O originário: um conceito que ganha visibilidade
Ana Maria Sigal


O conceito de originário, tal como formulado por Jean Laplanche e Piera Aulagnier, fornece elementos para compreender as primeiras inscrições da vida psíquica, bem como o arcaico nas neuroses e nas patologias atuais.

O conceito do originário1 foi retomado, nos últimos anos, por vários autores, com a intenção de ampliar e recolocar o status meta psicológico das primeiras inscrições2.

Uma forma de colaborar na consolidação do campo da psicanálise consiste em revisar o estatuto teórico que dá fundamento à clínica, especialmente num momento histórico e político difícil como o que atravessamos. Isto afeta as instituições psicanalíticas e o campo da subjetividade que vem sendo foco de disputa entre o misticismo, o organicismo e o confessional.

Uma razão mais que suficiente para fazer o esforço de encarar as dificuldades que a feiticeira – como Freud se refere à metapsicologia – nos propõe é pensar que os modelos teóricos que elaboramos nos auxiliam passo a passo no fazer cotidiano. Eles são a condição necessária para que a clínica não se transforme numa técnica ou numa teoria do fazer.

O conceito de pulsão, de recalcamento, as identificações, a forma em que se pensa o inconsciente, os registros do tópico, dinâmico e econômico em Freud, o originário, o primário e o secundário em Piera Aulagnier, bem como o Imaginário, o Simbólico e o Real em Lacan, pertencem ao mundo da metapsicologia em seu sentido amplo.

Essas hipóteses teóricas que estão na base do sistema psicanalítico são as que nos permitem compreender a formação da subjetividade, assim como abordar a complexidade da constituição e do funcionamento do aparelho psíquico. Sem esses conceitos, seria impossível pensar a formação e os caminhos do sintoma, a constituição das neuroses e as diversas abordagens psicopatológicas.

Para um psicanalista, a teoria é mais do que uma aventura epistemofílica. É a tentativa de resposta aos enigmas que a clínica nos coloca.

Há alguns anos venho me interessando pela obra de Jean Laplanche e Piera Aulagnier. Ambos trabalham o tema do originário, e creio que este conceito tem em ambos os autores elementos que dialogam entre si. Diálogo entre diferentes autores, entre diferentes psicanalistas, fundamental para romper com os feudos narcisistas, tanto teóricos quanto institucionais, que desconhecem tudo o que não é igual a si.

Piera Aulagnier formula três registros para pensar a constituição do psiquismo e especialmente a atividade de representação. Seu modelo defende a hipótese de que a atividade psíquica é constituída por três modelos de funcionamento ou três processos de metabolização: o originário, o primário e o secundário.

Jean Laplanche dedica-se a um profundo estudo do conceito de recalcamento originário, pois é ele que cria a distinção entre pré-consciente e consciente, como uma clivagem que dará origem à topica e às primeiras inscrições.

Meu interesse pelo estudo do recalcamento originário decorre de uma pesquisa clínica realizada em pacientes com pânico. Este estudo levou-me a pensar que, em alguns casos, o pânico (quando não é produto de um momento agudo de uma fobia) não tem as características de um verdadeiro sintoma, que decorreria do recalcamento secundário, como manifestação de um conflito. O pânico se produziria por uma falha no recalque originário, que permitiria o surgimento de elementos arcaicos, marcas primitivas inscritas a fogo na psique, que deveriam ficar seladas por este recalcamento. Esses elementos, impossibilitados de associar-se a outros, seja por continuidade ou contigüidade, permanecem desligados sem encontrar tradução possível. Permanecem inalteráveis, e a pulsão a eles se fixa. Sua presentificação no Eu produziria manifestações de ordem física, tais como taquicardia, tontura, paralisação, por não terem sido integrados ao circuito da representação-palavra, que facilitaria a via da simbolização.

Em um texto já publicado3, refiro-me à psicopatologia do pânico, utilizando metaforicamente as telas de Francis Bacon. Em outro trabalho4 faço referência ao arcaico nas patologias contemporâneas. Neste pretendo esclarecer melhor o papel do recalcamento originário na fundação do psiquismo, situando este conceito na obra de Laplanche.

Mas por que Laplanche?

