O Tamanho do Divã





Resenha de Joyce McDougall, As múltiplas faces de Eros, São Paulo, Martins Fontes,  1997, 270 p.
 
 
 

Joyce McDougall nasceu na Nova Zelândia e, a partir de 1950, já casada e mãe de dois filhos, vai morar na Inglaterra. Leitora voraz de Freud e de psicanalistas da escola inglesa, irá procurar Anna Freud, com quem faz formação em psicoterapia de crianças. Winnicott a convida a seguir seus seminários. Interrompe sua análise e formação, ao acompanhar seu marido, convidado para a UNESCO, em Paris, sendo apresentada ao Instituto de Psicanálise por Marie Bonaparte. Na França retoma sua análise pessoal e participa, com René Diatkine, de grupo de psicoterapia de adolescentes. Seguirá regularmente os seminários de Lacan, que lhe permitem uma confrontação com o pensamento anglo-saxão, mais especificamente o de Winnicott. As obras de Melanie Klein, Bion, Margareth Mahler, Christopher Bollas e de sua grande amiga Piera Aulagnier também virão a subsidiar seu pensamento teórico-clínico.

Em entrevista à revista Percursoem 1997, com breve informação biográfica escrita por P. R. Ceccarelli, Joyce dirá que "não há limite para aquilo que se pode aprender se se olha para além das muralhas da própria escola de pensamento a que se pertence; do contrário esses muros tornam-se os de uma prisão. A devoção incondicional a uma única escola de pensamento psicanalítico pode vir a ser um obstáculo que impede seus partidários de escutar seus pacientes e de procurar mais além quando eles não se encaixam em seu enquadre teórico" ( Percurso nº 18, 1997).

As Múltiplas faces de Eros é seu quarto livro traduzido para o português, depois de Em defesa de uma certa anormalidade (1983), Teatros do Eu (1992) e Teatros do Corpo (1996). Entre os artigos destaca-se o que foi publicado em O Divã de Procusto (1991), coletânea de textos clínicos de diferentes psicanalistas do CFRP (Centro de Formação e de Pesquisas Psicanalíticas de Paris).

Os textos de McDougall têm marca comum: a vinheta clínica traçada dentro do movimento transferencial e contra-transferencial que a singulariza. Embora afirme em vários de seus escritos que o exemplo clínico nada prova, opta por utilizá-los permanentemente, o que a coloca em oposição a "certos psicanalistas franceses que nunca recorrem a vinhetas clínicas, contentando-se em enunciar uma teoria sem explicar o modo pelo qual chegaram a tal conclusão e sem mostrar como a noção em questão se exprime no trabalho analítico". (Percurso, 1997). Desta determinação da autora, dois resultados são imediatos para seu leitor: ampliação da escuta e o envolvimento com seus relatos e romances familiares, dos quais não se sai ileso. 

As Múltiplas faces de Eros reitera os fundamentos de sua concepção de que a somatização é um modo de defesa arcaico, anterior à constituição da linguagem, uma protolinguagem, que resulta de uma falha, um malogro, um mal-resolvido processo na diferenciação do infans de sua mãe. Há um longo trajeto a fazer no desfazer da unidade narcísica original, que deverá ser preenchido com a palavra, expressão nobre da linguagem. De quando em quando a somatização pode se impor no preenchimento de espaços abertos pela tensão inevitável na criança entre o desejo de fusão e o de individuação e apropriação psíquica do seu próprio corpo.

O livro é um estudo das fantasias de cena primária, das fantasias bissexuais e do efeito destas mesmas fantasias nos desvios sexuais, nos sintomas psicossomáticos e nos distúrbios de caráter.

Na parte I, "Feminilidade e sexualidade", os componentes homossexuais da sexualidade feminina e a discussão da máxima freudiana que diz que a anatomia é o destino desmontam os enclaves que deixam a inveja do pênis como um destino para a mulher, dizendo que "os meninos também sofrem da sua própria forma característica de inveja do pênis, invariavelmente achando que seus pênis são pequenos demais em comparação com os de seus pais" (p. 5). McDougall irá falar sobre três variações da sexualidade feminina: a homossexualidade, o transexualismo feminino e as perversões femininas. No exemplo clínico de Marie Josée, Joyce contará seu sonho contra-transferencial, enriquecendo o relato desta paciente de 35 anos que veio procurá-la por ter manifestações tanto claustrofóbicas quanto agorafóbicas. Apresentava ainda, como problema, a necessidade de urinar muitas vezes por dia, pois achava que sua bexiga era menor do que a das outras mulheres...

Na parte II, "Sexualidade e criatividade", há uma contribuição específica sobre aspectos da sublimação alcançada nos processos criativos oriundos das brincadeiras infantis, que não são apenas atos despreocupados, mas também manifestações de violência. Todo ato criativo requer indivíduos inovadores que são necessariamente violentos "na medida em que exercem seu poder para impor seu pensamento, sua imagem, seu sonho ou seu pesadelo, ao mundo externo". (p. 61)

O ato criativo tem origem no corpo erógeno, influenciado pela maneira como suas pulsões são representadas e suas funções somáticas estruturadas por aqueles que cuidam da criança.

