O banquete de Freud Rsvp

Maria de Lourdes Caleiro Costa

 

"... Corramos então um risco maior: escrevamos no presente, produzamos diante dos outros e por vezes com eles um livro em vias de se fazer: mostremo- nos em estado de enunciação..."

R. Barthes, O rumor da língua

Psicanálise- literatura, psicanálise- feminino, suas respectivas articulações, esses têm sido dois eixos de debates vitais para a psicanálise, desde Freud. Duas linhas de grande força propositiva, imaginemo-las se cruzando, e então, três vértices de um triângulo, estabelecendo um campo de bastante força pela multiplicação do que aí possa ser desdobrado.

Ao desenrolar de fios, precipitam- se em cena Liliths, Evas, Marias, Isoldas, Julietas, Ladys Mackbeth, Cordélias, Justines, Vênus do casaco de pele, Bovarys, Odettes, Albertines, Sofias, Emmas Zuns. Textos de poetas dos dois últimos mil anos- labirinto- o levantamento de lugares reservados às mulheres na literatura que Freud também percorreu. De repente, só fios; nós atados imobilizando tudo o que se mostrara. Psicanálise aplicada. Conceitos psicanalíticos, alguns vinculados pelo próprio Freud a essas obras, são remetidos àqueles personagens apresentados. Conceitos que seriam vertentes para a complexificação do trajeto vêm não mais que confirmar o que estava dito desde o início; aquelas mulheres, aqueles poetas, "figurações eternamente recorrentes para a mesma idealização, sempre às voltas com o intratável da diferença sexual."

Outras direções haviam se insinuado. Mas tal como visto, nesses discursos, o amor é um delírio de visão, uma miragem narcísica. Do outro lado o que há, diz a psicanálise assim evocada, é campo imaginário, signos, só signos fundamentalmente semelhantes às suas verdades primeiras e últimas. E, no entanto, vencem. Seu tempo é mítico e para ele o desejo se dirige.

Outras direções continuaram a se insinuar. Sabemos; são muitas as formas possíveis de se aproximar psicanálise e literatura, psicanálise e feminino, psicanálise, literatura e feminino. Pela força daquele percurso proposto e pela divergência sobretudo quanto ao uso feito de alguns textos psicanalíticos, outras linhas se traçaram, idéias comprometidas, por um lado, com o corpo- a –corpo da clínica psicanalítica e, por outro, com questões produzidas nas ressonâncias entre os campos teóricos e teórico- clínicos. As injunções que se seguem procuraram desdobrar outras relações nos campos em que literatura, psicanálise, mulheres e homens se movimentam.

*

Em O Banquete, Platão afasta mulheres e poetas. Filósofos e seus aprendizes vão, inalienavelmente, se erigindo em centro desse diálogo sobre o amor. Quando os primeiros aparecem em cena, é para melhor demarcar a distância que sua natureza lhes impõem daquele lugar em que virtude, amor e saber se constituem. Flautistas - musas tão presentes de outrora- , há a dispensa de uma primeira, que "deve tocar para si ou para as outras mulheres no gineceu"; de outra que vem só até a porta acompanhar Alcebíades; há Alceste, filha de Pélias, que dá prova máxima de amor ao consentir morrer pelo marido. Poetas, há Agatão, que em sua casa está recebendo os convivas, e fala do amor, a partir da experiência que tem de sua poesia: O mais jovem de todos os deuses, avesso à "violência", às "mutilações" e aos "mútuos agrilhoamentos", é mestre de todas as artes e por suas abilidades "se geram e se nascem todos os viventes." Logo em seguida, veremos, ele ouvirá ue o amor, o amor mesmo, não é bem assim. É na casa de um poeta que o banquete se dá, e é dessa casa que sua poesia, em seus excessos de afirmação, é exilada. Poetas e mulheres estão lá; mas para melhor afastar seus corpos, suas palavras – essas matérias metamorfoseantes.

