O dom de falar línguas: algumas idéias sobre a glossolalia

Sérgio Telles

Mother, you are the one mouth

I would be a tongue to.

Who - Sylvia Plath

 

Há certo tempo, um analisando me contou que um irmão seu, após um surto psicótico, passou a frequentar uma seita religiosa, onde adquiriu grande prestígio por falar línguas, o que era considerado ali um sinal do mais alto privilégio divino, dom concedido a poucos.

A meu pedido, explicou o que era este falar linguas: o irmão entrava numa espécie de transe e, neste estado, pronunciava uma série infindável de sons desconexos que pareciam palavras desconhecidas, como as de uma língua estrangeira. Voltando a seu estado habitual, ao ser interrogado sobre o que lhe tinha acontecido, o irmão dizia ter sido possuído pelo Espírito Santo.

Referia-se ao conhecido episódio relatado nos Atos dos Apóstolos, que – por sua beleza - aqui reproduzo:

"E quando se completaram os dias de Pentecostes, estavam todos juntos no mesmo lugar; e veio de repente do céu um estrondo, como de vento que assoprava com ímpeto, e encheu toda a casa onde estavam assentados. E apareceram-lhes repartidas umas como línguas de fogo, e o fogo repousou sobre cada um deles. E foram todos cheios do Espírito Santo, e começaram a falar em várias línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem.

"Estavam então habitando em Jerusalém judeus, homens religiosos de todas as nações que há debaixo do céu. E logo que correu esta voz, acudiu muita gente, e ficou pasmada, porque cada um ouvia falar os discípulos na sua própria língua. Estavam pois todos espantados e se admiravam, dizendo: Por ventura não se está vendo que todos estes que falam são galileus? E como os ouvimos nós falar cada um a nossa língua em que nascemos?

"Partos, medos, elamitas e os que habitam a Mesopotâmia, a Judéia, a Capadócia, o Ponto e a Ásia, a Frigia, a Pamfilia, o Egito, e as partes da Líbia que confina com Cirene e os vindos de Roma, também judeus, e prosélitos, cretenses e árabes, os temos ouvido falar em nossas línguas as maravilhas de Deus. Pasmavam pois todos e se admiravam dizendo uns para os outros: O que é que isso pode ser? Outros porém, escarnecendo, diziam: É porque estes estão cheios de mosto"1.

A comunicação sobre o irmão que falava línguas se deu num contexto muito específico, no qual o analisando revivia, na transferência, aspectos de sua ligação mais primitiva com a mãe, da qual a imagem do irmão psicótico, que se mantinha concretamente na órbita da mãe, era mais uma representação.

Incidentalmente, tenho sabido, talvez em função da proliferação das seitas fundamentalistas, que tal fenômeno – a glossolalia - não é incomum. Com frequência, fiéis, tomados pelo Espírito Santo, com grande júbilo, conversam entre si falando línguas.

Esses elementos me fizeram levantar uma hipótese sobre a glossolalia, vinculando-a a uma problemática fundamental na constituição do sujeito humano, que é sua relação com a linguagem.

 

1

Na virada do século XIX para o século XX propunha-se, com razoável repercussão, a criação de uma língua universal que supostamente traria grandes benefícios para os povos, facilitando-lhes o entendimento e a compreensão mútuas, abrindo caminho para a paz e a concórdia entre os homens. Era mais uma das utopias sociais que se instalavam na ocasião, fortalecida com o trauma da Grande Guerra que esfacelara os sonhos de uma burguesia triunfante.

Neste contexto, os partidários do Volapük, do Ido e do Esperanto – as três línguas artificialmente criadas e que se propunham a ter tão importante papel na história e no concerto das nações - disputavam com vigor a primazia e a preferência de todos.

No dia 25 de janeiro de 1925, J. C. Flugel leu, perante a Sociedade Britânica de Psicanálise, um alentado artigo, defendendo a criação de Zamenhof - o Esperanto - e procurando dar-lhe uma fundamentação psicanalítica 2.

Toda sua argumentação foi corroída pelo tempo. A linguística moderna seguiu por trilhas outras que tornam impensável sua proposta. A realidade – sob a forma da globalização e da informática - mostra o inglês como a língua universal que vigora no momento. A psicanálise trabalha com a linguagem sob outro prisma e entenderia tal proposta – a de se criar uma língua universal - como uma fantasia messiânica de salvação da humanidade e negação da pulsão de morte. O próprio artigo de Flugel pode ser lido como a expressão de uma amorosa idealização de Zamenhof, que chega a ser comparado pelo autor à figura de Cristo...

Isso mostra que, como em tudo, o espírito do tempo (Zeitgeist) é uma variável que não pode ser ignorada na produção dos artigos psicanalíticos. No momento em que foi apresentado, o aspecto fantasioso e sintomático do artigo ficou oculto, só se revelando posteriormente, num outro momento.

O artigo de Flugel mantém o interesse não apenas como uma curiosidade cultural e analítica, mas por oferecer um cuidadoso levantamento de bibliografia sobre a aquisição da linguagem, o mito de Babel e a glossolalia, sendo a fonte das informações que passo a citar.

Flugel cita Ernest Jones que, em seu trabalho "A Concepção da Madona através do Ouvido", estabelece a ligação entre a função da fala, o complexo de castração e o erotismo anal: a fala é, para o inconsciente, equivalente simbólico da vida, do poder criativo e de Deus (Logos), sendo a língua um representante do falo. A ausência de fala (mudez) é o equivalente da impotência e da morte. A função da fala, como a da respiração, do soprar e da produção vocal de sons em geral, é também identificada com a emissão de flatos, havendo assim uma fusão dos elementos genitais e anais na idéia de uma fertilização gasosa, segundo a qual a fertilização acontece pela passagem do flato do pai para a mãe. Essa idéia da fertilização gasosa corresponderia a uma formação reativa frente a idéia da castração.