Laplanche é sem dúvida um psicanalista que faz trabalhar os conceitos freudianos, força-os ao máximo, confronta suas contradições, não se amedronta nem se submete às palavras do mestre. Quando o convoca e o evoca, às vezes o provoca, sempre no intuito de criar uma nova espiral que abra outros caminhos ao pensamento. Laplanche estuda Freud, mas tem também uma produção conceitual própria, que o transforma num dos grandes psicanalistas de nosso tempo.

Discute com Freud e Lacan, debate e recupera Melanie Klein. É rigoroso em suas colocações e ameno em suas exposições. Conhece em profundidade a obra dos seus contemporâneos. Posiciona-se claramente frente ao conteúdo sexual do inconsciente, retoma a via da sedução, que a seu critério é abandonada e recalcada pelo próprio Freud em sua obra e desenvolve a teoria da sedução generalizada e dos significantes enigmáticos a fim de retomar a prioridade do outro na fundação do inconsciente.

Recusa-se a pensar que a criança parte de uma sexualidade já dada como algo inato, questionando neste ponto o pensamento kleiniano, e nos propõe formas alternativas para superar a dicotomia corpo-mente na fundação do psiquismo. Sem negar a ancoragem da pulsão no corpo, reforça a prioridade do outro, do adulto, na sua fundação.

Em um trabalho recente, publicado em 20005, afirma que “o sexual tem sua fonte na própria fantasia, certamente implantada no corpo”. Afirma também que “a pulsão não é mais psíquica do que o instinto. A diferença não se dá entre o somático e o psíquico, mas entre uma parte inata, atávica e endógena, o instinto, e outra parte, adquirida e epigenética, a pulsão, mas não por isso menos ancorada no corpo”. A partir disso, vemos que recusa a idéia de uma linha demarcatória entre o autoconservativo e o sexual, afirmando que ambas possuem componentes somáticos e psíquicos.

Laplanche também questiona a posição de que o inconsciente é diretamente o discurso do outro, ou o desejo do outro. O inconsciente é, para ele, o resultado de um metabolismo que leva consigo composição e decomposição. Há entre o inconsciente materno e o inconsciente da criança em vias de constituição um processo que Laplanche chama de desqualificação. O que nos diz é que “entre o comportamento-desejo-discurso da mãe e a representação inconsciente da criança não há continuidade nem simples interiorização”. Há um processo de metabolização, que, como na biologia, transforma o incorporado em outra coisa6.

Grande parte de sua obra é dedicada a estudar o que ele chamará de “situação originária”, relação na qual a criança recebe do adulto mensagens carregadas de conteúdo sexual inconsciente. A questão das origens toma uma proporção relevante que o leva a estudar a fundação do mundo pulsional, já que não quer se utilizar do fácil recurso das origens míticas para encontrar os pontos de fundação do sujeito psíquico. A idéia de fantasias originárias filogeneticamente herdadas, núcleo do inconsciente originário, tal como preconizado em Freud, será revista à luz do recalque originário7.

Quando nos deparamos com o conceito de originário, perguntamo-nos por aquilo que está nas origens. Origens como fundamento, origens como alicerce, não necessariamente como aquilo que é primeiro.

Os termos “originário” e “primário” poderiam levar a engano se tentássemos introduzir a variável de uma temporalidade linear na compreensão dos fenômenos psíquicos. Em várias passagens de sua obra, Laplanche trabalha a idéia de originário e primário, no intuito de diferenciar o pensar psicanalítico da psicologia do desenvolvimento em função de duas concepções diversas de tempo.

No texto freudiano encontramos com freqüência alusões às origens, bem como ao primário: processo primário, narcisismo primário, sedução originária, recalcamento primário, cena primária, fantasias originárias. Primário e originário se entrecruzam, se sobrepõem, se confundem. Percorrendo a obra freudiana, em distintos momentos Laplanche aponta para a necessidade de revisar esta posição, esclarecendo os termos, remetendo-se aos fundamentos mesmos da construção teórica e clínica da psicanálise.

Se tomarmos o exemplo do processo primário e secundário, veremos que possuem formas de funcionamento independentes: o que importa no processo primário não é o fato de “estar antes”. Não é sua pretensão encontrar no pensamento primário a raiz daquilo que se constitui no processo secundário. Ambos têm uma lógica e uma racionalidade diferentes. Laplanche quer desvincular do processo secundário o conceito evolutivo de adaptação superior, bem como a existência de uma hierarquia. Não há uma concepção diacrônica dos processos no sentido de etapas sucessivas; Laplanche os concebe como duas modalidades de funcionamento coexistentes de modo simultâneo, ou seja, uma concepção sincrônica.

