"Decifra-me e não me devoras": do fantástico ao psicanalítico, do mistério ao enigma
Ana Cecília Carvalho

Resenha de Noemi Moritz Kon, A viagem: da literatura à psicanálise, São Paulo, Companhia das Letras, 2003, 411 p.

 

 

 

No seu mais recente livro A Viagem: da Literatura à Psicanálise, Noemi Moritz Kon sustenta a idéia de que o lugar da emergência da psicanálise tem a ver com a ultrapassagem da literatura fantástica, fazendo surgir o homem-psicanalítico, que sucede ao homem-fantástico. Um dos objetivos mais importantes desse livro, que inclui uma peça de ficção, é ressaltar o parentesco entre a psicanálise e a literatura. É desse parentesco que resulta a potência ficcional específica da primeira, como criadora de realidades, e também a força de ser uma ficção verdadeira, característica de modo de ser psicanalítico, que pode ser considerado um modo de fantasiar cientificamente.

 

Em uma conhecida reflexão, em seu livro Teoria de lo fantástico, Harry Beleven1 afirmou, uma vez, que a literatura fantástica representa a quintessência da literatura, na medida em que o questionamento do limite entre o real e o irreal, próprio de toda literatura, converte-se em seu centro explícito. Como que seguindo essa indicação, Julia Barella, autora do editorial da revista Anthropos, em um número especialmente dedicado à literatura fantástica2, destacou os aspectos mais importantes trabalhados pelos 27 autores dos artigos daquele número, e que possibilitariam uma enumeração detalhada daquilo que nos permite descrever o fantástico em suas diversas facetas. Apesar da variedade de enfoques assumidos naqueles artigos, uma linha de convergência foi ali destacada, revelando que no texto fantástico importa, sobretudo, descobrir a outra dimensão de toda ficção: o caráter inventivo e crítico e a mensagem de um processo marcado pela ruptura e pela inovação, apontando para uma alma que se cria e recria continuamente na escrita e na imaginação do criador. Na visão de um dos colaboradores desse número, ressaltada por Barella, na chamada literatura fantástica a imaginação inventa sem cessar realidades previamente inexistentes que, por sua vez, fazem emergir novos aspectos da realidade que nos confrontam com seu núcleo misterioso e incógnito. Na realidade visível e imediata se esconde outro mundo, que constitui o fantástico, maravilhoso e atroz, mas diferente. Os aspectos da vacilação e da incerteza, a produção de desassossego no leitor pela ruptura da coerência universal, a divisão entre realidade empírica e representação da mesma, a violação da ordem terrena natural e lógica, tudo isso se converte, na literatura fantástica, em uma forma subversiva de experimentar a realidade humana e de transcendê-la. Finalmente, é preciso lembrar que, embora cada época tenha contribuído com certos conteúdos característicos para a vertente fantástica da literatura, foi nos séculos XVIII, XIX e XX que o fantástico adquiriu sua maior riqueza, talvez como compensação frente ao pensamento racionalista. Devido ao fato de que a importância do fantástico cresceu com o romantismo e por sua ligação com as ciências ocultas, o sonho, a imaginação e a invenção, a ficção e a história serão os elementos que nos situam frente à irrupção de mundos novos, diferentes daqueles convencionais e cotidianos, ou realistas. Essa ruptura, que é uma abertura à ambigüidade e incerteza, é também uma transcendência daquilo que acontece no cotidiano. Daí que o relato fantástico não se caracterizará apenas por ser inverossímil, por ser inacessível e indefinível, mas pela justaposição e pela contradição de diversos verossímeis, das dúvidas e das fraturas nas convenções estabelecidas. Por isso o texto fantástico se nutre inevitavelmente das realia, do cotidiano. É por isso também que a literatura fantástica, em seu processo histórico e textual, cria uma diversidade subversiva, ambígua e inquietante e, ao inventar realidades diferentes, coloca-nos frente ao núcleo misterioso da realidade. Do mesmo modo, faz intervir o inverossímil, e a ordem estabelecida termina por ficar nas entrelinhas. É, enfim, uma ficção capaz de recriar os pontos cegos da razão.

