Péricles Cavalcanti
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JB - 01/AGO/2004

Um artista sempre na contramão
Péricles Cavalcanti aposta em álbum meio pop, meio experimental

por Tárik de Souza

Tom Zé não é o único tropicalista à parte do mercadão. Iniciado como intérprete na trilha de Gilberto Gil para o filme Copacabana, mon amour, de Rogério Sganzerla, no exílio londrino dos baianos, em 1971, o paulista Péricles Cavalcanti só apareceu como autor dois anos depois, quando o movimento já era considerado extinto. Não apenas por isso, mas também pelo apuro estilístico vanguardista e estilo intimista não muito compatível com o desempenho performático dos colegas, PC ficou relegado a um fundo de palco - mesmo tendo sido gravado por Gal Costa (Clariô, O céu e o som), Caetano Veloso (Blues, Elegia), Adriana Calcanhotto (Mais um bolero) e até Cássia Eller (Eu queria ser Cássia Eller) e Lulu Santos (Festa do prazer). Ele desvela uma maioria de novas canções (algumas alheias) no CD duplicado Blues * 55 (Deledela), de 23 faixas, onde mais uma vez esbanja liberdade criadora e despreocupação com formatos convencionais.

Blues, o ''lado A'', mais pop, traz 13 faixas gravadas em quatro dias de estúdio, em 2002, com predominância de instrumentação acústica, numa tabelinha com Lincoln Antonio (baixo) e Claudio Faria (trompete). 55, ''a face B'', mais experimental, foi registrada aos poucos, entre julho e dezembro daquele mesmo ano, exceto uma das faixas, a irônica Nossa Bagdá (''eu me lembro dos ataques de outros tempos/ que porém não conseguiram destruí-la/ nem riscá-la do mapa''), de suingue dissonante, dedicada aos Novos Baianos. O maestro greco-húngaro Sandòr Kavallis dividiu a produção e os arranjos com Péricles. Foi responsável, por exemplo, pelas linhas de cordas sintetizadas da faixa dupla Laurin Hill-Brigitte Bardot (esta, uma ode um tanto nerd à hoje decrépita senhora). Em É pra sambar, Péricles e Sandòr empregam um loop de ruído ambiental que antecede uma batida quebrada entre baião e coco, de bateria eletrônica, com scratchs sintéticos.

Ainda tangenciando o mesmo tema, Vitamina do samba pode parecer algo inspirado na desconstrução de Estudando o samba, de Tom Zé. A faixa tem programação eletrônica do sul-africano Papa Fellow, sob os quatro refrões com estilos e divisões diferentes, cantados simultaneamente. Ivesswing e Ivesswing plus são exercícios instrumentais de Péricles, inspirados num texto do compositor erudito americano Charles Ives, sobre harmonias paralelas. Na ala pop as surpresas não são menores, como a do choro Um abraço no Thelonious, a mais antiga composição do disco, de 1974, em que Péricles Cavalcanti parafraseia Um abraço no Bonfá, de João Gilberto (que já parafraseava O barbinha branca, de Luis Bonfá), no estilo anguloso do pianista do jazz. Também do baú é a brejeira A Luna e a Lena, composta para o primeiro espetáculo teatral do grupo Asdrúbal trouxe o Trombone, A farra da terra, de 1982. Da mesma peça é a estranha Heavy metal, na qual o papel pesado é feito pelo metal do trompete e não pela habitual guitarra.

Este tipo de deslocamento ocorre ainda em canções com denominações específicas, como Rebolero, que beira a atonalidade, Bossa nova (de letra em inglês) e Blues, já gravada por Caetano no disco Outras palavras. Péricles numerou com um 3 sua Medo de amar, considerando as composições anteriores com esse título, de Vinicius de Moraes e Beto Guedes (na verdade, a de Guedes é O medo de amar é o medo de ser livre; e quem escreveu o Medo de amar 2 foram Sueli Costa e o parceiro Tite de Lemos). Será o amor?, por sua vez, é uma curiosa ''tradução-paródia-adaptação'' da canção At long last love, do americano Cole Porter. E Dançando, feita sob encomenda de Adriana Calcanhotto e dedicada a Jorge Ben Jor, sumariza o jeito Péricles Cavalcanti de compor: ''Dançando certo, dançando louco/ dançando contra a corrente''. Mesmo quando confecciona uma pérola pop, Péricles não sai da contramão.