Freud, em alguns textos, como em Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental (vol. 12, p.224), radicaliza ao apresentar uma idéia de seqüência, posição criticada por Laplanche. Neste texto Freud fala do processo primário (prazer–desprazer) como primeiro, enfatizando a introdução posterior de uma nova atividade psíquica, o princípio da realidade. Laplanche, no entanto, reforça a idéia de que o primário pode se transformar em pré-condição da existência de um segundo tempo que funda o primeiro.

Não há dúvida de que essa idéia já se encontra em Freud, que pode ser observada no caso Emma8; no entanto são as oscilações em seu pensamento que abrem brechas que nos levam a questionar como se constitui esse inconsciente primário ou originário.

Pode ser esclarecedor para pensar esta questão rever o caminho da estruturação do sintoma, no qual a cena primeira, em si mesma, não é traumática. Transforma-se em primeira cena traumática apenas a partir da existência de uma segunda cena, que lhe confere por re-significação um sentido novo. Re-significa e funda, transformando-a em primeira.

Vemos a necessidade, portanto, de descentrar a idéia do fundante da idéia do que vem primeiro, pensando no modelo de uma espiral e não no sentido de um contínuo unidirecional. O tempo da psicanálise é o tempo do après-coup, da re-significação, e o tempo de um segundo tempo que dá significado e sentido ao primeiro.

Na obra de Laplanche, podemos dizer que o originário é algo que transcende o tempo, mas que repousa e se funda nele. Por essa razão, Laplanche, no trabalho de tradução e pesquisa da terminologia freudiana, retoma algumas considerações sobre o prefixo – Ur – que antecede em alemão a constituição destas palavras, traduzindo-o por “originário”. No caso específico do recalcamento primário, Urverdrängung em alemão, mantém esta mesma linha de pensamento e prefere traduzi-lo como “recalcamento originário”.

Entramos aqui num campo complexo no qual acompanharemos o pensamento de Laplanche, tecido sobre as considerações freudianas. No caso Schreber9, 1911, Freud decompõe o processo de recalque em três fases:

A primeira consiste na fixação, precursora e condição de cada recalque. É interessante destacar que inscrição e fixação não são sinônimos, e Freud os utiliza indistintamente; mas poderíamos dizer que ele dá ao conceito de fixação um sentido genético, e ao de inscrição, uma referência topica.

A segunda fase se refere ao recalque propriamente dito: a defesa, neste caso o recalque secundário, empurra ou arremessa a representação incompatível para fora da consciência quando há cenas sexuais infantis, até então normais, presentes no sujeito sob a forma de lembranças inconscientes, que, por après-coup, adquirem uma conotação censurável.

No recalque propriamente dito, o recalcamento secundário, há mobilização de energia psíquica em direção a uma representação próxima daquela desprazerosa, esvaziando a representação desagradável e ativando uma próxima, inofensiva. Aquela representação ameaçadora se torna inativa, investindo uma outra representação a ela associada (por contigüidade ou continuidade).

A terceira fase corresponderia ao retorno do reprimido, sobre o qual não nos deteremos, já que não oferece elementos de interesse para nossa proposta.

Devemos considerar que no trabalho de 191510, O recalque, Freud afirma que dificilmente seria possível que a repressão propriamente dita fosse exitosa se não existisse algo reprimido antes, pronto a recolher o repelido pelo consciente. É assim que propõe a idéia de uma repressão primordial, uma primeira fase da repressão que consiste na negação da admissão ao consciente à ação do representante psíquico da pulsão (representante–representação). Estabelece-se assim uma fixação e, a partir desse momento, o representante em questão permanece imutável e a pulsão permanece ligada a ele. Para que exista recalque propriamente dito ou recalque secundário é necessário que tenha se constituído um primeiro núcleo do recalcado. “Freud associa a experiência original do trauma à constituição desse primeiro núcleo recalcado, que posteriormente atrai outros recalcamentos”11.

Cabe destacar que o único mecanismo pelo qual Freud explica esse recalque é um processo de contra-investimento. Nada anterior poderia exercer uma atração. Para ele o recalque originário se produz e é mantido porque se cria uma espécie de tampão, de trama fechada e coerente, tecida e apertada ao máximo, que bloqueia todas as saídas. Laplanche interpreta isso como marcas de fogo dos primeiros significantes que permanecem fixados por sua impossibilidade de tradução.

