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No
lado esquerdo do peito, esse tambor
Péricles Cavalcanti
“Release” para o CD -
O silêncio - 1996
A
gravação de “Juízo
Final”, de Nelson Cavaquinho,
neste “silêncio amplificado
no amplificador”, de Arnaldo
Antunes, é um desses grandes
acontecimentos na história
recente da música popular no
Brasil. Não apenas por se tratar
da regravação de um
“clássico”, mas
por marcar o encontro de dois grandes
autores radicais: um, nascido e crescido
no ambiente do samba de morro carioca,
nos anos trinta e quarenta, e o outro,
no do rock paulista, nos anos oitenta
e noventa.
E, ambos, artistas inconfundíveis
e originais dentro e fora dos gêneros
musicais a partir dos quais se projetaram.
Pois, afinal, para que servem essas
tradições artísticas
específicas, se não
incluírem, também, espaço
para liberdades, em geral, e de expressão?
E o que seria do Rock, se não
fosse, também, um movimento
gerador de estilos de vida e de atitudes?
“O que significa isso?, o que
signifixa isso?, o que swingnifica
isso?” “Liberal gerou”.
É isso que este disco vem,
ao mesmo tempo, confirmar e desenvolver
no trabalho de Arnaldo. Sua voz potente,
berrada com extrema precisão
e clareza, conduz a transformação
do samba, com letra de inspiração
bíblica “ingênua”,
do grande Nelson Cavaquinho de ontem
e de sempre, em grande “rock
'n' roll” de hoje e de sempre,
interpretado por um dos mais sofisticados
artistas contemporâneos.
“antes de existir alfabeto existia
a voz”.
E apesar das grandes diferenças
entre esses dois grandes poetas, reunificadas
neste “Juízo final”,
pode-se, também encontrar semelhanças
genéricas espalhadas em outras
faixas de “O SILÊNCIO”.
Por exemplo, o tema da morte, tão
forte e comum nas canções
de Nelson e seus parceiros, se faz
aqui presente em “O buraco”,
de Arnaldo: “a morrer ninguém
foi ensinado, e todos morrerão”.
E o tema da solidão absoluta,
também caro ao compositor de
“Luz Negra”, aparece aqui
no maravilhoso e intrigante “O
buraco do espelho”, que parece
excluir, da possibilidade de comunicação,
até o próprio narcisismo.
E aqueles que, ainda, só relacionam
Arnaldo a poemas e letras de música,
atentem para “Poder”,
uma das mais belas canções-rock
recentes, em que ele compôs
a música, isto é, canto,
harmonia e “levada”, sobre
um lindo poema escrito, de Tadeu Jungle,
revelando-o, também, letra
de canção perfeita.
“olho que te quero boca”.
“vamos ouvir esse silêncio
meu amor”
E “O SILÊNCIO” tem
som? Tem muito e muito bom. A produção
de Mitar Subotic (o Suba), que também
programou algumas “seqüências”
no computador, é impecável.
O disco soa como um disco inglês,
no melhor sentido, isto é,
como um disco dos Beatles, do Traffic,
do Police ou do Dire Straits. Soa
“enxuto”, econômico
e potente, com equilíbrio timbrístico
e de alturas (médios, graves
e agudos). E a banda corresponde plenamente
à esta concepção-realização,
compondo, arranjando e interpretando
com Arnaldo.
“peito que te quero fonte,
carne que te quero corpo,
carne que te quero alma”.
Edgar Scandurra, co-autor de “Que
te quero”, dentre outras, é
um guitarrista elegantíssimo
e original. Seus “riffs”
e “solos” são sempre
corretos do ponto de vista estrutural
da canção, nunca são
óbvios ou repetidos, e sempre
são cheios de graça
e leveza. O maravilhoso violão
com cordas de aço que ele toca
em “Eva e eu”, integrado
ao arranjo, relaciona e aproxima minha
música de um certo orientalismo
Beatle e, ao mesmo tempo, da gravação
da canção “Jóia”,
de Caetano, o que me agrada muito.
Isso tudo além do fato de que
a letra ,escrita por Arnaldo, já
me aproxima de mim mesmo.
Paulo Tatit, também compositor
neste e em outros discos, além
de excelente violonista (ouça-se
o som maravilhoso que ele extrai desse
instrumento na faixa “Desce”),
mostra-se um competente baixista,
no decorrer de todo o disco e em especial
em “Poder”, “Juízo
final” e em “Estamos conversados”,
de sua co-autoria.
Zaba Moreau comparece com seus “backing
vocals” sempre afinados atuando
como um complemento melódico
suave para a voz grave e muitas vezes
rascante de Arnaldo, e também
com seu teclado, mais discreto neste
disco e, pelo menos, numa faixa inspiradíssimo.
Me refiro ao contraponto quase barroco
que ela escreveu para “Desce”
(versão 2), conferindo a esta
faixa uma sutil atmosfera de retreta
mística.
Pedro Ito é um músico
genuíno, que só tem
crescido como baterista nesses últimos
anos, a ponto de ter encantado, durante
uma apresentação de
Arnaldo, ao excelente e exigente Lulu
Santos. Atenção para
como ele soa e pulsa bonito e preciso
em “Poder”, “O silêncio”
e “Inclassificáveis”
para ficar em alguns exemplos.
“ não há sol a
sós”
As participações especiais
de Carlinhos Brown e de Chico Science
nesse “silêncio”
cheio de reverberações
são brilhantes. Brown é
uma espécie, composta por um
único indivíduo, de
mago-filósofo da percussão,
porque toca inventando e reinventando
conceitos rítmicos. Ele, também
um compositor brilhante, participa
e é co-autor de “O silêncio”
(observe-se a perfeita integração
da bateria do Pedro com os outros
instrumentos tocados por Carlinhos),
e construiu e executa toda a complexa
e empolgante máquina percussiva
de “Desce,” (versão
2). Quer mais?
Chico Science que, junto com a “Nação
Zumbi”, realiza uma maravilhosa
e original fusão entre Rock
pesado, Rap e ritmos pernambucanos
(negros e índios), comparece,
com seu jeito personalíssimo
de cantar e dizer textos, na faixa
“Inclassificáveis”,
que Arnaldo compôs pensando
nele e no movimento “Mangue
Beat” e que tem como tema a
miscigenação.
“que preto, que branco, que
índio o quê
somos o que somos, inclassificáveis”.
Darcy Ribeiro vai adorar. E nós,
da galera agradecida, com “uma
orelha alerta e outra ligada”,
apoiamos e aplaudimos.
“e estamos conversados”
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