por Moreno Veloso
Música feita em casa, na sala, no corredor, na bancada da cozinha, no quarto, no computador da mulher, com a ajuda do filho mais novo, não é nisso que eu penso. Penso nos melhores discos produzidos na península escandinava, nos melhores timbres coreanos já registrados, nos melhores discos feitos na Colômbia. O compositor olhando para a tela de um monitor, decupando a música, enquanto algum instrumento ressoa ali fora, não. Penso nos sons dos melhores discos canadenses, na intensidade e na delicadeza dos melhores discos espanhóis, nos milagrosos discos gravados em Angola. Amigos ajudando nos detalhes finais, noites sem dormir direito, um dinheiro guardado para os poucos que não são tão amigos assim, tampouco é nisso que penso. Eu penso nos legendários discos jamaicanos, nas pérolas fonográficas do mundo árabe, no que se faz e se fez de bom nos Estados Unidos da América, na Inglaterra, em Portugal e no Brasil. Penso em tudo o que eu gosto e nos meus amigos. E é isso que dá em mim ouvindo e reouvindo o disco novo de Péricles.
Percebo, com alegria, que ele usou os computadores como meio de refinar e produzir seu novo trabalho. Essas máquinas nos dão uma impensável capacidade de aproximação e manipulação da música em todos os níveis, mas são poucos aqueles que fazem de tamanha facilidade um salto artístico. Péricles, sim, fez desse mundo digital uma peça linda da música brasileira. Linda porque é estranha também, engraçada, singela e muito bem acabada. Minha alegria se multiplica a cada som inesperado e a cada composição que, aos poucos, vão se revelando. Posso notar o tempo e o espaço interferindo nas canções, explicitando sua delicadeza. E posso ver Péricles por trás dessas intervenções, experimentando arranjos e formas, como num gosto novo de compor, aprofundando sua intimidade com a música através do computador.
Bit a bit, faixa por faixa, eu vou ganhando o meu dia com a inspiração que tudo isso me traz e a vontade de trabalhar em coisas íntimas e bonitas assim: os deslumbrantes duetos vocais com o filho Leo, a guitarra de Pedro Sá, as presenças de Domenico, Dany Roland, Stephane SanJuan, Rodrigo Amarante, Edgard Scandurra, Luca Raele, Guilherme Kastrup, Claudio Faria, Lincoln Antonio, Arnaldo Antunes e de tantos outros que vêm trazendo suas contribuições, sons e parcerias, aumentando o espectro de um disco muito particular e generoso. |