Podemos observar que a noção de recalcamento primário é quase um artifício teórico, ao qual Freud apela a fim de dar conta do recalcamento propriamente dito, ou secundário. É a partir dele que vai explicar a emergência das neuroses e a formação do sintoma como regressões a uma fixação prévia.

Podemos observar que o conceito de recalque originário tem pouco espaço em sua obra para que possa ser colocado como alicerce sobre o qual repousa grande parte do edifício teórico da neurose. Por essa razão nos interessa desenvolver mais profundamente a primeira fase do recalcamento em Freud, que, para Laplanche, terá um estatuto privilegiado, já que dará conta do momento de fundação do inconsciente.

Laplanche deixa claro que as representações fixadas, a que Freud se refere, seriam representações que estariam no limbo, inscritas no psiquismo, mas sem pertencer a nenhum sistema. Nesse momento da fixação ainda não haveria uma diferenciação entre consciente e inconsciente como sistema da primeira topica. Podem, sim, ser inconscientes no sentido descritivo, como uma qualidade da inscrição.

Entendemos que “inconsciente” como adjetivo designa a propriedade do que está fora do campo da consciência (descritivo), enquanto inconsciente como substantivo, “o inconsciente”, designa um sistema do aparelho psíquico.

Lembremos também que a pulsão está aquém da distinção entre consciente–inconsciente. Ela jamais poderia tornar-se objeto de consciência, e mesmo no inconsciente é preciso que seja representada por uma idéia (representante–ideativo).

Ao afirmarmos que não há inconsciente desde as origens e que o recalcamento é o responsável pela cisão do psiquismo, pela divisão em sistemas, podemos dizer que, ao mesmo tempo que recalca, inaugura e funda o inconsciente.

O recalque originário corresponde, portanto, a uma primeira inscrição e a uma primeira fixação. A representação fixada passa a se comportar como se fosse recalcada, porque, ao se fixar, não sofre reordenamentos ou retranscrições e se comporta como se fizesse parte do inconsciente. Na verdade fica detida fora da dança, da roda dos movimentos que formaria com outros representantes novas figuras. Não tramita, não é traduzida, ligada. Permanece indisponível e, por isso, inconsciente. O sujeito ficaria bloqueado, fixado, em um duplo sentido, num momento de sua evolução libidinal e em uma lembrança que, como uma fotografia, fixa o representante pulsional.12.

É preciso reforçar a idéia de que, à fixação de uma pulsão, sua representação corresponde à inscrição num sistema mnêmico, como inscrição que é inconsciente mas não é “o inconsciente”. Memória e marca mnêmica não pertencem ao mesmo sistema. A primeira é patrimônio do eu, e a segunda, do Inconsciente.

Segundo Laplanche podem-se distinguir dois tempos na teoria do recalque originário:

a) um tempo exógeno, traumático em si, no qual aparecem representações implantadas pelo mundo dos adultos. Mensagens que veiculam pura energia sexual, excitação, algo que marca, sem no momento saber-se por quê. Por excesso de gratificação, por impossibilidade de compreensão ou tramitação, por excesso de frustração? São fantasmas ou marcas sem estatuto tópico preciso, e,

b) um segundo tempo no qual o traumatismo se torna autotraumático e provoca o recalcamento em si.

O recalque originário tem, assim, um primeiro momento passivo, em que se implantam os objetos fonte da pulsão, inscritos num estatuto de espera, e um segundo momento, que corresponde à tentativa que a criança faz de ligar essas representações. Momento este que pode se tornar autotraumático e provocar a fixação, pela impossibilidade de tradução. O infans recebe da mãe mensagens que apenas veiculam energia, um quantum de excitação incapaz de ser dominado pela compreensão – tanto da mãe quanto da criança, sobre a qual se impõe um trabalho de simbolização, de tradução.

O outro da sedução originária implanta estes significantes, que permanecem fixados como na superfície, na derme psicofisiológica de um sujeito no qual a instância inconsciente não está ainda diferenciada. É sobre estes significantes recebidos passivamente que se operam as primeiras tentativas de tradução. Os restos não traduzidos, fixados, formam parte do recalcado originário. São estes restos não traduzidos que correspondem ao objeto fonte da pulsão. A sexualidade materna, a sedução, os significantes enigmáticos tornar-se-ão internos e se transformarão em fontes autônomas de excitação, de pulsão. Num segundo momento, o recalcamento originário define essas fixações e gera um topos para essas representações que permaneceram para sempre alheias ao sujeito.

