Sumário - Percurso n.30
1.semestre de 2003


Editorial

03

 
Textos

05

O desejo borderline
Christopher Bollas

A personalidade borderline busca inconscientemente a turbulência emocional. Embora doloroso e perturbador, o estado de tumulto é desejado, e, paradoxalmente, o encontrar-se num estado de angústia produz gratificação.

  13

Stanley Kubrick se matou: o que se pode ver de olhos bem fechados
Paulo de Carvalho Ribeiro

O filme De Olhos Bem Firmes, de Kubrick, suscita questões sobre o estatuto da feminilidade no inconsciente, sobre sua relação com a paranóia e sobre o trabalho da morte na criação artística: um realismo além da objetividade científica.

  25

Narcisismo e vínculos na atualidade
Lucia Barbero Fuks

Nas relações interpessoais atuais, a possibilidade de dialogar cede espaço à imagem, a palavra perde relevância como suporte da subjetividade e do vínculo. A propensão à violência nos casais resulta, em grande parte, dessa situação.

  31

Melancolia: uma aproximação ao caráter trágico da existência
Isabel Castello Branco

A melancolia permite entrever, de maneira privilegiada, a relação entre o modo de produção do saber psicanalítico e a sua expressão clínica. Freud, ao referir-se à dimensão trágica da existência humana, já deixava entrever esse vínculo.

  43

Jabor e a Psicanálise: dez anos de Brasil
Miriam Chnaiderman

Os textos que Arnaldo Jabor escreveu entre 1992 e 2003 sobre diversos temas permitem captar importantes modificações no modo pelo qual se estrutura a subjetividade no Brasil, a partir de instantâneos da vida cotidiana.

 

53

A face oculta do amor: arte trágica e Psicanálise
Denise Maurano 

Psicanálise e a arte trágica tratam das mesmas questões fundamentais da condição e do agir humanos. Haveria um conceito psicanalítico do trágico, a partir das referências de Freud e Lacan à tragédia?

  59

O originário: um conceito que ganha visibilidade
Ana Maria Sigal

O conceito de originário, tal como formulado por Jean Laplanche e Piera Aulagnier, fornece elementos para compreender as primeiras inscrições da vida psíquica, bem como o arcaico nas neuroses e nas patologias atuais.

  67

Quatro ensaios de dialética infantil
Tales A. M. Ab'Saber

Estes relatos clínicos buscam compreender a natureza coletiva dos significantes psicopatológicos contemporâneos. A clínica individual e as imagens dialéticas do todo social se articulam em um encontro entre Freud, Benjamin e Adorno.

  79

Antropologia do self e psicanálise: um diálogo
Laszlo Antonio Ávila

As noções de "self", "corpo" e "mente" são centrais em psicanálise, mas é necessário desnaturalizá-las, recolocando-as no contexto sociocultural e histórico de que extraem sua significação.

  91

Sonhar: uma possibilidade de criação
Mirim Iolanda Rejani

A capacidade de sonhar e o potencial artístico são aqui discutidos como recursos criativos na clínica da depressão, utilizando-se conceitos winnicottianos como os de "área transicional" e "ilusão".

