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DEBATE Rumos da psicanálise Neste número, Percurso convidou três psicanalistas para refletir sobre a questão "Diante das atuais perspectivas, quais seriam os rumos da psicanálise?". A pergunta foi concebida de uma maneira ampla e inespecífica a fim de dar margem para que cada convidado escolhesse o ponto de vista através do qual abordá-la. A depender da perspectiva privilegiada, surgem circunscrições nítidas para as "atuais perspectivas" e perfilam-se "rumos", senão definidos, bem indicados. Tivemos o cuidado de levar nossa questão para analistas que, ao longo das últimas décadas, têm se envolvido no cenário da psicanálise brasileira, sempre preocupados em tomar em conta as aceleradas transformações pelas quais vem passando a chamada sociedade global, com seus diversos desafios teóricos, clínicos e institucionais para a psicanálise. O leitor encontrará nas contribuições desses colegas ressonâncias com situações que nos exigem cotidianamente e diante das quais cada um de nós se vê instigado a pensar.
Jurandir Freire Costa: "Perspectivas atuais" é uma expressão ampla e dá margem a várias interpretações. Vou tomar como sinônimo de "perspectivas atuais" duas questões aparentadas, mas que podem ser tratadas, de modo distinto, do ponto de vista teórico. A primeira é a mudança do perfil clínico dos analisandos; a segunda, o estágio atual das teorias sobre a subjetividade. A mudança no perfil clínico, diz respeito ao aumento de casos de depressões distímicas, drogadições e distúrbios da imagem do corpo. Por depressões distímicas entendo todas as configurações da depressão que não seguem o modelo metapsicológico da "melancolia". Melancolia, bem entendido, no sentido freudiano, ou seja, neurose narcísica cuja dinâmica pode ser, grosso modo, compreendida como variações em torno dos mecanismos de perda, luto, introjeção do objeto perdido, ataque sádico ao objeto introjetado. As depressões distímicas, a meu ver, apresentam uma dinâmica de outra ordem. Do ponto de vista fenomenológico, isto é, do ponto de vista da queixa consciente dos analisandos, as depressões distímicas aparecem como falta de apetite para trabalhar, para amar, para elaborar projetos de vida a longo prazo, em suma, "falta de sentido" no que se faz ou vive. Não se trata, penso, de comprender esses casos como casos de "idealização narcísica do objeto" mas de "rebaixamento sistemático do valor afetivo de qualquer objeto do mundo", inclusive a própria vida. Acredito que certos termos excluídos do vocabulário básico da psicanálise têm que ser melhor analisados para que possamos entender melhor a metapsicologia desses casos. Penso, por exemplo, na metapsicologia da "vontade", do "ímpeto de domínio"( que não é o simples "controle" kleiniano ou freudiano), no "mecanismo de valoração" ou "desvaloração", que não são simples manobras defensivas para "desvalorizar" os objetos, mas formas complexas de ocultar de si mesmo a atitude fundamental de "valorar". Acho que o estudo das depressões distímicas nos levará a revalorizar, do ponto de vista da teoria, temas como agressividade, criatividade, impotência criativa, falta de resistência dos objetos à fantasia onipotente do ego-narcísico etc. Nos casos de drogadição, vejo, sobretudo, a volta do interesse pela economia psíquica das "sensações". Em psicanálise, habituamo-nos a valorizar o prazer, o desprazer e a dor como "sensações" que se tornaram princípios do funcionamento psíquico, isto é, princípios quase metafísicos que explicavam as complexas manobras de admissão ou exclusão da consciência de afetos ou representações inconciliáveis com o Eu. Ora, acho que o campo das sensações vai além disso. Assim como a imagem do corpo, as imagens mentais das sensações são, cada dia mais, responsáveis pelos marcos identitários constitutivos da imagem do eu. Termos como "êxtase", "apatia", "insensibilização", "dor psíquica" etc. precisam ser analisados no potencial explicativo do "desejo de drogas", de consumo, de trabalho etc. Nos casos de distúrbios da imagem do