Minha hipótese sobre a patologia do pânico questiona o fato de que permaneçam para sempre alheias. O que se postula é que elas possam escoar mesmo sem tradução, como elementos não ligados. Aparecem como significantes-dessignificados, motivo pelo qual a interpretação do analista não opera do mesmo modo que operaria num sintoma, produto do recalcamento secundário. Nestes casos é necessário possibilitar uma construção para que a representação-coisa possa entrar no circuito da representação-palavra13.

É necessário destacar que as representações-coisa não representam uma coisa, não são representação da coisa, mas são elas mesmas a coisa. Organizam-se no inconsciente originário por simultaneidade ou contigüidade, sem constituir tramas significantes. Só nas transcrições sucessivas é que se constituem novos reordenamentos, segundo outros tipos de articulação, configurando fantasmas, verdadeiras encenações do desejo, ou teorias sexuais infantis.

Num primeiro contato com este conceito, justamente por se nomear recalcamento originário, pareceria tratar-se de um processo que se produz só no começo da vida, nos primeiros meses; mas não é bem assim. Há representações que darão conta de uma boa parte da infância, sobre a qual poderíamos falar de um estado sem inconsciente, e o recalque originário produziria a clivagem a posteriori que funda o sistema. Radicalizando, Laplanche irá afirmar que o recalque originário não é mais que o momento primeiro e fundante de um processo que dura a vida toda.

Ao pensarmos no Homem dos Lobos14, veremos que a primeira cena, à qual se tem acesso apenas por reconstrução, data de um ano e meio de vida. Elementos desta cena ficaram gravados, fixados, sem uma localização topica. Para sermos mais precisos, poderíamos dizer que estímulos provenientes desta cena, fragmentos, sons, cheiros, ruídos, palavras, visões, ficaram inscritas; algumas conseguiram ser derivadas, ligadas a outras representações, outras ficaram fora de toda rede de significação.

Não poderíamos dizer que essas representações já formam parte do inconsciente como sistema da primeira topica. Este acontecimento teve registro psíquico na criança como uma excitação proveniente do adulto. Não ficou recalcado; apenas fixado, deixou sua inscrição. Na medida em que não foi possível colocá-las numa rede associativa que lhe desse um destino, algumas delas ficaram como resto não traduzido e se transformaram em autotraumáticas, operando a partir do interior.

As primeiras inscrições são fragmentos, representações-coisa, que passam a funcionar como objeto fonte da pulsão. As próprias palavras dessignificadas atuam como representação-coisa.

Revendo o já exposto, vemos que no recalque originário não há por definição distinção entre sistemas, justamente porque ele o funda. É uma clivagem inicial que organiza uma topica, condição necessária para o recalcamento secundário que está ligado aos tempos do edípico.

As mensagens enigmáticas que vêm do adulto, veiculando energia, inscrevem-se, encontrando, algumas delas, vias associativas. As inscrições não ligadas das mensagens enigmáticas serão a gênese do inconsciente, instituirão sua fundação e possibilitarão seu surgimento.

Como dizíamos no começo, ao marcar o momento fundante do inconsciente, Laplanche questiona a origem mítica do inconsciente. Ao invés de se utilizar das protofantasias ou dos fantasmas originários herdados filogeneticamente para explicar a fundação do inconsciente, coloca que ele tem sua origem na história singular do sujeito, marcada pela sua relação com o outro. O que se transmite transgeneracionalmente se faz a partir do encontro com o outro pulsante na sua sexualidade, também historicamente determinada.

Para dar vida a essas conceitualizações, Laplanche faz entrecruzamentos com outros aspectos da teoria, tais como a sedução e a gênese da sexualidade, na qual a aparição da pulsão é inaugurada pelo outro adulto da relação. Para ele, o objeto fonte da pulsão é decorrente da marca mnêmica depositada pela sexualidade pulsante da mãe. Estamos confrontados com o Originário, que está nas origens do ser humano, nas origens fundantes de seu aparelho psíquico, de sua subjetividade.

Entre Piera Aulagnier e Laplanche. Encontros.

Encontros não significam identidade. Cada autor conserva a originalidade de seu pensamento, ambos preocupados com o processo de fundação do psiquismo e com a metabolização a partir da qual o externo se faz interno. Ambos se perguntam como é esse momento de registro no psiquismo, a partir do qual um material heterogêneo, que vem do outro adulto, passa a ocupar um lugar na representação do sujeito.