Dizendo de outra forma, há uma íntima relação entre a fala e a potência sexual. Assim, o poder linguístico, quer seja na forma da ativa fala ou da compreensão, é inconscientemente equivalente à potência sexual; consequentemente, a inabilidade linguística equivale à impotência ou frigidez. As atividades linguísticas seriam sublimações das atividades sexuais.

A relação entre fala e sexualidade fica evidente no episódio bíblico da Torre de Babel (Genesis – xi, 1-9) e seus equivalentes em outras culturas.

Lorenz, citado por Flugel, observou como o tema do titãs – o ataque dos filhos contra o pai, organizado numa guerra duradoura e sangrenta – presente na mitologia grega, aparece em outras culturas, sob formas diferentes. Uma delas é o tipo de histórias "Joãozinho e o pé de feijão" ou de "ataque ao céu", onde os homens sobem ao paraíso para lá se instalarem ou atacarem diretamente o Criador e seus habitantes. São claras expressões da rivalidade e ódio frente ao pai, próprios do complexo de Édipo. A mais conhecida destas é a dos titãs Otus e Ephialtes, que subiriam aos céus empilhando o monte Ossa sobre o Olimpo e, acima deste, o monte Pelion.

O mesmo desejo aparece nas diversas versões abrigadas na tradição judaica a respeito do mito da Torre de Babel. Seus construtores, liderados por Nimrod, estão em franca rebelião contra Deus. Alguns desejam subir ao paraíso e ali declarar diretamente guerra ao Todo Poderoso, afrontando-o com o estabelecimento de novos ídolos a serem adorados; outros têm ambições mais modestas, simplesmente querem danificar a abóbada celeste através do arremesso de dardos e flexas. A construção da Torre toma muito tempo e chega a tal altura que um pedreiro levaria um ano para subí-la da base ao topo. O trabalho prossegue dia e noite, homens e mulheres estão obcecados com a tarefa, relegando tudo o mais para um segundo plano. De sua estonteante altura, os homens arremessam setas contra o céu e elas voltam manchadas de sangue, o que os faz gritar ‘matamos todos que estavam no paraíso".

Flugel diz que a significação simbólica da construção da Torre, além da rebelão contra a autoridade paterna, que se mostra tão claramente aqui, é, ao mesmo tempo, uma representação do processo de ereção, semelhante ao encontrado nos frequentes sonhos de voar e escalar, no sonho de Jacó, onde há uma escada que liga a terra ao céu, sendo que, neste último exemplo, se inclui a fantasia de coito, expressa no movimento corporal nele implicado. O bem sucedido ataque ao céu representa, assim, o desafio ao pai e a gratificação dos desejos sexuais. O fracassso dessa empreitada, por sua vez, como na história de Babel, representa a vingança do pai ameaçado – a castração.

Flugel cita Lorenz, que dá uma versão diferente da destruição da Torre de Babel: ela ocorre não pela confusão de línguas e sim através de um forte vento, o que evoca as associações flato-respiração-castração-potência sexual estabelecidas por Jones, além de aproximar o mito de Babel do mito da destruição das muralhas de Jericó pelo sopro das trombetas. Flugel lembra que na mitologia grega, é Hermes, o deus dos ventos, o responsável pela discórdia e a diversidade de línguas na humanidade, assim como na versão polinésia do mito dos titãs, o deus do vento Tawhiri-ma-tea apóia seus pais na luta titânica e desencadeia uma tempestade que dispersa seus irmãos, jogando-os a grande distância um do outro. Nestes exemplos aparecem o dispersar, o dividir, o estabelecer a discórdia e a diversidade de línguas, símbolos de castração operantes no mito de Babel, pois o dispersar um grupo de pessoas pode ser o equivalente simbólico do desmembramento de um corpo, o dispersar de seus membros, o despedaçá-lo, ou seja, são representantes da castração.

Flugel diz que se a história de Babel tornou-se um conhecido mito da origem da diversidade das línguas como punição divina, o presente pentecostal do dom de falar línguas pode ser considerado como sua providencial antítese.

É sabido, como está nos Atos dos Apóstolos, que alguns circunstantes que presenciaram o milagre, não o consideraram como tal, preferindo acreditar que os apóstolos estavam embrigados ("tinham bebido mosto"). Isso faz com que Flugel tente discriminar entre glossolalia (falar um jargão ininteligível) e xenoglossia (falar línguas estrangeiras).

Sabe-se que a glossolalia foi, e continua sendo, uma reconhecida manifestação religiosa e foi estudada psicanalíticamente por Pfister, citado por Flugel. Do ponto de vista puramente psicológico talvez não haja grande diferença entre os dois tipos de discurso. A glossolalia é provavelmente apenas a forma de uma pretensa xenoglossia, pois Pfister descobriu que um dos motivos mais frequentes na glossolalia é o desejo de compreender alguma lingua estrangeira, da qual muitas das palavras foram tiradas e distorcidas pelo glossolálico.

Isso, diz Flugel, obviamente remete às já mencionadas vinculações simbólicas entre potência sexual e potência linguística. Jones, em seu trabalho sobre o Espírito Santo, mostrou que ele representa a essência criativa do pai, o mesmo poder que se manifestou na concepção da Madona pelo ouvido. De fato, o "poderoso vento forte" que destrói a Torre e as "línguas de fogo" que dão o conhecimento das línguas são manifestações das mesmas forças, a diferença é que numa versão o poder divino se apresenta de forma destrutiva, punitiva e malévola; noutra, de forma benéfica e criadora.

