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Grupo de entrevistas: Andréa de Carvalho, Bela M. Sister, Daniel Delouya, Mara Selaibe, Miriam Chnaiderman e Patrícia Vianna Getlinger
Robert Stolorow Psicanálise relacional
Robert D. Stolorow é um psicanalista destacado no cenário atual da Psicanálise americana. Seu pensamento, ao contrário de outros psicanalistas americanos conhecidos pelo público brasileiro, surgiu, nos anos 70, no contexto universitário da psicologia acadêmica, onde permanece atuante até hoje. O diálogo crítico com a corrente iniciada por Heinz Kohut e a inspiração na fenomenologia de Gaddamer deram nascimento à sua escola, inicialmente conhecida como A escola da intersubjetividade. A difusão desta corrente tem crescido muito, a ponto de atrair um número expressivo de candidatos em seus institutos de formação e centros de pesquisa em psicanálise, ambos não filiados à IPA, e de tornar suas revistas, entre as quais Psychoanalytical dialogues, um grande palco de discussões teóricas e clínicas da psicanálise americana. Stolorow tem vários livros publicados, sempre em colaboração com outros colegas. Ele foi entrevistado em janeiro deste ano por Percurso, via correio eletrônico, e suas respostas nos chegaram em fita cassete. Nessa entrevista, discorre sobre sua trajetória e alguns conceitos que elaborou, de forma a introduzir o leitor nos fundamentos da Escola da intersubjetividade. Realização: Andréa de Carvalho, Bela M. Sister, Daniel Delouya, Luís Cláudio Figueiredo, Mara Selaibe, Miriam Chnaiderman, Nelson Coelho Jr. e Patrícia Vianna Getlinger. Tradução : Daniel Delouya Revisão: Bela M. Sister, Mara Selaibe, Miriam Chnaiderman e Patrícia Vianna Getlinger
Percurso: O Sr. poderia nos contar qual o seu percurso na psicanálise e as principais influências que recebeu? Stolorow: Os principais teóricos da psicanálise que me influenciaram no âmbito das idéias foram: Freud, que iniciou uma investigação sistemática da vida afetiva; George Klein, que destacou em Freud uma teoria clínica do sentido e da significação inconscientes, distinta de sua metapsicologia; Winnicott, o primeiro a explorar o espaço intersubjetivo; Gill Merton, que enfatizou a contribuição do analista para a transferência do paciente; e Kohut, que descreveu o papel da investigação empática no processo psicanalítico e introduziu o conceito, muito importante, de objeto do self (self-object) ou, o que prefiro chamar de, dimensão de desenvolvimento da transferência. Alguns filósofos me influenciaram de maneira significativa, entre eles Dilthey, que fez a distinção entre a pesquisa da motivação nas ciências humanas, incluindo aí a psicanálise, e a investigação motivacional nas ciências naturais; Husserl, que introduziu a fenomenologia para a filosofia; Heidegger com sua ontologia do ser e, sobretudo, Gadamer, que introduziu a hermenêutica filosófica. Talvez ele seja a maior influência filosófica sobre a nossa teoria intersubjetiva. Entretanto, gostaria de ressaltar outras duas influências importantes, oriundas da psicologia acadêmica. Henry Murray - cujas idéias permearam o programa de pós-graduação da Universidade de Harvard onde recebi meu PhD - , que desenvolveu uma nova teoria acadêmica sobre a personalidade (personology). Para ele, o principal modo de obter conhecimento sobre a personalidade humana é o estudo aprofundado e sistemático da singularidade do indivíduo. A segunda fonte universitária que me influenciou foi Silvan Tomkins, mais conhecido na psicanálise por sua teoria dos afetos. Ele também foi aluno de Henry Murray. Um de seus grandes interesses foi a psicologia do conhecimento, mais particularmente, a origem psicológica das teorias psicológicas. A combinação dessas duas influências, nos levou, George Atwood e eu, a embarcar numa série de estudos psicobiográficos aprofundados sobre as histórias das origens, pessoais e subjetivas, das teorias psicanalíticas de Freud, Jung, Rank e Reich. Esses estudos, feitos no começo e meados dos anos 70, formam a base de nosso primeiro livro Faces in a cloud: subjectivity in the personality theory (Rostos na nuvem: a subjetividade