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O
Eterno jovem Altamiro
Péricles Cavalcanti (novembro
de 1996)
Publicado no Jornal da Tarde
O
choro instrumental tem, desde suas origens,
muito a ver com o canto dos passarinhos.
Especialmente quando interpretado por
flautas, flautins, bandolins e cavaquinhos,
em solos ou conjuntos: canto ágil,
rápido, esperto.
Nas gravações primitivas
do gênero, isso é notável,
graças também a precariedade
do registro mecânico, com seus
agudos predominantes. Ouça-se,
por exemplo, as gravações
de 1921 dos Oito Batutas – ilustre
grupo de que faziam parte Pixinguinha
e Donga (selo Revivendo). Soam como
verdadeiras passarinhadas.
Altamiro Carrilho, que começou
sua carreira no início dos anos
quarenta, é o último remanescente
daquela elite de Chorões, compositores
e instrumentistas, que incluiu Pixinguinha,
Benedito Lacerda, Jacó do Bandolin
e Waldir Azevedo, entre outros, e, ao
mesmo tempo, é o maior representante
atual deste tipo de música que,
como o Jazz, é feito por músicos.
Em 1992, ele comemorou seus "50
anos de chorinho" (Polygran) com
um disco de clássicos do gênero
– como “Odeon”, “Doce
de Coco”, “André
de Sapato Novo”, “Lamento”
e “Pedacinhos do Céu”,
entre outros –, concebido e arranjado
por ele, e interpretado com o apoio
de um pequeno e brilhante conjunto formado
por Márcio Almeida no cavaquinho,
Maurício Almeida no baixo, Voltaire
de Sá no violão de 6 e
7 cordas, e Sá Neto no pandeiro.
Nesse disco excepcional, em que Altamiro
toca flauta em Dó, Sol e Píccolo
(grave, média e aguda), estão
todas as características principais
e toda a riqueza desse gênero
musical híbrido e musicofágico,
na medida em que conta, nas suas origens,
com música erudita, danças
e cantigas populares e pode a cada novo
momento absorver novas influências.
Isso porque o espírito livre,
para brincadeiras e associações,
é fundamental para um verdadeiro
chorão. Assim é que alguns
compassos de puro Rock and Roll podem
embalar e renovar o mesmo “Brasileirinho”,
do Waldir Azevedo, porque o Choro não
é um “ritmo” típico,
ou melhor, não privilegia um
único “pulso”, passando
pelo samba, marcha, valsa e o que mais
vier. E, na verdade, a mudança
de “levada”, com a precisão
das emendas, as acelerações
e reduções na velocidade
do andamento, mantendo a exatidão
na interpretação melódica,
é um dos pontos altíssimos
na música que esse mágico
flautista realiza.
Através dos anos cinqüenta,
desde sua "Lira de Xocotó",
e de lá para cá, passando
pelas suas participações
em discos de outros artistas, são
conhecidos os sons peculiares do seu
nome e de suas flautas. No entanto,
sua técnica como instrumentista
só tem crescido. O seu fôlego
impressionante, no sentido literal,
para soprar as notas com força
e precisão, e no sentido figurado,
o que faz com que ele seja um artista
enorme, só tem melhorado com
o tempo.
Se não, vejamos.
É sabido que o Choro sempre se
utilizou de algumas técnicas
de contraponto próprias do barroco.
Na sua mais recente gravação
em disco (Série Música
Viva - selo Tom Brasil, 1995), Altamiro
Carrilho interpreta uma música
de sua autoria intitulada “O eterno
jovem Bach”, onde essa influência
formativa é, não só
explicitada como comentada no tipo de
composição, com humor
e originalidade, através de pontuações
e “quebras” surpreendentes
de ritmo, exibindo um alto nível
de elaboração conceitual.
Vale dizer, que nestas perfomances gravadas
ao vivo, Altamiro é muito bem
acompanhado pelos mesmos Voltaire e
Sá Neto, e mais, por Márcio
no cavaquinho, Luizinho no violão
e Evandro no Bandolin. Nelas, percebe-se
o tempo todo a presença do improviso,
da associação livre, da
citação de outras músicas,
que fazem parte das rodas de choro,
e que esse grupo desenvolve a extremos.
Há, também, neste disco,
uma gravação bem humorada
e paródica da "Dança
das Horas" de Ponchielli. Uma nova
interpretação de “Brasileirinho”,
introduzida por uma citação
de “O cisne Branco” e por
uma versão jocosa do “Hino
Nacional”. E ainda , “Tico-Tico
no Fubá”, de Zequinha de
Abreu, introduzido por uma simulação
de piu de passarinho feita pelo flautim
de Altamiro, primeiro naturalisticamente
simples, e depois, mais e mais complexa,
até cair num Choro frenético,
como que para refazer o caminho do próprio
gênero, desde as origens até
o seu momento atual.
Há um movimento rápido
e preciso que vai da imitação
de sons “naturais”, até
a arte, e é isso que faz de Altamiro
Carrilho um filho legítimo do
deus Pan, o da música. Que ele
esteja sempre entre nós.
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