 

O leitor desta resenha talvez já tenha percebido que essas considerações, retiradas do editorial da revista mencionada acima e apresentadas aqui de modo resumido, têm o objetivo de ressaltar não apenas a possibilidade de uma aproximação, mas, sobretudo, o parentesco, ou melhor, a linha de continuidade entre o terreno em que o psicanalista trabalha e o campo da literatura, em geral, e da fantástica, em particular.

 

Reafirmar a linha de continuidade entre a psicanálise e a literatura tem sido objeto das reflexões e pesquisas de Noemi Moritz Kon, desde seu livro Freud e seu duplo (São Paulo: Edusp/Fapesp, 1996). Essa linha de investigação resultou, desta vez, em outra obra magistral: A viagem: da literatura à psicanálise, escrita para seu doutorado em psicologia, em 2001. Tudo nesse livro recente demonstra a existência de um vínculo intrínseco entre o fazer psicanalítico e o fazer artístico e literário, desde a minuciosa e sofisticada pesquisa teórica com que a autora fundamenta sua argumentação, até _ e principalmente _ a maneira como o livro é escrito. A viagem: da literatura à psicanálise é ao mesmo tempo um ensaio teórico e um texto de ficção. Não poderia ser de outro modo. Com essa obra, Noemi consegue revitalizar uma vertente inaugurada por Octave Mannoni com Ficções freudianas, em 1978, depois retomada por I. D. Yalom em Quando Nietzche chorou, em 1992, por I. Rosenfeld, em Freud’s megalomania, em 2000, e, aqui, no Brasil, por psicanalistas que, em 1996, no livro A jovem homossexual: ficção psicanalítica, escreveram pequenas obras-primas em torno de um caso clínico de Freud. A essa vertente pertencem aqueles textos inquietantes que não podem ser enquadrados em apenas um campo de produção de conhecimento, a menos que criemos para eles uma designação especial que revele a indissociação existente entre ficção literária e psicanálise.

 

É justamente nessa indissociação que reside a coerência do eixo que sustenta a escrita de A viagem: da literatura à psicanálise. Do início ao fim nesse belo livro, Noemi Kon dedica-se a defender a idéia de que o vigor da psicanálise reside no que Freud nomeou modestamente e não sem algum desgosto, nos Estudos sobre a histeria, como caráter literário. Não obstante, nessa mesma passagem o próprio Freud disse encontrar algum consolo no fato de que o caráter literário de suas histórias clínicas era inteiramente devido à natureza do objeto.

 

É com esse característico caráter ficcional e criador de realidades que a psicanálise, segundo Noemi, resiste, desde seu surgimento, ao severo selo da ciência, expressão que Freud empregou ao examinar o valor da cientificidade na criação psicanalítica. Nas palavras de Noemi, é preciso ressaltar e não camuflar a potência ficcional específica da psicanálise e evitar tanto que se revista o conhecimento psicanalítico de uma máscara cientificista como que se recaia no perigo de tomar a criação freudiana como a verdade já dada do ser (p. 25): "É preciso não esquecer de que fomos inventados, gerados, sonhados e interpretados na obra desse grande criador [Freud], e que fazemos parte de uma nova humanidade, a qual passamos a reproduzir diariamente [...], os homens-psicanalíticos [...] É importante, assim, que essa força ficcional seja acolhida e que seja adotada ativamente no fazer psicanalítico, permitindo que o encontro analítico assuma, de cara limpa, sua potência de criação de realidade, sua força de ficção verdadeira, característica de seu modo de ser, ou seja, um modo de fantasiar cientificamente" (p. 25). É por essa razão que, como nos lembra a autora, psicanalisar é o mesmo que criar, abrir espaço para que histórias sejam construídas a partir de uma quase-memória (p. 27).

 

A aposta de Noemi nesse livro é verificar aonde nos levará a trilha sugerida em 1970 por T. Todorov, com sua hipótese de que a psicanálise substituiu (e por isso mesmo tornou inútil) a literatura fantástica, uma vez que, se, para esse autor, tornou-se desnecessário tanto recorrer ao diabo para falar do desejo sexual excessivo como aos vampiros para designar a necrofilia, é porque a psicanálise e a literatura (onde a primeira se inspira), tratam disto tudo de maneira indisfarçada.

