Editorial - Percurso 30
Quinze anos atrás, o editorial que inaugurava e apresentava Percurso trazia também uma disposição, na qual equipe editorial e membros do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae viam refletido seu acordo, a de "pensar a psicanálise" de um determinado modo. Este consistia em vê-la como "algo que se historiciza, que se inscreve no cruzamento de determinações psíquicas, sociais, temporais". Se termos chegado ao número trinta é motivo para comemoração, não deixa também de constituir ocasião oportuna para revermos propósitos e aquele compromisso de levar em conta a temporalidade e a historicidade. A teoria psicanalítica tem suas concepções próprias da temporalidade psíquica, partindo das primeiras concepções freudianas, da crítica que destas se faz e de desenvolvimentos mais ou menos ortodoxos. Mas pensar no próprio movimento da História, ao longo do qual teoria e prática psicanalítica tem ou não condições de se superar conservando, seria talvez plenamente possível apenas para um pensador que se colocasse fora do tempo. Não obstante, reconhecer que a psicanálise não se tornou uma essência congelada exige que tenhamos consciência daquilo que é refletido nas micro situações, vividas na prática. É preciso retomar ainda o cruzamento visado na proposta inaugural, seus sentidos a posteriori.
O cruzamento de determinações no qual a psicanálise se inscreve põe hoje em primeiro plano a face miserável da violência. É esta a crueldade? Deriva de uma insuperável tendência sádica na origem da psique? Inclusão social inferiorizante, aquém da cidadania, aquém do aquém do humano, é isto um fenômeno universal que só pode ser subsumido pela história evolutiva abstrata do aparelho psíquico? Se a violência está no mito fundador da psicanálise, se Totem e tabu tem a função de lembrar-nos quem somos, constitui não mais que um marco comemorativo, insuficiente para nos orientar.
Qual é o modelo de apreensão do concreto, qual é o paradigma de psicanálise aplicada que nos permite reafirmar a possibilidade de a psicanálise não se afastar da História? Se uma resposta assertiva está para além do além daquilo em que certos textos de Percurso têm tocado, esta, ainda assim, não extingue seu projeto editorial. Desejo e consciência, que não podem ser idênticos à intenção situada no passado, abrem-se para a proposta presente, doadora de futuro. Percurso se dispõe no vir-a-ser, solidário para com a investigação que se volta para a singularidade do sujeito, no interior de suas inter-relações e interações de uma dada sociedade. Quinze anos, têm o projeto fundador e o percurso desta revista. Que seja um começo, um début.