na teoria da personalidade), publicado em 1979. Embora o conceito de intersubjetividade não tenha sido introduzido na primeira edição deste livro, ele está claramente implícito na demonstração de como o mundo subjetivo do teórico influencia profundamente o seu entendimento da experiência de outras pessoas. Nesses estudos concluímos que faltava à psicanálise uma teoria sobre a própria subjetividade e um enquadramento unificador que pudesse dar conta de suas próprias teorias, e não apenas do fenômeno, ao qual outras teorias também se dirigem. Fomos então conduzidos, de forma inexorável, para uma concepção fenomenológica global da psicanálise. Do nosso ponto de vista, a teoria psicanalítica, em todos os seus níveis de abstração e generalização, deveria ser uma psicologia profunda da experiência pessoal: a preocupação com seu desenvolvimento, suas organizações inconscientes e sua transformação terapêutica. Se a investigação das origens subjetivas das teorias psicanalíticas nos guiou para a fenomenologia, este engajamento na fenomenologia, por outro lado, foi o que nos levou, automaticamente, ao reconhecimento de uma subjetividade rigorosamente contextualizada. A subjetividade, como viemos a reconhecer, só pode ser a experiência de um sujeito situado historicamente. Ser um sujeito da experiência significa estar posicionado dentro do contexto intersubjetivo do passado, presente e futuro. A pesquisa psicanalítica torna-se, assim, a investigação fenomenológica da complexidade e do processo enquanto propriedades de amplos sistemas relacionais intersubjetivos. O enfoque sobre a organizaçâo da experiência pessoal, que exclui, ao mesmo tempo, todas as entidades mentais isoladas e reificadas, desvela a inescapável ancoragem da experiência pessoal em campos intersubjetivos constitutivos. Assim, o determinismo intrapsíquico de Freud deixa lugar para um avanço em direção à contextualização intersubjetiva. Isso significa que todos os fenômenos com que a psicanálise tradicional se ocupou, tais como transferência, resistência, reação terapêutica negativa, reação terapêutica positiva, estados psicopatológicos, relação mente-corpo, fantasias etc., e mesmo o limite entre consciente e inconsciente - chamado de barreira do recalcamento - , todos esses fenômenos devem ser entendidos como tomando forma na interface entre universos interativos da experiência, e não como originados nos vaticínios intra-psíquicos da mente isolada do indivíduo. Todos os fenômenos com os quais a psicanálise tem se ocupado devem ser vistos como emergindo dentro de campos ou sistemas intersubjetivos constitutivos. Percurso: Como o Sr. situa a escola da intersubjetividade em relação às demais teorias psicanalíticas? Stolorow: Nossa teoria dos sistemas intersubjetivos, ao contrário de outras teorias psicanalíticas, não postula conteúdos psicológicos específicos, considerados como universalmente determinantes no desenvolvimento psicológico e na psicopatologia. Quase toda teoria psicanalítica faz isto: toma alguns aspectos ou temas importantes como absolutos e os universaliza como pedras angulares de todo e qualquer ser humano. Para Freud, foi o complexo de Édipo que ocupou este lugar; para Melanie Klein, as posições depressiva e esquizo-paranóide; para Margareth Mahler, o conflito em torno da separação/individuação; para Heinz Kohut, a idealização e a especularização; e assim por diante. A teoria da intersubjetividade não faz isto. Nossa teoria não é uma teoria de conteúdo mas de processo. Ela oferece um amplo espectro de princípios metodológicos e epistemológicos para a investigação dos contextos intersubjetivos dentro dos quais emergem os fenômenos psicológicos. O quadro que pintamos da experiência pessoal tem o caráter de ser extremamente complexo, fluído e multidimensional, com dimensões múltiplas da experiência oscilando entre a figura e o fundo da experiência pessoal, num contexto intersubjetivo sempre operante. Portanto, a teoria da intersubjetividade existe em um patamar altíssimo de abstração, generalidade e contenção, à semelhança de outras teoria psicanalíticas. Ela fornece, também, uma base