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Trânsitos movimentos estéticos na clínica Abertura: Tendo como referência por um lado a clínica, e por outro a teorização winnicottiana, a autora busca explicitar o seu pensamento sobre os caminhos da estética ao longo de um tratamento analítico. Qualificação:
Janete Frochtengarten é psicanalista, membro do DepartameNto de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiæ. As idéias principais deste texto foram expostas no evento "Acontecimento estético na clínica psicanalítica" realizado em setembro de 1996.
A ante–sala "Versos significam muito pouco se escritos cedo. Devia-se esperar, reunir doçura numa vida inteira e depois, bem no fim, talvez se conseguissem dez versos bons. E por causa de um verso é preciso ver muitas cidades, pessoas, coisas. É preciso recordar caminhos em regiões desconhecidas, dias da infância ainda não explicados... É preciso ter lembranças de muitas noites de amor, de gritos de mulheres dando à luz, ter estado com moribundos, sentar-se junto aos mortos no quartinho com a janela aberta, e aqueles ruídos intermitentes. E também ainda não basta ter recordações. É preciso saber esquecê-las, e ter a grande paciência de esperar que retornem por si. Pois as lembranças ainda não o são. Só quando se tornaram sangue em nós, olhar e gesto, sem nome, não mais distinguíveis de nós mesmos, só então pode acontecer que numa hora muito rara se erga no meio delas a primeira palavra de um verso..."1 O sangue em nós, o indistinguível de nós mesmos, mais do que lembranças, menos do que lembranças, os ruídos intermitentes ouvidos de um quartinho onde se joga o limiar vida/morte, o não explicado dos dias da infância. Um impregnado que remete a outro, já na fala de Rilke. O impregnado dos inícios, não fruto de uma longa sedimentação, mas fruto de intensidades concentradas em um espaço-tempo denso, compacto. Mais do que lembranças, menos do que lembranças; ao invés de experiências docemente precipitadas ao longo de uma vida, um precipitado de vivências agudas que penetram pelas inexoráveis aberturas, pelos rasgos consubstanciais ao desamparo. Desamparo com o qual chegamos à vida e simultaneamente a um mundo de monumentais enigmas. "Um mundo de sensações, em sua desordem, em seu caos, em seus movimentos corporais feitos de impulsos e retiradas, odores e barulhos, não traduzíveis em signos, sem recurso e sem socorro na linguagem."2 Freud apresenta-nos o desamparo enquanto traumático, enquanto impotência; impotência para realizar uma ação coordenada e eficaz o suficiente para encontrar, no outro, respostas aos anseios prementes. Impotência que está na raiz da angústia mas também da ação e da vivência de satisfação. Perigos inenarráveis que colocam, ao mesmo tempo, o infans em total dependência da mãe - e a mãe em posição de onipotência. Winnicott apresenta-nos outra criança - também absolutamente dependente, também vivendo ameaças assustadoras, também incapaz de ações especificas, mas capaz de outras ações; junto com o nascer, o nascimento de um agente de criações, em um tempo não datado, em um primeiro momento "teórico". E ainda - para Winnicott - a presença, na criança, das urgências da necessidade e não das exigências pulsionais, sendo a principal - a necessidade de ter, do ambiente, retornos que correspondam à sua precariedade. Dois infantis, para sempre vivos, como nos diz Freud. Dois infantis que têm me levado a animadas discussões entre colegas e... comigo mesma. Sem que eu tenha resposta a respeito das possibilidades de conciliação destes infantis, tenho tentado deixar estas crianças por aí, meio à vontade, não só brigando, mas também brincando, se olhando, desconfiadas e com interesse. Um interesse-esperança de virem a se enriquecer no interjogo. Mesmo porque, a clínica ensina que estas crianças persistentes não são só avessas aos tempos razoáveis da vida, mas são também profundamente travessas, escapulindo às teorizações que ora querem agarrar uma, ora querem agarrar a outra. As teorias, como os tempos dos relógios, não as têm impedido de existir... Formularei