No presente pentecostal de línguas, Deus, a seu bel prazer, dota os homens com alguns de seus poderes criativos, o presente da potência simbolizado pela fala estrangeira. Na Torre de Babel, Deus usou seu poder para destruir a potência humana. Um contraste típico – diz Flugel - entre os enfoques do Velho e Novo Testamentos, respectivamente. Neste último, atingiu-se um estágio de evolução moral no qual o antigo conflito entre Pai e Filho encontra, de certa forma, a paz. A guerra dos deuses e titãs terminou, não, como no primeiro estágio, pela derrota dos filhos e sua brutal submissão, mas por uma reconciliação entre os combatentes. Neste último nível de pensamento religioso (Novo Testamento), Prometeu não seria mais castrado por roubar o fogo do paraíso. Na verdade, nem precisaria roubá-lo, pois o fogo divino seria graciosamente dado por Deus a seus filhos.

Flugel afirma que se, até o momento, tem lidado com os elementos do nível genital envolvidos nos fenômenos da linguagem, particularmente com o complexo de castração, não se pode negar a existência de elementos anais subjacentes, já enfatizados por Jones. Assim, inconscientemente, a potência genital é, de certa forma, equiparada à potência dos processos excretórios. A criança se orgulha de suas funções excretórias muito antes de se familiarizar com as funções genitais, e, no curso do desenvolvimento, estas últimas são, por deslocamento, investidas com os afetos pertencentes aos primeiros (anais). Assim, o orgulho pela capacidade de gerar uma criança é, de certa forma, derivada do anterior (e, consequentemente, reprimido) orgulho na produção de fezes, enquanto os deslocamentos linguísticos que temos considerado representam gratificações substitutas de ambos os níveis.

Por isso, Flugel considera que os deslocamentos anais envolvidos no impulso de criar provavelmente encontram expressão na criação de uma língua como um todo, assim como na criação de novas palavras, expressões e formas de falar. Essa criatividade com tonalidades anais joga provavelmente papel importante no aparecimento da glossolalia. A satisfação anal infantil está ligada não apenas com a criação de fezes, mas também com a tendência a brincar com elas ou de manipulá-las. É possível que esta manifestação do erotismo anal também encontre expressão nas atividades mencionadas, as quais, até certo ponto, podem ser consideradas como uma espécie de brincadeira com a linguagem. Ao nível do complexo de Édipo, significa desafio ao pai (o criador da linguagem que proibe sua alteração por outros) e incesto com a mãe (o tomar liberdades proibidas com a linguagem); no nível anal, significa desafiar as autoridades, realizando atividades proibidas (criação linguística ou manipulações proibidas).

Conclui Flugel que a tendência para a criação de uma linguagem artificial nas crianças e adolescentes está, sem dúvidas, ligada ao desafio à autoridade, particularmente no desejo de manter em segredo seus interesses sexuais. Em virtude deste segredo - a linguagem secreta, se ouvida, não é compreendida pelos adultos e autoridades – as crianças e adolescentes invertem a posição de inferioridade na qual se encontravam na infância, quando não entendiam inteiramente a conversa dos adultos, ou na qual ainda se encontram, como acontece não infrequentemente nas familias cultas, onde os pais se refugiam numa lingua estrangeira para não serem entendidos por seus filhos pequenos.

O mito de Babel foi também analisado por Bion, que considerou - dentro de seus estudos sobre grupos - a empreitada humana da construção da torre como um primeiro exemplo de um "grupo de trabalho". Valorizou a tarefa conjunta, via a língua única como um representante da capacidade de simbolizar e criar vínculos. Entendeu a atitude raivosa, punitiva e destrutiva de Deus, que atacou os vínculos e impediu a comunicação ao disseminar línguas diferentes, como o representante de um superego cruel e destrutivo 3.

Amati-Mehler tem uma visão diferente. Pensa que a perda da língua única e a instalação das diferentes línguas são representações simbólicas do momento da ruptura da fusão narcísica, movimento necessário para que o sujeito se constitua com tal. Diz ela: "Como os maiores mitos do Édipo e do Paraíso Perdido, o mito de Babel tem dois lados. Do lado "progressivo", "evolutivo", o mito postula uma impossibilidade – no caso, significa a exclusão da comunicação universal. Do lado "regressivo", reconstrói na imaginação um estado ideal que teria existido antes e fôra perdido – uma unidade mítica original que dá margem para a exigência narcísica de uma comunicação total. Cada um destes mitos, na verdade, afirma a necessidade do exílio e da separação/castração como uma situação sine qua non para o futuro conhecimento.....Babel representa o momento no qual se dá o desligamento, a separação daquilo que nos é semelhante. Assim, diz respeito a algo crucial para o desenvolvimento individual, no qual – a partir da situação de fusão original – a separação, individuação e diferenciação são experimentadas mentalmente (tradução do autor)." 4

Laffal5 aborda a questão da linguagem e da glossolalia sob outro enfoque. O autor remete-se ao Freud que considera a linguagem como um mecanismo de descarga energética e que tem a função de trazer para a consciência o inconsciente. Em seus estudos com Breuer sobre a histeria, Freud entendia os sintomas como a presença de um "corpo estranho" ou de "reminiscências" fora do comércio associativo consciente, que necessitavam ser a ele integradas através da fala, o que proporcionaria uma catarse e/ou uma elaboração. A fala seria então um mecanismo de descarga de afetos retidos e também um substituto da ação direta. Freud retoma tais idéias no "Projeto", onde aponta como primeiro paradigma da linguagem os gritos de dor e fome da criança. Ao mesmo tempo que são descargas motoras, também trazem alívio ou ajuda, na pessoa da mãe. Assim, a vocalização, um mecanismo para a descarga de energia associada a várias tensões corporais, torna-se um meio de comunicação social sobre tais estados. Desta forma, através da vida, a linguagem continua a servir a uma função de descarga, ao lado de sua função como um instrumento de comunicação e união social. A primeira será recrudecida em detrimento da segunda toda vez que fortes necessidades fisicas ou psíquicas se impuserem. A linguagem será então mera descarga destes impulsos e não terá preocupação comunicativa com o outro.

