Figura e fundo:
notas sobre o campo psicanalítico no Brasil


Renato Mezan




Renato Mezan é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e professor titular da PUC–SP, onde coordena o Núcleo de Psicanálise. Publicou vários livros, dos quais os mais recentes são A Sombra de Don Juan e outros ensaios (Brasiliense, 1993), Figuras da Teoria Psicanalítica (Edusp/Escuta, 1995), Escrever a Clínica (Casa do Psicólogo, 1998) e Tempo de Muda (Companhia das Letras, previsto para o segundo semestre de 1998).

O vigésimo aniversário do Instituto Sedes Sapientiae - celebrado com brilho em maio de 1997 - suscitou, para alguns membros do seu Departamento de Psicanálise, o desejo de avaliar o que na nossa disciplina permaneceu e o que se transformou durante este período. Utilizando dados de uma pesquisa atualmente em curso sobre a história das idéias e das práticas psicanalíticas, meu propósito neste artigo é contribuir para este debate. Naturalmente, trata-se de um ponto de vista pessoal, limitado por um lado pela impossibilidade de conhecer e de mencionar tudo o que seria importante, e de outro por minhas preferências teóricas e clínicas, pelas leituras e autores que me são familiares, e pelas hierarquias que sou levado a estabelecer, considerando isto mais relevante do que aquilo ou vice-versa. Assim, serão benvindas críticas e observações, além de informações que possam ajudar a preencher as inevitáveis lacunas e a corrigir opiniões eventualmente mal-fundamentadas.

A configuração institucional

Transportemo-nos por um momento aos anos de 1977 ou 1978: qual o panorama psicanalítico que nos seria dado observar? Wilfred Bion realizava sua terceira e última visita a São Paulo. No Sedes, davam-se os primeiros passos para a consolidação de um curso de formação "alternativa" à oferecida pela instituição oficial: pilotavam-no Regina Schnaiderman e alguns psicanalistas da IPA, que viam nesta iniciativa méritos diversos (contrariamente à direção da Sociedade, que tudo fez para sufocar no nascedouro esta perigosa inovação), e um grupo de analistas argentinos que a barbárie instalada em seu país obrigara a se refugiar no Brasil. Mas estes eventos, por sua vez, eram parte de processos mais complexos, que haviam se iniciado antes e que continuariam a produzir efeitos depois. É preciso, portanto, recuar um pouco o relógio, a fim de os situar e tentar compreender seu sentido.

Recuar até quando? O fantasma da regressão ao infinito, ou pelo menos até o casamento dos pais de Freud, nos faz definir uma fronteira a quo: pelos motivos que exporei, parece justo fixá-la em torno de 1968-1970. É neste período que se lançam as sementes da "nossa época" em Psicanálise, tanto no que se diz respeito à configuração institucional quanto do ponto de vista do conteúdo mesmo da disciplina.

Primeiramente, uma palavra sobre as instituições. A Psicanálise se apresenta, em 1968, estruturada em dois blocos de dimensões bastante desiguais: a IPA, em escala mundial, e o movimento lacaniano, neste momento ainda restrito à França. No Brasil, fazem parte da IPA a Sociedade de São Paulo, as duas do Rio e a de Porto Alegre; há Study Groups em outros lugares, porém ainda incipientes. Na França, pertencem à IPA a Sociedade de Paris e a APF, a qual congrega os discípulos de Lacan que escolheram retornar à associação internacional. Entre os lacanianos, agrupados na Escola Freudiana de Paris e firmemente controlados por um mestre ainda em plena atividade política e intelectual, o tema em discussão é o "passe".

Os acontecimentos do maio parisiense produziram efeitos também entre os analistas: criam-se as primeiras cadeiras universitárias de Psicanálise, a de Laplanche e Fédida em Paris VII, a dos lacanianos em Paris VIII (Vincennes). No congresso de Roma (1969), um grupo de analistas "latinos" - franceses, italianos, argentinos - questiona vivamente a estrutura de poder e o tipo de formação vigentes na IPA: denominam-se "Plataforma Internacional", e sua ala argentina estará na origem direta de importantes transformações na Psicanálise latino-americana. Já os brasileiros passam incólumes pela agitação política: filiados há poucos anos à Associação internacional e muitos ligados a Londres, não participam das tempestuosas discussões de Roma, e de modo geral se oporão às reivindicações democratizantes de "Plataforma".

O grupo de Buenos Aires - Armando Bauleo, Hernán Kesselman, Marie Langer, Emílio Rodrigué e Eduardo Pavlovsky - mobiliza politicamente a Associação Psicanalítica Argentina e se une a outro grupo, "Documento"; após diversas crises, retira-se da APA no ano de 1971. O clima político do país se radicaliza antes mesmo do golpe militar - estamos falando do início dos anos setenta, com a volta de Perón e tudo o que a precedeu e a sucedeu. O grupo dissidente forma então a Coordinadora de Trabajadores de la Salud Mental (1972), cujo Centro de Docencia y Investigación oferece cursos e conferências para centenas de estudantes.

Apressemos nosso passo: com o golpe de fevereiro de 1976, inúmeros participantes destes movimentos se vêem obrigados a deixar a Argentina e a exilar-se em diversos países, entre os quais o Brasil (cuja ditadura, embora também feroz, não perseguia psicanalistas, até porque estes eram em sua maioria politicamente conservadores) . Levavam consigo um alto nível teórico e clínico, fruto dos trinta e poucos anos de existência da Psicanálise à beira do Prata(1); levavam também as inquietações políticas do momento e o desejo de utilizar a Psicanálise como instrumento de mudança social, através da divulgação dos conhecimentos analíticos e da inserção em instituições educativas, sindicais, hospitalares, etc. Estes analistas irão fertilizar solos que, por outras razões e outros motivos, encontravam-se preparados para os receber; no que se refere ao Brasil, vários deles já vinham tendo contatos aqui, através de grupos de estudos dirigidos primariamente a psicólogos, então excluídos da formação analítica em todas as sociedades (com exceção da de São Paulo).

