Scheerazade e o jogo da travessia

Resenha de Purificación Barcia Gomes,
O método terapêutico de Scheerazade - Mil
e uma histórias de loucura , de
desejo e cura,  São Paulo, Iluminuras, 2000, 221 p.

  

       Hoje em dia, talvez não cause estranheza afirmar que as histórias de Scheerazade tiveram efeito terapêutico sobre o seu famigerado sultão, dada a amplitude dos usos de terapêutico. A maior parte destes parece se referir a práticas que têm o efeito de fazer  alguém se sentir ou se mostrar melhor, quanto à saúde física ou psíquica. Nada como ouvir uma história bem contada antes de dormir. Além disso, sabemos que a heroína não morreu no   final da história e que, portanto, o sultão se transformou. Ainda, atribuindo poder terapêutico as suas narrativas, estaríamos na companhia de pensadores como Borges e Walter Benjamin. Ora, direis, mesmo assim, esse tipo de entendimento imediato é insuficiente para invocar a cura analítica, pois não contempla a especificidade de nosso método.

       Purificacion Barcia Gomes assume a conjectura segundo a qual em As mil e uma noites “existe uma cura psíquica” (p. 52). Ao mesmo tempo, admite que “o paciente em questão (o sultão) não passa pelas vicissitudes da posição depressiva, e não é descrita uma reparação convincente dos horrendos homicídios que ele teria perpetrado” (p. 52). Com paradoxos como este, desde o início, provoca nosso espanto e prazer de pensar. Ao fazê-lo, começa também a nos conduzir por um caminho que redescobre características exclusivas do método psicanalítico.

       Ao apresentar a “história moldura”, aquela que funda e desencadeia as demais, a autora detém-se na assertividade de Scheerazade, na sua função de estrategista, no seu papel de narradora sem neutralidade, disponível para satisfazer seu ouvinte assassino, inclusive sexualmente. E, “apesar das aparências em contrário”, não desiste de indagar se “terá Scheerazade algo a nos ensinar quanto à essência do ato analítico, quanto àquilo que é verdadeiramente terapêutico, ela que, através dos séculos, se mostra tão absolutamente tranqüila no tocante à sua habilidade terapêutica” (p. 14).

       Seguir as indagações desse ensaio psicanalítico não nos leva a um itinerário de traçado simples. Destaquemos primeiro a questão do embedding,  os esclarecimentos que recebemos a respeito, e sua utilização no desvelamento da ação de Scheerazade. A técnica da heroína consiste basicamente em introduzir novos narradores a cada história. Cada história, por sua vez, está dentro de uma outra, e assim por diante. Um pescador encontra um gênio, que lhe conta sua história; depois de ouvi-lo, o pescador é levado a uma situação em que o gênio o ameaça de morte; mesmo apavorado, tenta dissuadí-lo, ou adiar o desenlace, contando-lhe uma história. Neste momento, o ouvinte de Scheerazade tem a narrativa interrompida e é levado a aguardar mais uma noite.