um aspecto, apenas um dos fios que compõem o infantil para Winnicott. Na saúde, por herança humana, há a capacidade de realizar um movimento, um impulso para fora. Frente ao vazio da fome, um gesto de procura - procura de algo, em algum lugar, não procura disto ou daquilo. Gesto de procura de infans, ao qual a mãe, quando em ressonância, responde. Resulta um encontro, uma coincidência de procura e presença, que propicia uma experiência de intervenção própria. Uma intervenção a partir de um ato próprio, um poder de intervenção do infans em um mundo tão infinitamente contingente. É como se, frente a tamanho desamparo, apenas a onipotência pudesse fornecer condições para suportar os sustos, os não sei que... Onipotência não de tudo criar, mas a de poder criar. Um movimento tal que, na medida em que a potência criadora se efetiva, a criança desconjuntada, não integrada, não localizada no tempo e no espaço - e sequer localizada em seu próprio espaço-corpo - vai se compondo em uma união singular, um indivíduo que se habita. O se habitar está longe de significar o saber de si, está longe de significar ser o senhor em sua própria casa. É apenas estar alojado em si mesmo, ter um si mesmo. O si mesmo, um residual impregnado, resíduo do desamparo e das criações para dar conta dele, na caminhada para ser um, uno. Faz parte do humano um desconhecimento, uma não comunicação com este núcleo primeiro, com este núcleo vital que, na saúde, o alimenta de dentro. Com este núcleo-manancial não é possível um contato direto; apenas indireto, através de seus derivados. E é fundamentalmente a este ponto que eu queria chegar. Para haver a possibilidade deste acesso indireto, a integração no uno, no que une, não pode ser rija. A integração desejável não é solda - é uma junção harmônica. A integração desejável é a não forjada no predominantemente reativo, nas defesas massivas frente às angústias. O reasseguramento suficientemente bom, que inclui o espaço para criar, provê uma integração maleável. Indivíduo, nestas condições, não quer dizer para sempre integrado, para sempre um todo coerente. Quer dizer, apenas, o que não é pouco, superação de riscos iminentes de fragmentações. E, então, indivíduo quer dizer: possibilidades de viver não-integrações, de viver momentos de não localização em espaços e tempos bem circunscritos. Para Winnicott é importante que, nos processos de análise, os pacientes possam experienciar estar na área da amorfia.3 Denomina-a, também, de relaxamento, de non-sense, de não sentido, de zona neutra. Estados nos quais nos perdemos, nos quais podemos estar sem rumo, à deriva. Estados que estão na origem da criação - e portanto - do irredutível da singularidade. "No relaxamento próprio à confiança e à aceitação da fidedignidade profissional do ambiente terapêutico há lugar para a idéia de seqüências de pensamento aparentemente desconexas, as quais o analista fará bem em aceitar como tais, sem presumir a existência de um fio significante."4 Estas falas, no máximo, podem ser delicadamente refletidas, retornadas ao paciente. "Isto nos dá indicação para o procedimento terapêutico: propiciar oportunidade para a experiência amorfa e para os impulsos criativos, motores e sensórios, que constituem a matéria prima do brincar. É com base no brincar, que se constrói a totalidade da existência experiencial do homem."4 A área de amorfia que Winnicott concebe vai além do que comumente consideramos como livre associações; estas já contêm, muitas vezes, uma organização que denota a presença de reações contra o se perder. Freud bem sabia que a livre associação não era livre seqüência de idéias soltas, sabia que eram apenas idéias isentas de uma secundarização: pensava-as enquanto guiadas, em seu fluxo, pelas representações-meta inconscientes. Winnicott propõe, para espanto nosso, o non sense como uma sucessão de idéias, impulsos, sensações, sem ligação entre si; apenas, quem sabe, poder-se-ia postular ligações derivadas de um simples funcionar ao nível "neurofisiológico ou fisiológico, impossível, talvez, de detectar".4 A área da amorfia, uma