A "oferta" de tratamento e de formação encontrou assim uma "demanda" tanto de clientes quanto de alunos, demanda que Sérvulo Figueira relaciona à acelerada modernização das camadas urbanas a partir dos anos cinqüenta; estas transformações produziram conflitos de identidade e de valores na classe média emergente, para os quais os discurso psicanalítico fornecia um "mapa de orientação". Diz ele: "os modelos e idéias mais recentemente adotados e mais visivelmente presentes coexistem com aqueles que aparentemente foram abandonados, mas que continuam ativos e poderosos num plano mais inconsciente, ao qual os sujeitos não têm em geral acesso. O resultado desta coexistência contraditória ( ...) é que houve, principalmente a partir da década de 70, um boom da demanda terapêutica como "solução" para a desorientação e o mal-estar decorrentes, em última instância, do rápido processo de modernização cultural do país. Foi assim que a "cultura psicanalítica brasileira" foi se organizando em torno do alto consumo de terapia, apoiada numa psicanálise difundida que opera de modo múltiplo, flexível e sutil como " mapa" para orientação neste mar de incertezas." (2)

Este fenômeno se verifica especialmente nas grandes cidades, como Rio, São Paulo, Belo Horizonte; ali ele se cruza com um outro, a saber a instituição oficial dos cursos de psicologia a partir dos anos sessenta. A Psicanálise era apresentada a estes estudantes como o "biscoito fino" de Oswald de Andrade, mas, exceto em São Paulo, eles não tinham acesso à formação como analistas. Muitos - iniciando suas análises e desejosos de aprofundar os conhecimentos adquiridos na Universidade - passarão a freqüentar grupos de estudos informais; os professores destes grupos são ora argentinos que fazem a "ponte aérea", ora analistas brasileiros que aí vêem uma oportunidade de divulgar a disciplina e de aumentar sua clientela. O resultado da multiplicação do processo descrito por Sérvulo Figueira por este outro é o boom das terapias nos anos setenta, que beneficia também - mas não só - a Psicanálise. Aliás, entre as terapias de grupo, o psicodrama, a reichiana, e outras, a velha e tradicional Psicanálise é na época francamente minoritária. Esta é uma das transformações que ocorreram nestes vinte anos: o declínio do que era então "moderno" e a difusão exponencial da Psicanálise "careta".

É nesse contexto que se funda o Sedes e se inicia o curso dirigido por Regina Schnaiderman e por Roberto Azevedo (ele da IPA, ela não)(3). Ele vem se mantendo ao longo diversas mudanças de currículo(4), de cisões e de modificações no seu sistema de direção; originará em 1985 o Departamento de Psicanálise e, em 1988, a revista Percurso. Mas não nos apressemos: é preciso introduzir ainda um outro personagem em nossa história, a implantação do movimento lacaniano.

Esta vem de duas direções, que se cruzam ao final da década de setenta. Em 1974, Oscar Masotta havia fundado a Escola Freudiana de Buenos Aires, a qual influenciou muitos dos analistas que aqui vieram aportar. Nesta época, Lacan era visto como o contestador que ousava enfrentar a IPA e promover um retorno a Freud, liberando a psicanálise do entulho americano (psicologia do ego) e de quebra dos desvios kleinianos (tendência então predominante nas Sociedades latino-americanas). Althusser havia escrito seu artigo "Freud e Lacan", sacramentando o caráter revolucionário e politicamente progressista (a seu ver) do pensamento lacaniano. Assim, os ventos do simbólico enfunaram as velas dos contestadores argentinos dos quais falei atrás; embora nem todos fossem filiados à escola, a leitura dos Escritos (então recém-publicados, 1966) e a referência a Lacan tornaram-se indispensáveis na formação de todo analista aggiornato. Por outro lado, a partir de 1975 organizam-se no Brasil os primeiros círculos lacanianos propriamente ditos (os Centros de Estudos Freudianos em São Paulo, Rio de Janeiro e Recife), pilotados por brasileiros que haviam estudado na França e em Louvain, na Bélgica, então um importante centro de irradiação da nova doutrina (Anika Lemaire escreveu ali sua tese, Lacan).

A princípio discretos, os lacanianos rapidamente alcançaram um vasto público, atraído pela combinação de rigor intelectual, de contestação contra a IPA e de uma interpretação generosa do slogan "o analista se autoriza por si mesmo". Em 1980, Lacan dissolve a sua Escola (por motivos que não cabem neste estudo) e vem a falecer no ano seguinte. As disputas internas e a oposição a seu príncipe herdeiro, o genro Jacques-Alain Miller, fragmentam o campo lacaniano em inúmeras organizações (em 1989, Elizabeth Roudinesco conta dezessete somente na França), o que se reflete também no Brasil. Em todo caso, o fervor missionário dos lacanianos e sua aceitação de praticamente qualquer pessoa como estudante - e logo mais "psicanalista" - conduziu à proliferação de associações e de cursos pelo país afora, o que resultou no fato de que atualmente, em muitas cidades, seja esta a tendência predominante. Por outro lado, é certo que no pensamento de Lacan e na prática que ele inspira se encontram fortes elementos de "orientação" no sentido de Sérvulo Figueira - em especial o aspecto dogmático de que tão facilmente se revestem - o que também contribuiu para o seu sucesso entre nós.

Por fim, para completar estas rápidas pinceladas, é preciso lembrar dois outros fenômenos: o surgimento do IBRAPSI, em 1978, e as transformações nas associações pertencentes à IPA. Dirigido por Gregorio Baremblitt e por Chaim Samuel Katz, o IBRAPSI – Instituto Brasileiro de Psicanálise, Grupos e Instituições - desejava reproduzir no Brasil a proposta de formar "trabalhadores em saúde mental", com forte ênfase no aspecto político e segundo princípios marxistas. Numa perspectiva um pouco diferente, este era também um dos objetivos do curso do Sedes, embora aqui o propósito fosse envolver os próprios analistas com o "campo da saúde mental". A difícil conciliação do "rigor psicanalítico" com um compromisso mais claro com a esquerda política e com os movimentos emancipatórios que então se esboçavam na sociedade civil orientava assim a "formação alternativa". O Sedes investiu bastante nesta direção, por exemplo firmando convênios com o Estado e com a Prefeitura de São Paulo para aprimorar a formação dos agentes de saúde mental, ao mesmo tempo em que estimulava a inserção dos seus alunos e professores em instituições, fossem elas públicas ou privadas, nas quais poderiam desenvolver trabalhos de índole psicanalítica.

Por outro lado, a partir de 1981, com a abertura política do país, as Sociedades filiadas à IPA também passam por profundas transformações. As revelações do caso Amílcar Lobo produzem um terremoto no Rio: é a época do "Fórum" animado por Hélio Pellegrino e Eduardo Mascarenhas(5). Na Sociedade paulista, uma nova diretoria propõe um programa de modernização intelectual e de democratização política, que encontra forte oposição da ala conservadora; aos poucos, porém, ele vai sendo implementado e começa a produzir ecos em outras Sociedades. De modo geral, ao fim dos anos oitenta a própria IPA introduz mudanças em seus estatutos e se torna menos xenófoba em relação aos non-English speakers; em 1991, realiza-se em Buenos Aires um congresso em que pela primeira vez um latino-americano é eleito como presidente mundial (Horacio Etchegoyen).

