Repassando
os fundamentos
Tales A. M. Ab’Sáber
Resenha de Renata Cromberg, Cena incestuosa, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2001, 260 p.
O recente trabalho de Renata Cromberg, Cena incestuosa, é, do meu ponto de vista, um livro bastante instigante. Há nele algo dos trabalhos radicais em psicanálise, aqueles que não fazem apenas circulação em uma esfera de abstração da experiência psíquica humana – que podem perfeitamente descambar para a mera racionalização – mas que, por outra via, parecem ser escritos com a carne e o sonho do próprio analista, que os experimentou tanto quanto formulou. Estes livros, que costumam ser os essenciais na literatura psicanalítica, têm a qualidade de não serem apenas lidos por seus leitores, mas de também invadir uma certa zona de espanto e constituição, causando freqüentemente reações psíquicas derivadas diretamente da vida emocional de quem lê, que se vê convocado mais amplamente, tanto em sua vida inteligente quanto na inteligência dos afetos, da ordem ética das coisas e nos fundamentos de algo impreciso que se dá, digamos, entre o eu e o corpo.
Este tipo de transmissão e efeito inconsciente nos fala mesmo, em uma espécie de real da experiência psíquica, de onde a psicanálise se dá, de como a sua possibilidade no conceito se torna efetiva em um lugar vivo.
Entre o eu e o corpo – o corpo concreto e esterilizante psíquico do agressor sexual, o corpo arcaico e fragmentário da mãe narcisante, na qual se é revertido pelo ato de violência – é também, no plano do conteúdo, uma das polarizações importantes que organizam a ampla matéria do livro, espécie de horizonte problemático, que se articula com outras tensões que poderíamos recolher da leitura: entre a constituição narcísica e o pólo de identificação cultural, que reciprocamente implodem na esfera do incesto, entre as pulsões masoquistas, de descarga e dissociativas, e as formas das fantasias desejantes positivas, subssumidas no campo tanático arcaico, entre a criança e suas sutis intensidades em constituição e a violência do adulto e sua mensagem sexual enigmática, entre a pulsão que se vê aprisionada e seus horizontes de identificação e localização das posições externas, que se vêem revertidos à regressão, e a impossibilidade de estabilidade simbólica e, por último, mas não por fim, entre a natureza e a sua elevação à cultura humana. Estas linhas gerais de problemas amplíssimos são alinhavadas e tratadas com precisão e parecem estar permanentemente em equilíbrio, alterando apenas a sua posição de figura ou de fundo, de primeiro plano ou horizonte, ao longo da leitura.
O trabalho clínico apresentado vivamente no livro tem origem em uma pesquisa levada a cabo por um grupo de analistas, do qual Renata estava na posição teórica e transferencial de supervisora. Da mesma forma que nos sentimos humanamente incluídos na matéria do livro, ou seja, que ele é objeto de transferência, sentimos a intensa presença da autora nos casos em que ela não esteve presente como analista, o que parece indicar fortemente uma espécie de matéria psíquica trabalhada em que é fácil se sentir incluído. Podemos lembrar Freud aqui: por que durante séculos a tragédia de Sófocles manteve-se causando espanto e fascínio sobre os homens, enquanto outros dramas do destino não tiveram a mesma sorte? Por que estávamos em fantasia – e experiência que se tornou sonho – presentes nela. Um dos corações, exposto como uma fratura à reflexão e a análise, do livro de Renata é o Édipo psicanalítico, esquadrinhado em muitas de suas direções no pensamento da psicanálise contemporânea, mas presente, também, na própria fantasia da passagem ao ato incestuoso, objeto central da obra, que, estranhamente, nos faz ainda tremer nas bases, literalmente nos incluindo naquele estranho mal, que em algum lugar também desejamos. Se não, por que a angústia?
Um dos trabalhos difíceis do livro é exatamente o da articulação entre Édipo e violência, o que cria um problema em abismo para o conceito e o seu afeto, por que, normalmente – sem a passagem ao ato do incesto –, a passagem humana pela configuração edípica já seja uma passagem pela violência e, talvez mais, seja a passagem pela forma que estrutura simbolicamente o sentido da violência. As discriminações entre desejo e lei, totalidade narcísica e barramento de identificação com o outro, delimitação da onipotência psíquica e potência no plano da realidade compartilhada, que são o grande saldo da virada edípica, são baseadas, como se sabe, em intensas experiências psíquicas que se configuram no processo como violência, angústia de castração, e que levam o mecanismo geral e arcaico da dissociação a incorporar a dissociação normal, a estruturação do recalque e do inconsciente, onde esta violência poderá ser, redimida ao ser positivada em novo e amplo sentido psíquico. No estudo de Renata este estrato de violência humana necessária, que é o Édipo e sua castração simbólica, – não plenamente acontecida no adulto que deveria cuidar, mas violenta –, é sobreposto a uma violência real, que coincide com o tempo fantasístico arcaico incestuoso, lançando as vítimas reais de tal mais-valia da violência em um impressionante caleidoscópio de formas psíquicas arcaicas, onde todos os estratos do primitivo estão expostos a olho nu e onde a reversibilidade simbólica edípica torna-se limite concreto, espécie de tampão real das possibilidades de desenvolvimento psíquico, que mantém os sujeitos regredidos, fragmentados e masoquisticamente submetidos.
