Psicanalisando a psicanálise

 

Resenha de Paulo de Carvalho Ribeiro, O problema da identificação em Freud. Recalcamento da identificação feminina primária, São Paulo, Editora Escuta, 2000, 315 p.

O livro recentemente publicado de Paulo de Carvalho Ribeiro está na categoria dos raros textos psicanalíticos que podem, apesar dos desafios que impõe ao leitor, vir com o tempo a deixar marcas muito nítidas, singulares e profundas na grande comunidade dos leitores de Freud. O autor pertence, junto a alguns colegas brasileiros que se doutoraram sob a orientação de Jean Laplanche, a uma parte significativa da geração de psicanalistas bem pensantes que reúne a psicanálise à vida universitária para produzir trabalhos de qualidade indiscutível no plano nacional e internacional.1 

O livro de Paulo Ribeiro é o resultado de cerca de 12 anos de pesquisa e elaboração teórica. Em primeiro lugar, os anos do doutorado na França, mas , em seguida os muitos mais anos de reflexão, estudo e escrita, já em Belo Horizonte, durante os quais o livro foi sendo composto e, em especial, esteve sendo cons-truído seu longo capítulo 7, totalmente novo em relação à Tese defendida em Paris. Neste período, como é natural, o desenvolvimento do trabalho foi se mesclando às atividades docentes e clínicas do autor, o que traz ao texto uma vitalidade que é mais rara de encontrar em trabalhos puramente acadêmicos.

É preciso que se saiba que não é um texto fácil, mas é sempre e em alto grau um texto cristalino, bem pensado e bem endereçado. Seu destinatário é o leitor que se dispõe também a pensar e a pesquisar à medida que lê, o que requer tempo (não é livro para leitores apressados), e não se protege das surpresas e descobertas que esta leitura lhe pode proporcionar. A capacidade de conduzir lentamente o leitor através de uma argumentação densa e detalhada, às vezes por searas aparentemente áridas, sem perder em clareza e elegância é, sem dúvida, um dos grandes méritos deste livro.

O volume está estruturado em três parte (embora isso não fique claro no sumário) sendo que nas três se sustenta uma du-pla tese ou, em outras palavras, uma tese de duplo aspecto. O pri-meiro aspecto diz respeito à existência de uma identificação feminina primária em todos os proces-sos de constituição do psiquismo, em meninos ou meninas. O segundo aspecto diz respeito ao necessário e imprescindível recalcamento desta identificação primária com a mãe, ou seja, desta posição de radical passividade, para que a constituição do psiquismo possa se concluir de forma minimanente organizada e saudável, isso também em ambos os sexos. A esta passividade radical intolerável e, ao mesmo tempo, constitutiva e inevitável, eu chamaria, nas trilhas de Lévinas, de posição ‘pré-original’.

Na primeira parte, corres-pondendo aos quatro primeiros capítulos, Paulo Ribeiro submete alguns textos de Freud a uma análise extremamente engenhosa. Os textos analisados são os referentes ao narcisismo - principalmente, mas não só, Introdução ao Narcisismo -, Psicologia das Massas e Análise do Eu, O Eu e o Isso e Inibição, Sintoma e Angústia. O engenho está em de-monstrar - pois trata-se rigorosamente falando de uma demonstração -, mediante uma leitura detalhada de Freud, que os textos revelam simultaneamente a descoberta da identificação primária e seu recalcamento. Daí, a impossibilidade, reconhecida por todos os estudiosos da obra freudiana, dele elaborar uma teo- ria cabal e consistente da identifi-cação. Sobre este tema haveria muito a dizer e é mesmo imprescindível no aparato teórico da psicanálise, mas, ao mesmo, tempo, há neste tema algo de muito básico que não pode ser visto e dito completamente.

Os textos de Freud analisados nestes quatro capítulos, são desconstruídos para que, perdendo a suposta e ilusória homogeneidade que a mera identificação de suas teses principais sugere, comecem a nos contar duas histórias simultâneas. De um lado, a história da descoberta semi-abortada de uma identificação primária com a mãe e, de outro, a história mesma do aborto, estando ambas as histórias implicadas na própria história da construção do pensamento psicanalítico. Freud, com o concurso às vezes impertinente de alguns colaboradores, teria sido o primeiro a ter descoberto a passividade ‘pré-original’ da identificação feminina primária e, horrorizado, o primeiro a sucumbir à necessidade de recalcar profundamente esta descoberta bem como a voz importuna de alguns discípulos mais afoitos. Neste duplo movimento, ele estaria apenas repetindo, no plano teórico, o que é necessário que ocorra em cada um de nós para nos livrar das agonias psicóticas que a permanência da identificação primária com a mãe produz se não for recalcada.