Desta forma, podemos verificar que o panorama institucional da Psicanálise sofreu alterações radicais desde meados dos anos setenta, tanto no plano escala mundial, quanto mais especificamente no Brasil. No plano global, a IPA permanece a principal organização, com cerca de oito mil membros reunidos em vinte e poucas associações em outros tantos países. Ainda rígida no que se refere às normas da formação, passou no entanto a admitir e a respeitar variações regionais, em especial na América Latina e na França, até porque nos países de língua inglesa a Psicanálise vem perdendo espaço para a psiquiatria e para as terapias light. O lacanismo produziu sua própria versão da IPA - a Associação Mundial de Psicanálise estabelecida em 1992 por Jacques-Alain Miller - mas subsistem inúmeras "ilhas" autônomas, formando um arquipélago com diversas subtendências. Existe ainda a Federação Internacional de Associações Psicanalíticas, que no Brasil tinha como representantes, desde os anos sessenta, os Círculos Psicanalíticos de Belo Horizonte, Rio e Recife, além da SPID do Rio.

No plano nacional, esta mesma estrutura se repete: há os grupos filiados à IPA, que vêm se expandindo nas cidades médias do interior (Ribeirão Preto, Pelotas, etc.); há a galáxia lacaniana; e há o Departamento de Psicanálise do Sedes, não filiado a qualquer organização superior, com influência em São Paulo e em cidades próximas, como São José dos Campos. Instituições surgiram e desapareceram, enquanto outras - conservando o nome tradicional - mudaram de orientação, em guinadas às vezes de cento e oitenta graus. Seja como for, o monopólio da IPA foi quebrado, e nada indica que será reconstituído: para o bem ou para o mal, em função dos processos que tentei esboçar, a formação psicanalítica tornou-se acessível em diferentes versões e vem produzindo um constante aumento do número de profissionais, que se encontram hoje distribuídos de Manaus ao Rio Grande do Sul e agrupados em inúmeras instituições dos mais variados matizes.

Novas correntes, novas idéias

Se agora nos voltamos para a evolução das idéias psicanalíticas, observaremos um processo análogo que se verificou no plano institucional: multiplicaram-se os focos de produção, escreveram-se muitos livros de importância fundamental, e ambos os fatos tiveram repercussões no Brasil. Como aqui a massa de dados é muito grande, procurarei discernir as grandes linhas que reorganizaram o campo internacional desde o final dos anos sessenta e que se refletiram na produção brasileira, a qual começa a ganhar impulso na década de oitenta.

Após a morte de Freud e o fim da psicanálise na Europa Central, organizam-se a partir dos anos quarenta quatro grandes "escolas": a psicologia do ego, o kleinismo, a escola das relações de objeto e o movimento lacaniano. Estas tendências seguem cada qual seu rumo - de maneira mais ou menos independente - até o início do período que nos ocupa, digamos 1970. A partir desta época, surgem três fatos novos de grande importância: nos Estados Unidos, a psicologia do self, de Kohut (The Analysis of the Self, 1971; The Restoration of the Self, 1977); na Inglaterra, a publicação dos últimos trabalhos de Bion (Attention and Interpretation, 1970; Brazilian Lectures, 1973 e 1974; A Memory of the Future, 1975, 1977, 1979) e de Winnicott (Playing and Reality, 1971). Na França, vêm à luz os primeiros trabalhos da geração formada em contato com Lacan: Laplanche e Pontalis, Vocabulaire de la psychanalyse, 1967; Serge Leclaire, Psychanalyser, 1968; Jean Laplanche, Vie et mort en Psychanalyse, 1970; Serge Viderman, La construction de l'espace analytique, 1970; Conrad Stein, L'enfant imaginaire, 1971; André Green, Le discours vivant, 1973; Piera Aulagnier, La violence de l'interprétation, 1975.

Cada um destes livros mereceria uma análise detalhada; como isto não é possível aqui, fique ao menos registrada a idéia de que - em cada um dos três países centrais - a psicanálise "oficial" se vê questionada por dentro, e com grande vigor. O classicismo freudiano que informa a psicologia do ego - por exemplo no manual de Ralph Greenson, Technique and Practice of Psychoanalysis, 1967, para citar só um exemplo entre muitos outros - é fortemente criticado por Kohut, e, numa direção um pouco diferente, por Roy Schafer (A New Language for Psychoanalysis, 1976). Mas, embora represente de pleno direito um dos vértices mais importantes da disciplina no plano mundial, com dezenas de obras importantes e um vivo debate que nada fica dever aos que se travam na França e na Inglaterra, a Psicanálise americana nunca exerceu grande influência sobre o que se passa no Brasil; por este motivo, deixaremos aqui de lado o seu estudo.

a Inglaterra, e em especial o meio kleiniano, foi nos anos cinqüenta a matriz tanto da Psicanálise argentina quanto da brasileira. No livro Álbum de Família, Roberto Yutaka Sagawa (6) narra - mais brevemente do que seria desejável - alguns aspectos deste processo, que retomarei mais adiante. De momento, interessa ressaltar que Bion reorienta a corrente kleiniana para o estudo dos transtornos do pensamento, e introduz importantes alterações no modo de pensar a Psicanálise próprio desta corrente, as quais são percebidas como notáveis avanços pelos próprios kleinianos(7). Uma certa concretude dos objetos parciais, característica das interpretações pré-Bion, é assim abandonada em favor de uma leitura mais matizada e mais metafórica do discurso do paciente e da dinâmica da sessão. Esta evolução vai ao encontro dos últimos escritos de Winnicott (o livro sobre o brincar), que se vêem reforçados pela publicação póstuma da coletânea Da Pediatria à Psicanálise (1975). Também é importante mencionar o chileno-americano Kernberg, que publica no mesmo ano Borderline Conditions and Pathological Narcissism, e o discípulo de Winnicott Massud Khan, de quem sai em 1976 The Privacy of the Self. De forma muito sumária, todos estes desenvolvimentos vão na mesma direção clínica, embora com diferentes instrumentos teóricos: aprofundar a compreensão e o tratamento dos pacientes não-neuróticos, bem como dos episódios e aspectos não-neuróticos dos pacientes "comuns", e com isto ampliar o alcance da Psicanálise "herdada", como diz Castoriadis. Não é uma ambição nova - Abraham, Ferenczi e Melanie Klein já haviam aberto o caminho nos anos vinte e trinta, e Bálint, Rosenfeld, Searles e outros o haviam trilhado depois.