diluição nas próprias fronteiras, que contém, em si, positividade. Se se tem o privilégio de nela poder estar, se pode criar, por estarmos o mais próximo possível do que Rilke denomina do "sangue em nós", do "indistinguível de nós mesmos". Para Winnicott é a somação das experiências de poder estar nesta área que vai formando a base do eu (self).4 A linearidade do fio que puxei na teorização winnicottiana não deve ser tomada como expressão conjunta da mesma, pois trata-se de uma construção extremamente complexa, cheia de possibilidades para se repensar conceitos-chave da psicanálise e cheia de brechas, demandando trabalho. O mesmo digo em relação ao que agora apresento de minha clínica. Em uma formulação ligeira, como a que faço, só se pode transmitir a idéia ampla de uma caminhada e não todas as hesitações, todas as angústias, quer venham do divã ou da poltrona. Esta apresentação é para ser recebida como uma espécie de caricatura, no sentido da exacerbação de alguns traços que, assim, ganham o destaque necessário para o objetivo deste escrito. Na sala Desde a primeira entrevista, Solange traz um pedido, uma angústia, uma exigência: "me explica", diz ela. Nos seus quase 40 anos, desenvolve um trabalho do qual gosta, está em um casamento que lhe agrada, tem filhos aos quais se dedica e com os quais se preocupa. Amores mornos, regulados pelo empenho em manter uma estabilidade estática, feita de "encaixes" - expressão que Solange usa muito. Preocupa-se com a casa, com o trabalho, com o marido e com os filhos, principalmente quando há desvios em relação a algo esperado - uma nota ruim na escola dos filhos, um atraso do marido na volta à casa, algo no trabalho que "não dá certo". Toda uma regulação, regulamentações, longas listas que escreve das coisa por fazer, incessantes "listas" internas, tudo isto não impede que, na escuta, se entreouça a vivacidade opaca de muitos acordes abafados. Adivinham-se intensidades, paixões, inteligência e sensibilidade. E há medos, muitos. Medos fóbicos, medos-pânico, que a põem "fora de controle", "que a tomam". Medo de ficar presa, medo de espaços amplos demais, medo de doenças graves, medo das coisas que pensa e que não são muito lógicas... Sessões e sessões que começavam, invariavelmente, com Solange dizendo: "hoje estou bem, porque aconteceu... tal e tal coisa"; ou, "hoje não estou bem, estou nervosa, porque tal e tal...". Longas falas, enfadonhas e irritantes para mim. Perceber a qualidade da importância dessas falas foi o que me possibilitou a começar a ser a analista de Solange. Falas fundamentais para ela. Falas que a localizam no sem horizonte do espaço-sessão, onde sabe que as regulamentações não recobrem todo o campo. Sabe, através da angústia, que sempre pode ficar algo fora da rotina, das programações às quais precisa tanto aderir. Com estas falas, Solange reassegura-se, fazendo a sua própria moldura dentro do setting. Em uma de suas primeiras sessões, ela diz: "tem tantas coisas que eu gosto, me parece que eu só posso olhar, como uma vitrine; é para os outros, não é para mim". Uma história na qual predomina uma mãe muito instável, uma mãe que "dava o clima da casa", um pai que não conseguia criar um outro clima para se contrapor, que explodia irado e... desistia. Explosões que também assustam. E um irmão, o amado. Solange à vitrine: o amor lá se passava, aos seus olhos, no olhar da mãe para o filho. Incontáveis vezes, nas sessões, Solange trocava o nome de seu marido pelo do de seu irmão - e vice-versa. A mãe passa de um bem estar, subitamente, para um mal estar; para dias de silêncio, acessos de raiva, desmaios; atribui as mudanças a Solange, que não tem idéia do que teria feito para desencadear o mal materno. Quem sabe, então, é melhor não se mover e ficar na espreita da mãe, que por sua vez a espreita, preocupada com uns episódios de "estranheza". Episódios que Solange tem, desde menina e que a levaram, por indicação médica, quando adolescente, a um período de sonoterapia. Solange espreitada. Solange espreitando olhares. Solange entorpecida, o descanso possível? As estranhezas; "é