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Mil
e Uma: A trilha sonora de Péricles
Cavalcanti
Release
escrito por Antonio Cicero
Outro
dia li no jornal a declaração
de alguém de que, se o cinema fosse
uma grande arte, não precisaria de
um fundo musical para emocionar. Em outras
palavras, para o autor dessa declaração,
o cinema não é grande arte porque
em estado puro — isto é, sem
música — não tem capacidade
de emocionar e, quando tem essa capacidade,
deve-a às muletas da música.
Mas,
sem sequer discutir os preconceitos embutidos
aí, observo que o cinema está
se lixando para a “arte pura”
ou a “grande arte”. Questionáveis
são esses conceitos, e não ele.
Com efeito, não é a pureza da
arte mas a arte da mistura que caracteriza
o bom cinema. O diretor consumado é
o que consegue obter os melhores resultados
das parcerias que administra, integrando-as
perfeitamente na realização
de um projeto singular. A trilha sonora constitui
um desses ingredientes. O que a distingue
dos outros componentes de um filme é
que, muitas vezes, ela é capaz de sobreviver
por si só, independentemente do filme
que a ocasionou. Tal é o caso do CD
da trilha que o compositor Péricles
Cavalcanti compôs, a pedido da diretora
Susana Moraes, para Mil e Uma, admirável
filme que se insere na linhagem cultural de
Marcel Duchamp, Lewis Carroll e Gertrude Stein.
Diversas obras desses artistas fazem parte
do repertório das unidades semânticas
com que se articula o discurso a um tempo
visual, verbal e musical do filme. Mas isso
é organicamente incorporado na trama
vital de Mil e Uma de tal modo que —
luz balão — ele jamais exala
sequer o mais leve odor de museu.
Quanto
ao CD, já a sua primeira faixa, “Fantasia
Monkiana”, que, exercendo função
análoga à de uma abertura wagneriana,
introduz não só os temas, ou
Leitmotive, da trilha, mas também adianta
um repertório dos moods que serão
por ela desenvolvidos, é absolutamente
irresistível. É o Thelonius
Monk misterioso e brilhantemente noturno de
“Round About Midnight” que se
acha aqui mais imediatamente citado. Alguns
toques de humor nos lembram ademais que a
referência a Monk não poderia
ser mais apropriada, pois a graça,
o estilo dinâmico do piano e a aparente
simplicidade — à primeira audição
— das composições na realidade
complexas, sutis e inovadoras do co-fundador
do be-bop e do cool jazz incorporam-no automaticamente
ao rol dos artistas acima citados.
“Qual
é a resposta? / Me diga, então
/ Qual é a pergunta?”, dizem
três versos da letra do “Tema
de Alice”, de Péricles, lindamente
cantada por Adriana Calcanhotto. O primeiro
desses versos é a pergunta que Alice
B. Toklas fez a Gertrude Stein, quando esta
se encontrava no leito da morte; os outros
dois, a pergunta-resposta que ouviu da companheira.
No mesmo espírito, uma outra canção
de Péricles, o “Tema de Antonio”,
sobre a frase de Duchamps: “Não
tem solução porque não
tem problema”. A música explora
possibilidades rítmicas e sugestões
melódicas dessa frase, repetida como
mantra por Arnaldo Antunes. Não há
como não lembrar aqui a proposição
6.521 do Tractatus de Wittgenstein, segundo
a qual “a solução do problema
da vida observa-se no desaparecimento desse
problema.” Em determinado momento, Péricles
canta um trecho da canção de
Dorival Caymmi: “Não tem solução
esse nosso amor...” “Não
tem solução porque não
tem problema”, repete Arnaldo. A brincadeira
sugere ironicamente a possibilidade da dissolução
dos problemas amorosos, tomados como pseudoproblemas
cultivados pela subjetivização
romântica do amor. “A própria
vida que estamos vivendo”, dizia, no
mesmo estado de espírito, John Cage,
“é maravilhosa quando, livres
de nossas mentes e de nossos desejos, a deixamos
agir por conta própria”. Esteticamente,
essa atitude Duchamp-Wittgen-Stein-Carroll-Cageana
se traduz pela conferição de
privilégio às superfícies
das coisas. É assim que a letra da
versão cantada de “Mais um Bolero”
não compartilha com os boleros comuns
a retórica da profundidade do amor
ou do desprezo pelo mundo exterior à
paixão. As luzes cálidas do
erotismo não focalizam um único
ponto do mundo — aquele onde se encontra
o ser amado —, relegando tudo o mais
a uma penumbra gélida. Ao contrário,
tomando o amor como “um claro querer
viajar”, ela expande geograficamente
o próprio ser amado e erotiza o mundo
inteiro.
Semelhante
atitude estética se apresenta também
nas jóias que são os poemas
de Augusto de Campos, magistralmente musicados
por Péricles. “De Sol a Sol”,
“Longe e Perto” , assim como “Êxtases”,
manifestam a experiência mística
da anulação da oposição
convencional entre subjetividade e objetividade,
egoidade e alteridade. Augusto está
representado também pela maravilhosa
tradução do “Poema Cauda”,
de Lewis Carroll, musicada por Péricles
e instigantemente interpretada por Arrigo
Barnabé.
Já
mencionei Augusto de Campos, Adriana Calcanhotto,
Arrigo Barnabé e Arnaldo Antunes. Cid
Campos, presente em vários instrumentos
e toques, também merece um destaque
especial. Péricles, mobilizado por
Susana de Moraes para participar do filme
dela, também soube, por sua vez, mobilizar
o talento desses e de outros artistas para
a produção da sua trilha. Com
a colaboração deles, os atributos
luminosos que sempre distinguiram o trabalho
arejado, límpido, cool e swingado de
Péricles lhe ensejaram uma fecunda
parceria com Susana. Assim como o filme, a
trilha sonora exerce um efeito liberador,
abrindo horizontes por meio da beleza, do
humor e da proposição
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