Non-Sense

Resenha de Oscar Cesarotto, Contra-Natura : Ensaios de Psicanálise e Antropologia Surreal,
São Paulo, Iluminuras, 1999, 185 p.

 

Os meninos roem unhas.

E, se as unhas roessem os meninos ??

Apesar deste dístico não constituir strictu sensu um chiste ou uma piada, seu efeito cômico é inegável; parece haver uma brincadeira a partir da qual, invertendo-se o sujeito da frase pelo objeto direto, produz-se um impacto lúdico cujo produto é o riso .

A reversão de perspectiva operada no sentido da primeira frase para a segunda é pontual e rápida, mas não se esgota aí. O riso parece emergir da possibilidade de representação imaginária da cena/figura e da surpresa produzida pela estranha operação de onicofagia invertida. Tanto no primeiro momento quanto no segundo joga-se com o efeito do inédito e seus imprevisíveis desdobramentos.

Encorajada pelo título do livro e principalmente pelo estilo do autor, recorri ao artifício acima para tentar evidenciar o vértice a partir do qual o conjunto de textos que compõem Contra-Natura parece-me terem sido escritos. São textos anedóticos: anedota quer dizer inédito.... "Inédito é o não conhecido, o inesperado, o sobrecomum adotado como hipótese de trabalho ou como instrumento de análise". São chistes que põem em jogo idéias instigando a reflexão, juntando fatos contrastantes para indicar novos sentidos, liberando o não-senso para apontar possíveis significados.

O livro abriga um conjunto de dezoito artigos escritos entre l980 e l998, publicados em várias revistas e jornais, alguns produto de transcrições de conferências e palestras. Agrupados em seis subtítulos ("Sexo Explícito, Inconsciente e Cinema, Arte Pulsional, Metapsicologia, Conseqüências Clínicas e In Memoriam" ) são textos independentes entre si que transpondo o território da clínica, e a partir de uma impaciência frente ao cotidiano, debruçam-se sobre fatos e temas da cultura expondo falsas evidências, costurando novas articulações, instrumentalizando o sarcasmo à serviço da busca de novas verdades.

Segundo o próprio autor, o desejo de agrupá-los num livro adveio do fato de estarem sendo usados e citados sem referência à sua autoria, donde podendo ser plagiado, melhor juntá-los, patenteá-los e, dando-lhes um espaço comum, nomeá-los. Contra-Natura – Ensaios de Psicanálise e Antropologia Surreal, título escolhido após um espaço de tempo bastante longo, funciona como um après-coup que, à distância, e a partir de um valor retroativo, pode apontar tanto para o sentido que os textos vieram a ter para o próprio autor quanto para o prisma através do qual gostaria que fossem lidos.

Registrando sua clínica ou tomando as manifestações da cultura como objeto, recriando mitos para que o cotidiano revele seus sabores, o psicanalista, quando escreve, produz literatura, na medida em que "de qualquer redação uma hipótese sobre o fantasma" (p. 158), onde o que transparece, para além do tema escolhido e do estilo adotado, é uma criação que revela a verdade do autor, nos diz Cesarotto. Poderíamos complementar dizendo que o que ele escreve são "estórias" destinadas à captação de momentos, pelas quais circula o trágico e o cômico sob seu olhar aguçado. "São estórias que não querem ser história. A estória, em rigor deve ser contra a História. A estória, às vezes quer-se um pouco parecida à anedota. A anedota pela etimologia e para a finalidade requer fechado ineditismo. Uma anedota é como um fósforo: riscado, deflagrada, foi-se a serventia. Mas sirva talvez ainda a outro emprego a já usada, qual mão de indução ou por exemplo instrumento de análise, nos tratos da poesia e da transcendência.

À guisa de ilustração, tomemos o texto no qual o enigma do que quer uma mulher é relançado através da questão do papel da feminilidade dentro da sexualidade feminina, formulação que só é possível dado que uma mulher pode não ser feminina (p. 15). Logo no início do texto o autor, desafiadoramente, enuncia que "o papel dos homens é cortejar as mulheres e confirmá-las com seu olhar, desde que duas condições sejam cumpridas: do ponto de vista deles, algo deve ser objeto deste olhar, que, da perspectiva delas só é suportável se acompanhado de um silêncio que não nomeia o que é fitado" (p. 16). Sem percorrer o caminho teórico que autoriza esta afirmação, fica implícito que é com a mãe que descobrimos o primeiro gozo, apegados ao seu corpo intensamente catexizado e que, por caminhos diferentes, sob a égide da castração, o que se joga na inveja do pênis (para ambos os sexos) é esta primeira relação com a progenitora. Na tentativa de eludir a castração a menina voltar-se-á para o pai, esperando dele obter o que sua mãe não lhe pode dar. Seu olhar a confirmará e, através de um acordo no qual os homens serão o sujeito do desejo e ela objeto, dar-lhe-á acesso à feminilidade. Isto subentendido, nosso homo ludens, invoca Levi-Strauss. Não o antropólogo, mas o fabricante de jeans. A partir da propaganda da calças Levis ("Dá ao homem algo da mulher e à mulher algo do homem") o autor escancara a lógica que guia o desejo do homem pela mulher: ele só aceitará algo dela, se ela tiver algo do homem, por exemplo, o zíper da calça na entreperna! Para aceitação masculina, traveste-se com calças unissex "colocando-se não só no lugar da mulher mas também no do homem para buscar algum saber sobre o desejo,..., mantendo sua polivalência fálica intacta" (p. 16). Menos do que a conclusão teórica em si, o que é digno de nota é a escolha do apelo cômico do zíper da calça que, de forma hilariantemente incisiva, ilustra a tese proposta.

