Psicanálise
e cultura: ainda e sempre
Inês Loureiro
Resenha de Renato Mezan, Interfaces da psicanálise, São Paulo, Companhia das Letras, 2002, 585 p.
O “catatau” de quase seiscentas páginas pode assustar o leitor desavisado e desencorajar os freqüentadores de textos rápidos e idéias curtas. O índice surpreende pela amplitude dos temas abordados, o que sugere um livro, no mínimo, heterogêneo. É com alívio, pois, que, já na “Apresentação”, reencontramos o estilo inconfundível desse autor que há muito nos ensina a pensar. Erudição e leveza, elegância e bom humor, prosa cristalina e lógica impecável: algumas páginas bastam para lembrar por que um novo lançamento de Renato Mezan é sempre um evento auspicioso no cenário intelectual brasileiro.
Em Interfaces da psicanálise, Mezan retoma alguns temas que lhe são caros e que perpassam sua obra desde meados da década de oitenta. De fato, após Freud: a trama dos conceitos (1982) – leitura “internalista” e filosófica da obra de Freud – virtualmente todos os livros abordam as interfaces ora explicitadas nesse título. Tais temas podem ser agrupados sob o grande leque aberto na “Apresentação”: “[a psicanálise] situa-se entre as disciplinas humanas, e, como todas elas, depende de fatores extracientíficos para se constituir e sobreviver. Esses fatores provêm do entorno social e cultural, de sorte que o não-diretamente-clínico faz parte dela, como pressuposto, como objeto ou como aresta de contato” (p. 10, grifos meus). Anuncia-se, assim, que as interfaces psicanálise/cultura podem se situar em diferentes patamares, apresentados em um dos principais ensaios do livro (intitulado, justamente, “Psicanálise e cultura, psicanálise na cultura”): a) a teoria psicanalítica da cultura (o que a psicanálise tem a dizer sobre a cultura em geral, sua gênese, conflitos intrínsecos, funcionamento de algumas de suas principais instituições); b) a sempre polêmica “psicanálise aplicada” (psicanálise como instrumento de leitura de fenômenos culturais), cuja dimensão metodológica (natureza, alcances e limites da interpretação psicanalítica em contextos extraclínicos) é particularmente relevante; c) cultura como ambiente no qual a psicanálise se desenvolve; esta dimensão implica desde o solo cultural de onde emerge a teoria freudiana (e aqui se inserem os estudos sobre as relações de Freud com a cultura européia, Viena, etc.) até os diferentes meios culturais em que a psicanálise veio a se implantar (o tipo de inserção em cada país, seus efeitos em termos de inovações teórico-técnicas e de difusão do movimento psicanalítico, etc.). Em suma, aqui a psicanálise é tomada ela também como um produto cultural e alvo de vários tipos de leitura – das histórico-sociológicas às informadas pela história das idéias e filosofia; d) os processos envolvidos na socialização dos indivíduos, isto é, a gênese da subjetividade nas culturas (o que envolve mecanismos universais e também conteúdos particulares, específicos da sociedade em questão); e) estudo de determinadas regiões da cultura (como artes e literatura, mitologia, religião, ética) e de fenômenos sociais (como educação, publicidade etc.).
Na obra de Mezan, a “virada cultural” tem início com Freud, pensador da cultura (1985), verdadeira matriz dos principais Leitmotive que não cessam de ser reelaborados desde então: a formação cultural de Freud (inclusive a questão do judaísmo), Viena fin-de-siècle, todo o círculo de problemas associados à “psicanálise aplicada”, as vicissitudes do movimento psicanalítico, as complexas vinculações entre teoria freudiana e vida social, entre outros. Da mesma época datam as conferências que deram origem a Psicanálise e judaísmo: ressonâncias (1987), logo secundado pela primeira coletânea (A vingança da esfinge, 1988), que abrigava primorosos ensaios sobre Viena, Foucault, assim como sobre as ferrenhas disputas entre psicanálise e demais ciências humanas no terreno da interpretação de fenômenos culturais. A sombra de Don Juan (1993) contém igualmente artigos com o selo “psicanálise e”: Don Giovanni como guia de leitura da noção de sedução, a Bildung do psicanalista, a identidade judaica. Com este livro também se introduz uma temática doravante central e na qual se mostra uma nova faceta da relação psicanálise/cultura: a inserção da psicanálise na Universidade brasileira. São, aliás, os percalços de sua experiência como leitor de teses e artigos psicanalíticos que conduzem Mezan à hercúlea tarefa de sensibilizar os freqüentadores da área para a importância de praticar uma escrita inteligível; nasce daí Escrever a clínica (1998) que, se não aborda diretamente temas culturais, tem no ambiente universitário seu principal disparador. Por fim, Tempo de muda (também de 1998) traz novamente uma série de ensaios significativos situados em várias das “bordas” psicanálise/cultura: “aplicação” a produtos tão díspares quanto Mapplethorpe e Althusser, Shakespeare e Eça de Queirós; Viena, uma vez mais; discussão com práticas terapêuticas e/ou medicamentosas de crescente apelo social; por fim, um pequeno, mas precioso conjunto de textos sobre psicanálise e ética.