Na apresentação de casos clínicos há os relatos de Tamara, talentosa violinista que sofria de angústia paralisante frente ao público; de Cristina, escultora que sonhava com esculturas monumentais e só conseguia esculpir peças pequenas e frágeis; de Benedicte, escritora profissional incapaz de completar um romance no qual trabalhava. A relação de Benedicte com as figuras parentais, sobretudo com sua mãe que lhe "mentia" sobre seu pai, explode aos cinco anos de idade, quando fica sabendo inadvertidamente, por um vizinho, que seu pai - que a mãe sempre dizia estar em um hospital - morrera quando a paciente tinha quinze meses.

A autora conclui, ao final dos três capítulos que compõem esta parte, que os atos criativos são o resultado de uma fusão dos elementos masculinos e femininos na estrutura psíquica. A criatividade tem um suporte bissexual; as manifestações da inibição criativa no homem seriam formas de re-vivescência da castração, e, na mulher, igualadas inconscientemente à esterilidade, experimentada como uma forma de castração.

As partes III e IV desenvolvem conceitos psicossomáticos de forma inovadora. Em "Sexo e soma", contrapõe os conceitos de Christopher Bollas sobre fado e destino, pensando as fraquezas hereditárias como fado, do qual não se pode escapar, e a relação com a pulsão de destino, definida como a articulação e disposição que o indivíduo dá ao fado que recebeu. A constituição somática, bem como a morte, é uma herança fatídica. Muitas vezes, porém, as pessoas morrem por motivos que suplantam seu relógio biológico. A asma de Louise, desencadeada toda vez que ia visitar a mãe, e a úlcera de Jean Paul, que reaparecia regularmente antes de cada interrupção de férias, despertam na autora a necessidade de descobrir o significado simbólico oculto destas manifestações. Qual a relação entre o acidente de moto de Pierre, aparentemente fatídico, e os acidentes freqüentes de sua infância, sugerindo danos auto-inflingidos? O desvelamento, através da análise, do calendário secreto e do significado simbólico dos sintomas vai deixando aparecer fragmentos da sexualidade arcaica e pré-genital destes pacientes. O caso de Georgette, já apresentado em Teatros do Corpo (1996), é um dos relatos mais instigantes e envolvente estudo psicossomático, através da escuta minuciosa da analista que desmonta peça por peça o quadro de grave alergia, além do extenso elenco de sintomas psicossomáticos, incluindo distúrbios cardíacos, gástricos, ginecológicos, patologia respiratória, artrite reumatóide e eczema grave.

Os capítulos dez, onze, e doze falam sobre os desvios do desejo e descortinam o campo das soluções neo-sexuais, que são expressões das neo-necessidades, tratando também das sexualidades ditas adictivas. A solução adictiva "é uma tentativa de cura de si mesmo diante de estados psíquicos ameaçados." (p. 202). A escolha do objeto adictivo não se limita a substâncias (comida, cigarro, álcool, drogas), mas outras atividades e também pessoas podem servir a este propósito. "Há indivíduos que se alimentam de outros como objetos de necessidade narcísica quando se vêem confrontados com vivências afetivas ameaçadoras (habitualmente de natureza depressiva), que são incapazes de conter e pensar a respeito, sozinhos. Um relacionamento estabelecido por essas razões freqüentemente cria uma dependência exigente e um sentimento infantil de desamparo" (p. 204)

O sofrimento diante da angústia frente à confusão revelada nos componentes da atividade sexual é descrito por meio do caso de Jason, um cirurgião de quarenta e poucos anos que recebera o diagnóstico de neurótico obsessivo grave e fora aconselhado por um amigo psiquiatra a procurar qualquer auxílio, menos a análise. Depois de dez anos de casado passa a ter aventuras com mulheres, sempre preocupado com as relações étnicas destas mulheres. Falava ainda de atividades que lhe causavam sofrimento quando usava roupas de sua irmã mais velha, principalmente seus trajes de dança e descrevia o que chamava de sua homossexualidade, a freqüência a festas de sexo grupal quando ficava como voyeur frente aos corpos e órgãos sexuais masculinos.

"A longa análise de Jason ajudou-me a vivenciar a transbordante angústia que existe por baixo da natureza compulsiva e adictiva nos atos sexuais desviantes" (p. 229). Finalizando, dirá que estes mesmos inovadores sexuais, em suas práticas adictivas e neo-sexuais, fazem tentativas de cura-de-si-mesmos, onde, afinal, Eros pode acabar triunfando sobre Tânatos se, na viagem psicanalítica, o analista for capaz de pacientemente esperar o afrouxamento dos grilhões de Tânatos, para o triunfo da vida.

A partir dos textos de McDougall, pode-se concluir que é necessário que o analista proporcione ao paciente um divã amplo e na sua medida, rejeitando a prática de Procusto que, à beira da estrada, oferecia uma cama exígua ao viajante exausto e solitário; ao deitar-se, este tinha os pés decepados, para caber no divã sedutor. Aos pequenos viajantes, oferecia uma cama grande, esticando-os com força para que ocupassem todo o espaço.

Não se termina des-afetado a leitura deste livro. Para o psicanalista próximo da psicossomática ou para o mais distante, o texto de Joyce McDougall tem a marca fascinante da teoria que ultrapassa as fronteiras do dogmatismo epistemológico e se desdobra magistralmente sobre a clínica.
 
 
 
 
 
 

Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes, é psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC de São Paulo, membro do Departamento de Psicanálise e professora no Curso de Psicossomática do Instituto Sedes Sapientiae.