Péricles
Cavalcanti faz dois em um
por Lauro Lisboa Garcia, “O
Estado de S. Paulo”, 28/07/2004
Péricles
Cavalcanti é um daqueles compositores
da geração dos tropicalistas
que têm parcelas de influencia da
bossa de João Donato. “Todo
mundo que é formado na bossa nova
tem de reverenciar esse grande músico,
que é diferente de tudo o que se
conhece. Suas músicas são
tão simples, fáceis e ao
mesmo tempo tão lindas”,
diz o compositor. Em 1991, Péricles
chegou a fazer com Arnaldo Antunes uma
letra para “Amazonas”, de
Donato, que vai cantar com ele no show
de sexta. "Nem sabia que ela já
tinha letra, feita pelo irmão de
Donato, que gravou com Nara Leão.
Ele adorou a nossa, chegou a cantar no
palco, mas a abandonamos.”
Um dos pontos comuns entre Péricles
e Donato, além da voz pequena,
porém expressiva, é o apreço
pela fórmula em que menos vale
mais. Péricles acaba de lançar
um álbum que reúne dois
projetos complementares, Blues?55. Blues,
predominantemente acústico, gravado
ao vivo em estúdio e com um mínimo
de instrumentação, remete
a seus álbuns iniciais, Canções
(1991), e Sobre as Ondas (1995). 0 outro
é mais experimental e acentuado
pelo uso de recursos eletrônicos.
"Na música brasileira em geral
reina um certo conformismo em relação
aos arranjos. Não curto essa coisa
comportada, sem risco”, avalia o
compositor que expressa admiração
pela dupla americana White Stripes. “É
a vitalidade do rock'n'roll, atitude transformada
em música. Não importa se
a menina não é tão
boa baterista. Isso resulta em algo diferente,
interessante.”
É a mesma atitude que Péricles
assume no formato do(s) novo(s) disco(s).
Se Blues, para ele, é num certo
sentido uma retomada estética,
parte do repertório também
vem da busca de novas soluções
para idéias antigas. Ele recria
com rigor a faixa-título, lançada
por seu compadre Caetano Veloso nos anos
70, e duas belas canções
— “Medo de Amar n.°3”
e “Dançando” —
gravadas antes por Adriana Calcanhotto,
sua intérprete mais assídua.
Outras duas, “A Luna e a Lena”
e “Heavy Metal”, são
da trilha da peça A Farra da Terra,
que o grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone
encenou em 1982. Em 55, ressurge “Eros
Motor”, que abria o disco anterior,
Baião Metafísico (1999).
É curioso contrapor as duas partes
distintas do disco, já que a primeira
procura recriar o clima sonoro de antes
do advento do estéreo; e a segunda
é toda contemporânea. O número
55 é relativo à idade dele
quando registrou o disco em 2002, mas
pode ser o tempo que distancia a sonoridade
de um projeto da de outro. Ambas as partes
dialogam. A canção “Blues”
não é o que o título
supõe, mas “Never Say Never”,
de 55, é um blues de verdade. Em
“Laurin Hill/BrigitteBardot”,
além das letras inusitadas, é
admirável sua concepção
moderna da bossa nova. Como “Maria
Chuteira” (de Blues), “Vitamina
de Samba” é um primor. São
muitos detalhes e nenhuma concessão
ao fácil.