Que laços e semelhanças encontramos nos autores ao fazê-los dialogar? Que entrecruzamentos são possíveis?

Piera Aulagnier, assim como Laplanche, nos dirão que a primeira atividade de representação da criança se dá pelos efeitos originados pelo duplo encontro com o corpo e as produções da psique materna14. A criança forma uma representação de si a partir dos efeitos desse encontro.

É possível estabelecer alguma relação entre essas primeiras inscrições, representações-coisa em Laplanche, e o pictogramático em Piera Aulagnier?

Maria Lúcia Violante, seguindo Piera Aulagnier, nos diz com justiça, que “a imagem da coisa corporal não é ainda aquilo que Freud denomina representação-de-coisa, obra do processo primário”15. No entanto, se utilizarmos o conceito de representação-coisa, tal como coloca Laplanche, veremos que não estamos no campo do processo primário, motivo pelo qual se aproxima ao pictograma. O que gostaria de destacar é que Laplanche cria um novo sentido do termo representação-coisa, produzindo um deslizamento que o diferencia de Freud. Laplanche deixa claro que representação-coisa não é uma tradução mais correta de representação de coisa (Sachvorstellung), nesta nova nomeação, pretende criar um contra-senso provocador, a partir do qual afirma que o elemento inconsciente não é uma representação que deve se referir a uma coisa exterior da qual seria a marca, mas que a passagem ao estatuto de inconsciente é correlativa a uma perda de referência16. A representação, ao tornar-se inconsciente, perde seu estatuto de representação substancialmente formada por elementos visuais ou imagens mnêmicas da coisa, de acontecimentos ou de objetos, como encontramos em Freud. Para Laplanche, a representação perde a relação com a coisa exterior e é ela mesma a coisa. O que se instaura no inconsciente não é uma representação memorizada, são restos de certos processos de memorização; portanto, o recalcamento originário é muito mais que um esquecido.

A referência à representação-coisa em Laplanche está antes do primário, e atuará como objeto-fonte da pulsão. Haveria um estado que não se rege pelo princípio de prazer, mas que seria uma pré-condição deste.

Para Laplanche, no inconsciente originário temos significantes clivados, traumáticos, reduzidos a seus aspectos mais excitantes. A idéia de fantasma inconsciente supõe uma organização demasiada em relação a estas imagos. Para Piera Aulagnier, as fantasias pertenceriam ao registro do primário.

Enquanto o originário, em Piera Aulagnier, é o depósito do pictográfico em que continuam atuando certas representações em um estado de fixação permanente, podemos dizer que o recalcado originariamente, em Laplanche, também se refere a representações fixadas, que fundam o psiquismo antes do processo primário. A memorização do vivido infantil para Laplanche se produz a posteriori e pressupõe a existência de um primeiro tempo infantil, o do depósito das marcas. Piera Aulagnier é clara ao afirmar que nada poderásurgir na psique que não tenha sido metabolizado previamente numa representação pictográfica. O originário só pode conhecer os fenômenos externos uma vez que transformados respondam às condições de representabilidade.

Enquanto Piera Aulagnier fala de auto-engendramento, Laplanche fala de autotraumático. O que entende Piera por auto-engendramento?

Ao definir o pictograma, afirma que ele é a representação que a psique se dá a si mesma como atividade representante; ela se reapresenta como fonte que engendra o prazer erógeno das partes corporais. Na verdade, fica perdida a diferenciação ou a separação entre dois tipos de existentes: não se sabe se a fonte é o corpo ou o mundo. Aquilo que se origina no outro adquire sentido para a psique no momento que adquire representabilidade, operação efetuada pelo próprio sujeito. O externo se faz interno. Não é muito difícil pensar que estas representações primitivas estão próximas ao objeto fonte da pulsão, que em Laplanche correspondem ao autotramáutico, ao momento que aquilo que vem do exterior ganha sentido porque começa a operar com independência como fonte de energia interna. Em Laplanche são as mensagens enigmáticas que a mãe emite que serão decodificadas e cujos restos, agora significantes-dessignificados, serão produção do infans, como resultado de um processo de metabolização.

Para Aulagnier, o sujeito jamais possuírá um conhecimento direto do pictograma, e, para Laplanche, os restos intraduzíveis do recalque originário, que se tornaram objeto fonte da pulsão, são também inacessíveis.