Lafal considera que isso é evidente nas psicoses e, especialmente, na glossolalia, "o exemplo mais claro da função de descarga da linguagem". Esse fenômeno aparece no discurso esquizofrênico mas é mais comum em indivíduos aparentemente normais. Um falante, em extase religioso, se encontra tomado pelo Espírito, balbuciando "palavras dadas pelo Senhor" de uma língua estranha que ele mesmo não entende. Podemos presumir que esses balbucios, incompreensíveis para todos, servem como descarrega de energia psíquica ligada a desejos e conflitos. Pela verbalização, a glossolalia aproxima da consciência o que o indivíduo não pode colocar em palavras. Desde que a compreensão está impossibilitada, a vergonha, a culpa, o desespero ou a ansiedade que poderiam acompanhar o significado desta fala ficam evitados, permanecendo a pessoa com a impressão de ter expressado o inefável. A fantasia de estar tomado pelo Espírito a ajuda a negar os conflitos psíquicos e necessidades não satisfeitas comuns a todos os homens.

2

A maneira como entendo a glossolalia parte de pressupostos um tanto diversos dos acima citados, embora mantenham com eles alguns pontos de contato. Entendo que a aquisição da linguagem é um processo cuja transcendência e importância dificilmente se poderia exagerar, que esta aquisição não é o mero aprendizado de um código de comunicação para usos imediatos e pragmáticos, possibilidade que os homens compartilham com outros animais. Trata-se do ingresso no mundo simbólico, que caracteriza o essencialmente humano, o que funda a cultura, marca o limite com a natureza. Entendo ainda que a relação do inconsciente com a linguagem é fundamental e penso que a aquisição da linguagem é uma problemática pré-edipiana, intimamente ligada com as primeiras relações objetais da criança, veículo imprescindível na e da fusão narcísica com a mãe.

Lembramos dois fatos característicos do nascimento do ser humano que põem em relevo a magnitude deste processo. O primeiro é que o corte do cordão umbilical que o liga ao corpo da mãe, e que caracteriza seu nascimento físico, não corresponde a seu nascimento psicológico, psíquico, pois por longo tempo a criança não terá uma identidade própria que a caracterize como um sujeito humano, senhor do seu próprio desejo. Em seus primeiros tempos, a criança encontra-se fundida com a mãe, sente-se confundida psiquicamente com ela, acredita fazer com mãe um todo indivisível. É somente no final de um longo processo que vai tolerar se ver separada psicologicamente da mãe, assumindo sua incipiente subjetividade. Para tanto, é fundamental a instauração do complexo de castração, que leva à resolução do complexo de Édipo.

O segundo fato, é que, ao nascer, a criança é mergulhada no universo linguístico dos pais, num encontro definitivo, irreversível. Uma vez dentro da língua materna, a criança dela não mais poderá sair. A mãe fala e, através da linguagem, introduz a criança no mundo simbólico.

Como foi dito acima, durante longo tempo a criança se sente visceralmente ligada à mãe e não se reconhece como um ser independente e diferente dela. A tarefa mais importante com a qual ela se depara é realizar esta separação, perder a fantasia desta união fusional. Para tanto, as palavras jogam um papel fundamental, pois, na medida em que representam e simbolizam toda a realidade do mundo externo assim como a realidade interna de sentimentos e relações intersubjetivas, a linguagem - como não poderia deixar de ser - vai representar também aquela que é a relação primordial e constitutiva da criança, aquela que lhe é a mais importante: a relação materna. As palavras vão representar a mãe, vão simbolizá-la e assim permitir sua introjeção, processo necessário para que a criança admita perdê-la.

Freud ilustrava este processo de representação e simbolização da separação da mãe através da observação do jogo de uma criança 6. A criança brinca com um carretel que está amarrado com um cordão. Ela joga fora de seu berço o carretel e simultaneamente grita um som que os familiares entendem como sendo proveniente da palavra alemã fort, que significa saiu, foi-se, e, com grande satisfação, recolhe o carretel pelo fio gritando da (eis aqui). Ou seja, a criança representa a separação da mãe e sua volta através do carretel e através das palavras fort e da. O jogo, além do mais, é uma tentativa sua de controlar ativamente algo que sofre passivamente - as dolorosas separações da mãe. Podemos dizer que com o desenvolvimento, precisará menos da brincadeira em si e mais da palavra, da linguagem.

A íntima relação da linguagem com a mãe fica especialmente evidente na análise de pacientes bilíngues ou poliglotas. Nestas ocasiões, fica claro o uso resistencial feito pelos pacientes das outras línguas que não a materna, permanecendo esta fortemente reprimida, por condensar em si toda a conflitiva materna mais primitiva, como mostraram Greenson 7 e Amati-Mehler 8. Situação semelhante se dá na observação de escritores com específica inibição de produzirem em suas línguas maternas, como foi o caso de Beckett 9.

Por tudo isso, Pontalis diz: "No detalhe, no ínfimo, no passo a passo dos restos, a fala, quando nada a comanda a não ser seu próprio impulso, reconduz ao objeto perdido, para dele se desligar... Separar-se, desunir-se do objeto e de si, desligar-se do semelhante ao idêntico, medir incessantemente a distância entre a coisa possuída e a palavra que a designa, e que, ao designá-la, diz de imediato que ela não está ali 10".