Nesta medida, o legado de Freud pode ser visto a uma outra luz. Não se trata apenas de uma teoria da neurose, mas de uma teoria que se constitui como "neurótica", o que, talvez, seja a sina de todas as teorias que, mal ou bem, se constituem. Assim, sem focalizar a biografia de Freud, mas apenas a sua produção, o que Paulo de Carvalho Ribeiro realiza é uma psicanálise da teoria psicanalítica, criando uma modalidade de leitura desconstrutiva que, certamente, poderia ser exercida sobre outros textos e mesmo sobre qualquer texto, principalmente os "teóricos". A questão geral desta modalidade de leitura seria algo como: o que um texto, principalmente se for um texto teórico bem construído, deve calar para que se constitua como um dizer consistente e estrutu-rado, supondo-se, contudo, que o que ele cala não é o que está nas margens da insignificância, mas, ao contrário, pertence ao âmago de seus "fundamentos", de suas "origens". Haveria sempre uma adesão passiva, ‘pré-originária’ e "feminina" ao "obje-to" a ser recalcada no momento neurotizante da teorização. Teorizar seria, então, parte do esforço de conquistar uma auto-ridade, isto é, uma posição ativa e "masculina" diante do objeto.

Enfim, as leituras de Freud nos quatro primeiros capítulos já seriam mais que suficientes para assegurar o interesse psicanalítico e epistemológico do livro.

A segunda parte, porém, embora ainda baseada no método de leitura já mencionado, traz uma novidade. Agora são dois casos clínicos de Freud - o pequeno Hans e o "homem dos lobos" - que ocupam os dois próximos capítulos. Em ambos, o curioso e extremamente divertido é vermos, através das análises sutis a que Paulo Ribeiro submete os textos em seus mínimos detalhes, Freud às voltas com a identificação feminina primária tal como se revela nos dois casos, mas tentando ao máximo não vê-la e, mais ainda, tentando evitar que ela opere de forma negativa sobre seus "personagens". O capítulo sobre o pequeno Hans é primoroso. O texto freudiano, lido por Paulo Ribeiro, nos revela todos os indícios da identificação primária no menino (um "desejo de passividade") - tal como pressentida pelos dois homens aflitos (Freud e o pai do garoto) - e, principalmente, todos os indícios de que as interpretações de Freud oferecidas ao pai, têm como finalidade esquivar-se do reconhecimento angustiante daquela identificação e, em contraposi-ção, instalar no menino uma forte identificação paterna. Não se trataria, portanto, de uma análise do pequeno Hans, mas da sistemática instauração de uma estrutura neurótica viável mediante interpretações destinadas a enfrentar os riscos de afrouxamento do recalque que mantém a identificação feminina primária sob um certo controle.

E assim chegamos à terceira parte, o capítulo 7, decisivo e longo, como de costume... Neste momento, muda a estratégia retórica de Paulo de Carvalho Ribeiro. É claro que o capítulo se sustenta em leituras, aliás inúmeras e variadas leituras, não só de obras de Freud. Neste capítulo, alias, o autor nos oferece um verdadeiro show da sua capacidade de articular muitos pensamentos e informações e das mais diversas proveniências para a montagem de uma concepção singular do processo de constituição do psiquismo. O que se pretende agora não é mais desconstruir os textos de Freud, mas elaborar uma teoria da constituição do psiquismo em que a identificação feminina primária possa ser devidamente considerada. O capítulo se intitula "Em busca de uma metapsicologia à altura das psicoses", mas, na verdade, de um lado o alcance e o interesse é muito maior do que o título sugere e, de outro, a ligação com a psicose só é explicitada e trabalhada nas últimas poucas páginas deste capítulo que tem mais de cem.

Movido pela poderosa argumentação do autor nas duas partes iniciais, chega-se a este capítulo com uma pergunta que se desdobra em várias: será possível construir alguma teoria consistente sem recorrer ao recalcamento da identificação feminina primária? Haverá uma modalidade não-neurótica de teoria, uma modalidade em que a identificação com o pai possa ser suplantada pelo reconhecimento de uma identificação ‘pré-originária’ com a mãe? Será que a identificação feminina primária, tão bem "acessada" pela via desconstrutiva, sobrevive ao esforço teórico se considerarmos que uma teoria está do lado da atividade e da autoria enquanto que a identificação feminina primária corresponde à passividade radical ‘pré-originária’? Será que pode se estabele-cer alguma relação estável e vi-gorosa entre, de um lado, o cam-po teórico, que é essencialmente um campo de diferenças, articulações e, portanto, de relatividades, e, de outro, a posição da passividade radical ‘pré-originária’, que é essencialmente da ordem do absoluto, do indiferenciado?