corpo, como anorexias, bulimias, uso de anabolizantes, excesso de exercícios físicos etc., trata-se de ver a dinâmica do papel da "vontade", fantasiada como ato livre do sujeito, e dos "automatismos biológicos", fantasiados como aquilo que escapa à vontade, na constituição do eu. Ou seja, trata-se de analisar como os sujeitos modernos se concentram no controle, no domínio, na sujeição do corpo próprio como mecanismo preferencial na formação da imagem egóica. Esse mecanismo se aproxima e se distingue, ao mesmo tempo, da tradicional figura do "recalque" de representações sexuais incompatíveis com a vida ou com os ideais morais, como nos casos de fobias, histerias ou obsessões. Ao lado dessas questões clínicas, no sentido estrito, as questões teóricas também devem sofrer certas inflexões. As concepções universalistas ou a busca de invariantes psíquicas constitutivas da subjetividade, provavelmente, serão influenciadas pelas teorias que procuram aprofundar o que caracteriza nossas singularidades e não nossas semelhanças. Isto corresponde à preocupação, já existente, com as definições de processo analítico como realização de estilos de existência particulares e não curas normativas de sintomas. Essas idéias oriundas das filosofias ou teorias preocupadas com a "ética" devem ser reforçadas pelas invenções de outros campos de saberes, como a medicina orgânica. Os progressos tecnológicos e os avanços nas descobertas genéticas estão reformulando, de maneira acelerada, a imagem do sujeito como uma instanciação individual de leis biológicas gerais - constantes fisiológicas ou regularidades anatômicas. O gosto pela generalidade está dando lugar à curiosidade pela multiplicidade e pela diversidade. Hoje, muitos indivíduos podem sobreviver em condições absolutamente idiossincráticas de homeostase orgânica. E, pelo fato de pessoas com deficiências físicas, até pouco tempo incompatíveis com a vida, sobreviverem por longos períodos, novas formas de perceber o mundo e a si mesmas começaram a existir e a serem compreendidas. O impacto disso é enorme. No campo da neurologia, desempenhos biológicos inusitados estão sendo estudados, e, tudo isso, revela facetas da organização subjetiva, modos de satisfação pessoal com a vida, idéias sobre o valor da vida e da morte, impensáveis no tempo de Freud. Espero que essa diversificação da vida nos estimule a entender melhor a infinidade e diversidade de formas de vida subjetiva, e nos ajude a criar uma psicanálise cada dia mais aberta à riqueza dos experimentos psíquicos, compatíveis com a reprodução da vida cultural e biológica. Em suma, essa agenda mínima de enigmas, além de tantos outros sobre os quais poderia falar e de outros que não consigo perceber e que serão percebidos por outros colegas de nossa comunidade profissional, devem nos manter ocupados, interessados e apaixonados pela psicanálise por um bom tempo. Depois disso, só os adivinhos e profetas saberão o que o futuro nos reserva. Jurandir Freire Costa é psicanalista e professor titular do IMS/UERJ. Seus últimos livros publicados são: Sem fraude nem favor (Rio, Rocco, 1998) e Razões públicas, emoções privadas (Rio, Rocco, 1999).
Luís Carlos Menezes: Agradeço à Revista Percurso o estímulo para fazer considerações e refletir sobre uma questão que de saída dirige o meu olhar para o que está acontecendo hoje na Psicanálise. Há mudanças de vulto e a interrogação sobre os novos "rumos" situa-se como uma tentativa, arriscada, de avaliação dos desdobramentos e conseqüências dessas mudanças. O acontecimento mais significativo é, a meu ver, a mudança acelerada a que assistimos nos modos de acesso e de cultivo da "coisa" analítica, ou seja de sua prática, que está decididamente passando de uma modalidade, digamos, corporativo-artesanal de constituição e de transmissão para uma modalidade, por assim dizer, industrial de produção e de expansão. Recebemos hoje, quase que diariamente, em nossos computadores ou na forma de folders propostas de cursos que, na disputa pelo cliente, cada vez disfarçam menos que estão se apresentando como