Entrevista

101

Psicanálise com crianças autistas e com crianças maltratadas
Anne Alvarez

A psicanalista canadense Anne Alvarez, internacionalmente reconhecida por seu trabalho com crianças autistas, borderline, carentes e maltratadas, fez sua formação psicanalítica na Clínica Tavistock, em Londres, no decorrer da década de 60. Há muitos anos trabalhando como psicoterapeuta de crianças e supervisora nessa prestigiada clínica inglesa, reconhece em seu pensar e seu trabalho a influência das supervisões com Esther Bick, Donald Meltzer, Martha Harris, Shirley Hoxter, Sidney Klein e Betty Joseph, assim como os efeitos do diálogo teórico que estabeleceu com Wilfred Bion, Herbert Rosenfeld e Frances Tustin, além de Melanie Klein.
É em Companhia Viva, seu livro mais conhecido, que podemos acompanhar minuciosamente os meandros do processo analítico de crianças instaladas em experiências contínuas de vazio gélido e mortal, crianças "perdidas" dentro de si mesmas, que muito raramente revelam algum momento vital. Em especial, é nesse trabalho que Alvarez nos faz conhecer Robbie, um marco no seu trabalho clínico e teórico, que a impulsionou a ir além dos ensinamentos de Tustin e Joseph. Tendo atendido durante quase 30 anos esse paciente severamente afetado por um autismo desde garoto, seu estado extremamente dissociado a fez experimentar transferencialmente o conceito de reclamation que ela, posteriormente, veio a cunhar como sendo uma convocação ativa e urgente do analista em direção ao vir-a-ser do paciente, um chamamento de volta à vida, a uma existência como self.
É nesse livro, assim como em Anne Alvarez em São Paulo e nos inúmeros artigos publicados, que podemos observar sua aguda sensibilidade clínica para com as crianças ausentes de nosso mundo e que alcançam um nível de desespero e de ceticismo que ultrapassa, em grande medida, o dos pacientes neuróticos comuns. É também neles que encontramos considerações críticas à teoria e à técnica kleiniana, que se constituem em uma valiosa contribuição para se pensar a intervenção no tratamento de crianças seriamente perturbadas por situações externas invasivas (abuso sexual, violência ou negligência) ou excepcionalmente sensíveis e vulneráveis.
O estilo objetivo e conciso de Alvarez nesta entrevista, realizada por escrito e via Internet em maio de 2003, permite um contato mais direto com a teoria que embasa sua clínica, e nos revela, com nitidez, sua aguda crítica aos estereótipos teóricos e ao uso de conceitos enrijecidos.

Debate

107

A clínica psicanalítica nas instituições
Maria Elisa Labaki / Eva Wongtschowski / Aline Gurfinkel / Issa Fernando Sarraf Mercadante

Como todos sabemos, a psicanálise surgiu a partir do trabalho de Sigmund Freud com pacientes neuróticos no final do século XIX. Ao longo dos últimos 100 anos produziram-se movimentos que levaram a reformulações teóricas, avanços na metapsicologia e inovações nos dispositivos técnicos utilizados. Já no 5º Congresso Psicanalítico Internacional, realizado em Budapeste em setembro de 1918, Freud preconizara a extensão da prática clínica à população menos favorecida enconomicamente, oferecendo tratamentos que aliviassem seu sofrimento neurótico. Isso demandaria "a adequação da técnica a cada nova situação". Apesar disso, persiste no imaginário sócio-cultural a idéia de que um psicanalista faz apenas tratamentos de longa duração, sustentados por determinadas invariáveis e objetivos, e que apenas sob estas condições se poderia reconhecer uma "verdadeira" prática psicanalítica, mas há muitas outras modalidades e situações de intervenção em que o método psicanalítico é utilizado, embora enfrentando condições ambientais, temporais e espaciais bastante distintas daquilo que se imagina como enquadre ideal.
O Departamento de Psicanálise constituiu-se historicamente como um espaço de formação reconhecido, entre outros aspectos, pela importância que sempre deu à prática dos psicanalistas nas instituições. Em função disso, temos conhecimento da existência de muitos colegas que trabalham em hospitais gerais, centros de saúde, ambulatórios de saúde mental, hospitais-dia, centros de referência para aidéticos, centros de assistência psicossocial (Caps) e outras instituições estaduais ou municipais. Entendemos que são esses analistas, "praticantes do inconsciente" (como os chama Roudinesco), que com seu trabalho cotidiano, muitas vezes silencioso, estão construindo o futuro da Psicanálise.
Com o intuito de desenvolver esta temática, Percurso convidou três psicanalistas de nosso Departamento, para responder à seguinte questão:
"Considerando sua experiência de analista na instituição, o que permite afirmar que se trata de uma prática psicanalítica? Poderia nos responder algum momento do seu trabalho institucional no qual se confrontou com a dúvida a propósito de estar ou não praticando psicanálise e, por fim, ter concluído afirmativamente?"
As considerações desenvolvidas nos textos que seguem nos mostram como para ser analista é necessário - além da capacidade de escuta analítica e interpretação - inventividade, habilidade para encarar o imprevisto, sensibilidade, humor, assim como flexibilidade quanto às ditas "regras tradicionais". Essa é a criatividade, que permite à psicanálise se manter viva e em constante construção.