Talvez se possa dizer que as direções exploradas na Inglaterra são ampliações do que a tradição local já oferecia; mas certamente este não é o caso na França. A geração que começa a publicar em Paris por volta de 1968-1970 é a mais brilhante a surgir na disciplina freudiana em qualquer época e lugar, e suas contribuições irão marcar de modo decisivo a evolução da Psicanálise brasileira. O que caracteriza este grupo de analistas é que, tendo se persuadido da necessidade de um "retorno a Freud", não se satisfizeram com a forma que este retorno tomou em Lacan - isto é, com a promoção das categorias lacanianas como se fossem freudianas - e, cada qual a seu modo, intentam um diálogo com Freud e uma refundação do campo psicanalítico na e pela interlocução com o próprio fundador. Em outras palavras, estes psicanalistas endossam a proposta de Lacan, mas querem realizá-la de modo mais radical ou mais consistente do que o autor da idéia. (8)

Este projeto, cultivado individualmente por Stein, Laplanche, Aulagnier, Viderman, Le Guen e outros, resulta em obras de grande envergadura, publicadas entre 1970 e a atualidade, ou seja, exatamente dentro do que chamo a "nossa época" na história da Psicanálise. A estes autores devemos acrescentar os que, sem querer refazer sistematicamente todo o caminho de Freud, ofereceram contribuições de grande valor na esfera clínica ou no plano teórico - André Green, Pierre Fédida, Joyce McDougall - e também os lacanianos mais originais, como Serge Leclaire e François Perrier. Toda esta geração, que hoje chega ao seu ocaso, fez da França o lugar por excelência da invenção psicanalítica nas décadas de setenta e oitenta, o que é comprovado pelo impressionante número de trinta e seis revistas psicanalíticas elencadas, em 1991, por Elizabeth Roudinesco.(9)

Este constante diálogo com Freud foi fortemente incentivado pela publicação, nos últimos trinta anos, de uma vasta quantidade de informações sobre ele e sua época. Primeiro editou-se uma seleção de cartas pessoais (1960); depois começaram a vir à luz as correspondências com os discípulos Pfister (1963), Abraham (1965), Lou Andréas-Salomé (1966), Jung (1974), Ferenczi (iniciada em 1991), e Jones (1993), culminando com a versão completa do carteio com Fliess (1985). Também vieram à luz muitos fatos - especialmente sobre os anos noventa e a relação com Fliess - quando Max Schur publicou sua biografia Freud Living and Dying (1972). Este caudal de dados se amplia consideravelmente com depoimentos e biografias que tomam como objeto os analistas mais importantes, além de volumes que buscam contar de modo sistemático a história da psicanálise em diversos países.

Entre as várias dezenas de obras deste gênero, podemos destacar duas ou três sobre Freud (Marthe Robert, D'Oedipe à Moïse, 1974; Paul Roazen, Freud and his Followers, 1971; Frank Sulloway, Freud, Biologist of the Mind, 1979; Peter Gay, Freud, a Life for our Times, 1985); a História da Psicanálise de Reuben Fine (EUA, 1979); os dois volumes da História da Psicanálise na França de Elizabeth Roudinesco (1982 e 1986); o livro de Nathan Hale The Rise and Crisis of Psychoanalysis in the USA (1985); o de Judith Hughes sobre a psicanálise britânica (Reshaping the Psychoanalytic Domain, 1988), etc. Também estão disponíveis boas biografias de Ferenczi, Jones, Tausk, Melanie Klein, Anna Freud, Reich, Lacan, Helen Deutsch, Karen Horney, e diversos outros protagonistas da epopéia psicanalítica. Toda esta massa de documentos iluminou de forma nova não só o passado factual do movimento analítico, mas ainda a natureza das discussões teóricas e as transformações da prática clínica, que podem hoje ser comparadas à de Freud (através dos diversos textos pertencentes ao subgênero "minha análise com Freud"), à de Lacan (idem) ou à de outros grandes analistas, como Winnicott e Melanie Klein. Existem mesmo duas associações internacionais de história da psicanálise, que publicam documentos e revistas, e organizam encontros periódicos.

Os temas

Se para falar das obras já é difícil discernir, em meio a tantas árvores, algum desenho de conjunto na floresta, ao tentarmos abordar os temas tratados nestas últimas décadas qualquer ilusão de exaustividade seria simplesmente ridícula. A espantosa fecundidade da disciplina freudiana manifesta-se aqui com todo o seu vigor: não há uma única área da vida humana, individual ou coletiva, do passado ou do presente, da doença ou da saúde, que não tenha sido ou não possa vir a ser focalizada com os instrumentos conceituais da psicanálise. Nem sempre eles se revelarão eficazes, por limitações internas ou por serem manejados sem perícia; mas se existe algum campo do conhecimento a que se pode aplicar o dito do poeta romano Marcial - "sou homem, e nada do que é humano me é estranho" - este campo certamente é a Psicanálise.

Diante disso, o que se segue é apenas um conjunto de impressões, que visam sobretudo a fazer sentir certas tendências e a ressaltar o relevo de algumas questões. Comecemos pela metapsicologia: parece ter diminuído bastante o interesse pela agressividade, que na bibliografia do livro de Fine (1979) ocupa uma posição nada desprezível. Este é um tema caro à psicologia do ego, que se preocupou com os mecanismos de "neutralização" da agressividade (Hartmann), e possivelmente o menor número de referências ao assunto se deva ao refluxo que esta corrente experimentou nos últimos anos: com efeito, após os últimos trabalhos de Arlow e Brenner, que datam de 1976 (Psychoanalytic Technique and Psychic Conflict), nos Estados Unidos a psicologia do ego vem cedendo terreno para as tendências mais fenomenológicas, em especial a self psychology de Kohut.

Do outro lado do Atlântico, a pulsão de morte também vem perdendo adeptos: desde que em L'enfant de ça (1973) André Green e Jean Luc Donnet a conceitualizaram como função desobjetalizante e acentuaram seu aspecto de desinvestimento, deixando mais de lado a dimensão destrutivo-agressiva, este conceito tem passado por vários "dissabores". Na Inglaterra, Herbert Rosenfeld tentou articulá-lo ao de narcisismo destrutivo, mas ao que parece este esforço não teve continuidade. Um colóquio realizado em 1985 e editado no Brasil pela Escuta (A Pulsão de Morte) revela amplas divergências, e até mesmo dúvidas sobre a existência desta pulsão. Tentativas de a aggiornar - como a de Laplanche falando em "pulsão sexual de morte" - não têm obtido muito sucesso, ao menos em escala internacional. Por outro lado, especialmente no Rio de Janeiro, alguns teóricos têm procurado resgatar este aspecto da teoria psicanalítica, talvez como orma de reagir contra os excessos do lacanismo centrado na "castração simbólica" e no trabalho exclusivo com o significante: é o caso, entre outros, de Garcia-Roza, Chaim Samuel Katz e Joel Birman.

