Péricles Cavalcanti
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O Globo, Rio, 27 de julho de 2004

São bonitas as canções
por Hugo Sukman

Nas 15 canções de “Sérgio Santos” (Biscoito Fino), nas 24 de “Blues 55” (Barravento Artes), nas 12 de “Facho de luz” (Niterói Discos) esconde-se uma música brasileira pujante, que sobrevive ao conservadorismo do “depois deles não apareceu mais ninguém” (não importa se o “deles” seja o velho sambista, o medalhão da MPB ou a estrela do rock) e à negatividade do mercado.

Cada um a seu modo, o mineiro de pendor clássico Sérgio Santos, o carioca-radicado-em-São-Paulo de pendor vanguardista Péricles Cavalcanti e o niteroiense de pendor lírico Marcio Proença mostram que a música brasileira está, como no samba de Caymmi, viva ainda lá. E que, como no choro de Edu Lobo e Chico, não importa o estilo, são bonitas as canções.

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Péricles Cavalcanti faz o seu “A foreign sound”

Muito da perfeição de “Sérgio Santos” vem do trio que o acompanha, a bateria de Tutty Moreno, o baixo do produtor Rodolfo Stroeter e o piano inventivo de André Mehmari (que viaja com segurança nos solos e no acompanhamento), acrescidos de outros instrumentos e de sopros arranjados por Nelson Ayres, que valorizam as melodias inesperadas e harmonias cuidadosas.

Se Sérgio opta pela linguagem clássica da música brasileira, Péricles Cavalcanti opta pela vanguarda. Simbolicamente, se o primeiro faz samba seríssimo sobre futebol, “Jogo de zagueiro”, Péricles vem com uma marcha jocosa, “Maria chuteira”, na qual a bola “Vira mulher de atacante/Vai balançar o filó”.

“Blues 55” são dois discos reunidos, um chamado “Blues”, de canções, acústico, outro “55”, que dialoga com a música clássica contemporânea do co-produtor húngaro Sandòr Kavallis e com a eletrônica. Não fosse ele fornecedor de canções para Caetano (“Elegia”, “Blues”) e um filho artístico da corrente tropical-concretista da música brasileira, “Blues 55” é uma espécie de “A foreign sound” autoral, no sentido em que o tempo todo se inspira e parodia a relação da música brasileira com a música americana.

“Será o amor?” é paródia de list song de Cole Porter (“Será poesia, inspiração?/Ou pieguice de ocasião?/Será um filme de Sganzerla/Ou uma cena de novela?”). “Medo de amar n 3” é rock rollingstoniano feito para Adriana Calcanhotto quando ela não teve autorização para gravar uma canção de Mick Jagger. “Bossa nova” tem letra em inglês, a língua que consagrou o gênero. “O cantor de jazz”, “Heavy metal”, “Blues”, “Rock stars”, a nova “Laurin Hill” (“Laurin Hill/Você vale por mil/Tem balanço e tem voz/Com uma banda ou a sós”) acoplada à antiga “Brigitte Bardot” (“Você inspirou poetas/O mano Caetano/O brother Bob Dylan”) são exemplares da intenção “foreign sound”.

Na instrumental “Um abraço no Thelonious”, choro cheio de curvas monkianas, com título inspirado no “Abraço no Bonfá” de João Gilberto, tal intenção vira um jogo de espelhos.

Se a temática é pop e a cultura americana um paradigma, a composição de Péricles é, ironicamente, rica em termos harmônicos, na tradição brasileira (no primeiro disco) ou da música contemporânea (no segundo). Outra ironia: um disco todo dedicado à cultura americana acabar com uma ode à “Nossa Bagdá” (“Bagdá, à beira do Tigre/Bagdá, a jóia do Eufrates”).