Péricles
Cavalcanti - Blues 55
por Marcelo Sanches
www.entrecantos.com
Péricles
Cavalcanti é uma espécie
de jóia rara, um tesouro escondido
neste vasto terreno repleto de preciosidades
esquecidas e desconhecidas que é
a MPB. Há muitos anos ele conduz
sua carreira totalmente às margens
da grande mídia e da indústria
do disco. E isso apesar de ser amigo e
inspirador de muita gente graúda,
como os tropicalistas e outras estrelas
igualmente reluzentes. Com os primeiros,
o compositor conviveu nos tempos de exílio
em Londres, dividindo casa, poesia e violão.
Péricles já teve suas canções
gravadas por Caetano Veloso, Adriana Calcanhoto,
Lulu Santos, a saudosa Cássia Eller,
Gal Costa e Arnaldo Antunes, entre outros.
Mas talvez por opção e fidelidade
aos seus princípios, jamais vendeu
a alma para o diabo. Suas canções
são inspiradas na bossa nova, no
rock e por vezes, no reggae e no blues.
Suas letras são ricas em conteúdos
filosóficos (não por acaso:
ele estudou filosofia) e seus achados
poéticos são surpreendentes
e criativos: "Você não
tem medo de mim/Você não
tem medo de mim/Você tem medo é
de você/Você tem medo é
de querer…." (Medo de Amar).
Com
esse Blues 55, seu quinto CD, ele volta
a nos oferecer uma variedade de canções
e arranjos sutilmente construídos
em sua maior parte pelo próprio
Péricles, que utilizou sintetizadores,
violão, contrabaixo e percussões,
tudo muito bem distribuído em uma
medida exata, fazendo com que o som do
disco não peque pelos excessos
da eletrônica e nem pela repetição
de timbres acústicos ligados ao
samba ou à bossa, por exemplo.
É uma musica universal criada dentro
de um espaço docemente elaborado
dentro de limites definidos pela brasilidade,
porém rico em referências.
Uma equação que somente
um músico de sentidos apurados
e de muito bom gosto consegue fazer. Cavalcanti
divide esse equilíbrio entre ritmos
e melodia, entre a harmonia complexa e
a simples -assim como seu jeito de tocar
violão- e também com a valorização
das palavras como escadas para sua musicalidade;
seus trocadilhos são primorosos
e musicais, mesmo que de uma canção
estivessem desvinculados ("a Luna
e a Lena/ um par de irmãs em cena/por
amarem tanto /tantas coisas em comum/a
Luna é feminina/a Lena me fascina/pelas
noites claras em que faço amor
e poesia", em "Luna e Lena").
Há
uma canção que fora inspirada
em um tema de Cole Porter, no entanto,
que nos deixa sem fôlego desde o
princípio, pois é ela que
abre o disco, repleta de analogias: "Será
uma flor, terá jardim?/será
quintal, terá capim?/fará
calor, será verão?/ou muito
frio noutra estação?/será
canção de Ari Barroso?/ou
um refrão burro e meloso?/será
um ator rindo de mim?/será que
o amor chegou enfim?/será que o
amor chegou…/será o sol sempre
a luzir?/ou um planeta a refletir?/será
poesia, inspiração?/ou pieguice
de ocasião?" ("Será
o Amor?"). Um disco, enfim, indispensável
para quem continua acreditando na imponência
da música brasileira naquilo que
mais lhe caracteriza: criatividade, renovação
e habilidade em traduzir as sutilezas
de uma cultura singular, mas aberta ao
mundo e aos sentimentos mais humanos e
naturais com antenas afiadas como a de
Péricles Cavalcanti e sua poesia
aguda e ilimitada.