Apesar destes esforços, e sem entrar no mérito da questão, de modo geral a teoria das pulsões vem sendo pouco cultivada; o oponente de Thânatos, a saber Eros, também não vai lá muito bem das pernas, a crer no que lemos num texto polêmico intitulado "Has sexuality anything to do with psychoanalysis?", de André Green. Diz ele: "a leitura de revistas psicanalíticas durante os últimos dez anos mostra uma falta de interesse na sexualidade (...). Ela tem deixado de ser um conceito importante, uma função teórica heuristicamente valiosa. Não é mais considerada como fator essencial no desenvolvimento infantil, nem como determinante etiológico para a compreensão da psicopatologia clínica. É como se a sexualidade fosse considerada agora como um tópico de significação restrita, numa área limitada - e entre outras - do mundo interno." (10)

O que se pôs então no lugar das pulsões (este se não indicando qualquer aprovação minha a este fato, mas somente uma constatação empírica)? A resposta encontra-se no próprio texto de Green: "as relações de objeto, as fixações pré-genitais, a patologia borderline e teorias e técnicas derivadas da observação de crianças".

De modo geral, o avanço do conhecimento em Psicanálise tem-se dado - e isto desde os tempos de Freud - na direção do arcaico, do "profundo", do menos estruturado em termos psíquicos. Digamos que esta é a fronteira "interna" da Psicanálise: ela tem recuado continuamente ao longo dos últimos trinta anos. O interesse voltou-se para o "aquém da representação", para as patologias psicossomáticas, para as estruturas que manifestam menos consistência subjetiva (borderlines, certamente, mas também personalidades adesivas, autistas, etc.). Esta tendência não é nova na Psicanálise: o que talvez o seja é o instrumental teórico e clínico desenvolvido para investigar e eventualmente tratar estas condições.

Paralelamente, buscou-se em autores do passado inspiração para enfrentar os desafios do presente: assim, voltou à cena o simpático Ferenczi, cujo extraordinário Diário Clínico (de 1932) finalmente foi publicado (em 1985), e cuja correspondência com Freud - talvez o documento mais importante da história da psicanálise a tornar-se disponível desde a edição parcial das cartas a Fliess, em 1950 - também está sendo traduzida e publicada. Da mesma forma, valorizou-se a obra de Winnicott, tanto na França quanto no Brasil: se alguns chegam ao exagero de ver nela a redenção da Psicanálise, por outro lado é certo que este autor tem muito a nos dizer, especialmente porque foi bastante longe no estudo e no manejo da regressão; nisto, aliás, continuava o trajeto de Bálint e em última análise do padrinho da object relations school, que é precisamente Ferenczi.

Do lado de Lacan, penso que a mesma tendência se expressa no que se convencionou chamar "a clínica do real". A partir de 1970 ou 1972, o simbólico deixa de ocupar o centro das atenções de Lacan: simbólico que implica a linguagem, mas também o Édipo e a castração. Entram em cena o real e a tentativa de o capturar através da topologia e dos nós borromeanos, o que a meu ver tenta dar conta de problemas muito semelhantes aos que, em outras paragens, são formulados com conceitos diferentes: o que se rebela contra a "metabolização psíquica", para usar um termo de Piera Aulagnier.

De forma geral, a idéia de que o psiquismo humano se constitui no e pelo contato com o outro, mais do que por emanação a partir de estímulos pulsionais endógenos (como é o caso em certos textos de Freud, embora não em outros), parece ter-se difundido a ponto de se tornar predominante. Laplanche e a sedução generalizada, Bion e a rêverie, Winnicott e a preocupação materna primária, Piera Aulagnier e sombra falada, são exemplos desta tendência, que dera origem também aos importantes trabalhos de John Bowlby (Attachment and Loss, 1969 e 1973). Conseqüentemente, passaram a ter maior interesse as aplicações terapêuticas da psicanálise a situações não-individuais, como as que envolvem casais, grupos e famílias. Estas modalidades de trabalho, assim como o psicodrama psicanalítico para tratamento de psicóticos, já existiam anteriormente, fundadas em geral sobre princípios kleinianos; agora se verifica uma maior focalização no que, na Argentina e no Uruguai, denomina-se com o termo de "configurações vinculares".

Falei há pouco da fronteira interna da Psicanálise, aquela em que a disciplina se depara com os limites do seu próprio objeto, o inconsciente humano. A mesma metáfora poderia servir para designar as zonas de contato com as disciplinas vizinhas (Psiquiatria, Psicologia, Filosofia), nas quais certamente a turbulência aumentou bastante nestas últimas décadas. A Psicanálise viu-se sob ataques cerrados quanto à sua eficácia terapêutica e quanto à sua consistência epistemológica, o que também não é novidade alguma, como sabem os leitores das cartas trocadas entre Freud e seus discípulos. Contudo, dois aspectos parecem mais graves do que os seus equivalentes nos períodos anteriores: quanto à eficácia terapêutica, o golpe não veio de terapias concorrentes e mais ou menos derivadas da análise clássica, porém de novos e poderosos medicamentos (emblema: o Prozac); no plano da validação teórica, às velhas críticas de que a psicanálise não é suficientemente "científica" (anglo-saxões) ou "dialética" (franceses e alemães), vieram se acrescentar a calúnia e o denegrimento moral da pessoa de Freud (o que se chamou nos Estados Unidos de Freud-bashing). Examinemos rapidamente estes dois fenômenos, cujo efeito combinado foi retirar a psicanálise da posição privilegiada que até então ocupava tanto no imaginário americano quanto nas suas instituições de saúde mental.

A descoberta dos neurotransmissores e a produção em escala comercial de neurolépticos, ansiolíticos e anti-depressivos foi saudada como o dobre de finados das terapias dinâmico-verbais, que estariam tentando corrigir distúrbios bioquímicos com conversa fiada. De modo paralelo, a psicologia cognitiva – novas roupagens para o velho behaviorismo – propõe-se a curar uma fobia ou uma enurese em poucas semanas, dispensando o laborioso percurso da análise. Não é possível aqui discutir adequadamente estes problemas, que são bastante complexos. Fiquemos com as sábias declarações de Hanna Segal à revista Veja: "Não sou totalmente contra a utilização das drogas para casos de psicose prolongada. O que me parece perigoso é seu uso quando você tem motivos perfeitamente normais e concretos para estar deprimido (...). Drogas podem suprimir temporariamente os sintomas, mas perpetuam o processo que está nas suas origens." (11) Não há por que temer os medicamentos; o que deve ser temido e combatido é a presunção com que certos psiquiatras se arvoram em árbitros de problemas que desconhecem e para cuja compreensão se encontram despreparados. Da mesma forma, é preciso combater a ignorância de certos analistas que, encastelados no santuário de seus consultórios, renunciaram à curiosidade e ao desejo de aprender algo novo sobre questões tão próximas de sua s eara, com isso se condenando à repetição do já sabido e ao estiolamento da sua prática.

