprimido no seminário sobre a angústia (1962-1963) pela famosa alegoria do indivíduo usando uma máscara cujo contornos ele mesmo desconheceria, um sujeito que não sabe ao certo com que aparência ele se apresenta ao Outro. Este indivíduo encontra-se diante de um louva-a-deus gigante que o olha. Sabendo que a fêmea do louva-a-deus costuma devorar seu parceiro durante os jogos amorosos, a angústia do sujeito é a de não saber quem ele é afinal de contas e que lugar ocupa de fato em relação ao desejo onipotente do louva-a-deus gigante, potencialmente mortal. Este estado de abandono diante do desejo desconhecido do Outro onipotente constitui, para Lacan, o plano de Hilflosigkeità base do afeto de angústia. Esta condição não é contingente, não depende de um acidente qualquer, nem que seja de ordem «traumática». Ela é constituinte da inserção do sujeito na linguagem e na sua relação ao desejo do Outro.
Convém lembrar aqui que justamente a partir de seu seminário sobre a angústia (1962-63), Lacan passa a se interessar de modo privilegiado àquilo que escapa irredutivelmente às possibilidades de uma apreensão simbólica: o Real e a questão do objeto "a". É nesse contexto que a Hilflosigkeit freudiana ganhará para ele uma importância metapsicológica particular.
«Na Hilflosigkeit, o desamparo, o sujeito é pura e simplesmente submergido, ultrapassado por uma situação eruptiva que não consegue de maneira alguma enfrentar. Entre isto e fugir - fuga da qual, por não ser aqui teórica, o próprio Napoleão considerava como a verdadeira solução corajosa ao se tratar do amor, e é para isto que Freud aponta ao enfatizar na angústia seu caráter de Erwartung».
Dessa forma, entende-se um pouco mais claramente o alcance da questão do desamparo em Lacan. O desamparo é uma condição estrutural frente à qual o indivíduo tem a se situar. Daí a necessidade para Lacan de especificar seu lugar em seu «grafo do desejo». Neste grafo, o lugar do desamparo é explicado em função de sua relação com o eu e com a angústia por meio da fórmula: «O homem defende-se com seu eu contra o desamparo». Esta proposição, que não deixa de evocar a máxima freudiana: «o homem defende-se com a angústia [Angst] contra o terror [Schreck]», busca dar conta do papel do eu enquanto sede da angústia, tal como havia sugerido Freud. O eu (moi), enquanto instância imaginária, permite constituir uma referência - que ao mesmo tempo é uma barreira - contra o inefável desejo do Outro, do qual a angústia é o sinal. Pela intervenção da dimensão imaginária da relação do eu ao Outro, esta angústia impensável encontra a possibilidade de ser constituída de forma fantasmática.
É provavelmente neste ponto que a teorização de Lacan sobre o desamparo assume sua dimensão mais radical. Se a cura analítica visa, como afirma Lacan, «atravessar» a dimensão imaginária do eu até provocar a aparição das determinações simbólicas (os S1, significantes-mestres, de que fala Lacan) sobre as quais funda-se o desejo inconsciente, ela desembocará, então, sobre uma confrontação do sujeito com este mais além do eu, que é sua própria Hilflosigkeit. Terminar uma análise significa, portanto, confrontar-se com seu próprio desamparo. Lacan propõe que este face a face com o próprio desamparo, com o qual o sujeito teria de se situar, constitui o ponto mais extremo da cura analítica e também o critério para que uma análise possa formar um analista. Levada a este ponto, a análise faz emergir o desamparo não-acidental mas fundador da condição mais fundamental do sujeito, frente à qual este «não tem a esperar ajuda de ninguém»:
Podemos, portanto, propor que a problemática dizendo respeito a este desamparo fundamental do sujeito, constituído enquanto ser falante, vê-se indissociavelmente ligada à questão essencial que Lacan trata mais ou menos à mesma época, mais exatamente, a de que não há Outro do Outro. Ou seja, o grande Outro interpelado como lugar do código, da linguagem, como fiador final de tudo o que é da ordem da ancoragem simbólica da existência, não está ele próprio de posse de todas as significações que o sujeito poderia considerar, aliviado, como finais e definitivas. Há uma falta essencial do significante no Grande Outro. Dessa forma, toda enunciação não tem, em última instância, outra garantia a não ser a de sua própria enunciação. A organização simbólica do mundo repousa, portanto, sobre uma base de desamparo.