 

Contudo o livro A viagem: da literatura à psicanálise é também uma reflexão originalíssima sobre a criação da psicanálise. Com segurança e elegância, em meio a uma elaborada construção textual em que não faltam doses de humor, a autora faz com que o leitor experimente, em um curioso efeito de leitura, uma espécie de vertigem. Esse efeito, indicador do curto-circuito entre imaginário e real, resulta da mistura de entidades puramente textuais com fatos históricos conhecidos na psicanálise. Infiltrando-se uns nos outros, produzem uma situação que lembra o funcionamento da nossa realidade psíquica. É assim que na primeira das três partes que compõem o livro, o leitor se surpreenderá com um texto fascinante através do qual, com o intuito de compreender uma origem mítica do pensamento psicanalítico, Noemi Kon constrói uma deliciosa novela intitulada A viagem, de Paris a Quillebeuf sur Seine. Nessa viagem os passageiros (entre eles o jovem médico vienense Sigmund Freud) são alguns dos espectadores das concorridas apresentações de histéricas feitas pelo Dr. Jean-Martin Charcot no Hospital Salpêtrière, em Paris, em 1885. Um dia, em novembro daquele ano, depois de uma dessas apresentações, um certo Dr. Marrande, eminente alienista francês, convida um grupo de interessados espectadores para acompanhá-lo em uma visita no fim de semana, a um de seus pacientes que estava internado por seu próprio desejo, na casa de saúde que dirigia. Os homens aceitam entusiasmados o convite, esperançosos de que encontrariam nessa oportunidade respostas para muitas das questões que a ciência não conseguia lhes esclarecer. Durante a viagem de poucas horas de trem, de Paris a Quillebeuf sur Seine, e depois, na propriedade do Dr. Marrande, naquele final de semana, os homens trocam experiências, à medida que ouvem os relatos que vão sendo contados uns aos outros, sobre fenômenos sobrenaturais que parecem desafiar toda a lógica da ciência.

 

Aos poucos o leitor dessa pequena novela escrita por Noemi começa a reconhecer, aqui e ali, nesses relatos fantásticos, os escritores e/ou personagens famosos de contos de Edgar Alan Poe (O gato preto e O gênio da perversidade), Robert Louis. Stevenson (Dr. Jekyll e Mr. Hyde), Machado de Assis (O espelho: esboço de uma nova teoria da alma humana e O alienista) e Guy de Maupassant (Le Horla, La Peur e Magnétisme). Dentre esses, apenas Freud é ele mesmo, falando através de trechos de seus textos clínicos, teóricos, autobiográficos e epistolares, com os quais sustenta sua explicação acerca das experiências impressionantes que foram relatadas naquele final de semana, para retirar delas a magia do acaso e finalmente mostrar a determinação do Inconsciente naquilo que de outro modo permaneceria nas sombras do oculto, do ilógico e do irracional.

 

Ao final de A Viagem, de Paris a Quillebeuf sur Seine, um dos convidados pergunta a Freud o que aconteceria se tudo aquilo que ele demonstrou tão bem não se confirmasse na realidade. Ou melhor: e se fosse apenas mais uma obra de ficção? Atento à necessidade de ressaltar a especificidade da psicanálise, ligando-a à sua função terapêutica, Freud então responde que talvez estivesse mesmo criando apenas uma ficção-científica, mas o alívio que ela estava trazendo aos pacientes, provinha justamente do fato de que abria uma nova perspectiva de entendimento para aquilo que antes não comportava inteligibilidade. E completa: "Penso também que nosso Deus Logos pode não ser dos melhores, mas, mesmo assim, continuo a acreditar que ele é um dos poucos que guardaria em minha capela particular" (p. 189-190).