       As digressões informativas e elucidativas de Purificacion também interrompem seus comentários imediatos em relação às histórias de Scheerazade. O leitor é chamado a seguir desenvolvimentos de seu pensamento clínico e metapsicológico, que se inserem em momentos das narrativas que ela está a evocar. Assim, por exemplo, recursos da figurabilidade, destacados daquelas que acompanhamos, vão sendo associados com situações da prática e da teoria psicanalíticas. Tomemos o caso do tratamento dado à história do carregador de Bagdá, conduzido por uma bela jovem a um palácio, onde encontra outras duas, também formosas, um banquete magnifíco e folguedos que têm, como centro manifesto, certos jogos verbais. Depois de apresentar com humor bem dosado esse episódio, Purificacion nos põe em contato com idéias de uma autora1 que a tomou anteriormente como objeto de pesquisa e que tem consonância com suas investigações. Dentre essas, vale sublinhar a de que o carregador “é uma espécie de imagem especular do leitor, que também participa do jogo com regras próprias, ou seja, o jogo da narrativa, e que ambos, carregador e leitor, são testemunhas das histórias que serão narradas” (p. 154). Discorda, em seguida, de outra conclusão da mesma autora, para a qual o rapaz representa também a insuficiência de aptidão para funcionar no âmbito metafórico. Entende que o jogo de nomeação do genital do jovem, imposto pelas anfitriãs, tem suas regras compreendidas por ele “de forma precisa” (p. 155). Expõe seu ponto de vista, mostrando a semelhança entre esse jogo e aquele que o analista propõe para o analisando, pois este último acaba se dando conta de que está entrando em um ambiente onde o uso da linguagem não é o mesmo do dia-a-dia. Equivalentes aos bofetões, que as jovens desferiam no carregador, o qual respondeu primeiro com incauta concretude às suas perguntas (até perceber que na situação só se aceitavam metáforas), certos golpes verbais do analista indicariam e lembrariam ao paciente as regras do jogo em que estão entrando. A digressão de Purificacion fundamenta seu assinalamento de que ali, na situação analítica, “a única ação concreta que se desenrola é a narrativa” (p. 156). Retoma a personagem do jovem carregador, tirando partido, tanto das possibilidades de entendê-lo como “representante das forças dos instintos”, quanto das que resultam de colocar sua resposta às moças como “uma intervenção analítica adequada, no sentido de apontar os conteúdos reprimidos/.../ de forma sutil e jocosa, que tem mais chance de ser aceita sem repúdio pelo paciente” (p. 156). Esse movimento, de um trecho apenas do livro, que procuro fazer entrever, continua com a abordagem do tema do acesso à metaforização compartilhada, incluindo informação a respeito de uma pesquisa científica em psicologia, sobre o amadurecimento da capacidade de metaforização2 e, de seus resultados, que não mostram desacordo com os enunciados fundamentais da teoria do desenvolvimento da libido.

       A autora vai propondo inúmeras respostas a suas perguntas iniciais e a outras com que, juntamente com o leitor, se depara. O encaminhamento das questões vai se dando em níveis ou camadas diferentes, para os quais ela nos transporta. Assim como a questão que se dirige ao campo da metáfora, a da narrativa (tratada anteriormente no livro), da qual exibe um mínimo flash, dispõe-se em diversos patamares. É apresentada no capítulo III, cujo título convém grifar: “Relação entre Estrutura Narrativa e Função Terapêutica em As mil e uma noites e na Psicanálise”. Purificacion detém-se nas contribuições trazidas pela obra de André Green, retomando, sobretudo, sua idéia a respeito de o texto literário sofrer a pressão de dois vetores que o compõem: “aquele que se origina exatamente no corpo e busca o prazer, que constitui a pulsação do texto (pressão vertical), e o que se refere às palavras, às frases, ao estilo, não apenas como linguagem, mas também como escrituras ou experiências alheias que influenciaram ou obcecaram o autor (pressão horizontal)”(p. 79). Atendo-se ao segundo vetor, ela move sua escrita para uma outra camada, propiciando a quem a segue usufruir do que há de melhor em crítica literária. Sem poder me estender, quero pelo menos indicar o diálogo com o pensamento de Todorov, de que seu ensaio psicanalítico nos permite participar. Purificacion mostra sua visão dos motivos desse autor para tomar As mil e uma noites como exemplo de narrativa pura e de narrativa de maravilhas (marvellous narrative). Recorto sua informação de que, para ele, as personagens da coletânea não são concebíveis para além de suas ações, no sentido de terem algo como uma interioridade, onde poderíamos apreender motivos ou causas para seus atos. Estaríamos pois diante da narrativa “a-psicológica”, trama de ações “intransitivas”, que não remetem para perfis de personalidade das personagens.  Para a autora, embora não empregue esses termos, Todorov sugere que se trata de condensação e de fusionamento. Ela observa que, “na narrativa medieval árabe, a causa e o efeito encontram-se fundidos, um sobre o outro, de maneira a se tornarem indistinguíveis: cessa o movimento de causa-efeito” (p.  81).