De sua República ideal, Platão os expulsa de vez. Mulheres e poetas, esses contadores de histórias e mentiras. Aos dois é preciso dizer o que deve ser dito. As mulheres não mais podem contar às suas crianças, desde muito pequenas, as histórias que sempre contaram, as histórias de suas histórias, como aquelas de Hesíodo e Homero. Já, os

poetas, diz Platão, "Para nós, é preciso um poeta e um contista mais austero e menos agradável, mais útil ao nosso projeto, que só imitará o tom do homem honesto e conformará

sua linguagem às formas que nós prescrevemos desde a origem, dando um plano de educação para nossos guerreiros."1 Questões de Estado, questões de segurança face a estrangeiros.

Mas se estamos falando do afastamento de mulheres e poetas, é preciso lembrar de Diotima que no Banquete tem um papel bem importante. Sim. Mas qual é ele? Essa estrangeira de Mantinéia, sacerdotisa de existência remota para os próprios convivas, distante continuou. Ali mesmo, está presente apenas na voz de Sócrates que a teria encontrado alguns anos antes. Memória e perspicácia vêm marcar a evocação da fala ali tida como a mais lúcida sobre o amor. Não é ele um deus como os outros pensavam. Justamente não. "Filho de engenho e penúria... herdou a natureza da mãe e passa a vida na indigência. Mas, puxando pelo pai, vive espreitando o que é belo e bom, porque é viril, acometedor, teso, um caçador exímio, sempre a urdir suas malhas, ávido de inventos e talentoso, passando a vida a filosofar, um mago extraordinário, um feiticeiro, um sofista."2 Assim, entre sábio e impostor, deve submeter- se à razão e, pela experiência de belos corpos, dos filósofos e aprendizes, a alma melhor aprender a maior das virtudes, o saber dos que mais de perto viram o Belo, a Verdade, a Justiça. No discurso de Diotima- Sócrates-Platão, mulheres, seus corpos, ficam de lado, longe do que ali se entende como as maiores virtudes.

É também o mundo de Hesíodo que Platão interpela. E, de fato, se formos à Teogonia, podemos ver a distância percorrida entre os dois. A começar pelas musas que, pela força de sua voz, filhas de memória que são, entoam o poema. O poema da origem dos deuses e do mundo, poema que sorve e diz, pela combinação de mosaicos, proliferação de centros narrativos e jogos mnemônicos, 3 muito do que depois se entendeu ser necessário deixar de lado para a construção das cidades. Para uma ordem do mundo que transcendesse a ordem dos deuses, dos deuses profanos, ou da vontade, da vontade dos sofistas. Tomemos quatro versos, a partir do 203, nos quais podemos ver outras fronteiras entre homens e deuses, corpos de mulheres e a inclusão dos enganos. "Esta honra tem dês o começo e na partilha/ coube- lhe entre homens e deuses imortais/ as conversas de moças, os sorrisos, os enganos,/ o doce gozo, o amor e a meiguice."4

*

Há algumas passagens de textos de Freud, em que ele dá a ver, por seus ditos e desditos, que a univocidade não é dada no mundo feminino, nem tampouco na poesia.

*

Mas voltemos um pouco a Platão. Sim, ele expulsa de seu banquete tudo aquilo que se modifica, não é certo, tudo o que pudesse provocar transformações, perturbar o bom andamento da construção de um pensamento que procurava conhecer a essência das coisas e, com isso, estabelecer um mundo de Idéias, a partir do qual pudesse selecionar linhagens puras, das coisas do mundo, a partir de um material impuro, o próprio mundo. E, com isso, como farão mais tarde os seus seguidores, identificar o que acontece e propor categorias que eliminassem quaisquer contradições.

Freud, clínico neurologista, absolutamente curioso e genial, defronta-se com manifestações estranhas e contraditórias de seus pacientes- e provavelmente de si mesmo, como depois dá várias e fundamentais notícias - sendo isso peça fundamental de sua obra. Busca compreender o que se passa, e a essas manifestações estranhas logo chama de psíquicas. Constrói um sistema bastante complexo procurando identificar mecanismos do funcionamento do psiquismo humano e tece conceitos que articulem essa maquinária. Nela, há para quem quiser toda uma engrenagem absolutamente lógica, que procura dar conta de toda a realidade, ainda que virtual, fruto das vezes em que Freud foi ao banquete de Platão. Vejamos isso em um de seus textos:

"Há, entretanto, uma circunstância que diminui o valor comprobatório do que eles (os poetas) têm a dizer. Os escritos estão submetidos à necessidade de criar prazer intelectual e estético, bem como certos efeitos emocionais. Por essa razão, eles não podem reproduzir a essência da realidade tal qual como é, se não que devem isolar partes da mesma, suprimir associações pertubadoras, reduzir o todo e completar o que falta.(...) Essas observações, esperamos, servirão para nos justificar, de modo amplo, o tratamento estritamente científico que damos ao campo do amor humano. A ciência, é, afinal, a renúncia mais completa ao princípio do prazer de que é capaz nossa atividade mental."5

Para quem quiser, há esse Freud. Freud que, para falar das "condições necessárias ao amor" em seu potencial de "associações perturbadoras", evoca e afirma poetas e ciência enquanto discursos excludentes. Freud que respalda com folga uma psicanálise cuja face mais conhecida encontra expressão no famoso "Freud explica", a título de doxa ou gozação, e que tem dado margem a discussões dentro da própria psicanálise a respeito de quais seriam suas verdades mais verdadeiras, e formulações absolutamente verticalizadas que dêem melhor conta das tais manifestações psíquicas e suas variações.

Roland Barthes alerta: "O discurso científico acredita ser um código superior; a escritura quer ser um código total que comporte suas próprias forças de destruição. Consequentemente, só a escritura pode quebrar a imagem teológica imposta pela ciência, recusar o terror paterno espalhado pela verdade abusiva dos conteúdos e dos raciocínios, abrir para a pesquisa o espaço completo da linguagem, com suas subversões lógicas, o amalgamar –se de seus códigos, com seus deslizamentos, os seus diálogos, as suas paródias..."6

*

Há muitas leituras possíveis do que venha a ser psicanálise e também muitas psicanálises. No que isso diz respeito às suas diversas "linhas", Renato Mezan mostrou a existência de várias psicanálises, e seus respectivos desenvolvimentos teóricos, conectadas a diferentes questões clínicas que lhe deram ensejo.7 Mas, há também, já entre aqueles que "adotam" Freud, toda uma gama de leituras marcadamente positivista, e mesmo teleológica de sua obra, e outras que privilegiam leituras transversais dos textos de Freud, seu próprio percurso, seus muitos e contraditórios textos, os sentidos possíveis, por relações a serem constantemente tecidas, de suas afirmações, dúvidas, procuras, sucessos, fracassos, enfim todo um trajeto que, em si, constitui o que aí se entende como o fazer psicanalítico.

Isso ocorre de maneira muito acentuada porque Freud mesmo oscila entre procurar fechar acordos com determinados aspectos da realidade e pensar as possibilidades dessa realidade. Há muitos que escolhem o primeiro momento; os poetas, o segundo. E há aqueles que olham para esse próprio movimento que, ao desenhar oscilações, ganha agilidade, densidade e porosidade pelas muitas, mesmo infinitas, possibilidades de suas conexões. Aqui, os conceitos freudianos existem não por atributo, mas por predicado ou acontecimento. E eles só adquirem sentido se, em seus encontros com as linhas que percorrem singularmente dado acontecimento, as idéias que os constituem forem expostas aos limites de suas razões, e, pela força desse estranhamento e impassividade do que ali vem insistir, se desdobrem no vigor propositivo de novas injunções.

Freud diz: "Uma concepção do Universo fundada na ciência tem, fora da ênfase do mundo exterior real, traços essencialmente negativos, como a submissão à verdade e a repulsa das ilusões."8

*

Mas Freud vai à literatura, muitas vezes vai à literatura, e isso tem um sentido- isso é sentido, isso é trajeto e devir. A literatura em seus textos é presença inarredável da matéria que o mobiliza: a vida em seus movimentos paradoxais de criação e profundo impasse, estancamento.

Nas linhas dos poetas encontra formas de acolher e desdobrar o que acontece em sua clínica. Assim, enfatiza: do que falamos, trata- se de matéria indomesticável, mundo não pacificado. Se , nessas incursões, chega a formular conceitos, foi também por estar exposto a essa outra linguagem que se desdobra enquanto poiesis.

