Péricles Cavalcanti
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Adriana Calcanhotto
Péricles Cavalcanti, 2000
(texto incluído no site de Adriana Calcanhotto)

Quando vi uma apresentação de Adriana em 1989, pela primeira vez, fiquei muitíssimo impressionado com a qualidade do acabamento formal de seu trabalho.

Desde então, ela já reunia um propósito de conjugar uma alta definição visual (nas roupas, na maquiagem, no corte de cabelo, na ambientacão para o concerto) com uma forte determinação de clareza na expressão musical.

Por essa época, ela já tinha gravado seu primeiro LP, com composições de vários autores e duas composições suas, “Enguiço” e “Mortaes” que já exibiam uma disposição para desenhar uma marca bem pessoal.

Nos conhecemos por intermédio de Susana Moraes, em 1991, quando eu acabara de gravar meu primeiro disco e ela se preparava para gravar o seu segundo, o primeiro em que assinaria a maioria das composições, além da supervisão artística.

Daí para cá ficamos amigos, ela tem com frequência cantado e gravado canções minhas e, muito além disso, seu trabalho só tem se desenvolvido e enriquecido no sentido daquelas características que a minha primeira impressão detectou e ainda no de outras. E a gente vai, cada vez mais, conhecendo esta artista tão peculiar.

Não há sucesso popular sem uma profunda intuição (ou será vocação?) para captar e traduzir esses fluxos, ao mesmo tempo, anônimos e tão pessoais que percorrem a sensibilidade, o imaginário, enfim o gosto de uma audiência “consumidora” de música pop.

E Adriana Calcanhotto tem isso, naturalmente, para cantar, compor ou mesmo tocar, com segurança, seus violões e guitarras.

Não é à toa que o mais recente disco dela, gravado ao vivo, chama-se “Público” (2000), como que reconhecendo e explicitando o caráter pessoal-impessoal que o seu dom acarreta.
A Balada talvez seja o gênero popular urbano que mais tem se prestado a fazer essa misteriosa ponte musical entre o individual e o coletivo. E “Mentiras”, “Metade” e “Vambora” são composições-interpretações de Adriana que atestam isso.

Por outro lado, uma sofisticada inteligência conceitual faz com que ela seja capaz de trabalhar diversos materiais musicais e poéticos, dela ou de outros autores, de comunicação menos imediata, ou mais complexa, com a mesma competência e discernimento, inserindo-os em contextos que incluem os elementos e gêneros os mais heterogêneos.

Como exemplo, ouça-se o disco “Marítmo”(1997), cujo próprio nome, uma “palavra-valise” (palavra montada à partir de outras), já indica, de uma maneira poética e sonoramente original, os dois temas principais que predominam no repertório: o mar e a dança.

Aqui convivem harmoniosamente um antigo e lindíssimo samba-canção de Dorival Caymmi “Quem vem pra beira do mar” (com a participação do autor cantando), com a musicalização, à maneira da “Discomusic” contemporânea, de um poema de Waly Salomão chamado “Pista de dança” (com a presença vocal do autor), mais a balada de Roberto e Erasmo Carlos “Por isso eu corro demais” e, ainda, “Uma canção por acaso”, de autoria dela, com o arranjo e a participação do genial multi-instrumentista Hermeto Pascoal, entre outras coisas.

Vale lembrar, também, da original utilização, por Adriana, da gravação da voz da grande escritora vanguardista da primeira metade do século XX, Gertrude Stein, na composição e gravação de “Portrait of Gertrude”, no seu disco “Fábrica do poema” (1994).

Isso faz de Adriana Calcanhotto uma artista diretamente ligada à uma linhagem de autores e intérpretes na música popular, surgida nos anos sessenta, que procura aproximar ou mesmo misturar de forma orgânica, sem diferenciá-las, a chamada cultura de “alto repertório” (poesia de vanguarda, música experimental ou erudita, artes plásticas, etc.) com a cultura mais popular, de massa, considerada de “baixo repertório” (música para a repetição exaustiva nos “hit parade” das rádios, subliteratura, cinema comercial etc.).
Em termos internacionais, é só pensar nos Beatles ou em Bob Dylan (que parece carregar essa atitude no próprio nome artístico, inspirado no poeta galês Dylan Thomas) e, no Brasil, se lembrar do movimento Tropicalista.

Não é sem razão, portanto, que Adriana compôs e gravou nos seus dois discos mais recentes “Vamos comer Caetano” citando, exemplificando (através do uso de “samples”, amostras extraídas dos discos dele) e parodiando a “Antropofagia” do modernista Oswald de Andrade, tão cara ao principal mentor do Tropicalismo.

E, não é à toa também que Adriana, com muito talento para as artes plásticas (ela mesma projeta as capas dos seus discos), compôs “Parangolé pamplona”, faixa de abertura de “Marítmo”, em homenagem a Hélio Oiticica, artista cujos trabalhos também procuravam demonstrar que as fronteiras entre o “culto” e o “popular” podem ser, apenas, pré-conceitos.

Eu me orgulho muito de, através de minhas composições (algumas feitas sob sua encomenda), participar do trabalho desta artista cuja inteligente sensibilidade é capaz de reunir sob o mesmo teto estético-musical personalidades, influências, estilos, sons de origens tão diferentes e cuja esfera de interesses não pára de crescer.