Tudo isso para demonstrar que os temas que povoam esse Interfaces há muito vêm frutificando. Na verdade, com exceção da clínica (incluindo-se aí técnica e psicopatologia) e da metapsicologia, todo o resto tangencia, inevitavelmente, a cultura nesse sentido mais amplo (criações do espírito e instituições sociais). E isso se deixarmos de lado a evidência de que tanto clínica quanto metapsicologia não têm, em última instância, como escapar das impregnações culturais – basta evocar o perfil da clientela que busca o divã (e a poltrona...) ou o repertório de imagens e metáforas mobilizado para a construção de qualquer modelo metapsicológico.
Mas voltemos ao Interfaces. O livro reúne artigos publicados anteriormente e também material inédito, proveniente sobretudo dos cursos ministrados pelo autor na pós-graduação em Psicologia Clínica na PUC-SP. Na origem desses ensaios temos, portanto, vários tipos de leitor (público amplo e leigo, estudantes de pós-graduação, profissionais “psi”), o que certamente contribui para acentuar a preocupação com a clareza expositiva – salutar característica da escrita de Mezan.
Os dezessete artigos encontram-se distribuídos em três partes – “momentos de uma história”, “a psicanálise no século” e “a psicanálise na universidade” (também referidas como história das idéias psicanalíticas; vínculos da Psicanálise com seu entorno cultural e científico; psicanálise e pós-graduação). Porém, seria perfeitamente possível reorganizá-los segundo outros critérios – afinal, somos todos dotados da “faculdade de juízo editorial”, e ocasiões como esta convidam-nos a exercitá-la.
Em primeiro lugar, eu situaria os escritos mais “leves”, dirigidos a um público menos especializado e por isso especialmente saborosos. Incluiria aqui os ensaios sobre as cartas de Freud, a comemoração dos cem anos de A interpretação dos sonhos, a “ficção psicanalítica”, a publicidade e os dois textos sobre identidade judaica. Temos também, como em livros anteriores, um condensado de resenhas (aliás, um embaraço adicional para resenhistas de livros de Mezan é o fato de ele próprio ser um entusiasta e exímio praticante do gênero); as aqui reunidas mostram que seus interesses como leitor vão de Klein e Lacan a Monteiro Lobato e Mangabeira Unger!
Um segundo grupo seria composto pelos dois ensaios de cunho histórico: a recepção da psicanálise na França e a configuração do campo psicanalítico brasileiro nas últimas três décadas. Talvez o texto sobre psicanálise e pós-graduação não ficasse de todo deslocado nesse grupo, uma vez que nele se discutem os vários aspectos dessa recente e significativa forma de institucionalização da psicanálise no Brasil, a saber, sua vinculação com a Universidade.
Um terceiro conjunto agruparia ensaios de maior densidade teórica, relativos a temáticas mais clínicas e metapsicológicas; alocaria aqui os ensaios sobre Abraham, Ferenczi, a questão do olhar em Freud e o luminoso “Cem anos de interpretação”.
Por fim, um conjunto para o qual eu daria especial destaque, uma vez que nele encontramos os textos que apresentam e discutem os fundamentos que permitem situar todos os demais trabalhos. Penso que tal conjunto é formado por “Psicanálise e cultura, psicanálise na cultura”, “Sobre a epistemologia da psicanálise” e, em alguma medida, por “Subjetividades contemporâneas”. Lancemos um rápido olhar sobre cada um deles.
O primeiro, como vimos, inicia com um esforço de explicitação dos vários níveis em que se pode conceber a relação psicanálise/cultura – um avanço importante em relação a obras anteriores, ao menos no que se refere à organização e exposição didática dos argumentos em pauta; o artigo também traz acréscimos significativos para a discussão da Bildung de Freud, bem como para a compreensão dos elementos constituintes de uma teoria psicanalítica da cultura.