Um se refere ao objeto-fonte da pulsão, outro à zona-objeto, porém ambos concordam que, neste momento, a representação não tem a complexidade de uma cena, nem de uma fantasia.

De fato, no originário o pictograma está aquém da fantasia e muito mais distante da imagem de palavra ou representação-palavra; ele tem como material exclusivo a imagem de coisa corporal.

Marta Rezende17, num trabalho apresentado no Colóquio Internacional Jean Laplanche em Porto Alegre, afirmava que as fantasias inconscientes não integram o campo das representações-coisa, “as mensagens que veiculam um excesso a traduzir tendem a invadir a topica, não como fantasia inconsciente, mas como mensagens do outro que perderam sua referência, tornando-se significantes dessignificados”, o que a meu ver aproxima as representações-coisa do pictograma.

Entendo que, quando Piera Aulagnier fala da fonte somática da representação psíquica do mundo, não está falando da origem no somático, mas da capacidade de o somático ser afetado num vínculo indissociável mundo-corpo, essência do pictograma. No mesmo sentido, Laplanche reafirma que é a partir do outro que se funda o campo pulsional quando o significante enigmático se faz autotraumático e se ancora no corpo, como pura fonte de energia sexual.

Sem dúvida, Laplanche e P. Aulagnier, autores aqui revisitados, debruçam-se sobre Freud, para fazer trabalhar o texto, encontrando brechas e interstícios, que permitem recriar e criar novos conceitos. Há nestes psicanalistas tão ligados à clínica, uma preocupação pelos movimentos fundantes do sujeito. O sentido de estabelecer laços considerando o originário nos permite, na clínica, compreender os elementos arcaicos das patologias que ampliam o campo da neurose.


Notas

1. Trabalho apresentado no “Colóquio de homenagem a Piera Aulagnier”, organizado pelo Programa de Pós-Graduação da PUC-SP, 08/06/2002. Revisado e ampliado.
2. R. Mezan, “Três concepções do Originário: Stein, Le Guen, Laplanche”, in Figuras da teoria psicanalítica, São Paulo, Edusp/Escuta, 1995, p. 109.
3. A. M. Sigal, “Francis Bacon e o pânico” in A clínica conta histórias, São Paulo, Escuta, 2000, p. 217.
4. A. M. Sigal, “O arcaico nas patologias contemporâneas”, Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, vol. IV, n.4, São Paulo, 2001, p. 112.
5. J. Laplanche (2000), “Pulsão e Instinto”, in Percurso, ano XIV, n. 27, 2001.
6. J. Laplanche, “El Insconsciente y el Ello”, in Problematicas, Buenos Aires, Amorrortu, 1977, p. 130.
7. Deve-se levar em conta que Freud se debateu com a questão das fantasias originárias. Afirma em O Homem dos Lobos: “As cenas de observação do comércio sexual entre os pais, de sedução na infância e de ameaça de castração (fantasias originárias) são sem dúvida de um patrimônio herdado, herança filogenética, mas também podem ser aquisição do vivenciar infantil.”
8. S. Freud (1895), Proyecto de una psicologia para neurólogos, Buenos Aires, 1988, Amorrortu, vol. 1, pp. 400-403.
9. S. Freud (1911), op. cit., Puntualizaciones sobre un caso de paranoia (Dementia paranoides), descrito autobiograficamente, vol. 12, p. 63.
10. S. Freud (1915), op. cit., La repressión, p. 143.
11. L. Fuks, A insistência do traumático, in A clínica conta histórias, 2000., Ed. Escuta e Departamento de Psicanálise.
12. J. Laplanche, “El Insconsciente y el Ello”, in Problematicas IV, Buenos Aires, Amorrortu, 1977, pp. 87-88.
13. S. Freud, op.cit., De la Historia de una neurosis infantil, vol XVII, pp. 88-89.
14. P. Aulagnier (1975), La violencia de la interpretación, 1977, Buenos Aires, Amorrortu, p. 31.
15. M. L. Violante, Piera Aulagnier.
Uma contribuição contemporânea à obra de Freud, São Paulo, Via Lettera, 2001, p. 23.
16. J. Laplanche, “Breve tratado do inconsciente”, in Psicanalitica, no. 5, ano V, 1998.
17. M. Rezende Cardoso, “Os destinos das mensagens ‘intraduzíveis”, apostila do Congresso Internacional J. Laplanche, Porto Alegre.