vias de acesso rápido, ágil, interessante e moderno à prática da psicanálise, e não apenas como cursos de difusão ou de complementação de conhecimentos. Cursos de 2 ou 3 anos em que alguns poucos conceitos, apresentados como sendo os que realmente contam, balizam um currículo ao qual não faltam as atividades de orientação e de iniciação na prática clínica. Longe parece estar a época em que começou a ser quebrado o monopólio da IPA sobre a transmissão da psicanálise. Era uma época em que as escolas de pensamento, poderosamente inovadoras e em seguida, também poderosamente conservadoras em seu afã militante de defender a originalidade das inovações, estavam se constituindo e se consolidando no interior do movimento psicanalítico. Todas, no entanto, encontravam-se dentro da Associação Internacional; na Inglaterra conseguiram, como se sabe, encontrar um modus vivendi institucionalizado, enquanto que, na França, Lacan não teve outra escolha senão sair para criar a Escola Freudiana de Paris, já que a IPA acabara recusando as suas concepções sobre a prática da psicanálise e proibindo o seu ensino. Este ensino passou então a se dar na Escola de Lacan, fora pois da IPA. Note-se, no entanto, que ali a questão da transmissão da psicanálise era objeto de rigorosa reflexão teórica, questionando-se os artefatos institucionais a ela ligados e pondo-se em prática novas e severas modalidades de constituição e de reconhecimento da aptidão à prática da psicanálise, seguramente mais exigentes que os padrões médios vigentes em outras sociedades, embora muito atrelados ao poder pessoal de Lacan e não tardando a mostrar também seus pontos de impasse. Entre nós, o movimento Plataforma na Argentina, ou a formação proposta pelo Sedes em São Paulo, por exemplo, entre outros, propunha-se, ainda que de forma hesitante, nos anos 70, como alternativa ao monopólio da formação da IPA. Vale lembrar que o curso do Sedes era concebido como uma espécie de suporte para uma formação alternativa, na qual o analista ou analista em gestação era considerado como o único responsável pela prática da psicanálise a que tinha se proposto. Nesta época, a Sociedade ligada à IPA aparecia aqui como uma instituição bastante conservadora e autoritária, num contexto marcado pelas ditaduras militares e também pelas tendências alternativas da contra-cultura que animavam então a Europa e Estados Unidos, questionando as velhas estruturas institucionais, entre as quais a Universidade e até o Estado, com todas as suas ramificações e procedimentos. Naquela época, a criação de núcleos de formação fora das sociedades pertencentes à IPA era uma iniciativa que tinha algo de ousado, um verdadeiro ato político mas que, no que diz respeito às concepções sobre a formação analítica, apoiava-se numa crítica bastante discutida e fundamentada, semelhante à que se fazia na França, sobre as modalidades de transmissão das sociedades da IPA, consideradas inadequadas. O foco deste questionamento era a análise didática e o poder institucional exercido pelos analistas didatas sobre os analistas mais jovens, em formação, argumentando-se que distorções graves, na forma de identificações alienantes, eram desta forma introduzidas ou reforçadas no decorrer da formação. Ora, isso impedia que o jovem analista vivesse um processo genuíno de análise da qual deveria estar saindo com maior, e não com menor, liberdade de pensamento, condição de resto essencial para o exercício da prática analítica, pois dela depende a inventividade clínica e a plasticidade do pensamento do analista para poder acolher, ouvir, o paciente na singularidade de seu ser. As formações alternativas constituíram-se, pois, em defesa de uma modalidade de formação condizente não só com um ideal libertário político-social, mas também em oposição ao que se via como uma distorção séria na formação analítica das instituições ligadas à IPA. Vale lembrar, a propósito, que estes questionamentos eram objeto de reflexão também no interior da IPA, cujas sociedades foram eliminando, por exemplo, se não a análise didática, pelo