horrível, é horrível ", "me sinto mal". E nada mais. Durante a análise as estranhezas vão acontecendo: nas sessões em que se distensiona, chegando a cochilar por breves momentos e "desperta" assustadíssima, se sentindo estranha...; em seus relatos de quando está lendo um livro e se "envolve", de quando começa a assistir a um filme e se "envolve" e fica mal... Estranhezas: o mal dos desvios identitários, dos movimentos que não consegue acompanhar par e passo e que a jogam para um nada-pânico.. O aspecto que ressalto é o que, a posteriori, denominei de "sustentação flutuante". Quando me dei conta que as falas de localização de Solange tinham uma função possibilitadora de análise, sem que tenha sido deliberado, as minhas falas passaram a ser, também, "de localização". Eu pensava em voz alta e Solange podia acompanhar os passos do meu pensar. Eu sustentava sua necessidade, permitindo-lhe acesso aos deslocamentos de ênfase, permitindo-lhe seguir as minhas movimentações. Falas discursivas seqüenciais e que assim ilustro, enquanto uma direção genérica: "Hoje você está nervosa porque seu carro quebrou e também por causa disto e disto... Quando você chegou , olhou para a planta na entrada da casa, achou-a bonita, gostou dela. Um outro sentimento, que acontece quando você chega aqui...". Flutuante, porque esta sustentação, uma rede de palavras, não se mantinha igual durante a sessão: ora se afrouxava, ora se adensava e vai sendo, gradativamente, dispensável ao longo da análise. Torna-se possível, para Solange receber surpresas, lacônicas pontuações, meus silêncios. E o mundo pela vitrine vai sendo, aos poucos, um mundo onde ela pode estar. As vivacidades abafadas vão surgindo em lembranças, em tons de voz mais modulados. Lembranças das aulas de piano. A mãe queria muito que Solange estudasse piano. E Solange amava a música. Um feliz encontro. E o quintal da casa, onde ficava à sós e fazia arranjos com plantinhas. As aulas de piano, as plantas em combinações variadas e... as manhãs de domingo! As manhãs em que se esgueirava para a cama dos pais, depois que a mãe se levantava e ficava perto do pai, ouvindo, pelo rádio, os programas musicais que ele tanto gostava. O amor à música, providencial traço de união entre pai, mãe e Solange. Focos vitais de vivos prazeres possíveis. Parecem ser estes os acordes que se infiltravam na escuta, logo aos primeiros contatos. Eles podiam estar, em surdina, com cuidados para não vibrar nas proximidades das mesclas mal entramadas de ternuras e sexualidade, de lábeis identificações. Longo caminho de avanços e recuos, na busca de um lugar onde o que não se "encaixa", o que desarruma, não seja o caos da desintegração, a demandar a fixidez da ordem; onde o que desordena são pensamentos que Solange pode começar a ter, tão estranhos quanto interessantes, são músicas que a "tomam", a ponto de ter vontade de dançar... Solange vai podendo devanear, sonhar, estar em repouso, em relaxamento. Solange sonha "Eu deitei, eu estava calma e sonhei. Sonhei que eu sentia alguma coisa líquida escorrer da minha vagina; eu acordei, eu não tinha nada, na verdade. Voltei a fechar os olhos e senti um filetinho de sangue, como se fosse final de menstruação." Eu, a analista, apenas comento algo sobre o poder estar tranqüila e permaneço com um resíduo de perplexidade e decepção: e isto é sonho??? Mesmo Winnicott - que tanto se ocupou do sonhar, do processo de sonhar - diria, sobre este sonho de Solange, que ele é apenas uma afirmação, que poderia ter sido pensado para ela própria, que poderia ter sido dito para ela própria; que não tem substância de processo primário, que não tem imaginação. O que justificaria, a seu ver, o fato de ter sido sonhado (ao invés de pensado) é que "as pessoas gostam de sonhar".5 Penso diferentemente, não quanto ao gosto pelo sonhar mas quanto a idéia de que poderia ter sido pensado. Pois é, justamente, esta penumbra, este limiar vigília/sonho - no qual se formou este quase-sonho - a condição que permitiu à Solange viver uma relação com o íntimo do corpo, fazer um reconhecimento de seu