Quanto ao Freud-bashing, surgiu a partir das informações novas sobre a vida e a época do grande homem mencionadas há pouco. Um dos expoentes desta tendência é Jeffrey Masson, o editor da correspondência completa com Fliess, cujo livro Atentado à Verdade é um dos mais tolos que já tive oportunidade de ler; tolo, porém maléfico, porque aparentemente bem documentado. Outro autor que se destaca nesta área é Peter Swales, duramente criticado (com razão) por Peter Gay no "Ensaio Bibliográfico" que conclui sua biografia de Freud. O que importa assinalar é que Freud certamente teve seus defeitos como pessoa e seus momentos de mesquinhez, teimosia ou intolerância; isso em nada diminui sua estatura intelectual, antes lhe acrescenta um toque de humanidade que o torna mais próximo de cada um de nós. O Freud-bashing diz mais a respeito dos bashers do que do seu alvo: as bolas de lama atiradas contra Freud visam na verdade a estátua em que se havia convertido nos Estados Unidos, em virtude de uma idealização tão intensa e descabida quanto o seu reverso contemporâneo.

Por fim, uma observação sobre as traduções, isto é, sobre a transmissão da palavra do próprio fundador. Talvez o leitor se surpreenda ao ser lembrado de que a Standard Edition só foi concluída em 1974, pouco antes da fundação do Sedes. Já em 1983, Bruno Bettelheim, David Ornston e outros criticaram certas opções de Strachey, consideradas demasiado pedantes e pouco afinadas com a maciez (Geschmeidigkeit) vienense do estilo de Freud. Esta crítica é diferente da que se pode fazer ao massacre brasileiro da tradução inglesa – monumento à irresponsabilidade e ao mau gosto sem paralelo no universo psicanalítico – mas a meu ver é infundada. As traduções também envelhecem, porque representam o estado da arte e da língua de chegada – aquela para a qual se traduz – num determinado momento. Imaginemos que a versão brasileira de Freud tivesse sido realizada por Graça Aranha (contemporâneo de Ballesteros, o tradutor espanhol): seria talvez necessário atualizar certos termos ou certas construções, mas isto não lhe tiraria o valor. O mesmo se pode dizer da versão de Strachey, ainda hoje perfeitamente legível, e utilíssima pelas notas e introduções. Nos anos setenta, Jorge Etcheverría produziu a tradução Amorrortu, excelente, e que testemunha o alto nível atingido pelos estudos freudianos na Argentina. Mais recentemente, a tradução francesa coordenada por Laplanche vem dando o que falar, mas este é outro assunto que não cabe nestas notas.

Ao sul do Equador

E o Brasil? Enquanto nos países centrais se constituíam as novas correntes e se debatiam estas questões, na nossa província tropical a Psicanálise ia fincando raízes através dos processos a que me referi no início deste artigo. Embora próspera do ponto de vista material, a comunidade psicanalítica brasileira não produziu nada de especial interesse até bem avançados os anos setenta, e certamente nada que sugerisse a existência de um pensamento original, em contraste com o que ocorreu na Argentina até a brutal interrupção imposta pelo golpe de 1976. Os motivos para esta estagnação intelectual devem ser pesquisados com calma em outra oportunidade; eles são de diversas ordens, em parte compartilhados por toda a cultura brasileira, em parte específicos do grupo psicanalítico.

Não devemos ser injustos, porém: os analistas de 1950 e 1960 eram ainda relativamente jovens, muito ligados à linha inglesa, e provavelmente – com uma ou outra exceção, como Isaías Melsohn em São Paulo – com pouca vocação para a reflexão teórica, freqüentemente confundida com a intelectualização defensiva. Não que fossem incultos, longe disso: quer pela origem imigrante (principalmente judaica e italiana), quer porque pertenciam a famílias tradicionais nas respectivas cidades, os primeiros analistas valorizavam o saber e as coisas da cultura; caso contrário, não se teriam interessado por uma novidade tão escandalosa como era naquela época a Psicanálise. Mas não traduziram sua considerável experiência clínica, nem seu interesse pela arte e pela l iteratura, em contribuições duradouras para a disciplina que cultivavam. Limitaram-se a comprovar a veracidade das teorias que os inspiravam, produzindo pouco e divulgando menos ainda o que produziam. Contam-se nos dedos os livros escritos pelos analistas brasileiros até 1970, e a própria Revista Brasileira de Psicanálise, órgão oficial do movimento, só em 1967 despertou da hibernação em que mergulhara após seu primeiro número, publicado por Durval Marcondes em 1926. O grande evento dos anos setenta foi a formação do grupo bioniano paulista, em torno de Frank Philips, cujo trabalho marcou e continua marcando fortemente todo um setor da Psicanálise brasileira; mas estes profissionais publicaram pouco, e sua influência se fez sentir sobretudo através da prática clínica intramuros.

É com a chegada dos anos oitenta que este panorama ágrafo começa a se transformar. Regressam ao Brasil analistas formados na França e na Inglaterra, ambientes nos quais o convívio dos psicanalistas com a caneta era muito mais natural do que para os que aqui haviam permanecido. Entre estes, Fabio Hermann se destaca como o primeiro a alçar um vôo mais ousado, com o primeiro volume dos Andaimes do Real (1979). É por esta época que se funda o curso do Sedes, onde a largueza de espírito de Regina Schnaiderman e a tradição clínico-teórica materializada nos professores argentinos se unem ao trabalho de Hermann, Isaías Melsohn e outros, formando um amálgama que resgata os direitos do intelecto no que se refere ao estudo da psicanálise.

Regina - junto com seu marido Boris Schnaiderman, Isaías Melsohn, o casal Guinsburg (futuros diretores da Editora Perspectiva) e outros intelectuais paulistanos - havia participado durante anos de um seminário informal com Anatol Rosenfeld; este os introduziu à filosofia e aos estudos humanísticos e lhes instilou uma exigência de rigor só comparável à que norteava os uspianos, frutos da "missão francesa" que nos anos trinta havia fundado a Faculdade de Filosofia. É esta a outra vertente que se encontra na origem do curso do Sedes. A ele vieram se juntar analistas como Luiz Meyer, Luis Carlos Menezes, Renato Mezan, Luís Carlos Nogueira, Anna Maria do Amaral e outros de estirpe francesa, que em diferentes períodos colaboraram com o curso e fizeram dele um dos canais pelos quais a produção européia que mencionei começou a se tornar conhecida entre nós. No Rio, Jurandir Freire Costa, Joel Birman, Chaim Samuel Katz e Sérvulo Figueira, para só mencionar alguns nomes, realizaram um trabalho análogo. Por fim, com todos os reparos que se lhe possa fazer, os lacanianos são certamente uma tribo estudiosa, e se encarregaram de divulgar os autores e idéias da sua corrente.

