Possibilidades
da clínica psicanalítica
Maria Lúcia de Araújo Andrade
Resenha de Ana Maria Sigal e Isabel Vilutis (orgs.) Colóquio freudiano: teoria e prática da psicanálise contemporânea, São Paulo, Via Lettera, 2001, 304 p.
Os textos que integram esse volume têm alguma coisa em comum. São
textos escritos por novos psicanalistas, na sua formação, enquanto
alunos do Curso de Psicanálise do Departamento de Psicanálise
do Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo.
Tal iniciativa dos organizadores favorece o desenvolvimento de uma condição rara entre psicanalistas, que é o hábito de escrever. No entanto, é deveras necessário que escrevam pois esses relatos, se feitos dentro de rigorosos princípios éticos, podem não só divulgar as experiências pessoais de alguns como torná-las, se publicadas, fonte de ensinamento para um grande segmento da população de profissionais da saúde, que se dedica, ou gostaria de poder se dedicar, à psicanálise.
Esse é um dos maiores méritos dessa publicação: tornar conhecido o que de mais falta sente o Brasil, quando se trata do conhecimento intelectual, que é o acesso às pesquisas em clínica psicológica/psicanalítica e seus resultados, realizadas dentro das faculdades de Psicologia da cidade de São Paulo, em seus cursos de graduação e pós-graduação, stritu e/ou latu senso e naqueles de extensão universitária.
Os autores, na sua maioria ainda desconhecidos, usam referenciais teóricos bastante diferentes, transitando entre Freud, Klein, Winnicott e Lacan. Seus textos às vezes claros, outras mais herméticos, mais ou menos interessantes, trazem relatos clínicos redigidos com propriedade, procurando integrar o modelo usado à prática que realizam. Dessa forma, cuidadosamente, ressituam suas questões, revendo a metodologia que suporta suas posições.
Esta é uma das muitas propostas valiosas contidas nessa coletânea. Consiste ela no esforço para não apresentar descritivamente as sessões, mas procurar sempre as articulações necessárias à prática da teoria e à teoria da prática, obtendo e proporcionando uma visão crítica adequada de seu trabalho, em cada momento.
Em “Como fazer para matar o bebê”, tem-se uma apresentação de um caso clínico e uma reflexão sobre a melancolia a partir de textos de Freud e Abraham. Já em “Menina bonita não sonha”, Thales Ab’Sáber aborda a relação mãe-bebê em algumas de suas nuances e as conseqüências dessa relação para uma menininha à luz de uma teoria winnicottiana.O texto de Veridiana Fráguas apresenta um caso de uma criança de seis anos diagnosticada como autista. A autora relaciona a constituição do Eu ao processo de aquisição da fala, apoiando-se em Freud, Winnicott e em alguns comentadores de Lacan. A questão edípica tem sua reflexão no texto “Quartin dos fundos”.
Assuntos de relevância para a clínica são tratados aqui, com atualidade e cuidado. Cada autor, à sua forma e seu estilo, desenvolve temas tais como o tratamento da psicose, a visão psicanalítica do autismo, questões sobre a identificação, o trauma, a vida, a sexualidade e a morte, pondo em discussão as possibilidades de um atendimento que permita diagnóstico e tratamento. Deixam entrever possibilidades de atendimento para aqueles, de todas as idades, que pelo seu sofrimento buscam uma ajuda, pois serão vistos e escutados atentamente. Isso tudo nos traz presente uma visão de uma psicanálise vivaz e atuante, que é aquilo que se espera dela nessa pós-modernidade em que vivemos.
Temas como anorexia, drogadição e suicídio são apresentados respectivamente por Alessandra Sapoznik Holcberg, Lygia Vampré Humberg e Alessandra Monachesi Ribeiro. As autoras buscam refletir assuntos de uma atualidade pungente para a clínica segundo seus referenciais teóricos, com uma base comum que são os textos de Sigmund Freud. Há também nesta coletânea a exposição sobre a loucura, apresentada no texto de Paulo César Lopez e uma leitura psicanalítica de um texto literário, em “O jovem Werther: uma história de paixão e morte”, e ainda uma abordagem sobre a sexualidade feminina e suas nuances, apresentando uma possibilidade de leitura para a questão da mulher nos textos de Ana Maria Amorim de Farias e Sylvia T. Pupo Neto. Tais características, de uma psicanálise vivaz e atuante, essenciais à sua transmissão, favorecem esse intuito do qual a obra está imbuída, e propiciam uma forma de exposição que facilita a compreensão do leitor e que podem ser vistas como as linhas diretrizes que unem uma produção tão vasta, uma vez que são, no total, quatorze temas e quatorze autores, não tão principiantes, como se conclui.
Por outro lado, notei nesse livro a falta de trabalhos que abordassem a questão social e cultural nas suas inter-relações com a psicanálise. Essa obra tão atual carece de textos que indiquem as possibilidades do uso desse método, o psicanalítico, para a clínica institucional e sociocultural, outro avanço possível e necessário para o momento em que vivemos.
Concluindo, a publicação dessa coletânea patrocinada pelo Sedes Sapientiae, através do seu Curso de Psicanálise, manifesta bem uma das intenções da sua criação em 1980, ou seja, a de estabelecer mais um espaço para a formação de psicanalistas onde idéias e posições teóricas pudessem ser mais livremente debatidas.