para a integração das contribuições de outras teorias psicanalíticas através de sua relativização, desabsolutização, desuniversalização, e, principalmente, pela contextualização das mesmas. Por exemplo, todos os temas de outras teorias psicanalíticas - como o complexo de Édipo ou as posições kleinianas - , podem ser reconhecidos como metáforas e imaginações poderosas, suscetíveis de tornarem-se centrais para o mundo subjetivo de algumas pessoas, em circunstâncias intersubjetivas específicas. Desta forma, o entendimento clínico relevante obtido por psicanalistas que operam com pontos de vista teóricos diferentes, pode ser conservado e sintetizado desde que seja desabsolutizado, desuniversalizado e contextualizado. Percurso: Qual é a concepção de formação de analistas adotada pelo "Institute for the Psychoanalytic Study of Subjectivity" (New York City) e pelo "Institute of Contemporary Psychoanalysis" (Los Angeles), dos quais o Sr. participa? Stolorow: As implicações da perspectiva intersubjetiva, que acabei de descrever, para a formação em psicanálise é que esta deve ser muito abrangente. Deve cobrir o espectro do pensamento psicanalítico e os diferentes pontos de vista em relação à cura. Ao mesmo tempo, as contribuições de outras teorias devem ser estudadas de maneira crítica, engajada numa atitude, que recomendamos há pouco, de desabsolutização, desuniversalização e contextualização. Desta forma, o jovem analista teria à sua disposição um depósito ou reserva de metáforas e imagens úteis ao qual poderia recorrer, como analogias que o ajudariam a entender o significado daquilo que o paciente lhe apresenta. O analista formado na perspectiva intersubjetiva seria provido daquilo que Dana Orange, George Atwood e eu designamos como sensibilidade contextual. Sensibilidade que inclui uma atitude investigadora - a investigação introspectiva empática- , e, também, a falibilidade, atitude assim denominada por Dana Orange para se referir à crença de que todo entendimento em relação a qualquer coisa humana é sempre uma compreensão desde uma certa perspectiva particular. Neste caso, a perspectiva do analista limitada pela historicidade, pelo desenvolvimento histórico da própria organização dos seus princípios, aquilo que Goddamer chama de preconceito. As atitudes de contextualização e falibilidade significam que o psicanalista mantém suas referências - seu ponto de vista e sua compreensão do paciente, ou do evento, dentro do campo intersubjetivo do tratamento - ligeiramente em suspenso, permanecendo sempre aberto para a possibilidade de surgir uma nova compreensão, uma nova forma de ver as coisas, a partir de outras fontes contextuais. Em outras palavras, um analista formado na perspectiva intersubjetiva adquiriria uma atitude epistemológica de humildade. Percurso: Em um artigo denominado "Thomas Ogden's Phenomenological Turn"1, Bruce Reis, aponta algumas questões debatidas pelo Sr. em um texto escrito em parceria com Orange e Atwood2. Entre outras coisas, Reis afirma que a noção de intersubjetividade proposta pelo Sr. e seus associados ainda manteria o modelo de duas subjetividades separadas interagindo. Ele sugere também que a intersubjetividade aparece, quando muito, como uma possível conquista de uma relação, por exemplo a relação analítica, e não como condição constituinte das próprias subjetividades, o que deveria ser sua verdadeira vocação. Consideramos que o debate permaneceu inconcluso e gostaríamos que o Sr. pudesse aprofundar essas questões. Stolorow: Bruce Reis leu nosso texto de forma completamente errada. Fez questão de não entender nosso ponto de vista, provavelmente, porque procura glorificar Thomas Ogden, seu herói pós-clássico. Para nós, Ogden é um kleiniano-hegeliano, que conserva ainda a maior parte dos pressupostos da filosofia de Descartes, principalmente no que diz respeito ao conceito de identificação projetiva. Seja como for, voltando à questão colocada pela Percurso, é verdade que afirmamos que o campo intersubjetivo é constituído por um interjogo entre mundos de experiências que interagem reciprocamente. Entretanto, e isso é sumamente