O tratamento de tais verdadeiras tragédias psíquicas é difícil e, a seguir pelo livro, impreciso, uma vez que faz violência também ao psiquismo do analista envolvido e é um navegar de discriminação fina nos estratos do arcaico para a formulação e um ligamento de sentidos que também traumatizam na própria formulação:
“Esse masoquismo, esse narcisismo negativo, aparece, seja como sintoma seja como defesa contra um sofrimento psíquico maior, como medo de fragmentação, de psicotização. A sensação de impotência do analista se relaciona com a pergunta de como tirá-la disso que a protege de um sofrimento maior, mas que a faz sofrer tanto. A saída parece que é acolher esta criança masoquista impotente, acolher para abrir uma brecha. Impotência do analista diante de um movimento de erotização da violência e onde ela faz uma fantasia de santificação pelo sofrimento.”
“O percurso a refazer para ligar psiquicamente uma experiência de estupro, que é traumática, é refazer o percurso da sexualidade para ele incluir o estupro como violência sexual. É o único caminho psíquico. Parece que é todo o percurso da sexualidade que deve funcionar para ligar este montante de excitação desligada. São fantasias sexuais que vão ligar psiquicamente. O estupro não deixa de ser violento mas precisa ser entendido – psiquicamente e não racionalmente – como sexual para ser incorporado psiquicamente. Para tanto, precisa-se entender qual a mensagem sexual enigmática do agressor. A violência sexual também é alguma coisa da ordem do não-sexual – da ameaça de vida. Mas quando passa para o psiquismo passa a ser da ordem do sexual. A violência é da ordem do não sexual, mas é sexual, é um não sexual/sexual, quer dizer, ela precisa reconhecer o sexual no outro, bem na linha da primeira teoria da sedução freudiana. E aí, de alguma maneira, há a conjunção com a fantasia sexual inconsciente que não quer saber, este é o problema, se foi ou não desejado o estupro, já que na pulsão sexual que se expressa na fantasística inconsciente, o que importa é encontrar um objeto parcial que a satisfaça na realidade ou na fantasia; ela, portanto aproveita a situação. Refazer todo o percurso da sexualidade para sexualizar o evento, seja sexualizado enquanto uma invasão sexual do outro, portanto com aquilo que é enigmático das razões ou desrazões sexuais do outro, ou enquanto ligação dessa excitação com as próprias fantasias, para depois ficar com a percepção de um ato de violência.”
Neste campo delicado Renata vai operar hipóteses significativas sobre a natureza da identificação negativa, seja com a mãe fraca da família incestuosa, seja com o agressor sexual, e vai lançar a sua proposição das fantasias sexuais do sujeito como força positiva de ligação e integração psíquica, a sua proposição mais singular diante da tragédia psíquica da violência incestuosa.
Noutra direção de problemas, podemos pensar que as duas passagens trazidas acima operam regiões teóricas diferentes da vida da psicanálise contemporânea, que unifica diferentes estratos de sentido psíquico e mesmo de razões epistemológicas não inteiramente congruentes. A primeira delas aponta para um acolhimento, gesto de presença fundante, que resta ser melhor determinado em sua natureza metapsicológica e clínica, que teria o poder de acontecimento de sentido, transformação ou deslocamento, frente ao infernal da repetição masoquista de toda ordem da dor, e seu imaginário. A segunda mantém-se no campo mais nitidamente delimitado da releitura pós-freudiana da linguagem e da lógica de Freud, e seu desenho de incorporação e ligação psíquica do sexual são da ordem da tradição de tópicas e dinâmicas próprias ao pensamento freudiano. Pulsando entre estes dois mundos, o da descrição positiva do imaginário das forças e lugares psíquicos, o da análise, e o da introdução viva do acontecer do sentido, não inteiramente capturável pela positivação metapsicológica, o pensamento de Renata faz suas evoluções.
É assim que no desenvolvimento propriamente teórico do espinhoso problema teremos em jogo uma espécie de eixo histórico da psicanálise que, advindo da aporia tanática freudiana, que reconhece um estado de coisas psíquicas mais complexo que o dos primeiros tempos psicanalíticos, incluindo as desconstruções narcísicas e o masoquismo primário no campo do desejo, vai ter um ponto de virada na obra de Ferenczi – onde a autora “encontrou um entendimento da violência sexual muito próximo ao que estava começando a balbuciar, após a análise do material clínico” –, e seus problemas da relação dialética entre formas psíquicas e a ação traumática da língua sexual do adulto, e, por fim, inclui a intensidade transferencial plena das experiências psicanalíticas de Bollas, e sua contemporânea clínica do self, derivada de Winnicott. Winnicott, e o que poderíamos chamar a sua teoria geral do encontro de sujeito e ambiente, e suas noções derivadas, como a noção central para a constituição narcísica de ilusão, é, de meu ponto de vista, a carta ausente de tal história da violência em psicanálise, embora represente a expansão da consciência psicanalítica que se deu exatamente entre o momento histórico de Ferenczi e o de Bollas.