R. Barthes pontua: "Significância é o sentido na medida que é produzido sensualmente."9

A psicanálise é desde sempre constituída por essa matéria que procura tecer relações impensadas, que multiplica imagens e se dá por gestos sensíveis, estabelecendo novos campos de consistência e sentido. Volta- se para a existência dos desejos, dos afetos, das virtualidades, sujeitos por se dizerem, das questões entre saúde, loucura, criança, adulto, homem, mulher que, justamente, só encontram sustentação na razão direta de sua porosidade e migração por línguas estrangeiras. Com Deleuze, seguimos:

"O que faz a literatura na língua aparece melhor: como diz Proust, aí, ela traça precisamente uma espécie de língua estrangeira, que não é uma outra língua, nem um dialeto reencontrado, mas um devir- outro da língua, uma minoração dessa língua maior, um delírio que a leva, uma linha de feiticeira que escapa do sistema dominante."10

Uma linha feiticeira que escapa do sistema dominante. Aqui podemos encontrar também o terceiro vértice do campo proposto, aquele que, junto à literatura, vai exponenciar nos textos de Freud, suas linhas de ruptura e seu vigor propositivo. Trata- se da feminilidade em Freud.

São muitos os textos que mostram como Freud, com relação às mulheres, "deixou muito a desejar", defendendo posições que mais têm a ver com seus próprios temores e com discursos absolutamente datados a esse respeito. É verdade que ele fala de feminilidade enquanto possibilidades tanto de homens quanto de mulheres, num jogo infindo de posições, cujas marcas iniciais são vincadas pelas vicissitudes da diferenciação sexual. Mas é verdade também que, quando fala de feminilidade, está privilegiadamente se referindo às mulheres, e teorizando a partir de uma razão masculina, onde a mulher existe enquanto referida ao homem. E o homem enquanto referido a essa mesma razão. Se há fala de mulher, é a das histéricas, das loucas. Em Elas não sabem o que dizem, Maud Mannoni discorre longamente sobre isso.

"A relação de Freud com a mulher é marcada pelo temor à sedução, da qual ele se defende, e à morte, figura do destino que assume os traços da mãe. (...) Freud está à procura do que falta à mulher, observando aliás que a tensão sexual desta deve ser mantida em nível relativamente baixo ( o que, comenta ele, é admiravelmente alcançado pelos educadores da mulher)."11

Sim, esse Freud existe. Mas, quando vamos aos seus textos, encontramos muitas afirmações eivadas de contradições, ditos e desditos, ou simplesmente descabidas de tão datadas. Freud dá a ver as malhas inclusive de suas limitações e, portanto, das questões para as quais aponta. Dá a ver pela descrição acentuadamente plástica das paisagens de seus trajetos, deixando indicações para outras construções possíveis. Roland Barthes chega a dizer que Freud, por sua escrita de extrema objetividade, faz o que seria desejável à literatura contemporânea para que mantivesse sua possibilidade de auto- destruição.

"Talvez esse receio (do homem primitivo com relação às mulheres) se baseie no fato de que a mulher é diferente do homem, eternamente incompreensível e misteriosa, estranha, e, portanto, aparentemente hostil. O homem teme ser enfraquecido pela mulher, contaminado por sua feminilidade...

Nos estágios mais altos da civilização, a importância atribuída a esse perigo diminui em face de sua promessa de sujeição..."12

É interessante vermos esses mistérios se infiltrando nos encontros do círculo de Viena.

Peter Gay, narrando o episódio da chegada de Lou Andréas-Salomé à cidade, comenta que Freud a chamou, certa vez, de "musa", e que depois a fez notar como "uma mulher de inteligência perigosa". Antes disso Abraham, conta o biógrafo, "disse a Freud que ‘nunca havia antes encontrado uma tal compreensão da psicanálise’".13

*

Freud começa sua trajetória perguntando- se sobre o sentido da fala daquelas mulheres, chamadas depois de histéricas. Termina- a dizendo que a feminilidade continua sendo um enigma.

