Canções
1991
Release
por Arnaldo Antunes
1 - Dos prazeres das canções
(Péricles Cavalcanti)
2 - Elegia
(Péricles Cavalcanti - Augusto
de Campos)
3 - Blues da passagem
(Péricles Cavalcanti)
4 - Tudo sobre Eva
(Péricles Cavalcanti)
5 - Sonho proteína
(Péricles Cavalcanti)
6 - Nuvoleta
(Péricles Cavalcanti - Augusto
de Campos)
7 - Sem drama
(Péricles Cavalcanti)
8 - Meu bolero
(Péricles Cavalcanti)
9 - Ode primitiva
(Péricles Cavalcanti - Haroldo
de Campos)
10 - Quem nasceu?
(Péricles Cavalcanti)
11 - Canto maneiro
(Péricles Cavalcanti)
12 - Farol da Jamaica
(Péricles Cavalcanti)
13 - Música, por que?
(Péricles Cavalcanti)
14 - Eassimserá...
(Péricles Cavalcanti)

Letras

Dos
prazeres, das canções
Péricles Cavalcanti
Eu
sou aquele
Que o tempo não mudou
Embora outro, eu sou o mesmo
Eu sou um mero sucessor
A minha estirpe
Sempre esteve ao seu dispor
Me dê ouvidos que eu lhe digo quem eu sou
Sou
Herivelto, sou Caymmi
Eu sou Sinhô
Eu sou Valente, eu sou Batista
Eu sou Noel, eu sou Heitor
Dos prazeres, das canções
Eu sou doutor
Nos sentimentos de alegria e
de dor, dô, dô o que você quiser
Tô,
tô, tô
Pro que der e vier


Elegia
Péricles Cavalcanti / Augusto de Campos
(a partir de poema de John Donne, século XVII)
Deixa
que a minha mão errante adentre
Atrás, na frente
Em cima, embaixo, entre
Minha América, minha terra à vista
Reino de paz se um homem só a conquista
Minha mina preciosa, meu império
Feliz de quem penetre o teu mistério
Liberto-me ficando teu escravo
Onde cai minha mão
Meu selo gravo
Nudez total
Todo prazer provêm de um corpo
(como a alma sem corpo) sem vestes
Como encadernação vistosa
Feita para iletrados
A mulher se enfeita
Mas ela é um livro místico
E somente a alguns a que tal graça se consente
É dado lê-la
Eu
sou um que sabe
Um, um


Blues
da passagem
Péricles Cavalcanti
Pra você que me pergunta
Porque estou nesta cidade
Sozinho, com um blues ao violão
Eu digo na verdade
É só por necessidade
Pois preciso da passagem de avião
Pra voltar pruma garota
Que eu deixei lá em Dakota
E que tem meu coração


Tudo
sobre Eva
Péricles Cavalcanti
Ela às vezes se reserva
Inteirinha pra você
Como se já não houvesse
Mais ninguém pra lhe dar prazer
Numa devoção absurda
Monótona e desigual
E você recorda Dylan
“It’ain’t me babe, now?
Noutras
vezes é a mulher
De todos os salões
Poderosa maravilha
Que estraçalha corações
Sem direitos exclusivos pra ninguém
Como numa canção do Raul Seixas
Isso inclui você também
E
depois chega dizendo
Que mudou pra outra lua
Não adianta chorar muito
Que ela já não está na sua
Diz ter muitos compromissos
E nenhum tempo a perder
Ela agora quer dar pra todos
Menos pra você
É
uma velha história
É um velho saber
Já dizia a Bíblia e Lao Tsé
É uma velha história
Para um novo cantar
Já sabia Freud
Nelson Cavaquinho
E sabe Godard


Sonho
proteína
Péricles Cavalcanti
Sonho
proteína
noites acordado
vivo com as meninas
no telhado
sonho
proteína
leite condensado
caio na piscina
do sagrado
desejo,
desejo
e a fonte não tem fim
revejo o começo
recomeçar assim
sonho
proteína
sol sintetizado
caio na cortina
do pensado