Já o texto sobre subjetividades contemporâneas merece ser mencionado exatamente porque esboça definições deste termo tão corriqueiro quanto mal delimitado: de fato, faz toda diferença pensar a noção de subjetividade como “experiência de si” ou como “modalidade específica de organização subjetiva” (molde para experiências individuais, produzido por fatores e processos extra-individuais) (p. 258-260). A distinção entre os planos do singular (único, pessoal), particular (próprio a alguns, mas não a todos) e universal (compartilhado com todos os demais da mesma espécie) – quase um truísmo lógico – é mais uma vez relembrada pelos efeitos esclarecedores que pode aportar para qualquer discussão teórica, clínica ou institucional em psicanálise.
Por fim, o ensaio sobre epistemologia parte da idéia de Lebrun sobre “racionalidades regionais” (cada disciplina teria uma racionalidade própria) para introduzir uma discussão interessantíssima sobre os entrecruzamentos e as sobreposições envolvendo teoria, prática clínica, história e epistemologia da psicanálise. Uma primeira distinção entre teoria e epistemologia: “A investigação epistemológica se preocupa com o modo de produção dos conceitos, com o fundamento dos dispositivos teóricos estabelecidos pela disciplina, com a forma pela qual ela constrói, valida ou refuta suas hipóteses. Seu objeto é portanto a teoria concebida como armação racional, enquanto o objeto da teoria é o campo de fenômenos do qual ela deve dar conta” (p. 437). Em seguida, a instigante tese de que a análise epistemológica ocupa uma “posição mediana” em relação à espiral da análise histórica: “[a análise epistemológica] pressupõe o conhecimento da história interna e externa da teoria, e pode fundamentar a discussão clínica stricto sensu, que por sua vez ganha densidade quando situada nos contextos mais amplos do movimento analítico e da cultura em geral (aí compreendidos os valores, a ideologia e o tecido social que tornam possível a prática e a impregnam, possibilitando também, em última análise, a construção da teoria da qual se ocupará a discussão epistemológica)” (p. 443). A história é, pois, condição necessária para a epistemologia, mas em nenhum momento confunde-se com esta; até porque, como se sugere mais adiante, operam em eixos distintos: “a epistemologia possui um olhar sincrônico; ela apreende as coisas num certo momento e realiza a descrição fina dos procedimentos e teorias utilizados em uma determinada disciplina. A história faz a mesma coisa, porém numa versão diacrônica” (p. 480). A partir daí, Mezan examina os mecanismos pelos quais a psicanálise estabelece seus conceitos (as “decisões fundadoras”, os tipos de raciocínio mobilizados), percurso que deságua em uma útil incursão pela ontologia. Pois se as diferentes ciências visam diferentes objetos apreensíveis por diferentes métodos, cabe visitar os vários “modos de ser” próprios à região da realidade em que se situam tais objetos (p. 466). Em meio à apresentação das peculiaridades do objeto “psíquico” Mezan assume um pressuposto fundamental: qualquer ciência implica uma atividade de construção, que não é caótica ou aleatória, uma vez que os objetos científicos possuem um referente (isto é, são recortados a partir de um fragmento de realidade, ainda que seja uma realidade ideal). Desenha-se então uma posição difícil de nomear, porque estamos entre um “construtivismo limitado” e um, digamos, “realismo plástico” (já que o caráter mínimo do referente permite a moldagem de uma amplíssima gama de objetos). Um outro ganho significativo desse ensaio está em justificar a alocação da psicanálise dentre as ciências humanas, sempre às voltas com a interminável tarefa de articular os planos do universal da teoria com o singular da clínica.
Como se vê, ao longo dos três artigos aqui destacados encontramos definições e posicionamentos que se revelam verdadeiramente fundamentais para quem pretende trabalhar nas interfaces da psicanálise: explicitação dos pressupostos ontológicos; concepção clara sobre a natureza da teoria e de seu lugar entre as demais ciências; delimitação das características e funções da história e da epistemologia; reflexão sistemática sobre o método; demarcação de uma noção de subjetividade e de suas relações com os fatores que a engendram. Eis alguns – não todos – aspectos que deveriam ser levados em conta na elaboração do mais trivial ensaiozinho de psicanálise aplicada.
Bem, convenhamos que tal complexidade deixa qualquer um aturdido. Ao término do livro, é inevitável uma sensação de desconcerto que remete ao parentesco, detectado por Giorgio Agamben, entre studiare e stupire – estudo e espanto; em suas palavras, aquele que estuda fica sempre um pouco estúpido, atarantado. O que Mezan nos mostra neste novo livro é que as interfaces da psicanálise multiplicam-se sem cessar e exigem um crescente refinamento teórico-metodológico para serem pensadas com rigor. De modo que já podemos nos colocar, de bom grado, à espera de novos ensaios sobre psicanálise e cultura – análise interminável, ainda e sempre instigante.