Antes disso, conclama as mulheres psicanalistas a falarem sobre a feminilidade e, nesse gesto, reconhece a possibilidade da existência de uma língua feminina, externa ao campo até ali considerado pela psicanálise. Aí está o próprio Freud abrindo brechas vitais em suas construções em torno de uma razão fálica, em que à mulher é reservado sempre um lugar de imperfeição:

"Se crê que as mulheres não contribuíram, se não muito pouco, para as descobertas e inventos da história da civilização; mas quem sabe descobriram pelo menos uma técnica: a de tecer e fiar ."14

Quando falamos de uma língua feminina, de uma outra razão, em que, é fato, tecer e fiar fazem muito sentido ( e aqui os poetas se fazem belamente presentes ), o que se torna anacrônico é essa ordem do "muito pouco", do "pelo menos"; "do pelo menos uma técnica". Essa técnica, "a parte material ou o conjunto de processos de uma arte"15, é ato sensível, trajeto e sentido.

O resgate dessa outra razão, não mais outra como externa, tem sido fundamental para a psicanálise. Deleuze afirma:

"...uma língua estrangeira não é escavada na própria língua sem que toda a linguagem por sua vez não balance, não seja levada a um limite, a um fora ou um avesso consistindo em Visões e Audições que não são mais de nenhuma língua. Essas visões não são fantasmas, mas verdadeiras Idéias que o escritor vê e escuta nos interstícios da linguagem, nos desvios de linguagem."16

*

Atendendo à solicitação de Freud, e certamente às de sua clínica e sua vida, Monique Schneider vai falar de "ardil do ventre" em contraponto a "ardil da razão". Afinal, diz ela, fazendo- se acompanhar por uma citação das Eumênides de Ésquilo:

"Athena legisladora só se torna possível a partir do momento em que são conduzidas à sua morada subterrânea as Eríneas bebedoras de sangue: A título de conclusão provisória, vou me apropriar da queixa de Corifeu, à sua maneira celebrando uma vitória com a qual talvez não devesse se alegrar tanto – vitória na qual a mãe ctoniana é derrotada e na qual o próprio homem impõe a regra que no final acaba por tapeá-lo:

‘Oh, noite sombria, minha mãe,/ Vês tu o que está acontecendo?’"17

Antes, Schneider percorre os processos de esvaziamento das falas das feiticeiras e as afirma em seu poder originário.

"Fala enfeitiçada, convidando ao sabbat, convite de retorno à obscuridade da matriz, lugar onde evolui – infernal representação – um corpo em busca de sua própria forma. A palavra fantástica intervém assim como lugar de gestação contínua (...), lugar de reencontros mortais (encontros mortais, podemos pensar), matriz incontrolável."18

*

Se considerarmos, como a psicanálise propõe, que a diferenciação sexual deixa marcas fundamentais na constituição do psiquismo, positivar uma fala feminina e suas potencialidades é um desdobramenrto da psicanálise de absoluta relevância, com consequências clínicas extremamente significativas.

Essa fala de temporalidade própria organiza- se pelo fluxo de intensidades afetivas , tanto quanto por elas, em novos encontros, tem suas forças de propulsão diminuídas ou potencializadas. São, como disse Deleuze também à propósito da literatura, lugares de passagem e de esquecimento, toda a memória do mundo estando no material. As madeleines de Proust, os trajetos de infância, seus encontros, os trajetos de Freud, seus encontros, aquelas palavras fantásticas, são signos que guardam a força de sua sensação, são possibilidades de existência a serem desdobradas em novas conexões afetivas.

Assim, a positivação dessa língua de "matriz incontrolável", inúmeras matrizes, no limite, nos expõe à possibilidade de escutarmos outras vozes, outros mundos, outras razões; possibilidades de vida até então impensadas. Para além de "ardil do ventre" e "ardil da razão", há a astúcia do movimento do que deles se engendra, transborda. E há paisagens que só aparecem no movimento, assim como uma escuta que aí se tece.

Em seu belo artigo "Mistério de Ariadne segundo Nietzsche", Deleuze diz que o labirinto não é mais daquele que, seguro por um fio, vai domar o touro. É ele o próprio touro- Dionísio; o labirinto da orelha de Dionísio. Dionísio, "que só conhece a arquitetura dos percursos e trajetos", orelha labiríntica que Ariadne agora afirma e percorre em suas próprias orelhas. "Vivente das cavernas e dos cumes, o filho de Ariadne e Dionísios é a única criança que se concebe pela orelha".19 Labirinto de sons que retornam; por sua impassibilidade e escuta, se afirmam mutuamente.