É o que Pontalis chama de melancolia da linguagem, a linguagem como substituto do objeto amado perdido, a mãe. As palavras tornam presente uma ausência, ou ausente uma presença, são como que presenças-ausências, as da para sempre perdida mãe fusional, aquela com quem não era necessário falar, pois dela se fazia parte. Por este motivo, as palavras, a fala, se vinculam inextricávelmente ao desejo insatisfeito de estar naquela situação fusional anterior, naquele momento mítico onde criança e mãe eram uma Coisa (Kaufmann, Lacan)11 maravilhosa e inominável, para sempre desfeita e perdida.

A linguagem não só é melancólica, mas também é intrinsecamente estranha, estrangeira, pois ela é a marca da distância e da separação entre a criança e a mãe. Vem de fora, do Outro que é a mãe enquanto sujeito diferente e separado da criança e, ao mesmo tempo, é a língua da mãe, é o que há de mais próximo, íntimo e familiar, aquilo que se confunde com a própria criança. Acredito que aí esteja uma outra raiz da sensação do unheimlichkeit, do estranho familiar descrito por Freud12. Sendo assim, as palavras, o discurso, constituirão sempre uma língua estrangeira, imposta à criança, imposição dura e, no entanto, indispensável ao estabelecimento das bases de seu psiquismo, a seu advento como sujeito humano. A estranheza da linguagem, da qual nem sempre nos damos conta, se evidencia, por exemplo, na brincadeira infantil que consiste na repetição de uma palavra à exaustão, o que faz com que ela perca todo e qualquer revestimento simbólico, restando apenas o vazio: o real de puros sons sem sentido.

A criança infans, que não fala ainda, ouve, absorve, apreende, aprende a fala dos adultos, estes sons absolutamente desconhecidos, misteriosos, surpreendentes, enigmáticos, fascinantes.

Retomando agora o caso do irmão de meu analisando e dos fiéis fundamentalistas, podemos imaginar que eles, ao falarem línguas, estão, um em nível psicótico ou outros em nível neurótico (histérico), regredidos e identificados com a mãe, com os adultos, com os portadores da língua, com os falantes. Revivem, assim, aqueles momentos fundamentais e constitutivos do psiquismo, em que ouviam a língua estrangeira, uma algaravia incompreensível, carregada de sentidos e desejos dos adultos.

Diz Laplanche: "Esse mundo adulto não é um mundo objetivo, que a criança teria que descobrir e aprender, como aprende a caminhar e a manipular coisas. Caracteriza-se pelas mensagens (linguísticas ou simplesmente semiológicas: pré ou para linguisticas) que questionam a criança antes que ela as compreenda, e às quais deve dar sentido e resposta (o que vem a dar no mesmo) (...) Pelo termo sedução originária qualificamos, portanto, esta situação fundamental na qual o adulto propõe à criança significantes não verbais tanto quanto verbais, e até comportamentais, impregnados de significações sexuais inconscientes13".

É o discurso do Outro, discurso que expressa o desejo deste Outro, discurso que vai constituir o sujeito para sempre alienado de si mesmo, como diz Lacan: "O significante produzindo-se no campo do Outro faz surgir o sujeito de sua significação. Mas ele só funciona como significante reduzindo o sujeito em instância a não ser mais do que um significante, petrificando-o pelo mesmo movimento com que o chama a funcionar, a falar, como sujeito14".

Estas mensagens e palavras primeiras, misteriosas, estranhas, fascinantes, portadoras dos desejos inconscientes dos pais, os significantes-enigmáticos ou metáboles, estarão para todo o sempre gravadas no Inconsciente, sendo - na verdade - seu núcleo central.

Dado a importância destes conceitos, citamos um tanto extensamente Laplanche: "Rapidamente constatamos que se trata de um mundo de significado e comunicação, transbordando por todos os lados as capacidades de apreensão e de controle da criança. De todos os lados afluem mensagens propostas. Por mensagens não entendo necessária nem principalmente as mensagens verbais. Todo gesto, toda mímica tem função de significante. Esses significantes originários, traumáticos, chamemo-los significantes-enigmáticos, precisando o que entendemos por isso. Esses significantes não são enigmáticos somente pelo simples fato de que a criança não possui o código e que teria de adquirí-lo. Sabemos bem que a criança começa a habitar a linguagem verbal sem que lhe seja fornecido previamente um código, assim como podemos adquirir uma língua estrangeira pela prática diária. Não se trata disso. Trata-se do fato de que o mundo adulto é inteiramente infiltrado de significados inconscientes e sexuais, dos quais o próprio adulto não possui o código. E por outro lado se trata do fato de que a criança não possui as respostas fisiológicas ou emocionais correspondentes às mensagens sexualizadas que lhe são propostas; em resumo, que seus meios de constituir um código substitutivo ou provisório são fundamentalmente inadequados. (...) O trabalho de domínio e de simbolização deste significante-enigmático termina necessariamente em restos fueros inconscientes, que chamamos objetos- fontes da pulsão15".

Não é indiferente que, nos dois exemplos citados - o irmão do analisando e os fiéis, isso aconteça num ambiente sagrado, religioso, onde está em jogo a presença de um deus, que tudo sabe e de quem se recebe todos os dons. A recriação de pais poderosos e protetores, em quem se pode confiar e de quem se pode esperar amparo e proteção é a base de toda religião. Assim, o milagre relatado nos Atos dos Apóstolos poderia ser considerado como uma ilustração mítica do processo de aquisição da linguagem.

Essa característica encantatória da fala, da linguagem, que nós analistas teorizamos, os poetas têm dela conhecimento intuitivo. Essa linguagem, que não tem apenas seu aspecto operacional de comunicação e troca de informações, mas que está para sempre ligada à perda dos objetos amados, que representa estes objetos, que está ligada à introjeção do discurso alienante do Outro, a estes significantes-enigmáticos, essa a língua materna, essa língua primitiva, eivada de desejos e organizadora das fantasias, é essa a língua que interessa ao psicanalista e ao poeta.