importante, o mundo da experiência, o mundo vivido, não é uma entidade isolada, à moda de Descartes. Pode-se dizer que o mundo da experiência é um sub-sistema de um super-sistema, maior e englobante, de ordem inter-relacional e intersubjetiva. Nesta visão, o mundo da experiência e o campo intersubjetivo parecem se constituir mutuamente, circulando entre si. Isto é, o mundo da experiência toma forma dentro do campo intersubjetivo e esse, por seu lado, toma forma através da interação e do interjogo recíproco com o mundo da experiência. Não como no mundo cartesiano de mentes isoladas, os mundos da experiência desenvolvem-se e se formam dentro de um nexo vivo de sistemas de relações e são reconhecidamente singulares por serem dependentes do contexto e sensíveis ao mesmo. Nessa concepção, sutura-se a cisão cartesiana entre sujeito e objeto, o fora e o dentro entretecem-se de forma parecida. Habitamos nossos mundos de experiência da mesma forma que eles nos habitam. A mente é desenhada aqui como propriedade que emerge do sistema ambiental, do meio em que vive a pessoa, e não enquanto entidade cartesiana localizada dentro do crânio. A teoria da intersubjetividade reconhece os papéis constitutivos da relação na construção de toda experiência. Ela é, portanto, fundamentalmente, não-cartesiana. Percurso: Uma coisa é explicar a constituição e a forma das estruturas psíquicas em termos contextuais, o que já encontramos em Fairbairn; outra é reduzir estruturas a contextos. Quando um padrão se cristaliza e, mais ainda, quando um padrão se forma em resposta à ausência de contextos de validação, não seria necessário considerar a dimensão estrutural com uma certa independência? O intrapsíquico (endopsíquico, segundo Fairbairn) não merece uma consideração que leve em conta a relativa autonomia que ele adquire em muitas situações patológicas graves? Stolorow: Nossa teoria sobre o desenvolvimento psicológico pode ser formulada numa única frase, longa e complexa. A organização da experiência da criança é uma propriedade do sistema criança-mãe (care-giver) que é de regulação mútua: a criação de padrões de transações intersubjetivas entre a criança e quem toma conta dela faz surgir princípios invariantes que organizam, inconscientemente, as experiências subseqüentes da criança. Esses princípios organizadores invariantes e inconscientes são o que entendemos por estruturas psicológicas. É através desses princípios que o indivíduo se apropria de padrões invariantes de sua experiência. Refiro-me à ocorrência de temas recorrentes, padrões, imagens e assim por diante, que se repetem em situações diferentes e variáveis. Apesar dessa concepção dos princípios inconscientes organizadores invariantes, rejeitamos a idéia de um domínio intrapsíquico com autonomia relativa. Primeiro, porque do ponto de vista filosófico essa idéia está por demais saturada da visão cartesiana da mente enquanto continente que abriga conteúdos. Segundo, e mais importante, enfatizamos que a operação dos princípios organizadores inconscientes invariantes é profundamente sensível ao contexto, e dependente do mesmo. Eles não funcionam de forma autônoma, não operam isoladamente. Para que esses princípios atuem, é preciso haver um contexto intersubjetivo que se preste à interpretação de acordo com eles. Sem este contexto, não haverá evidências desses princípios. Em outras palavras, os princípios organizadores e pré-formadores do desenvolvimento repousam, sempre, sobre contextos intersubjetivos operantes. Percurso: Daria para o Sr. explicitar, para os menos familiarizados com o seu trabalho, a forma como o Sr. concebe as três dimensões do inconsciente? Qual o estatuto do material alocado ao inconsciente invalidado (unvalidated unconscious)? Ora parece que são afetos que não encontraram contextos sociais de validação para poderem ser articulados no campo do sentido, e, por isso, só podem se expressar através de alterações psicossomáticas, conversões e passagens ao ato (behavioral enactements). Ora, eles parecem expressar-se através de fantasias (como no caso de Jessica3), o que já supõe uma entrada, mesmo que idiossincrática, no