Assim, os anos oitenta presenciam o surgimento de uma nova raça de psicanalistas: os que escrevem. Discretamente a princípio, depois em volume maior, começam a surgir trabalhos originais, que vêm alimentar a demanda por informações dos que então se aproximavam da Psicanálise. Alguns são fruto dos labores de filósofos (por exemplo, Freud: A Trama dos Conceitos, escrito em 1977 e publicado em 1982, ou os livros de Luiz Alfredo Garcia-Roza, que começam com Freud e o Inconsciente, em 1983); outros, de filósofos que se tornaram analistas (Freud, Pensador da Cultura, escrito em 1979-1980 e publicado em 1985); outros ainda, de psicanalistas que buscaram fecundar a Psicanálise pelo contato com outras disciplinas (por exemplo Miriam Chnaiderman, O Hiato Convexo, 1989).

Surgem igualmente trabalhos que abordam questões semelhantes às que agitavam os países onde tinham estudado seus autores, ou que buscam modos de utilizar a Psicanálise para pensar questões da atualidade brasileira (como a revista Teoria da Prática Psicanalítica, editada entre 1981 e 1986 por Joel Birman e Carlos Augusto Nicéas; o livro de Jurandir Freire Costa, Violência e Psicanálise, 1984; novos textos de Fabio Hermann, Joel Birman, Chaim Katz e outros). No âmbito lacaniano, também surgem livros importantes: a princípio traduções de analistas estrangeiros aqui radicados (Antonio Godino Cabas, Curso e Discurso da Obra de Lacan, 1982; Alfredo Jerusalinsky, Psicanálise do Autismo, 1984), e logo mais trabalhos originais de autores brasileiros (Alduísio Moreira, Uma Leitura Introdutória a Lacan, 1984; Oscar Cesarotto e Márcio Peter de Souza Leite, Jacques, Lacan: Através do Espelho, 1985; e outros).

Neste sentido, a abertura em 1987 da Editora Escuta constituiu um poderoso estímulo à difusão da Psicanálise em letra de forma. Tanto publicando obras originais quanto empreendendo um ambicioso programa de tradução da Psicanálise francesa, inglesa e argentina, a iniciativa de Manoel Berlinck produz rapidamente os seus frutos, permitindo que jovens autores não precisem esperar anos a fio para verem editados os seus trabalhos. Ainda no capítulo traduções, Elias da Rocha Barros empreende pela Imago um valioso trabalho de divulgação do pensamento kleiniano, repondo na liça das idéias uma escola que parecia ter empalidecido com tantas novidades vindas de outros quadrantes. O mesmo vale para os lacanianos, que plantaram suas tendas na Zahar (o grupo ligado a Jacques-Alain Miller) e nas Artes Médicas de Porto Alegre (o grupo ligado a Charles Melman). Surgem ou renascem revistas, como Ide, Percurso, Jornal de Psicanálise, Tempo Psicanalítico (da Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle, a SPID do Rio), Gradiva (da Sociedade de Psicologia Analítica de Grupo, SPAG) e outras, que abrem novos canais de comunicação para e entre os analistas brasileiros.

Dois outros tópicos merecem destaque: a vinda sistemática de analistas visitantes e a implantação da Psicanálise na Universidade. O primeiro se liga à ampliação do mercado psicanalítico e às enormes carências da formação em nosso país; regularmente, trazidos por este ou aquele grupo, todos os principais nomes da psicanálise européia vêm a São Paulo, Rio, Salvador, Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife e outras cidades. Centenas de colegas e de estudantes vão ouvi-los, fazem supervisões, compram seus livros recém-traduzidos; e isto vale tanto para as sociedades filiadas à IPA quanto para os grupos independentes. O acúmulo de eventos e a lenta penetração das idéias trazidas por estes visitantes nos últimos quinze anos aumentaram consideravelmente o nível de informação dos psicanalistas brasileiros, que vêm se familiarizando com os desenvolvimentos mais recentes e passam a dispor de uma biblioteca comparável às existentes nos países de cultura freudiana mais antiga.

Quanto à introdução da Psicanálise na Universidade, ela se dá em dois tempos. Nos anos sessenta, através de disciplinas como Psicologia do Desenvolvimento e de supervisões, os cursos de Psicologia funcionaram como canal de divulgação da maneira de pensar psicanalítica. Ainda hoje, e mesmo com a predominância de outras correntes no currículo, alguns cursos - como o da USP, onde trabalham vários analistas experientes – proporcionam aos estudantes um primeiro contato com a Psicanálise, o que freqüentemente os estimula a buscar uma formação nas instituições propriamente psicanalíticas.

Mais recentemente, a partir dos anos oitenta, a Psicanálise ganha espaço nos programas de pós-graduação: inicialmente restrita às PUCs de São Paulo e do Rio e à Universidade Federal do Rio de Janeiro, nos últimos anos esta inserção vem se ampliando de modo impressionante, com a abertura de cursos de especialização e de pós-graduação em diversos pontos do país, assim como em várias instituições das cidades maiores. Este fato é de importância crucial, porque desde os anos setenta a pós-graduação tem sido fortemente incentivada e subsidiada por agências como a Fapesp, o CNPq e a CAPES: os analistas entram assim numa rede de pesquisa e de produção científica que já existia antes deles, e da qual vêm se beneficiando amplamente. Os primeiros resultados deste investimento não demoraram a se fazer notar: têm sido apresentadas teses e dissertações de bom nível, e muitas delas encontram espaço no plano da edição. Um dado entre muitos: somente entre os trabalhos orientados por mim na PUC-SP, já foram publicados doze - o que equivale a toda a biblioteca existente em português quando, no início da década de setenta, comecei a estudar Freud.

Ontem e hoje

Neste contexto, qual a diferença fundamental entre o tempo de Regina Schnaiderman e a atualidade? Sem dúvida, é a constituição de um verdadeiro campo psicanalítico no Brasil. Tanto pela difusão geográfica quanto pela capilarização do conhecimento, os processos aqui evocados resultaram no adensamento da psicanálise brasileira, ao menos em termos quantitativos. E a qualidade, perguntará o leitor? Este é um outro problema. Não creio - esta é uma opinião pessoal - que a psicanálise praticada no Brasil fique atrás da que se pratica em outros países, em termos da acuidade clínica ou da eficácia terapêutica. É certamente difícil avaliar este tipo de coisa, mas cada qual pode se basear em sua própria experiência de análise, de supervisão e de troca com colegas em encontros públicos ou particulares.

