Péricles Cavalcanti
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Folha da Manhã, MG - Quarta-feira, 1 de Setembro de 2004.

Compositor faz experimentos em novo CD
por ENIO MODESTO

O compositor, instrumentista e cantor carioca Péricles Cavalcanti lança o quinto CD de sua carreira, "Blues * 55", no próximo dia 24 em São Paulo. O estranho título, na verdade, são dois, batizando duas obras diferentes, mas impressas em apenas um disco. Autor gravado por diversos artistas - entre eles Gal Costa, Caetano Veloso e Adriana Calcanhotto -, Péricles está na estrada desde os anos 70 e nessa recente volta aos estúdios para um trabalho próprio não abriu mão da experimentação musical.
Gravado em 2002 e finalizado neste ano, o álbum será lançado oficialmente no Sesc Pompéia, em São Paulo, num show com banda completa e a participação de Max de Castro, um dos mais elogiados artistas da MPB atual. Antes disso, o "Blues * 55" foi apresentado ao público em três pockets shows, todos na capital paulista, em julho.
São 23 títulos, em gêneros como samba, choro, blues e bossa nova, marcando as influências recebidas pelo artista, desde que ele começou a aprender violão, aos 12 anos. O disco foi gravado em 2002, com o "Blues" registrado ao vivo, em estúdio, durante três dias. A realização do "55" - uma referência à idade do cantor na época - consumiu vários meses de trabalho, em que o artista exercitou seu gosto pela música eletrônica, experimentou recursos de estúdio e tocou a maioria dos instrumentos.
O formato do "Blues" é basicamente acústico, com a utilização de violões e guitarras acústicas, executados por Péricles, teclados (Lincoln Antônio), flugel horn e trompete (Cláudio Faria). "Parti de um repertório com cerca de trinta canções até chegar em treze, fazendo pequenas correções durante as mixagens", conta Péricles, através de sua assessoria.
Apesar da variação de formato das composições, arranjos e produção dos discos, o apreciador de música popular brasileira, e até internacional, irá perceber inúmeras referências nesses trabalhos do carioca. Do compositor norte-americano Cole Porter, cuja influência está mais que presente, mas traduzida, parodiada, adaptada - conforme o próprio Péricles conta no encarte do CD - em "Será o amor?", a primeira das 13 faixas de Blues.
O tempo de duração das músicas é pequeno, se comparado com a média do que é produzido no gênero popular. Apenas quatro, das 23 faixas ultrapassam três minutos. As demais ficam em torno dos dois minutos, dando ao álbum um clima intimista, próprio de shows de MPB em recintos para audiência limitada, como os espaços culturais do Sesc (Serviço Social do Comércio), instituição que sempre apóia artistas de alto nível, mas nem tão populares.
As influências que Péricles Cavalcanti cultivou desde criança, quando os pais, baianos, ouviam cantores e cantoras dos anos 40, como Orlando Silva, Dalva de Oliveira e Nelson Gonçalves, permeiam todo o trabalho. Uma dessas marcas está na voz que, em vários momentos, lembra a de João Gilberto, um dos criadores da bossa nova, estilo do samba que também dá nome a uma das faixas do "Blues".
Se o primeiro disco é enxuto em instrumentação, com apenas um violão ou uma guitarra e mais teclados e flugel horn, o segundo traz arranjos mais complexos, com a utilização de efeitos eletrônicos, como a bateria e percussão. Diferente dos cantores de barzinhos e churrascarias, que usam e abusam de equipamentos eletrônicos para suprir a falta de músicos, Péricles lança mão desses recursos, bem programados por gente especializada, como forma de testar linguagens musicais.
Um resultado chocante dessa experiência é a música "Vitamina de samba", que tem programação eletrônica assinada pelo músico sul-africano Papa Fellow. Outra mostra do experimentalismo presente em "55" é dada pelo maestro greco-húngaro Sandòr Kavallis, autor dos arranjos de cordas sintetizadas para "Laurin Hill/Brigitte Bardot", "exemplo extraordinário de compreensão da bossa nova de ontem, de hoje e de sempre", escreve Wolfgang de Oliveira Pabst, publicitário amigo do músico, responsável pelo texto desse disco.

Diversos cantores gravaram Péricles Cavalcanti

Dos tropicalistas Caetano Veloso e Gal Gosta aos cantores da geração dos anos 90, como Adriana Calcanhotto e Cássia Eller, vários foram os intérpretes da MPB a gravarem composições de Péricles Cavalcanti. Antes do lançamento oficial do quinto álbum, "Blues * 55", ele fez algumas pequenas apresentações, em julho, para divulgar o novo trabalho.
Um das recentes aparições de Péricles foi no show comemorativo dos 70 anos de João Donato, músico e compositor original da bossa nova. O primeiro CD do instrumentista, compositor e cantor foi lançado em 1991, sob o título de "Canções", apesar dele estar na estrada desde 1970.
Naquela época, Péricles estreiou como músico profissional, gravando como violonista e vocalista de apoio para Gilberto Gil, que fazia a trilha do filme "Copacabana mon amour", de Júlio Bressane.
Antes de trabalhar com música, Péricles Cavalcanti estudava filosofia, convivia com os tropicalistas e, mais tarde, tornou-se hippie. Suas composições tem conquistado boa parte dos mais expoentes cantores brasileiros. Adriana Calcanhotto é a cantora que mais gravou suas canções. No recém lançado disco infantil "Adriana Partimpim" a sua participação foi com a composição "Ser de sagitário".
A Cor do Som ("Toda vez", parceria com o baixista Dadi), Arnaldo Antunes ("Quase Tudo", autoria dos dois), Cássia Eller ("Eu queria ser Cássia Eller"), Caetano Veloso ("Uns"), Gal Costa ("Clariô") e mais: Engenheiros do Hawai, Lulu Santos, Simone, Tetê Espíndola e outros, também têm discos com músicas de Péricles Cavalcanti.
Além das melodias e harmonias, as letras criadas pelo compositor são merecedoras de elogios, conforme o fizeram, em 1991, o professor de gramática portuguesa Pasquale Cipro Neto e Caetano Veloso. No release sobre "Baião metafísico" (2000), o professor lembrou das palavras do compositor baiano para "Canções", estréia do artista em discos: "Péricles marca uma brutal correção na música popular de hoje e eu me sinto muito influenciado desde que o ouvi pela primeira vez".
Os outros álbuns de Péricles Cavalcanti são "Mil e uma" (1996) e "Sobre as ondas" (1995). Ele participou também do projeto especial " A Farra da Terra - Asdrubal Trouxe o Trombone" (1983), que foi produzido por Caetano Veloso e contava com Regina Casé e Luiz Fernando Guimarães no elenco. (EM)