campo do sentido. Portanto, ora, o produto tem a natureza de refugos dissociados, ora parece mais da natureza do que foi reprimido para a manutenção de laços significativos depois de uma primeira articulação. Nessa medida, a distinção, que nos parece tão interessante, entre o inconsciente dinâmico e o invalidado não ficaria enfraquecida? Stolorow: Talvez a melhor maneira de esclarecer a distinção entre os três domínios do inconsciente seja lançando mão da metáfora de uma casa, que usamos no livro Contexts of being. O inconsciente dinâmico seria análogo ao porão, onde ficam os estados afetivos que a criança precisou abortar, uma vez que pressentiu sua expressão como ameaçadora no contexto intersubjetivo da infância. Esses estados afetivos precisam ser afastados, mantidos na escuridão, ficando, assim, defensivamente, excluídos, impedidos de um processo de simbolização. Já os conteúdos afetivos do inconsciente invalidado são, desde o início, inaptos para a simbolização, porque sofreram uma carência nos processos de mediação simbólica que o ambiente humano provê à criança. São afetos de experiências que nunca puderam ser simbolizados porque não foram suficientemente sintonizados com a forma simbólica; mais especificamente, com a forma lingüística que, em princípio, capacitaria a simbolização. Em nossa metáfora, esses afetos seriam análogos à matéria prima - blocos, cimento, areia etc.- , que acabou não sendo utilizada na construção da casa, encontrando-se espalhada por suas redondezas. Em outras palavras, o domínio do inconsciente invalidado não contém formas simbólicas das expressões afetivas e não se incorpora, enquanto forma simbólica, à estrutura da consciência. Trata-se de conteúdos pré-simbólicos vividos enquanto estados afetivos somáticos, estados e sensações corporais. Por outro lado, o inconsciente pré-reflexivo existe num nível de abstração inteiramente diferente e, seguindo a metáfora que usamos, ele pode ser considerado o desenho arquitetônico da construção, as planilhas do arquiteto. Não existe enquanto entidade concreta. São os princípios organizadores que ditam a estrutura do prédio: qual a natureza dos conteúdos tolerados na parte de cima; quais em baixo, no porão etc. Trata-se, portanto, de princípios organizadores invariantes do desenvolvimento derivados intersubjetivamente e que determinam as possibilidades estruturais da consciência. Percebe-se que os três tipos de inconsciente que acabei de enumerar são distintos entre si, embora, em certas condições críticas do ambiente, os inconscientes dinâmico e invalidado possam se mesclar criando novas formas. Penso que o ponto mais importante dessa discussão é que a fronteira entre consciente e inconsciente - chamada de barreira de recalcamento na teoria freudiana - não é entendida, como em Freud, enquanto estrutura intrapsíquica fixa da mente isolada; mas, ao contrário, enquanto propriedade de um sistema relacional intersubjetivo operante. Essa idéia ilustra de forma clara a mudança de paradigma científico: de um modelo cartesiano da mente isolada, para outro, pós-cartesiano, relacional, intersubjetivo e contextualizador. Percurso: Se, conforme o Sr. afirma4, o poder mutativo da interpretação analítica deriva da matriz intersubjetiva que opera na análise, qual seria, então, a importância da transferência/ contratransferência para a constituição dessa mesma matriz? Stolorow: Em nosso sistema de referências, a transferência é redefinida como atividade organizadora inconsciente. Tal concepção é inerentemente intersubjetiva, porque reconhecemos que para que o paciente organize sua experiência de acordo com algum princípio, deve haver alguma coisa vindo do analista que se presta a uma interpretação de acordo com tal princípio. O conceito de transferência como atividade organizadora aplica-se tanto à transferência do analista, eufemisticamente chamada de contra-transferência, como à transferência do paciente. O sistema criado pela interação entre a transferência de um e de outro, ou, na minha linguagem, entre a atividade organizadora inconsciente do paciente e do analista, é um exemplo preciso