       A partir do tipo de colocação acima, e de elos que se vão estabelecendo, nós, leitores, prosseguimos adentrando-nos em questões de importância clínica e metapsicológica. Indico brevemente a comparação feita pela autora entre a narrativa de maravilhas e um romance como o de Naguib Mahfouz, Noites das mil e uma noites. Somos brindados com análises do modo pelo qual, nesta obra, em que personagens da coletânea são retomadas de modo alegórico e crítico, elas, por assim dizer, recebem um sopro de complexidade e deixam transparecer suas contradições; tornam-se personagens cheias (round). Trazendo paralelamente exemplos de As mil e uma noites e comparando personagens, Purificacion aponta o fato de o vizir, pai de Scheerazade, fadado a obedecer, “não ter escolha quanto a mandar a filha para o leito de morte é relegado a segundo plano” (p. 82); não presenciamos através dele conflitos em relação aos quais reagiríamos emocionalmente. Já, diante da temática privilegiada pelo escritor egípcio, a saber, “agressividade, ambição e luxúria desregradas” (p.  83), seríamos tomados por uma certa “melancolia”, pois tenderíamos a nos identificar com seres que acreditam em seu livre arbítrio, mas que tem sua alma à mercê dos gênios. Estes são “como forças brutas, sem espírito ou razão, que tomam os homens sob a forma de dilemas morais ou conflitos intrapsíquicos, deixando-os sem saída. As personagens se debatem, cada qual a seu estilo, de acordo com sua subjetividade” (p.  83). Ela argumenta, após aprofundar a comparação apenas sugerida aqui, que apesar de as personagens da coletânea não constituirem propriamente subjetividades, não são a-psicológicas, como as chamou Todorov, uma vez que, mesmo sendo modelos vazios, representam a luxúria, o ódio, a voracidade, o amor etc. Propõe então chamá-las a-subjetivas. Mas não vê, em sua função paradigmática no “compêndio de moral” (p.  85) que são As mil e uma noites, impedimento para o exercício da imaginação analítica. Pensa que esse tipo de narrativa estaria próximo da visão esquizo-paranóide, “em que a realidade psíquica é desmembrada em suas partes componentes” (p .85) e constitui uma narrativa metapsicológica, em que se personificam, em estado puro, paixões com as quais todo sujeito se encontra às voltas.

       Em outra camada do livro, abordando “tentativas narrativas feitas em psicanálise” (p. 109), a autora explora vários perfis de narrador e ouvinte, às vezes intercambiáveis na relação analítica, e investiga estilos e mutações nas formas de a escrita psicanalítica descrevê-la3. Apesar de o analista ser, na maior parte das vezes, identificado com o ouvinte, novos paradoxos trazidos por Mil e uma histórias de loucura, de desejo e cura, dão-nos ardilosamente no que pensar. Em um dos perfis da situação analítica descritos, “à semelhança de Scheerazade, o analista põe idéias em circulação. Algumas parecem fabulosas, improváveis, outras são mais deglutíveis, ou até mesmo indiscutíveis” (p. 91). Quando é ele, o analista, quem tem que ter paciência, pode inspirar-se ainda na rainha-heroína, que ensina a “aguardar, surpreender com fábulas ainda mais exóticas e delirantes do que as mais temidas e secretas criações da imaginação do paciente/.../ sem pôr em risco a integridade narcísica do ouvinte” (p. 92).

       Schariyar, o temível sultão que escuta Scheerazade, teria sido traído pela primeira mulher, segundo algumas versões dentre as inúmeras consultadas pela autora. Tanto sentenças, impulsivamente ditadas por sultões personagens outras, dando fim violento a seus vizires e mulheres, quanto atitudes magnânimas, inspiradas pelo amor e pelo reconhecimento da sabedoria, constituem temas recorrentes, de histórias que ele se dispõe a ouvir. Purificacion comenta a maestria que o analista às vezes atinge quando tem que fazer o analisando se deparar com assinalamentos nada lisonjeiros, que o integram na história da espécie humana, sem deflagrar a morte da análise nem a morte psíquica na análise. Mil e um encontros viriam então a estar entre os possíveis de ambos, inclusive aquele em que o analisando-ouvinte teria condições de olhar para si com isenção suficiente.

       Além de pesquisar origens, versões e traduções da coletânea, a autora tomou para si o encargo instigante e difícil de estudar costumes do medievo que nela transparecem. Acompanhamos também seu pensamento a respeito da cultura, com o qual não deixa de assumir uma das atividades fundadoras da psicanálise. De quebra, aprendemos sobre um mundo, de habitantes do Islã, ligado pelo Mediterrâneo, que teve o seu apogeu até o ano de 1250. Ela nos lembra de que esse cotidiano de fato existiu, produzido por povos que, comercializando de tudo, comunicavam-se em grande parte por meio de dialetos árabes usados no norte da Àfrica, no sul da Europa e no Oriente Médio. Um dos modos pelos quais nos põe a par desse longínquo e familiar dia-a-dia consiste em nos trazer relevos de um painel composto a partir de documentos como os que foram encontrados na geniza do Cairo, datados do período áureo do Islã. Estes foram preservados até o início do século passado e descobertos por ocasião da demolição de uma parede da sinagoga de Fustat. Servem às narrativas com a ve-rossimilhança pictórica das viagens de negócios dos maridos, dos contratos de casamento, dos perfis das profissões, mas não constituem mera ilustração. Permitem-nos imaginar roupagens do desejo e refletir a respeito de suas loucas aventuras.

