Péricles Cavalcanti
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Um compositor original
Péricles Cavalcanti - set. 1996
Publicado no jornal Folha de S. Paulo, com o título “Turbilhão sonoro”.

Vou comentar aqui um dos aspectos mais interessantes da obra cinematográfica de Jean Luc Godard: suas trilhas sonoras.

Haveria muito o que dizer sobre aquelas dos primeiros filmes, que contavam com partituras especialmente escritas por Michel Legrand, para Une femme est une femme (Uma mulher é uma mulher), de l962, e por Georges Delerue, as cordas maravilhosas para Le Mépris (O Desprezo), de l965, ou ainda, podiam até incluir uma canção-rock dos Rolling Stones, como em One plus One (l + l), de l968. Mas quero me concentrar nas trilhas realizadas a partir de Je vous salue Marie (Ave Maria), de l985, para mim, ao mesmo tempo mais ambiciosas, mais complexas e mais experimentais.

Numa entrevista recente, já nos anos noventa, concedida a um estupefato Wim Wenders, Godard revelou que costuma utilizar para mixar os sons de seus filmes, uma mesa com 24 canais, tal a quantidade de informação proveniente de origens diferentes que entra na composição total da trilha.

Essas “fontes de som” podem genericamente ser divididas em: a) sons colhidos na escuta da natureza – água, vento, cantos de pássaros, etc.; b) sons dos diálogos ou dos objetos que fazem parte da cena, incluindo aparelhos de rádio, televisão e toca-discos; c) sons de textos pré-gravados; d) sons estritamente "musicais", que podem ser de Mozart, John Cage ou Leonard Cohen, entre muitos outros.

É importante observar que a combinação entre os muitos elementos e planos acústicos que cada fonte propicia se dá na montagem, de acordo com a necessidade de cada imagem ou sequência, ou inversamente, como em qualquer outro filme, mas nunca, como em Godard, com tamanha complexidade e invenção. Assim é que uma fuga de Bach, o murmúrio de um riacho e uma locução radiofônica podem soar concomitantemente sobre uma cena bucólica ou suburbana. Uma campainha de telefone pode, alto e insistentemente, assombrar o silêncio de uma paisagem gelada, como em J.L.G. – J.L..G. – Autoportrait de Décembre (J.L.G. por J.L.G. – Auto-retrato de Inverno), ou o grito esganiçado de uma arara, estremecer um ambiente clássico ou moderno, como em qualquer um desses filmes realizados por ele a partir de meados dos anos oitenta. E tudo sempre em função de um conjunto verdadeiramente sinfônico.

Vale citar, como exemplo brilhante e diametralmente oposto de trilha musical, aquela de um filme realizado em 1966 por Jean-Marie Straub, diretor que faz parte de uma espécie de nouvelle alemã: “Crônica de Anna Magdalena Bach”, baseado no apaixonado e apaixonante livro, do mesmo nome, escrito pela segunda mulher de J. S. Bach.

Neste filme, os plano em que um ator-músico aparece caracterizado como o grande compositor executando uma peça, em lugares e em órgãos de igrejas onde este de fato tocou, têm a duração exata da execução “retratada”. E poucas vezes, num filme, planos com câmera e lentes estáticas deram origem à sequências tão complexas e empolgantes, como que dando total “visibilidade’ à grandeza da música de Bach.
Mas voltemos a Godard, que também admira Straub.

No plano filosófico, fundamental na concepção deste cineasta-artista, é como se a oposição entre natureza e cultura – idéia tão cara aos franceses – fosse, a todo momento, afirmada, negada, diluída, realçada, ultrapassada, relembrada, extrapolada e, por fim, transfigurada na composição de um universo íntegro, coerente e original.

Nessa medida, é exemplar, um vídeo realizado por Godard, em l988, para a televisão francesa, chamado Puissance de la parole (sem título em português), cujo tema é, digamos, o poder de comunicação da palavra falada. Nele, no entanto, o personagem central é a Terra, o Mundo, a Criação. Aí encontramos gorjeios estridentes, águas e ventanias, telefones e buzinas, histórias de amores incompreendidos, ruídos sugerindo propagação de ondas eletro-magnéticas, textos extraídos de literaturas de muitas épocas, sons clássicos, modernos ou simplesmente pop, soando sucessiva ou simultaneamente, em grupos pequenos e grandes, compondo um turbilhão sonoro arrebatador, sobre imagens da supervisão-audição-transmissão de satélites de comunicação.

Desde Nouvelle Vague, e principalmente neste lindíssimo JLG por JLG, Godard vem expondo seus sempre renovados métodos de trabalho de forma cada vez mais clara e didática. E é, há algum tempo, evidente para mim, que já o homenageei integrando o som cru de um grito simulado de arara no final de uma das faixas do meu disco Canções, de l99l, que este cineasta singular é também um dos maiores compositores – no sentido mais amplo de um organizador de sons – do nosso tempo, tal a sempre surpreendente riqueza, originalidade e força pulsante das trilhas que cria para os seus filmes.
E para concluir: como é linda, na sua simplicidade, estranheza e profundidade, a música utilizada na sequência final deste esclarecedor e brilhante Auto-retrato de Inverno!