corpo; dizê-lo. Não, não poderia ser um "eu senti"; havia todo um sentido em ser "sonhei que senti". Se o sonho é o acontecimento privilegiado que abre para os territórios desconhecidos, para o inconsciente, este quase-sonho é, sob este aspecto, o inverso: ele é, em si, o acesso ao real do corpo. Este conteúdo de averiguações e de "sentires", assim ocorreu por ter sido possível a Solange estar nesta condição peculiar da área de amorfia. O que se segue me sugere que o amorfo se abriu em possibilidades. Algum tempo depois... um outro sonho. "Eu mexia no meu umbigo; de repente, sentia que o umbigo estava molhado. Eu olhava e era sangue. Acordei, não estava assustada, nem estranhei. Era mesmo... cordão umbilical!" Solange se espanta, alegremente e eu me espanto, cautelosa; a cautela de quando a clínica vem tão de encontro à teoria que... será que é? Pois é, parece que a teoria não impede que a clínica exista... É o sonho dos sonhos; um sonho matriz. Um sonho mãe, mãe do sonhar. Ele vem marcar, na análise, o momento inaugural de um despregamento do mais imediato das sensações; marcar a abertura para um fantasiar mais amplo onde pode vir a fluir o imaginativo, banhado em investimentos auto-eróticos. Há espessuras, ecoam super-determinações; no próprio ato de sonhar nasce a ampliação-libertação dos limites antes constrangidos às proximidades dos restos-filetes-diurnos. Uma libertação das listas, dos regulamentados, possibilitada pela presença, indispensável, de um cordão; a presença de uma ligação que separa e une, que possibilita um se perder protegido - à distância - pela permanência silenciosa de sustentações. Depois de um tempo... "Ah, tive dois sonhos! No primeiro eu estava num lugar e via o Tom Jobim, imagine, o Tom! É muito legal ver o Tom! Ele estava com um chapéu que gostava de usar, aquele chapéu dele. Ele tirava o chapéu e jogava... como se joga um disco. O chapéu fazia um círculo no ar e depois caía no chão... No outro sonho, eu estava com meu marido, meu irmão e minha cunhada. A gente ia escolher uma casa para morar. E era eu que escolhia a casa! O lugar era na cidade, mas era assim, no centro da cidade. Era um lugar muito bonito. Muito lindo! Eu via em volta de mim construções barrocas, antigas. Eu gosto do barroco. Eram tão bonitas, as construções. Pareciam coisa do Aleijadinho". Ocorrem muitas, muitas associações. Agora, sim, temos sonhos!!! A analista pensa sobre os infantis Volto-me para a amorfia proposta por Winnicott para abordá-la sob outro ângulo; não mais enquanto funcionamento fisiológico mas, antes, na qualidade de uma reserva, uma reserva-nostalgia, lugar de exílio e de permanência. Um nível de registros psíquicos muito próximo ao sensorial, que encorpa as representações conscientes ou inconscientes mas que - ainda assim - se mantém, para sempre, reserva. Infinita enquanto dura... enquanto dura a vida psíquica. Um nível além do circuito - repressão (ou cisão), inconsciente/ consciente. Um além do processo primário. "O processo primário, mesmo em seus aspectos aparentemente mais primitivos, permanece governado pela lógica, não, naturalmente, a lógica do processo secundário ou a da razão, mas, não obstante, uma forma de lógica simbólica."6 Ao mesmo tempo em que esta reserva-nostalgia participa da circulação psíquica em várias instâncias, ela, em si, em seu material constitutivo, não se transforma, não realiza a passagem para a representação-palavra. É exatamente por isto que ela precisa ser recebida, na análise, enquanto tal. Apenas "refletida", se for o caso. Seria uma violência invocar associações, inserções em lógicas primárias e/ou secundárias. Esta reserva amorfa, eu diria, é uma seiva; não é metabolizável; simplesmente nutre em sendo o que é - uma matéria bruta, o sangue em nós. Vou buscar em André Green7 subsídios para um maior rigor. Examinando, com finura, o estatuto das representações - entre a pulsão e a linguagem - o autor pensa que a denominação "representante psíquico" talvez seja pleonástica pois, de fato, "a excitação endossomática se faz representação psíquica quando chega ao psiquismo, na