       Espero ter tornado evidente que estruturas da coletânea tomada como eixo do ensaio são abordadas por movimentos de um texto que tem com elas algo em comum. A ensaista não deixa de nos apresentar pesquisas referentes ao uso milenar da metáfora das camadas concêntricas da alma, e nos lembra sua utilização por Freud, em Psicoterapia da histeria, quando ele descreve as camadas que a análise vai atravessando, sujeita a encontrar resistências, à medida que se aproxima do núcleo da neurose. A narradora-rainha evocada por Purificacion consegue se fazer ouvir apesar das resistências do sultão. Trabalha através delas, emprega recursos como a técnica do embedding, cuja função principal é “embutir outros narradores que asseverem e legitimem as lições que vêm sendo narradas” (p. 135). Vai pois “acrescentando camadas concêntricas umas às outras, até incluir dentro delas a esfera do social” (p. 135). Realiza também movimento “excêntrico e universalista” (p. 135), com o estratagema de introduzir personagens-avalistas reais (chain of guarantors), que dão credibilidade à sua ficção. “Porta-voz da cultura” (p. 144), pratica a arte do disfarce (Taqiyyah), arte de se não deixar morrer, tecendo uma rede, feita de esperteza, que não ludibria e é “ética“, na medida em que supera a impulsividade e procura ultrapassar as situações de conflito sem desconsiderar as imposições da realidade. Se, buscando o histórico e universal, realiza um movimento “excêntrico e universalista” (p. 135), também traça o oposto, um movimento intimista, tocando a psique do ouvinte, para, na sequência, em cumplicidade com suas fantasias, sugerir que há um método para “acoplá-las às metáforas da cultura” (p. 167).

       Criando a metáfora da “intencionalidade oculta do discurso de As mil e uma noites” (p. 169), o ensaio dialoga com teorias psicanalíticas de vários autores e ativa, em cada uma, sua capacidade de apreender, descrever e deslindar situações relacionais representadas. Assim, por exemplo, de Melanie Klein podem advir recursos para se conceber uma cura lúdica da crueldade do sultão, com Lacan, é possível pensar que o Outro é o narrador último da sequência de infinitos narradores, com Fábio Herrman, vilumbrar o vórtice, desencadeado quando se desmancham os contornos do cotidiano. O pensamento psicanalítico da autora, cujos instrumentos se fundamentam na própria clínica, no conhecimento teórico e na investigação metapsicológica, trabalha sua forma também a partir da pesquisa de traduções, da crítica literária, de análises historiográficas, e da filosofia da linguagem. Penetra temáticas concêntricas que se vão tornando reveladoras de outras, dirige-se para o núcleo de nosso ofício. Em movimento inverso, ex-cêntrico mas composto com esse, faz fluir, de sua prospecção no mundo das maravilhas, o poder inquietante e apaziguador do método da psicanálise.

  

NOTAS

1.  Ver p. 153 - Naddaf, Sandra, Arabesque - Narrative structure and the Aesthetics of Repetition in the 1001 Nights Cycle of the Porter and the Three ladies of Baghdad, Harvard University, Cambridge, Mass., 1983, p. 22.

2.   Remeto ao artigo extraído do livro e já publicado:P. Barcia Gomes, “As Mil e  uma Noites e a Psicanálise” in Percurso – Revista de Psicanálise, ano XIII, N. 24,               1o semestre de 2000

3.  Cita, na p.157 e na bibliografia, Howard Gardner e Ellen Winner, “The Development of Methaphoric competence: Implications for Humanistic Disciplines”, in On Metaphor, Sheldon Sacks (ed.), Chicago, The University of Chicago Press, 1979, p. 121-139. 

Camila Salles Gonçalves é professora de filosofia, doutora pela USP, psicóloga, psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, autora de Desilusão e história na psicanálise de Jean-Paul Sartre.