*

A vitalidade dos textos freudianos está em sua constante possibilidade de ruptura, em sua porosidade, em sua capacidade de estabelecer outros sentidos por linhas transversais que o constituem e o atravessam. A proposta psicanalítica ganha tanto mais sentido quanto propulsiona esse movimento, sempre outro, pelas relações afectivas e intensidades em jogo, onde fruição e paralisia se tornam questão.

A psicanálise está referida a uma ética, possivelmente muito familiar àquela dos poetas: tornar sonhos sonháveis e, de alguma forma, realizáveis.

Freud, 1932: Em um convite claro à errância, chama mulheres e poetas, e talvez um dia outra ciência, a participarem dos próximos diálogos. Há esse Freud - para quem quiser.

"Se querem saber mais sobre a feminilidade, podeis consultar a vossa própria experiência de vida, ou perguntar aos poetas, ou esperar que a ciência possa nos dar informes mais profundos e mais coerentes."20

Platão expulsou mulheres e poetas. Freud também esteve lá. Mas para seu banquete convida-os. De novo, os dois juntos. Convida-os, confirmando, mas agora também querendo incluí-las, as potencialidades disruptivas e criadoras da matéria sensível à qual os dois são especialmente afectos.

NOTAS

1 Platão, La République, 398 b, in Platon, oeuvres complètes, Paris, Les Belles Lettres.

2 Platão, O Banquete, in Diálogos, tradução de Jaime Bruna, São Paulo, Cultrix, 1976.

3 Hesíodo, Teogonia – A origem dos deuses, estudo e tradução de Jaa Torrano, Massao Ohno – Roswitha Kempf, São Paulo, 1981, cf. p. 75.

4 Op. cit., versos 203-206, p. 135.

5 Sigmund, Freud, "Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens", in Contribuições à psicologia do amor, ed. eletrônica brasileira das obras completas de Freud, Imago, Rio de Janeiro.

6 Roland, Barthes, O rumor da língua, São Paulo, Brasiliense, 1988, p. 29.

7 Renato, Mezan, "Klein, Lacan: para além dos monólogos cruzados", in A Vingança da Esfinge – ensaios de psicanálise, São Paulo, Brasiliense, 1988, p. 244.

8 Sigmund, Freud, "El problema de la concepción del universo", in Nuevas lecciones Introductorias al psicoanalisis, Obras complestas de Sigmund Freud, Madrid, Biblioteca Nueva, 1973, p. 3205.

9 Roland, Barthes, O prazer do texto, São Paulo, Perspectiva, 1999, p. 79.

10 Gilles, Deleuze, "La littérature et la vie", in Critique et clinique, Paris, Minuit, 1993, p. 15.

11 Maud, Mannoni, "A mulher existe", in Elas não sabem o que dizem, Rio de janeiro, Zahar, 1998, p. 88.

12 Sigmund, Freud, "O tabi da virgindade", in Contribuições à psicologia do amor III, edição eletrônica das obras completas de Freud, Imago.

13 Peter, Gay, Freud: uma vida para nosso tempo, São Paulo, Companhia das Letras, 1989, p. 187.

14 Sigmund, Freud, "La feminidad", in Nuevas lecciones introductorias al psicoanalisis, Madrid, Biblioteca Nueva, p. 3176.

15 Amélia Buarque de Hollanda, Novo dicionário da língua portuguesa, São Paulo, Nova Fronteira, p. 1360.

16 Gilles, Deleuze, op. cit., p. 16.

17 Monique Schneider, "Em nome de quem fala a mulher?", texto traduzido e publicado pelo Departamento de psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, por ocasião de um ciclo de palestras proferidas pela autora no mesmo Departamento, em 1993.

18 Monique Schneider, op. cit.

19 Gilles Deleuze, op. cit., p. 134.

20 Sigmund, Freud, "La feminidad", op. cit., p. 3178.