Fino humor
Por Teresa Albuquerque
CORREIO BRAZILIENSE, Caderno C - 01/06/2007.
Péricles Cavalcanti é o rei da Cultura... AM. Uma rádio de São Paulo que só toca música brasileira, inclusive as dele. Difícil é conseguir sintonizá-la. Mas os amigos sempre comentam quando escutam alguma canção dele na emissora e o compositor, bem-humorado que é, resolveu fazer graça com a situação. Escreveu uma letra para duas vozes (a segunda, sarcástica, tira sarro da primeira) e batizou-a de O rei da cultura. É a faixa que dá nome a seu quinto disco, produção independente que gravou quase todo no próprio estúdio, com tempo inclusive para brincar.
Se o ouvinte ainda não ligou o nome à canção, é questão de tempo. Péricles de vez em quando aparece até na FM, na voz de algum cantor mais famoso. Adriana Calcanhotto gravou oito músicas dele. Seu nome também está nos créditos de quatro discos de Arnaldo Antunes. Dele, Gal Costa canta Clariô e Negro amor (versão que fez com Caetano Veloso para It_s all over now, Baby Blue, de Bob Dylan), no álbum Caras e bocas. É autor de Blues, que Caetano incluiu em Outras palavras, e Elegia (com Augusto de Campos), em Cinema transcendental. E compôs Eu queria ser Cássia Eller, cantada por ela em Veneno vivo.
Gal foi a primeira a gravá-lo, em dois discos de 1974 (Quem nasceu, faixa do ao vivo Temporada de verão, e O céu e o som, do LP Cantar). Nessa época, Péricles havia largado o curso de filosofia na Universidade de São Paulo, viajado com passagem só de ida para a França, virado hippie, morado em Londres e convivido com Gil e Caetano durante o exílio (deles). E aprendido que o mais interessante era eliminar a fronteira entre as ditas "alta cultura" e "baixa cultura".
"Fui adolescente na década de 1960, quando toda a cultura pop - Bob Dylan, Beatles, os tropicalistas - não dava muita importância a essas diferenças", ele diz. "É uma coisa que mantenho e adoro, não ter essa rigidez, usar elementos de uma na outra, o que torna as coisas as mais ricas. A divisão só empobrece."
Erudito e popular, experimental e divertido, o compositor vai do rock ao samba em O rei da cultura. Em O galope do guitarrista apaixonado, derrete-se por uma "linda guitarrinha" que vai ser sua, custe o que custar. Em Samba do eterno retorno, brinca com Nietzche. Em Mae West - Levada da breca, faz graça com a atriz e sua máxima ("Eu sou boa quando sou boa/ Mas quando sou má... eu sou ótima") e dedica a faixa à cantora Linda Batista. Monkmania - We all play folk fala de Thelonius Monk, o pianista norte-americano que ele adora. Em Posseidon, a referência é a Odisséia, de Homero.
Preferências: Perguntaram a Stravinsky, a mais experimental, tem uma parte verdadeira e outra falsa. A primeira cita entrevista em que o compositor russo é questionado sobre suas preferências, entre Picasso e Matisse, Dostoiévski e Tolstói (ele ficaria com Picasso e Dostoiévski). A segunda, Péricles inventou, inserindo na pergunta os nomes de Leonardo da Vinci e Marc Chagall. "Gosto da pintura onírica, do surrealismo de Chagall, que é russo como Stravinsky e da mesma geração dele", comenta. "O que me chamou a atenção naquela entrevista é que temos preferências mesmo. Não gosto da idéia de que tudo contribui indiscriminadamente, de que tudo vale igual na obra de um artista."
Das 17 faixas, 14 são inéditas. As outras três tinham sido gravadas, mas por outras vozes. Eva e eu, por Arnaldo Antunes; Sou sua, por Adriana Calcanhotto; e Quem parte quem fica, pelo grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone.
Péricles considera este seu melhor disco. "Além de tocar e produzir, pude fazer algumas coisas que tinha apenas ensaiado nos outros", diz. No anterior, Blues 55, gravou algumas músicas no próprio estúdio, em São Paulo. Agora, fez o mesmo com 16 - a exceção é a faixa-título, produzida pelo guitarrista Pedro Sá, no Rio, com Domenico Lancelotti na percussão eletrônica. Outro dessa turma carioca, Rodrigo Amarante, ficou responsável pela capa do álbum e participou da incidental É pra sambar. "Gosto muito do que eles fazem. Temos algo em comum no approach, no tratamento da canção", afirma, referindo-se à banda Los Hermanos e ao projeto +2, de Moreno Veloso, Kassin e Domenico.
Pedro Sá também toca em O galope do guitarrista apaixonado, música feita de trás para frente. "Comecei com uma base, a última coisa que entrou foi a letra", conta Péricles. Ele costuma compor música e letra juntas, no violão. Mas nesse disco (assim como em 55), como tinha tempo para experimentar o que quisesse no estúdio, algumas canções nasceram assim. Foi o caso de Perguntaram a Stravinsky. "Primeiro, fiz a parte rítmica. Depois, a harmonia, a melodia e, por fim, a letra."
Não, ele não se sente na contramão. Prefere andar por uma "avenida larga, com várias pistas e sentidos". Aos 60 anos, Péricles Cavalcanti interessa-se por novos sons e tecnologias, assim como os filhos de 20 e poucos anos - um deles, Léo Cavalcanti, faz parte da banda. Diz que puxou à mãe, que adorava descobrir um cantor novo. "Não sou nem um pouco saudosista", garante. "Gosto da tradição e isso aparece nas coisas que faço. Mas não fico pensando que o mundo é chato, que a música ficou ruim. Não mesmo. Sempre tem gente fazendo coisas bacanas. Isso não acaba." |