É partindo desta premissa que Mannoni explica a estranheza provocada pela poesia de Mallarmé: "Pois com suas poesias (Mallarmé) reconduziu-nos à idade em que era preciso adivinhar o sentido do que ouvíamos. Foi Baudelaire quem disse que o gênio é a infância reencontrada à vontade. Em matéria de linguagem, com Mallarmé, isso é feito mas por meio de um artifício. Ele faz-nos viver um aspecto da linguagem que, para nós, biograficamente é um aspecto arcaico. Ele tem provavelmente a chance de não o saber. Realiza-o sem teorizá-lo. Não é o único, sem dúvida, há outros poetas que o fazem, por certo, mas não de uma forma tão sistemática.(...) Mallarmé renova para nós uma experiência infantil....Brincamos de nos perder em nossa língua materna, pelo prazer do jogo de nela nos reencontrarmos16" (grifos do autor).

Assim, aquele texto sonoro, rico de rimas, de assonâncias, de palavras que se agrupam num conjunto formalmente perfeito mas cujo conteúdo parece escapar, parece não existir, que não se consegue captar inteiramente, que meio se adivinha, que mantem-se num lusco-fusco que conduz a um encantamento, um maravilhamento, tudo isso que acontece na leitura de Mallarmé, remeteria o leitor à evocação de vivências arcaicas infantis ligadas aos primeiros contatos com a desconhecida língua materna.

Se isso é particularmente evidente em Mallarmé, na verdade é uma capacidade comum a todos os poetas, que recriam, sem sabê-lo, no leitor este prazer antigo que teríamos sentido um dia ao termos nossos primeiros contatos com a lingua.

Poderíamos dizer que Mallarmé (e, por extensão, todos os grandes poetas), tal como o irmão do paciente e como os fiéis, todos eles falam línguas. Mas não podemos deixar de lado uma diferença essencial. É verdade que há uma matriz comum, mas algo de radical separa tais situações, pois em Mallarmé (e em outros poetas) temos o fino e complexo manejo da linguagem com fins literários, enquanto nos outros casos o que aparece são sintomas regressivos, formas de identificação arcaica em estado bruto, não reelaboradas estéticamente, que é o que distingue a arte do mero sintoma.

Essa distinção pode ser ilustrada com um episódio da história da literatura. Quando Joyce estava escrevendo Finnegans Wake, sua filha Lucia entrou em surto psicótico e passou a escrever na forma típica de seu distúrbio mental, produzindo uma escrita desagregada, fragmentada, sem sentido, cheio de neologismos e barbarismos. Joyce, assustado com a doença da filha, recusa-se a reconhecê-la como tal e passa a achar que a filha estaria fazendo importantes criações linguísticas estéticas semelhantes às que ele mesmo estava inventando em Finnegans Wake. Joyce recorreu a Jung, que delimitou a diferença entre a produção estética de um e a escrita sintomática da outra.

Ellmann conta-nos o episódio: "Joyce nutria a secreta esperança de que, quando ele saísse da escura noite do Finnegans Wake, sua filha escaparia de sua própria treva.(...) O pai dela teve várias discussões com Jung. Quando o psicólogo indicou elementos esquizofrênicos em poemas que Lucia escrevera, Joyce, lembrando os comentários de Jung sobre o Ulisses, insistiu em que eram antecipações de uma nova literatura, e disse que sua filha era uma inovadora ainda não compreendida. Jung garantiu que algumas de suas palavras portmanteax e neologismos eram notáveis, mas disse que eram acasos; ela e seu pai, comentaria ele mais tarde, eram como duas pessoas descendo ao fundo de um rio, uma caindo, outra mergulhando17".

Mais do que oportuna, a menção a Joyce e Finnegans Wake é imprescíndivel quando o assunto é linguagem e literatura. Embora produzindo numa linha diferente da de Mallarmé, Joyce igualmente tem na linguagem o centro de suas preocupações. Finnegans Wake, que dele exigiu tantos anos de esforço, é um marco importante por inaugurar uma abordagem nova na literatura.

Dizem os irmãos Campos: "O Finnegans Wake, mais ainda que o Ulisses, assinala o dissídio com a era da representação (do romance como raconto ou fabulação) e instaura, no domínio da prosa, onde se movia o realismo oitocentista com seus sucedâneos e avatares, a era da textualidade, a literatura do significante ou do signo em sua materialidade mesma (se o realismo subsiste, este será agora de natureza estritamente semiótica)18" (grifos do autor).

Aí, longe dos realismos e dos enredos, o grande personagem é a própria linguagem. Joyce recria a linguagem enquanto magma primitivo de onde brotam todos os enredos e a própria realidade, imaginando-a num tempo primevo quando os usos e os costumes ainda não a tinham conformado e cristalizado. Ali, o significante recupera sua feição proteica.

Desta forma, poderíamos pensar que também Finnegans Wake remete, por outras vias, a esses tempos primevos dos primeiros encontros da criança infans com a lingua materna. Vê-se ainda que estamos muito próximos dos neologismos e da glossolalia enquanto sintomas psicóticos, característicos principalmente da esquizofrenia. Daí a compreensível e já mencionada confusão que o próprio Joyce estabeleceu com sua filha.

Se Mannoni, como vimos, entende a forma como Mallarmé trata a linguagem como o recriar da relação primordial da criança infans com a mãe, num momento de apreensão e identificação, de introjeção da linguagem, não deixa de ser interessante comparar esta abordagem com a de Kucera, que vê como uma forma de ataque sádico os maus tratos que Mallarmé inflinge à língua mãe.