menos alguns de seus "excessos" institucionais, como a prática em que o analista didata opinava sobre o prosseguimento ou não da formação analítica de seu analisando. O florescimento em grande escala da oferta de formações alternativas a que assistimos hoje é pois bastante diferente daquela dos anos 60 e 70. Estas não se fazem mais contra a IPA, ou seja, em ruptura com o seu sistema de formação e de funcionamento institucional. Não se fazem em ruptura com nada e aliás não se atardam nem um pouco sobre a questão da transmissão da psicanálise, questão até alguns anos atrás delicada e problemática . Também o debate sobre a "psicanálise na universidade" parece ter perdido sua atualidade. Lembro do debate - sustentado em especial por Jean Laplanche, em Censier - , em defesa de um lugar específico (na universidade) para o estudo de temas psicanalíticos segundo modalidades próprias, que o tornava totalmente distinto de uma formação analítica, a ser procurada em lugares adequados para isso. Que incidências terá sobre a psicanálise esta acelerada inflexão das modalidades e do clima em que está se dando a formação analítica, quando até esta expressão começa a soar ultrapassada ? Entre uma resposta conservadora e uma resposta modernizante, talvez eu fique mais próximo da primeira se disser que ninguém se torna analista se não movido pelos seus pontos de impasse, pelo seu próprio sofrimento psíquico e pelo atravessamento, sempre relançado, destes, na experiência e no trabalho analítico. A economia disto, motor do trabalho clínico de um analista, só pode levá-lo a passar "à côté" da psicanálise, eventualidade em relação à qual, aliás, nem uma "análise didática", nem outra análise, nem qualquer título institucional de prestígio pode garantir. A produção erudita sobre temas psicanalíticos, da melhor ou da pior qualidade, mesmo que possa causar boa impressão no seu público, se não estiver contaminada, afetada, por este trabalho psíquico que passa por algo de muito íntimo, de um íntimo feito de ínfimos que "são tudo" para a pessoa, trará pouco para a psicanálise, na verdade estará bem longe dela. A psicanálise, em suma, se processa hoje sob esta nova conjuntura histórica marcada pela ausência de qualquer pessoa ( Freud o fazia) ou instituição que possa reclamar-se como a única fiadora da experiência analítica, assim como por uma certa relativização da auto-confiança das escolas. De um lado, esta conjuntura favorece a circulação de idéias, de informações e de conhecimentos, facilitando a inclusão de um grande número de pessoas neste circuito, de tal forma que seria mais adequado falar, deste ponto de vista, de intensa difusão da psicanálise que de formação analítica propriamente dita. Nesta difusão, que poderá estar passando, predominantemente, pelas vias da produção do saber em cima do saber, não vejo em que lugar ficaria algo que, até agora, na transmissão, tem sido considerado como uma herança. Herança a partir da qual cada um, em cada geração, deveria achar as modalidades de apropriação através de filiações. Em sua dimensão simbólica, tais filiações se constituem em marcas de ideal no analista, como testemunha residual de um imaginário de engendramento. Isto tem algum sentido que não o de uma velharia a ser descartada, desembaraçando a psicanálise de uma referência anacrônica e deixando-a assim "livre", sem amarras, para poder entrar em um sistema de difusão que se alinha tão bem com a lógica da circulação rápida de produtos ( a psicanálise, como objeto de ensino e como terapia) e de agentes de produção e de consumo, lógica hoje tão presente em quase tudo. Isto posto, penso que a psicanálise, neste novo cenário de crescimento em extensão, continuará se mantendo e se desenvolvendo de forma muito interessante e fecunda em nichos que não faltarão e que poderão encontrar-se nos mais diversos lugares e nas mais diversas formas. Não será necessariamente nos lugares mais ativistas e "produtivos" que a encontraremos em sua espessura, em sua maior densidade. Acredito, aliás, que este ativismo concorrencial tenderá a