Contudo, não devemos esquecer que alguma quantidade é indispensável para a qualidade, através do que se convencionou chamar "massa crítica." Em qualquer disciplina científica ou em qualquer campo das artes, uma andorinha só não faz verão, nem quarenta ou cinqüenta. É necessário que se constitua um campo, habitado por uma população relativamente numerosa e capaz de produzir e consumir aquilo que nele é cultivado: isto vale para o balé russo, para o jazz, para a literatura em dado idioma, para o futebol, para a física teórica - e também para a psicanálise. Dos milhares relativamente anônimos que formam o campo, alguns se destacarão pela excelência e o farão progredir, se suas inovações encontrarem uma rede de difusão capaz de sustentar a socialização de suas intuições solitárias até que elas se convertam em propriedade comum de quantos as quiserem incorporar. A isto se dá o nome de constituição de uma tradição, e a meu ver este processo está hoje razoavelmente adiantado no Brasil. Ainda não surgiu entre nós nenhum Bion ou nenhum Lacan; mas estes também são raros no Exterior, e só alcançaram notoriedade já maduros (em torno dos sessenta anos, é bom lembrar). A primeira geração de analistas brasileiros criou no país um habitat para a Psicanálise; a segunda - à qual pertenço - firmou a disciplina no plano cultural, formou grupos de analistas em todos os Estados e deu impulso decisivo à formação de uma "cultura da psicanálise" num sentido menos caricato do que o descrito por Sérvulo Figueira em seus artigos. Cabe-nos também formar uma nova geração, capaz de continuar o processo (e eventualmente rebelar-se contra os que a formaram).

Do adensamento do campo e da capacidade de diálogo entre analistas de diferentes linhas teóricas dão provas livros como os organizados por Abrão Slavutzky em Porto Alegre (Transferências, 1990; Cem anos da Psicanálise, 1996) e por Joel Birman no Rio de Janeiro (Percursos na História da Psicanálise, 1985; Freud, cinqüenta anos depois, 1989).

Os jovens analistas, na faixa dos quarenta anos, estão indo além do que encontraram já feito: o desenvolvimento recente da Psicossomática, assim como a realização de pesquisas primorosas no âmbito acadêmico, são a meu ver sinais de que isso está acontecendo. Há muito o que fazer, tanto no plano científico quanto no da inserção dos analistas nas redes de prestação de serviços à população (área na qual se fizeram experiências isoladas, porém valiosas, e que ainda aguardam maiores desenvolvimentos), quanto ainda na compreensão da cultura brasileira por meio do instrumental psicanalítico (algumas iniciativas pioneiras neste sentido, como as de Contardo Calligaris e de Octávio de Souza, ainda não produziram os frutos necessários), e em diversos outros terrenos.

Não devemos ser triunfalistas: se o panorama da psicanálise no Brasil se transformou enormemente nos últimos vinte anos, continua útil levarmos a sério a severa advertência que Sérvulo Figueira formulava em 1986: "Não existe, propriamente, (...) uma versão da psicanálise criada e desenvolvida por analistas brasileiros que resulte de uma relação fecunda entre a psicanálise enquanto discurso "transcultural" e as formas culturais nacionais. (...) O curioso em relação à cultura psicanalítica brasileira é que ela não tem como centro de gravidade uma psicanálise brasileira, mas, preponderantemente, um aglomerado de implantações da Inglaterra, e mais recentemente da França e dos Estados Unidos. (...) Em poucas palavras, e deixando de lado várias exceções, produzir e publicar psicanálise não são atividades centrais e imprescindíveis para o analista brasileiro que deseja "sucesso" de público - este, e seu corolário imediato, o dinheiro, podem ser obtidos sem maiores demonstrações de competência especificamente psicanalítica. Esta característica do campo psicanalítico brasileiro, que vem mudando muito devagar ao longo dos últimos cinco anos, poderá levar - caso não surja uma geração de analistas que se destaque por sua competência e produção especificamente psicanalíticas - a um esvaziamento e empobrecimento crônico deste campo no Brasil." (12)

Repare, caro leitor: em 1986 o panorama desolador descrito por Figueira "vinha mudando muito devagar ao longo dos últimos cinco anos." Se você julga que desde 1986 as mudanças se aceleraram, e na direção inversa ao que ponderava este autor, então concordará comigo que valeu a pena estar no campo nestes últimos anos. Se estamos ainda hoje longe de contar com garantias de que estas sombrias previsões não se vejam confirmadas, ao menos podemos dizer que hoje sua concretização parece mais improvável do que quando foram redigidas. Esta, ao menos, é minha opinião. E a sua?







Notas:

  1. Sobre a história da Psicanálise na Argentina, pode-se consultar com proveito o livro de Jorge Balán, Cuéntame tu vida, Buenos Aires, Editorial Planeta, 1991. Volta

  2. Sérvulo Figueira, "Notas sobre a Cultura Psicanalítica Brasileira" (1986) in Nos Bastidores da Psicanálise, Rio de Janeiro, Imago, 1991; cf. igualmente Renato Mezan, "Prefácio" de A Vingança da Esfinge, São Paulo, Brasiliense, 1988. Referências bem documentadas sobre os anos setenta e oitenta podem ser encontradas também no livro de Cecília M. Coimbra, Guardiães da Ordem: uma Viagem pelas Práticas "psi" no Brasil do "Milagre", Rio de Janeiro, Oficina do Autor, 1995. Volta

  3. Sobre os inícios do curso, ver Mário Fuks, "Para uma história do curso de Psicanálise", Revista Percurso, n°1, 2° semestre de 1988 (atualmente disponível somente pela Internet, na página www.uol.com.br/percurso). Volta

  4. Cf. Janete Frochtengarten, "A necessária inquietação de quem transmite", Percurso n° 12, 1° semestre de 1994. Volta

  5. Ver a este respeito Gisálio Cerqueira (org.), Crise na Psicanálise, Rio de Janeiro, Graal, 1982. Cf. também Miriam Chnaiderman, "Homenagem a Hélio Pellegrino", Percurso n° 2, 1° semestre de 1992. Volta

  6. Roberto Yutaka Sagawa, "A História da Sociedade de Psicanálise de São Paulo", in Álbum de Família, São Paulo, Casa do Psicólogo, 1994. Volta

  7. Cf. Elizabeth Bott Spillius, "Melanie Klein Hoje", Rio de Janeiro, Imago, 1991, vol.. I, p. 89. Cf. também Daniel Delouya, "Bion: uma obra às voltas com a guerra", neste mesmo número de Percurso. Volta

  8. A este respeito, ver Renato Mezan, "Três Concepções do Originário: Stein, Laplanche, Le Guen", in Figuras da Teoria Psicanalítica, São Paulo, Escuta, 1995. Volta

  9. Elizabeth Roudinesco, Généalogies, Paris, Fayard, 1994, p. 340. Volta

  10. André Green, "Has sexuality anything to do with Psychoanalysis?", International Journal of Psychoanalysis, 1995, vol. 76, p. 871 ss. Volta

  11. Hanna Segal, entrevista "Páginas Amarelas", Veja n° 1543 (22.4.1998). Cf, igualmente R. Mezan, "Psicanálise e neuro-ciências: uma questão mal colocada", in L. C. Junqueira Filho (org.), Corpo-Mente: Uma Fronteira Móvel, São Paulo, Casa do Psicólogo, 1995, p. 267-277. Volta

  12. Sérvulo Figueira, op. cit., 222-223. Volta