Um resposta afirmativa a este conjunto de questões implicaria, creio, na redução do alcance das análises anteriores. O recalcamento teórico da identificação feminina primária teria sido um "erro" de Freud, um reflexo de uma característica de sua personalidade, vale dizer, da sua impossibilidade de entrar plenamente em contato com esta dimensão do ‘pré-originário’ do psiquismo, por ele, contudo, entrevista. Em conseqüên-cia, um psicanalista dotado de outra compleição subjetiva poderia realizar finalmente a façanha de construir a teoria da identificação feminina primária, tal como parece ser, aliás, o propósito do sétimo capítulo.

Eu, no entanto, gostaria de levar as demonstrações de Paulo de Carvalho Ribeiro às suas últimas conseqüências, dando assim um alcance muito maior a elas. Neste caso, porém, a teoria apresentada neste capítulo, exatamente no que tem de mais bem acabado e convincente, deve ser de alguma maneira falsa, posto que deve estar ela também se erigindo sobre alguma operação de recalque daquilo que, supostamente, é seu objeto próprio. Mas se ela for falsa, naturalmente, seriam também equivocadas todas as análises precedentes que, no entanto, exibem um vigor e uma capacidade de convencimento incontestáveis. Em contraparti-da, se as análises desconstruti-vas dos textos de Freud nos levam de forma tão irrecusável ao reconhecimento da passividade radical, nada mais justo e até obrigatório do que fazer desta passividade o tema de um imenso e elaborado capítulo teó-rico. Ou seja, ....

Confesso que orientado pelas questões acima, quanto mais me encantava com o esforço mobilizado neste capítu-lo 7, mais desconfiado ia ficando. Aonde estará o logro?

Mas aqui impõe-se uma questão: esta minha posição desconfiada já não seria uma maneira de estar me defendendo da exposição ao texto, ou seja, já não existiria nesta minha postura "espertinha" algo de um certo "protesto viril", uma tentativa de recalcamento da minha identificação feminina primária transferida para a relação com o objeto-texto a cuja sedução eu me encontrava exposto? Mas pensar assim já seria, antecipadamente à leitura do capítulo 7, ter me deixado seduzir pelos diversos capítulos iniciais dando razão, portanto, à tese que o capítulo 7 pretende expor de forma cabal e, por isso mesmo... falsa.

Neste ponto da minha resenha só posso sugerir aos leitores que dediquem o tempo necessário à leitura destes sete capítulos. Que se entreguem, de início, à marcha deconstrutiva dos seis primeiros, aos quais toda atenção é fartamente recompensada. Que prossigam então para a erudita e inteligente construção do sétimo com sua riqueza de referências psicanalíticas e outras. Neste capítulo 7 encontra-se uma quantidade inacreditável de idéias e articulações teóricas capazes de nos apresentar uma concepção muito complexa dos processos e momentos mais básicos da constituição do psiquis-mo. Além de Freud, e, muito especialmente, Jean Laplanche, Silvia Bleichmar, Margarath Mahler, R. Stoller, R. Geenson, Jacques André e Jacques Lacan, entre os psicanalistas, têm participação destacada; do lado dos filósofos que leram e pensaram a psicanálise, Derrida e Borch-Jacobsen comparecem em momentos importantes. Em acréscimo, encontramos alguns autores de áreas afins (Piaget, etólogos e neurobiólogos).

Que este grande painel com tantos elementos possa ter sido montado de uma forma muito bem estruturada e cativante revela o quanto de recal-camento da identificação feminina primária nosso Autor conseguiu operar em sua bela e eficiente escrita.

 

 

 

NOTAS 

1. Ao mesmo grupo pertencem Maria Tereza de Melo Carvalho (MG), Marta Rezende Cardoso (RJ) e Luís Carlos Tarelho (SP), orientado por Jacques André, todos presentes e mencionados no livro que estamos examinando.

 

 

Luís Claudio Figueiredo é psica-nalista, professor na PUC- SP e na USP.