estar presente inclusive nas instituições mais tradicionais, como a IPA, ou pressionando as propostas que se constituíram outrora como alternativa à formação da IPA, mas que precisam hoje se manter financeiramente viáveis, sem excluir instituições lacanianas, em especial a organização mundial, também uma mega-instituição, com uma política bastante competitiva e que, por isso, imagino que estará levando em conta as novas "realidades"... do mercado. Hoje, e esta é uma questão que se põe com urgência tendo em vista o futuro, talvez precisemos retomar o tema da formação, mas sob uma forma mais afirmativa que antes, quando se tratava de evitar tais ou quais percalços: temos que poder pensar por quais caminhos alguém se torna analista, quais são as condições intrínsecas essenciais para este processo, o que supõe, inclusive, algum acordo sobre o que seja psicanálise. Termos alguma clareza sobre isto nos dará a possibilidade de assimilar a nova realidade com o que ela trouxer de valioso e inovador, sem perder o miolo da invenção freudiana, ou seja sem perder o solo no qual ela se enraíza ao longo de uma tradição muito rica de pensamento. A psicanálise é uma descoberta e uma prática valiosa que só existe pela maneira como é exercida e pensada pelos analistas de cada época. Luís Carlos Menezes é psicanalista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.
Carlos Augusto Nicéas: A cada vez que um analista tenta escrever algumas palavras sobre as perspectivas para a psicanálise nos tempos atuais, ele se remete ao fato de Freud ter situado a sua descoberta na cultura, numa relação direta com o seu mal-estar. Isto é, ele se orienta pelo fato de Freud ter confrontado a prática clínica do analista com os sintomas da civilização. O sintoma, portanto, varia em momentos particulares da cultura. Sobre isso, aliás, Freud, num tempo já avançado de sua obra, não hesitou em nos dizer o nome do gozo monstruoso que invariavelmente, e à maneira de um fio condutor, imprime sua marca aos acontecimentos de um mal-estar na civilização, o qual todo analista, depois de Freud, assumiu o dever de estar sempre lembrando à sociedade como sendo o seu mal-estar de estrutura. É isso que a clínica psicanalítica propõe ao sujeito: saber alguma coisa de seu mal-estar fundamental, servindo-se, para tanto, somente de sua palavra como instrumento para remover o que ele ignora. Não se trata, então, de acolher a questão que nos é posta aqui, como uma interrogação dirigida à psicanálise pelo que ela não é – uma concepção do mundo. Não se trata, também, de reduzir a sua avaliação enquanto praxis na contemporaneidade, segundo a perspectiva de uma eficácia que não lhe é própria – a eficácia de toda psicoterapia. Trata-se, parece, de procurar responder a essa solidariedade entre a ação da psicanálise e a atualidade de nossa época, em termos de responsabilidade do analista com o seu destino. A questão da variabilidade do sintoma pode nos ajudar a dizer algo, ainda que de modo muito breve, sobre essa responsabilidade. Primeiramente, acreditando que ser responsável pelo destino da psicanálise implica, para o analista, reconhecer que talvez ela já se tenha tornado, no mundo de hoje, o único lugar que restou ao sintoma para ser interpretado. Para o analista, trata-se então, e antes de tudo, de lê-lo e de decifrá-lo em seu estatuto de sintoma particular de um sujeito. Diferentemente, portanto, do uso que a medicina faz dele, uma vez que com Freud, um novo tipo de sintoma - o sintoma analítico – exigiu ser complementado, numa clínica sob transferência, pelo próprio analista. Diferentemente, também, do seu uso como sintoma social. Nossos tempos são tempos de novos sintomas, produzidos enquanto suplências que os sujeitos se dão para fazerem face à falência de toda exceção. São tempos já antecipados por Lacan onde os efeitos do discurso da ciência desencadeiam, mais e mais, processos de segregação. São tempos nos quais se multiplicam novos regimes de gozo, de uniformização dos modos de gozar. São tempos de tentar responder em permanência à questão de como