Esta tensão geral, evocada acima, entre a representação teórica psicanalítica de linhagem clássica e o problema do encontro significante, a natureza do acolhimento subjetivante, vai convocar ainda mais dois psicanalistas ao universo teórico do trabalho, que se dividem nitidamente entre estes dois registros, o americano estudioso da subjetivação perversa Robert Stoller, e sua revisão dos movimentos da sexualidade freudiana em jogo na montagem da cena perversa, com sua ampla erotização do ódio, e a nossa colega Myriam Uchitel e seu aprofundado estudo da clínica do traumático, um certo fundo geral do problema das violências psíquicas encontradas no percurso humano. Neste campo amplo de problemas psicanalíticos a noção de predador psíquico, introduzida por Renata a partir do pensamento do etólogo B. Cyrulnik, é, de meu ponto de vista, uma construção de grande valor para a consciência psicanalítica atual, não apenas para a clínica da violência sexual e do incesto – onde a autora foi longe na caracterização das fragilidades e fixações psíquicas extremas do adulto violador –, mas do traumático tanático em geral, quando, por vezes, antes mesmo de se lançarem os laços de intensidade pulsional desejante entre sujeito e o objeto da experiência da pulsão, este objeto pode faltar amplamente, configurando a falha estrutural, a fundação humana no impensável, em uma falha ambiental e da natureza psíquica do objeto que também pode ser concebida sobre a categoria de predador psíquico.
Por fim, para caracterizar a amplitude dos horizontes teóricos e humanos que o livro nos oferece, Renata se dedicou também a um outro trilhamento articulado ao seu problema, que enriquece muito suas conclusões e redefine com maior precisão os termos de sua construção teórica: a etnologia teórica de Claude Lévi-Strauss e sua discípula Françoise Héritier. Neste registro são colocados os problemas de fundação da cultura e sua diferenciação da natureza, no limite do que seria universal ao humano. Aí são estudadas as formas de ordenação dos sistemas de parentesco, onde o tabu do incesto seria o ato fundante da ordem das trocas dialéticas entre natureza e cultura, transpondo o sexual definitivamente à sua apropriação cultural, um sistema de trocas simbólicas, e fundando propriamente a esfera do humano, segundo Lévi-Strauss. Mas Renata, baseada em Héritier, vai considerar esta estruturação uma ordenação do ponto de vista da experiência masculina do barramento do incesto, enquanto haveria uma outra lógica, de caráter feminino, que barraria o chamado incesto de segundo tipo, que seria o contato sexual, mediado pelo homem, entre a mãe e a filha, e entre duas irmãs. Segundo Renata, Héritier estudou a configuração de uma gramática psíquica universal para a configuração das formas da cultura, e, para o maior interesse dos psicanalistas, vai localizar a fundação dos termos destas articulações estruturais arcaicas na observação da diferença sexual anatômica e na troca de fluidos sexuais, que seriam ambas as fontes originárias, da qual não se pode fugir, de toda imaginarização da natureza e da vida social. No fundo de tal construção, – estudada em detalhe, como tudo no livro – habitaria a categoria princeps, em estado de fantasma fundamental, de todo pensamento, a tensão entre o idêntico e o diferente. A ordem cultural generalizada de barrar o incesto do segundo tipo estaria colocada sobre a fantasia arcaíssima de reduplicar a forma da matriz materna, tornar-se idêntica à mãe, caso os fluídos humanos de mãe e filha se tornassem idênticos no ato incestuoso.
Tal grau de construção limite de outra disciplina tem o poder de, mais uma vez, desalienar a psicanálise de qualquer pretensão de fundação teórica totalizante, a partir de suas categorias historicamente constituídas, abrindo-a a saberes afins, e vai contribuir definitivamente para a formulação do complexo quadro que Renata nomeou o conceito de violência sexual incestuosa. Para terminar, podemos apontar um insight psicanalítico advindo daí, deste contato com o estrangeiro psicanalítico, o diferente, nas palavras próprias de nossa inspirada autora:
“Estudando
as distorções na imagem corporal feminina e no valor da feminilidade
a partir das profundas distorções na sexualidade da mãe
e, a partir dela, na sexualidade da filha, nos encaminhamos para pensar este
magma comum entre mãe e filha, presente na identificação
sexual. Ele tanto pode ser fértil para a assunção da positividade
de um feminino não calcado mais no lugar de ser o pólo negativo
do fálico, na fantasia sexual fálica infantil que interpreta a
diferença sexual como fálico-castrado, fértil quando a
partir dele pode permitir diferenciação, um útero virando
dois, quanto pode ser perigoso e propiciador de uma identificação
fusional.”