Diz Kucera: "Em tal sentido, (Mallarmé) torturou estranhamente a língua francesa. Separa o epiteto do substantivo, colocou o adjetivo e seus complementos antes do nome modificado, isolou os adjetivos demonstrativos, deu por entendidos os auxiliares dos verbos, suprimiu as conjunções explicativas, fez desaparecer pouco a pouco os signos de pontuação que considerou como acessórios inúteis. Empregou o mesmo termo ao mesmo tempo segundo o sentido próprio e o sentido figurado, elevou às preposições seu lugar tradicional, inverteu os termos do desenvolvimento lógico, misturou incidentes na frase principal sem advertir ao leitor com a presença de parêntesis...(Fabureau). A crueldade e a falta de cuidados com que Mallarmé trata a língua francesa prova duas coisas: por um lado a quantidade de forças destrutivas em jogo e por outro essa tendência fundamental para o isolamento que se expressa em termos notavelmente concretos19 (tradução do autor) .

É ainda Mannoni quem cita uma passagem da vida de De Quincey, quando este sentia inexplicável prazer ao assistir uma missa rezada em espanhol. Ouvir aqueles sons totalmente estranhos lhe era muito prazeiroso: "Penso que essas visitas o faziam voltar aos primeiros meses de sua existência, quando sua língua materna ainda lhe era estranha20".

Essa experiência de De Quincey dificilmente ocorreria hoje em dia, quando os meios de comunicação, a globalização, o turismo, os negócios, os vastos movimentos migratórios em torno da Terra pelos mais variados motivos aproximam universos linguísticos, fazendo com que todos tenham desde a mais tenra infância a experiência de ouvir outras línguas que não a materna, banalizando-se, diluindo-se e camuflando-se assim a fascinação com a língua estrangeira enquanto eco de uma vivência arcaica.

Possivelmente isso só e raramente ocorreria hoje em lugares mais remotos, distantes, com populações muito isoladas, sem contato com o mundo externo. Creio ter presenciado algo assim quando criança, fato que registrei pelo seu inusitado e até mesmo constrangimento, embora só pudesse entendê-lo anos depois.

No final dos anos 50, fui para uma cidade no interior do Ceará onde um tio era prefeito. Naquelas brenhas pobres, de população quase totalmente analfabeta, sem eletricidade, isolada dos centros maiores, muito poucos tinham aparelhos radiofônicos que captasse a capital ou alguma outra cidade maior distante. Durante minha estadia ali, meus tios receberam amigos franceses que não falavam português.

Calhou de chegarem à casa do meu tio alguns correligionários que moravam em sítios e povoados distantes da cidade, uma gente completamente iletrada, isolada. Além do português mais ou menos regular dos mais abastados da região, aqueles homens deviam conhecer apenas seus patuás e, provavelmente, o remoto latim das missas, que talvez nem considerassem como uma língua propriamente dita e sim como uma fórmula mágica de comunicação com o divino, algo imcompreensível e inacessível.

Lembro muito bem da surpresa imensa e o júbilo daquela gente frente aos franceses. Eles ficaram num misto de encantamento e zombaria, não conseguiam se afastar deles e não paravam de rir, imitando-lhes o modo de falar. Eles quase não podiam acreditar no que ouviam. Parecia-lhes estranho, como que aquelas pessoas falavam daquele jeito?

Hoje entendo que estariam revivendo o encanto dos primeiros contatos com a língua materna ainda estrangeira, não identificados ainda com a mãe e/ou adultos – o que seria o caso do irmão do analisando, dos fiéis, de Mallarmé e dos poetas - mas revivendo diretamente a posição da criança que ouve a voz estranha.

Há algum tempo atrás, vimos nos jornais a notícia de que Fidel Castro, na cerimônia de posse de uma de suas reeleições, bateu seu próprio recorde, falando ininterruptamente por 9 (nove) horas. Esse fato levanta algumas questões. Para quem falava Castro? Qual seria seu interlocutor imaginário? Acreditaria ele que sua platéia estaria interessada e atenta durante tanto tempo? Importaria o conteúdo de sua fala? Ou o que estava em jogo, o que interessava efetivamente, era o ato de falar enquanto símbolo e manifestação direta de poder, de dominação e sujeição do outro?

Escolheria esta última hipótese como a mais provável e, sendo assim, a truculência autoritária de Castro - impensável em qualquer situação democrática, onde nenhum lider ousaria impor-se a uma platéia por tanto tempo - seria uma ilustração da truculência estrutural do discurso do Outro (mãe, adultos) sobre a criança. Discurso que se impõe à criança e a submete, alienando-a de seu próprio desejo e, paradoxalmente, constituindo-a como sujeito desejante.

Sob este prisma, o discurso de Castro seria mais uma manifestação do falar línguas, este estar identificado com o adulto que impõe o discurso à criança infans.

Para encerrar, cito duas poesias que bem ilustram o que vimos acima, o como a palavra transcende sua condição de mero signo comunicativo para, enquanto significante e manifestação do simbólico, expressar nossa mais pura essência: ela remete sempre ao objeto perdido, daí a essencial melancolia da linguagem, no dizer de Pontalis. É nesse sentido que a palavra é a morte da coisa.

É interessante notar que nestas poesias as palavras não são forçadas a assumir seu aspecto proteico e multiforme, de significante aberto a infinitas significações, nem buscam o enigmático e o misterioso em cujas ambiguidades se abrigam todas as possibilidades, características de Joyce e Mallarmé. Aqui elas recuperam sua feição mais convencional, se esforçam para significar algo específico e conseguem fazê-lo com grande propriedade.

Uma das poesias é de Octavio Paz. Chama-se Conversar21:

Leio num poema:

conversar é divino.

Porém deuses não falam:

fazem, desfazem mundos,

enquanto os homens falam.

Os deuses, sem palavras,

jogam jogos terríveis.

O espírito desce

e desata as línguas,

porém não fala palavras:

fala lume. A linguagem

pelo deus inflamada

é uma profecia

de chamas, um desabar

de sílabas queimadas:

cinzas sem sentido.