medida em que desde a sua posição de partida até seu ponto de chegada, ela muda de natureza (após ter cruzado um limite)". A própria expressão representante psíquico remete, quando surge na obra de Freud, à noção de delegação, delegação do corpo. Mas, nos textos freudianos de 1923 em diante, o inconciente-representação cede lugar a um outro tipo de inconsciente - um inconsciente-id. "Ao introduzir o id, Freud dá lugar ao irrepresentável. Com o inconsciente da primeira tópica já se admitia que certas representações não pudessem jamais atravessar a barreira Ics-Pcs. Mas, com o tipo de inconsciente que se postula no nível do id pode-se dizer que certas moções pulsionais não acederão jamais à condição de representação inconsciente, condenadas que estão à permanência no estado de psiquismo embrionário próprio da pulsão."7 A pulsão seria, então, um "pensamento sem linguagem", um pensamento em germe. André Green lembra, a este propósito, o trabalho que faz Piera Aulagnier, com a categoria de um mais antigo - o originário, cujo material é o pictograma. "A atividade pictográfica está muito próxima ao funcionamento pulsional, se não é - até mesmo - um sinônimo deste. Interpretando o pensamento de Aulagnier, diríamos, sem rodeios, que ela reformula, em termos mais atuais, o que Freud designava como representante psíquico da pulsão."7 Convém lembrar, no entanto, diz-nos Green, que há uma diferença decisiva: Piera Aulagnier situa o pictograma em uma perspectiva relacional, reconhecendo, com pleno alcance, as projeções fantasmáticas mútuas da mãe e da criança; perspectiva esta presente em Bion, com o conceito de reverie e em Winnicott, com o conceito de holding. No futuro, comenta Green, talvez possamos conhecer mais sobre as representações do que hoje chamamos de irrepresentável. Tentando avançar em direção a este futuro, penso em todo o interesse que há em pesquisarmos os pontos de convergência dos infantis nas teorizações.8 Deixo aqui indicado um ponto, o da intersecção formada pelos planos: — área de amorfia, só possível na presença da condição de um holding-reverie — o originário- pictograma — o estado de psiquismo embrionário próprio da pulsão.
Na sala, a analista sonha "Não há assim, se aprofundarmos a questão, sonhos individuais sem sonhos compartilhados e nós não sonhamos sozinhos, mas nos sonhamos naquilo que o outro também nos pode sonhar, nos oferecer de sua própria humanidade." 9 Eu "sonhei" Solange, na medida em que me foi dado ouvir os seus abafados pulsares de vida; quem sabe, também, por suas questões terem funcionado como restos diurnos que se enlaçaram, em algum ponto, com meus abafados... De qualquer forma, eu escutei o que não estava na ordem do sintomático e por aí, penso eu, puderam ir surgindo os seus amores: pelas plantinhas, pela música e - com eles - os seus amores e seus ressentimentos pré-edípicos/edípicos. Suponho que esta escuta pôde manter, na transferência, a espera, a esperança. A possibilidade - e a paciência - para a minha sustentação flutuante também foi, por aí, sustentada. Havia vida, em algum lugar havia! Parodiando Winnicott, eu poderia ter sonhado (e não pensado para mim mesma)? Poderia, mas ... não foi assim. Em um espaço-tempo indefinido, entre o pensar e o sonhar, eu escutei sonhando. Os acordes
De início apenas audíveis, os acordes passam a soar alto na sala. Por vezes, alto demais! Em minhas dificuldades para lidar com as conseqüências do ter ousado invocar "demônios", uma canção amada referencia e alenta. Ela me permite explicitar o que venho pensando sobre o estético na clínica. Mucuripe é o nome da canção. Fagner e Belchior são os autores, que, com a beleza da simplicidade, compõem uma roupa muito especial: "Calça nova de riscado, Paletó de linho branco, Que até o mês passado lá no campo ainda era flor". O estético: peregrinações, trânsito renovado e renovável, da flor ao paletó. O estético: movimentação dos impregnados, criações entre a amorfia e as formas. O estético: entre o pensar e o sonhar, a liberdade das não-integrações.
NOTAS
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