Dilapidando a seriedade, Cesarotto constrói uma antropologia surreal para dar conta das manifestações do humano exatamente onde o inconsciente mete o bedelho. É o caso de "Grotesco", texto incluído no subtítulo ‘Arte Pulsional’, onde esboça uma rápida metapsicologia daquilo que suscita riso ou escárnio proveniente do ridículo, do exagero ou do anti-natural. Partindo da teorização freudiana sobre a estima narcísica das fezes como primeiro produto do organismo e a possibilidade de identificação de ouro com imundície, o que surpreende neste mini-texto é a habilidade deste Chaplin da psicanálise de conseguir pinçar um fato para ilustrar as palavras do mestre vienense e dele extrair remates originais. Cita a obra de um tal Piero Manzoni, que em 1961, vendeu noventa latas cheias de seus próprios dejetos, cada uma com trinta gramas, custando trinta e dois dólares, o equivalente à quotação do preço do ouro naquele momento. A inflação valorizou a obra e, hoje, paga-se por elas a quantia de setenta e cinco mil dólares a unidade! A apresentação deste artista insubordinado mas criativo a ponto de transformar ouro a partir de fezes induz ao riso/espanto catalisador entre o nem totalmente dito (... este sujeito é um impostor), nem o totalmente confessado (...eu também gostaria de ganhar dinheiro tão facilmente). Além de tornar evidente a antítese entre o mais valioso e o mais desprezível e a equivalência simbólica dinheiro – cocô, o autor nos joga no terreno do contra-senso, conduzidos a um riso proveniente do absurdo. "A psicogênese dos chistes nos ensinou que o prazer em um chiste deriva do jogo com as palavras ou da liberação do non-sense e que o significado nos chistes pretende simplesmente proteger o prazer contra sua supressão pela crítica". "Assim como São Tomé postulava que o lucro é sempre imundo, em contrapartida, deveria ser afirmado que, em determinadas circunstâncias a porcaria pode virar mais-valia" (p. 103), conclui Cesarotto de forma bem-humorada.

O livro todo é um convite à supressão da crítica e à liberdade de observação que, somados a um engenhoso conhecimento da psicanálise, comprovam o quanto a cultura continua se manifestando através de formas lúdicas. Rimos durante a leitura porque nos comprazemos em ver que a razão se engana em relação à realidade e porque ela se torna ridícula por não ser capaz de alcançá-la. "Os conceitos pelos quais a razão ‘pensa’ a realidade estão sempre sujeitos a um desnudamento que revele sua falsidade e esse desnudamento nada mais é que o objeto do riso". Talvez resida aí a verdade de que nos fala o autor, fórmula de compromisso em que a possibilidade de insurreição encontra válvula de escape.

Para citar uma última estória, esta peculiarmente séria, mas impregnada do mesmo estilo, "Opção Freudiana" (anteriormente publicada na revista Opção Lacaniana) deveria ser lida pelo menos duas vezes. Nela, nosso escriba se pergunta sobre o motivo da psicanálise ter sido inaugurada pelo estudo da histeria, mais especificamente pelo texto homônimo assinado a quatro mãos, por Freud e Breuer. O que parece ser até quase o último parágrafo mais uma homenagem aos cem anos da Psicanálise, retomada através da teoria do trauma e da constituição do objeto da nova ciência da alma, é retomado no final do artigo para mostrar como o desvinculamento de Breuer constituiu-se numa "opção desiderativa clínica, intelectual e revolucionária" (p. 128).Vista sob o prisma de uma escolha de separar-se de um médico mais velho, aceito e reconhecido nos círculos científicos vienenses, a opção de Freud não parece apenas revolucionária mas visionária: um corte na relação como prenúncio do corte epistemológico que anunciaria o inconsciente como descoberta fundamental, corte na representação do homem de si mesmo e do mundo.

Tais pequenos inesperados, descentramentos súbitos, fazem a delícia da leitura dos textos e é pela ação do imprevisto que eles ganham seu sentido pleno. A linguagem coloquial mescla-se ao uso preciso e lapidado do vernáculo onde formalidade e informalidade se equilibram com leveza e fluidez.

Inquietações psicanalítico-surrealistas? Textos de psicanálise aplicada ao cotidiano? Conjecturas psicanalítico-ficcionais? "São textos trans-psicanalíticos por definição, meta-freudianos na origem e para-lacanianos na essência (...), que falam por si, deveriam deixar muito a desejar" (p. 9).

Citando Guimarães Rosa: "o livro pode valer pelo muito que nele não deveu caber".

 

Mania S. Deweik é psicóloga, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae

 

NOTAS

1. Tenório da Motta, L. "As Margens do Sentido em Guimarães Rosa", in Catedral em Obras, São Paulo, Iluminuras, 1995, p. 131.
2. Rosa, João Guimarães, "Aletria e Hermenêutica", in Tutaméia-Terceiras Estórias, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985, p. 7.
3. S., Freud, O Chiste e Sua Relação com o Inconsciente, Rio de Janeiro, Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, 1988, volume VIII, p. 130.
4. Alberti, Verena, O Risco e o Risível na história do pensamento, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1999, p. 186.
5. Rosa, João Guimarães, op. cit., p. 17.