 

Se os componentes daquele pequeno grupo começaram a viagem como homens-fantásticos, tudo conduzirá para que, ao final, tenham se tornado homens-psicanalíticos, criados pela inventividade de Freud. Nas palavras de Noemi Kon, os homens fantásticos eram mesmo outros; lidavam com aparições, que se assemelhavam, mas que, também, e ao mesmo tempo, diferiam dos fantasmas que ainda hoje assombram os homens freudianos: os fantasmas internos, a fantasia (p. 213). Com a noção de realidade psíquica fundamentada na vida inconsciente, Freud criou uma outra humanidade, capaz de ser, paradoxalmente, senhora ou abrigo de seus temores: A partir de Freud, o antigo maravilhoso que afligia os homens passou a ser parte integrante de eu ser (p. 213).

 

A viagem é, em seguida, desconstruída por Noemi Kon no capítulo (Os bastidores), que constitui, segundo a autora, uma espécie de making of do texto de ficção que abre o livro. À maneira de um documentário que exibe os bastidores de uma produção cinematográfica, Noemi nos permite conhecer, passo a passo, desde as primeiras idéias que geraram a criação do roteiro até as fontes e referências bibliográficas (incluindo referências musicais e cinematográficas) que, como restos diurnos, inspiraram e sustentaram a construção do intrigante enredo da peça de ficção de A Viagem. Mas algo mais se revela nesse making of, que constitui não só a sua iluminação peculiar como também o que se revelará nessa iluminação. No último capítulo, intitulado significativamente "O milagre, o mistério e o enigma", os raios dessa iluminação que provém do refletor das idéias psicanalíticas (dispositivo especial que, mimetizando o movimento do Inconsciente, é tanto capaz de revelá-lo como de mantê-lo escondido), incidem sobre uma lembrança de infância da autora. Essa lembrança é relatada para mostrar o que caracteriza a coisa psicanalítica em sua capacidade para lidar com o imponderável, o imprevisível, o insuspeitado. De um lado, o lugar da emergência da psicanálise tem a ver com a rejeição do mistério, a assunção do não-explicado em vez do inexplicável, do inexplorado em vez do inexplorável da alma humana: Como ultrapassagem da literatura fantástica, surge o homem-psicanalítico, que prossegue ao homem-fantástico (p.22). De outro lado, o fazer psicanalítico só pode ser descrito como um fazer do mistério e não do enigma (p. 319), pois a psicanálise caracteriza-se pela sua receptividade para com a fantasia, a diversão ao não negá-la pelo julgamento do absurdo, a crença em sua realidade e o desejo de poder lidar, de alguma forma, com ela. Se criar histórias é próprio ao ofício do escritor, criar histórias é, como nos lembra Noemi, o próprio trabalho do psicanalista (p. 319). E continua: O encontro psicanalítico é constituído deste e neste poder de criação. Uma construção em parceria e intimidade, que recoloca, inventa e revive cenas retomadas através da memória criadora, fornecendo à história pessoal ou coletiva outra significação (p. 319).

 

Parafraseando Beleven, eu diria que se a literatura fantástica representa a quintessência da literatura, a psicanálise representa a quintessência do fantástico na medida em que o trabalho no limite entre o real e o irreal, próprio de todo psíquico, converte-se em seu centro explícito. Contudo, como nos mostra Noemi nesse livro que, certamente, logo se tornará uma referência indispensável dentro e fora do campo da psicanálise, só aquele que acredita que as palavras são efetivamente a ferramenta essencial tanto da literatura como do tratamento da mente, e arrisca-se a trabalhar num reino que é também um espaço misto, espaço-limite, de transição, em que se trabalha entre a ficção e a teoria, é que pode, de fato, psicanalisar.

 

 

Notas

 

1. H. Beleven, Teoria de lo fantástico. Barcelona, Anagrama, 1977, p. 119-121.

2. Julia Barella. Editorial. Anthropos (Revista de Documentación Científica de la Cultura), Barcelona, n. 154-155, março-abril 1994, p. 2-10.

 

 

Ana Cecília Carvalho é psicanalista, doutora em literatura comparada pela UFMG, professora do Depto. de Psicologia da UFMG, autora de A poética do suicídio em Sylvia Plath (UFMG, 2003), entre outros.