Nuvoleta
Péricles Cavalcanti e Augusto de Campos
(a partir de um fragmente do “Finnegan’s
Wake’ de James Joyce)
Então
Nuvoleta reletiu pela última vez
Em sua leve e longa vida
e minguou todas as miríades de pensaventos
num só
Cancéulou os seus compromissos
Subiu pelos baluastros
Gritou um núvil nominho ninfantil, nuée,
nuée...
Um
tule onduleou, ela passou
E dentro do rio que fora uma corrente
Pois milhares de lágrimas
tinham ido por ela e vindo por ela
que era dada e doida pela dança
e seu apelôdo era missislifi
Cai um lágrima
Minúltima lágrima
A mais leve de todas as lágrimas
Falo para os fãs de fábulas de radiamor
lunávidos pelo ar vulgar de estrelas de celenovelas,
pois esta era a milágrima.
Mas
um rio escorregou lago por ela
Sorvendo-a de um trago, como se mágoa
fosse água
Ora,
ora
Quem quer chora
Quem não quer vai s’embora


Sem
drama
Péricles Cavalcanti
Uma canção diferente de tudo
Fala tudo não diz nada
Samba, canção diferente
Rima fácil, nota clara
Nenhuma voz se atrapalha
Sem drama
Uma canção é uma canção
É uma canção


Meu
bolero
Péricles Cavalcanti
Você me diz eu te amo
Com esse tom tão humano
Demasiado humano
Pro meu gosto tão contemporâneo
Parece falta de crânio
Mas
mesmo assim eu te adoro
E por você brigo e choro
Me ajoelho imploro
No altar do que for mais simplório
Viva esse deus ilusório
Eterno
amor
Meu melodrama
Posto que é chama
Eterno amor
Minha lambada
Flor da parada
Eterno amor
Meu coração
Cor de melão
Eterno amor
Ô meu bolero
Como eu te quero


Ode
primitiva
(Fragmento de uma “Galáxia”)
Péricles Cavalcanti e Haroldo de Campos
Quando
a maré for subindo
Você virá vindo você
Quando a maré
Quando
a manhã for saindo
Você virá sendo você
Quando a manhã
E
enquanto a noite for sumindo
Você estará rindo
Porque é lindo
Você


Quem
nasceu?
Péricles Cavalcanti
o
sol nasceu
a luz nasceu
o dia nasceu
e o sol nasceu
é
tudo mentira
é tudo figura
quem nasceu fui
quem nasceu foi você
e a gente não sabe bem como
e nem sabe porque
pra
mãe natureza
o templo do pai
é tudo mentira
é tudo figura
quem
tem mãe sou eu
quem tem pai é você
que embora não fiquem com a gente
é impossível esquecer


Canto
maneiro
Péricles Cavalcanti
Eu canto à maneira índia
Negra, grega, gregoriana,
Eu canto à maneira de Heráclito
O fogo, o transe, a transmigração
O
ser do rio
Nunca
nos banhamos no mesmo rio
Eu canto à maneira eletrônica


Farol
da Jamaica
Péricles Cavalcanti
Uma
voz aproximou a Mãe África
Uma voz iluminou a Jamaica
Farol da Jamaica apagou
Farol da Jamaica apagou


Música, por que?
Péricles Cavalcanti
Eu
faço música por amor e por esporte
música por acaso e pela sorte
eu faço música pelo som e por vaidade
música pra vender pela cidade
eu faço música por que não, por
que sim
música, música , música...
Eu faço música pra pensar e pra comer
música pra dançar e pra chover
eu faço música pra driblar a timidez
música pela sua insensatez
eu faço música por que não, por
que sim
música, música, música...
Eu faço música como forma de protesto
música pra mentir, porque eu não presto
eu faço música por prazer, sem nenhum
sim
música pra você e para mim
eu faço música por que não, por
que sim
música, música, música...


Eassimserá
Péricles Cavalcanti
Ela vinha sorrindo e cantando
Vantagens ao luar
Numa praia bonita em Havana Cuba
Apontava Miami e dizia
Eu não quero viver lá
Isso aqui para mim é que é vida
Era
assim
É e será
É assim
E assim será
Afirmava
orgulhosa
Jamais ter temido os EUA
Que encarava de frente
De igual para igual
E apesar de bem velha
A morena mostrava idade não
Tinha um quê de moderno e atual
Era
assim
É e será
É assim
E assim será
Caminhava macio
E mesclava trumpetes e tambor
Esbanjava cadência e harmonia
E depois de ter feito
A cabeça do Jazz & Rock’n Roll
Ela era de novo o que havia
Era
assim
É e será
É assim
E assim será