Em várias oportunidades, Lacan indicou que o lugar e a função do grande Outro eram inicialmente sustentados pela palavra da mãe, cuja figura se erigia em guardiã do tesouro dos significantes. Isto aparece muito claramente, como vimos, na formulação sobre o estágio do espelho, no qual os fenômenos da imagem refletida tornam-se decisivos para a constituição narcísica do eu. Lacan assinalava que o instante de validação, de sedimentação subjetiva dessa imagem, dependia da confirmação partindo do adulto vindo significar à criança que trata-se realmente de sua imagem refletida no espelho. O fantasma do corpo despedaçado constitui-se a posteriori, nas situações em que a integração da imagem do corpo-próprio vê-se ameaçada e isto, fundamentalmente, em função das incertezas da palavra fundadora do Outro, no momento em que se tratava de confirmar que a imagem era de fato a da criança.
Nesta perspectiva, o eu, por sua dimensão de completude imaginária, apresenta-se como muralha contra o desamparo. Ele constitui a instância na qual o sujeito pode representar-se numa imagem sintética, contínua, sem falhas, formando um «Todo» harmônico e homogêneo. Toda discordância nessa imagem e, particularmente, as diferenças entre esta imagem e a do ideal, são imediatamente percebidas como perigo e esforços de sintetização são instaurados pelo eu que levam à formação do sintoma. Eu e Sintoma, como mostrou Freud, são fundamentalmente homogêneos em seu funcionamento.
A "situação de desamparo", enquanto momento existencial concreto, está em relação com a desintegração da imagem do corpo-próprio, com a fragmentação terrificante de um corpo reduzido a partes independentes e não-integradas.
Ora, a instauração de crises de pânico clinicamente localizáveis tem uma relação com os momentos em que o «sítio da linguagem» (segundo a expressão de Pierre Fédida)(16),hesita. Este sítio da linguagem torna os lugares psíquicos possíveis. Diferentemente do eu, o sítio da linguagem introduz o resto não-sintetizável que obriga o autoengendramento constante de novas formas e de novas referências. O lugar fundamental onde o eu se constitui em imagem integrada, com o risco de transformar-se pela insistência do resto, vê-se nesse momento ameaçado e incerto. Nessas condições, o desamparo é vivenciado como uma manifestação clínica positiva - sob forma de ataque de pânico - deixando de ser apenas o horizonte de falta de garantias do que releva da linguagem.
Essa falha, esse buraco na ordem simbólica da qual nos fala Lacan, esta falta da significação definitiva, marca a incerteza que funda a um tempo só todo processo psíquico normal e toda criação, bem como o terror «pânico» de que todo o conjunto venha a desabar:
"No recurso que preservamos do sujeito a sujeito, a psicanálise pode acompanhar o paciente até o limite extático do "Tu és isto", onde a ele se revela o número de seu destino mortal, mas não está em nosso simples poder de práticos de levá-lo a este momento em que a verdadeira viagem começa."
Deste modo, pela nossa investigação do alcance do desamparo no pensamento de Lacan, chegamos a um resultado bastante surpreendente, dado que aparentemente paradoxal: existe uma intrigante proximidade entre o pânico e a cura psicanalítica que se articula precisamente em torno do alcance metapsicológico da Hilflosigkeit freudiana.
A partir deste resultado oriundo de nossa análise do problema do desamparo no pensamento de Lacan, sugerimos que o pânico e a cura no sentido psicanalítico estão numa relação íntima; pânico e cura psicanalítica constituem duas possibilidades subjetivas distintas do sujeito colocar-se frente ao desamparo fundamental dos limites do campo simbólico que ameaçam os alicerces de uma imagem de si estável e imutável. O pânico instala-se quando se revela subitamente ao sujeito aquilo que para este é insuportável: a constatação de que o desamparo é o destino último - e o ponto de partida - de tudo o que se sustenta da linguagem. A cura psicanalítica, por sua vez, supõe que o sujeito possa tolerar esse fundo de desamparo e fazer dele não um foco sintomático de desespero mas uma fonte de criatividade e de autoengendramento poético. Nessa perspectiva, a Hilflosigkeit constitui, paradoxalmente, a única garantia do "pouco de liberdade" de que o sujeito dispõe para sustentar o inesgotável de seu desejo.