A palavra do homem

é filha da morte.

Falamos porque somos

mortais: palavras não

são signos, são séculos.

Ao dizer o que dizem

os nomes que dizemos

dizem tempo: nos dizem,

somos nomes do tempo.

Conversar é humano.

Os deuses não padecem, como nós humanos, das vicissitudes de tempo e espaço, instauradores da perda e da separação. Na medida em que eles são onipotentes e onipresentes, não estão longe de nada, não perdem nada, podem ser qualquer coisa.

Somos como deuses quando estamos em nossa relação simbiótica e indiscriminada com a mãe. Vivemos em regime de onipotência e onipresença. Não estamos separados da mãe, não a perdemos. Consequentemente, não precisamos falar com ela. Somos a mãe.

Nossa condição de adultos é o contrário daquela onipotência. Nossa vida é um rio que nos leva para longe sem cessar, nos afastando permanentemente de coisas, lugares, pessoas, de nossos entes queridos, de nós mesmos. Precisamos então das palavras para representar o ido e o perdido. As palavras são nossa única possibilidade de retê-los, de guardá-los.

A palavra é filha da morte sim, sendo a morte nossa maior contingência, a consciência da morte é a maior prova de nossa humanidade. As palavras são indicadores de nossa submissão ao tempo, mas são, também e paradoxalmente, nossa única mas potente forma de vencê-lo. Como dizia Shakespeare, é a única forma de afastar o tigre do tempo cuja garra ameaça a face da amada, que ficará para todo o sempre jovem no soneto imortal.

Não é difícil encontrar remanescentes desta situação quando agíamos como deuses, quando não precisávamos da palavra por estarmos fundidos com a mãe. Vemos isso no consultório e na vida cotidiana. Nosso narcisismo nos faz lamentar ter que falar, gostariamos que nossos pensamentos e desejos fossem adivinhados e realizados sem que tivéssemos lutar para falá-los e realizá-los.

A outra poesia é de Dante Milano e chama-se Vocabulário22:

Áridas palavras,

Refratárias, secas

Arestas de fragas

Secretando uma água

Morosa, suada,

Que não mata a sede.

São pedras na boca.

Rolam balbuciantes

Buscando um sentido.

Uma quer ser beijo.

Outra quer ser lágrima.

Não basta dizê-las.

Elas querem ser

Mais do que palavras.

Como captarei

A idéia sem fim

(Não sei de onde vem)

Que tenta exprimir-se...

Áridas palavras

Para as bocas ávidas,

E quando elas brotam

Não são mais que as notas

De uma extinta música...

Vemos aí, com grande beleza e clareza, a percepção do poeta, que entende a melancolia da linguagem e a expressa diretamente. As palavras querem ser mais do que palavras, querem voltar a ser coisas. Rebelam-se por serem apenas referências, sígnos, símbolos, significantes de uma extinta música, aquela que embalava a ligação com o objeto – a mãe - agora definitivamente perdido.

  

NOTAS

1 Ato dos Apóstolos - II - 1-13

2 J.C.Flugel , "Some Unconscious Factors in the International Language Movement with Especial Reference to Esperanto", International Journal of Psychoanalysis (IJP), vol. IV, p.171-208

3 W.Bion, "Group Dynamics: A Re-View". IJPA (1952 33, pp. 235- 246

4 J.Amati-Mehler, S. Argentieri, J. Canestri J (1993): The Babel of The Unconscious. IUP, Madison, p.14-18

5 J. Laffal, Language, Conciousness and Experience, Psic.Quart., 36:61-66

6 S. Freud, Além do Princípio do Prazer, Rio de Janeiro, Imago Editora, 1976, p. 25

7 R. Greenson, The Mother Tongue and the Mother", IJP, (1950),31:18-23

8 J.Amati-Mehler, op. cit.

9 P. J. Casement, Samuel Beckett’s Relationshipto his mother-tongue", Int.Rev. Psycho-Anal., (1982), 9,35-44

10 J.-B. Pontalis, "A Melancolia da Linguagem" in Perder de Vista – Da fantasia de recuperação do objeto perdido, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1991, p. 143

11 verbete "Coisa" in Pierre Kaufmann (org.), Dicionário Enciclopédico de Psicanálise - O legado de Freud e Lacan, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1996, p. 84

12 S. Freud – "O ‘Estranho’" in Uma Neurose Infantil e outros trabalhos, volume XVII da Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas, Rio de Janeiro, 1976, Imago Editora, p.273

13 J. Laplanche, "Da Teoria da Sedução Restrita à Teoria da Sedução Generalizada" in Teoria da Sedução Generalizada e outros ensaios, Porto Alegre, Artes Médicas, 1988, p. 118/119

14 J. Lacan, "O Campo do Outro e o retorno sobre a transferência", O Seminário - Livro 11 - Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1979, p. 197

15 J. Laplanche, op. cit., p. 78 e 120

16 O. Mannoni, "Um Mallarmé para os analistas" in Um Espanto tão intenso – A vergonha, o riso, a morte, Rio de Janeiro, Ed. Campus, 1992, p. 66 e 71

17 R. Ellmann, James Joyce, São Paulo, Editora Globo, 1989, p. 837

18 ª E h. DE Campos, Panaroma do Finnegans Wake, São Paulo, Editora Perspectiva (3a. edição), 1986, p. 18

19 O. Kucera, "Stephane Mallarmé", Revista de Psicoanalisis, (Argentina) - 7:249-94, 1949-50

20 O. Mannoni, op.cit., p. 66

21 "A travessia poética de Paz", de Augusto Massi, (tradutor do poema) caderno Mais! Folha de São Paulo pg 5 - 3/5/98

22 D. Milano- Poesia e Prosa – Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1988, pg 32