Leituras

117

A chave de Isaias (Psicanálise em nova chave)
Camila Salles Gonçalves

Resenha de Isaías Melsohn, Psicanálise em nova chave, São Paulo, Perspectiva, 2001, 334 p.

  120

Possibilidades da clínica psicanalítica (Colóquio freudiano: Teoria e prática da psicanálise contemporânea)
Maria Lúcia de Araújo Andrade

Resenha de Ana Maria Sigal e Isabel M. Vilutis (orgs.) Colóquio Freudiano: Teoria e prática da psicanálise contemporânea, São Paulo, Via Lettera Editora e Livraria, 2001, 304 p.

  121

Psicanálise e cultura: ainda e sempre (Interfaces da Psicanálise)
Inês Loureiro

Resenha de Renato Mezan, Interfaces da Psicanálise, São Paulo, Companhia das Letras, 2002, 585 p.

  124

Repassando os fundamentos (Cena incestuosa)
Tales A. M. Ab'Saber

Resenha de Renata Cromberg, Cena Incestuosa, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2001, 260 p.

  127

Novos caminhos da clínica e da teoria (Memória corporal e transferência: fundamentos para uma psicanálise do sensível)
Luís Claudio Figueiredo

Resenhas de Ivanise Fontes, Memória corporal e transferência: fundamentos para uma psicanálise do sensível, São Paulo, Vi Lettera, 2002, 136 p.

  129

Análise desistencial (Lacan com Derrida) 
Sérgio Talles

Resenha de René Major, Lacan com Derrida, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2002, 256 p.

  131

"Conversa de louco": razão e sensibilidade na prática da Psicanálise (Fragmentos clínicos de Psicanálise)
Renato Mezan

Resenha de Sergio Telles, Fragmentos Clínicos de Psicanálise, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2003, 189 p.

  134

Um convite ao (im)possível diálogo? (O (im)possível diálogo Psicanálise e Psiquiatria)
Pedro Mascarenhas

Resenha de Maria Lucia V. Violante, O (im)possível diálogo Psicanálise e psiquiatria, São Paulo, Via Lettera. 2002, 164 p.

  137

O prazer do pensamento: um ato criativo (Do amor ao pensamento: a Psicanálise, a criança e D. W. Winnicott)
Maria Laurinda Ribeiro de Souza

Resenha de Heitor O'Dwyer de Macedo, Do amor ao pensamento: a psicanálise, a criação da criança e D. W. Winnicott , Via Lettera, São Paulo, 1999, 201p.

  141

Da flor da pele ao pó do osso (Hipocondria: impasses da alma, desafios do corpo)
Maria Elisa Labaki

Resenha de Rubens Marcelo Volich, Hipocondria. Impasses da alma, desafios do corpo, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2002, 276 pg.

  144

A arte do bem-dizer e o lugar do afeto em Psicanálise (A ética da paixão: uma teoria psicanalítica do afeto)
Elizabeth Saporiti

Resenha de Marcus André Vieira, A ética da paixão: uma teoria psicanalítica do afeto, Rio de Janeiro, Zahar, 284 p.

  147

Cascatas que perturbam o sono (A invenção da vida: arte e psicanálise)
Lúcia Serrano Pereira

Resenha de Edson Luiz André de Souza, Elida Tessler, Abrão Slavutsky, A Invenção da Vida, Arte e Psicanálise, Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2001, 191 p.

Abstracts in English    
Colaboradores deste número