o ato analítico, diante dessa universalização dos gozos, pode operar com o sintoma. Chegar a conseguir constituir um sintoma não se faz sem que o sujeito seja conduzido a levar em conta o inconsciente. E se Freud, nos anos 20, remanejou suas elaborações anteriores sobre o sintoma, desde que outras manifestações patológicas em seu tempo já não se deixavam "tratar" do mesmo modo que as estruturas clínicas clássicas, não nos esqueçamos, ele permaneceu submetendo os sintomas que se apresentavam como novos à mesma regra, única e fundamental, do dispositivo por ele inventado. É preciso não cair na tentação fácil de tornar confortável a posição e a intervenção do analista quando hoje, mais do que ontem, ele se vê confrontado a operar sobre novas formas de sintoma. É preciso que não respondamos do lugar de quem pretende inventar fazeres novos que certamente serão portadores de alívio para o sofrimento de quem continua se dirigindo a um analista. Não é na ausência dos fundamentos que permitiram a Freud estabelecer uma regra em função das finalidades da experiência, que todo psicanalista deverá reinventar a psicanálise como, depois dele, nos ensinou Lacan. A regra nos é ainda fundamental, porque continua a se nos revelar como sendo a única condição de possibilidade para a existência do discurso analítico. Por isso, se mudaram os tempos, se os pacientes são outros e se novos são os sintomas, a resposta do analista não poderá jamais se fazer obstáculo à entrada em ato do discurso do analista. Os novos sintomas interrogam a nosso saber-fazer. E se eles são, hoje, índices variados do mal-estar em nossa civilização, nem todas as suas novas formas alcançam invariavelmente o estatuto de sintoma. Dizendo mais precisamente, o sintoma nem sempre consegue se constituir, ou seja, chegar a se fazer um sintoma que possa falar. Hoje, talvez, estejamos vivendo uma época onde o mal-estar do sujeito permanece, antes de tudo, sem expressão, à espera de um encontro que lhe abra a possibilidade de receber um tratamento subjetivo. Muitos são os efeitos do discurso da ciência que podem, hoje, impedir que o sintoma possa vir a se dizer ao Outro. Mais perto de nós, a psiquiatria tem testemunhado isso quando ela dissolve a sua clínica em benefício de uma correlação estreita e supostamente "científica" entre séries sintomáticas e medicamentos. O nosso desafio maior me parece, então, ser o de testemunhar que a criação de Freud não foi outra coisa senão esta: a invenção do psicanalista. Testemunhar que é preciso ir falar ao Outro se o sujeito quiser saber o que ele deseja. Pois, como um dia nos disse Picasso, "a doença é o tempo que a gente perde a não aprender o que a gente deseja". Se a psicanálise é contingente, o inconsciente, ao contrário, permanece. E se não há sujeito sem sintoma, o sintoma para um sujeito, permanecerá, sempre, à espera de quem lhe dê a palavra, à espera de quem nele aceite se incluir e possa, assim, escutar o sujeito para além da sua demanda de ser aliviado do sofrimento no qual lhe aprisiona o sintoma. Ou seja, à espera de quem lhe possa escutar o desejo que ele ignora para que a pulsão reencontre a barreira do desejo. Uma orientação para lembrar e para concluir. Lacan, num dos seus seminários, pensou a transferência referindo-a a Sócrates. Ou seja, Lacan, como Freud, nos ensinou que, como fenômeno, a transferência tem a sua existência situada desde sempre. O que se deu como novidade com a invenção freudiana de um tratamento para o mal-estar na civilização foi, como disse C.Soler, o encontro da transferência com o psicanalista. Um encontro que poderia não ter se dado na história. Hoje, nos encontramos dispostos a permanecer no lugar certo, indicado por Freud, para que a transferência dos sujeitos de nossa época, com seus sintomas atuais, possa nos encontrar e nos reconhecer como bons parceiros? Toda a questão passa por aí, pela transferência que nos é dada a suportar e a ocupar, nela, o lugar de objeto causa de desejo para o sujeito. Carlos Augusto Nicéas é psicanalista da Escola Brasileira de Psicanálise. |