daquilo que denominamos campo ou sistema intersubjetivo. Portanto, o que é designado tradicionalmente como transferência/contratransferência e matriz intersubjetiva são a mesma coisa. A diferença é que a concepção tradicional de transferência se imiscuiu no paradoxo da mente cartesiana isolada, ao passo que em nosso sistema de referência tanto a transferência do paciente como a do analista são concebidas como propriedades emergentes de grandes sistemas criados pelo interjogo entre os dois. Percurso: Qual a importância da metapsicologia para a sua prática clínica? Stolorow Eu definiria a metapsicologia como a tentativa de embasar a psicologia psicanalítica em algo que ultrapasse a psicologia, algo meta - além e acima da psicologia. Freud, por exemplo, tentou fundar sua psicologia psicanalítica sobre algo que entendo como cripto-biologia: um tipo de sistema mecanicista constituído por forças impessoais e energéticas. Nesse sentido, não há, de forma alguma, lugar para essa metapsicologia em nossa teoria da intersubjetividade. Seu lugar é a lata de lixo! No entanto, existe um vasto espaço na teoria ou na abordagem intersubjetiva, inclusive na clínica, para aquilo que chamo de metateoria. Isto é, uma teoria que existe em altos patamares de abstração e generalidade. Nesse sentido, a teoria da intersubjetividade é, de fato, uma metateoria. Os princípios organizadores são um bom exemplo disto: abstratos e englobantes. O conceito de sistemas intersubjetivos é outro, igualmente geral e abrangente. A visão da experiência multidimensional oscilando entre figura e fundo, num campo intersubjetivo operante, é um outro exemplo. Portanto, digo não à metapsicologia e sim à metateoria. No nível mais alto de abstração, a nossa metateoria é uma contextualização fenomenológica. Percurso: O Sr. afirmou, em seu artigo "Converting psychoterapy to psychoanalysis"5, que todo paciente é analisável. O Sr. poderia desenvolver um pouco mais essa idéia? Stolorow: A afirmação de que todos e qualquer um são, em princípio, analisáveis é uma tentativa de ampliar o nosso contextualismo intersubjetivo para a questão da credibilidade ou analisabilidade. Nossa tese é que o processo terapêutico é co-determinado, em cada um de seus pontos e momentos, pelo bom e/ou mal encaixe ou adequação entre a organização psicológica do paciente e a do analista. Isso refere-se tanto à ação terapêutica positiva quanto à ação não terapêutica, conhecida como reação terapêutica negativa, seus impasses e desencontros. Esses fenômenos e aspectos do processo terapêutico são sempre codeterminados pela atividade organizadora de ambos, paciente e analista. Portanto, a analisabilidade é sempre o produto da adequação combinatória entre a necessidade de um certo paciente de ser compreendido e a capacidade do seu analista de compreendê-lo, naqueles momentos precisos em que aparece esta necessidade. Um belo exemplo disto pode ser encontrado no capítulo 5 do Contexts of being, que versa sobre a fantasia. Neste capítulo descrevemos o caso Jessica - uma paciente extremamente perturbada, muito mais do que é possível deduzir a partir do caso publicado. Todas as pessoas e instituições por onde passara consideraram-na intratável, com exceção de minha falecida esposa, Daphne Stolorow, que conduziu seu tratamento sob minha supervisão. O caso publicado atesta que essa combinação, entre analista e paciente, entre Daphne e Jessica, era tão perfeita que acabou trazendo resultados terapêuticos verdadeiramente notáveis. Recomendo a leitura desse caso para quem se interessa pela demonstração da afirmação de que qualquer um é, em princípio, analisável por alguém. De qualquer modo, a frase em si é uma implicação radical de nossa concepção de contexto intersubjetivo. Foi um prazer responder às questões que me foram dirigidas. Espero que vocês encontrem algo de útil e esclarecedor nas respostas. Agradeço muito ao grupo o interesse por meu trabalho. Aprecio isto, verdadeiramente. Os melhores votos para o ano 2000 e para o novo milênio. Notas 1. Bruce Reis, "Thomas Ogden's Phenomenological Turn", Psychoanalytic Dialogues,
9 (3) : 371-393, 1999. |