Péricles Cavalcanti
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Jornal Hoje em Dia, Belo Horizonte, MG, 27/07/2004

Péricles Cavalcanti lança CD "Blues 55"
por Jáder Rezende

O compositor, cantor e instrumentista Péricles Cavalcanti, 55 anos, lança seu 5º disco de carreira, com sabor de dose dupla, pelo selo Deledela (distribuição Tratore). Gravado entre 2002 e 2003, “Blues 55" traz dois discos diferentes e inéditos em um só CD do artista carioca-paulistano. O primeiro, “Blues", foi gravado ao vivo em apenas três dias, com formato predominantemente acústico e conta com a participação de Lincoln Antonio, nos teclados, e de Cláudio Faria, no trompete. O segundo “55", teve gestação mais prolongada e sugere um trabalho mais experimental, caracterizado por batidas eletrônicas e recursos de estúdio. No repertório, músicas conhecidas de seu fiel público, como “Medo de amar nº 3", “A Luna e a Lena", “Blues", “Heavy Metal" e “Brigitte Bardot".
“Blues 55" traz, ao todo, 23 faixas assinadas por Péricles Cavalcanti, exceto “Tudo Sendo Lindo", composta por seu filho, Leo Cavalcanti, e “O Cantor de Jazz", de Fábio Magalhães e Paulo Oliveira. Abre o disco a faixa “Será o Amor?", definida pelo artista como uma espécie de tradução-paródia-adaptação da canção “At Long Last Love", do lendário Cole Porter. “Evidentemente, com outra melodia, outras imagens e uma estrutura um pouco diferente, mesmo fazendo referência explícita à analogia que a letra de Cole realiza entre os valores reais ou ilusórios, e o amor", explica. A canção foi incluída no documentário sobre o cineasta Rogério Sganzerla, de Joel Pizzini e Paloma Rocha.
O disco prossegue com a faixa “Tudo Sendo Lindo", do filho Leo, e “Medo de Amar nº 3", “encomendada" por Adriana Calcanhotto, hoje, uma de suas principais intérpretes. Péricles Cavalcanti lembra que a canção surgiu de um desabafo da amiga. “Um dia, Adriana me telefonou, indignada, com o fato de os Rolling Stones não haverem autorizado a gravação que ela tencionava fazer de uma canção deles, para a qual eu fiz uma versão para o português. Também me pediu outra canção, de desagravo, assim, eu e ela desabafaríamos em uma resposta poético-musical. Concordei pronta e absolutamente, e compus Medo de Amar nº 3, que tem esse numeral agregado ao nome por já existirem, antes, que eu saiba, duas outras canções homônimas, uma de Vinicius de Moraes e outra de Beto Guedes", revela.
A quarta faixa, “A Luna e a Lena", é para reascender a memória dos que viveram intensamente a década de 80. A canção foi composta, a pedido da atriz Regina Casé, para o primeiro espetáculo musical do saudoso grupo Asdrubal Trouxe o Trombone, “A Farra da Terra", cuja trilha virou um disco com o mesmo nome. Péricles Cavalcanti lembra que ao compor a canção procurou imitar os arranjos que embalavam o maravilhoso canto de Orlando Silva, “o cantor das multidões", no final dos anos 30.
Outra curiosidade que agora vem à tona para o público refere-se à faixa “Maria Chuteira", a quinta do CD. Péricles Cavalcanti revela que pensou, a princípio, compor uma canção sobre futebol, em que a personagem principal fosse a bola e o narrador descrevesse os movimentos dela, reservando aos jogadores o papel de meros coadjuvantes. “Depois, percebi que poderia ser uma boa metáfora, tanto para o movimento de jovens casamenteiras em torno de jogadores de futebol, como também, da própria procura do amor e do casamento."
O disco prossegue com as faixas “Bossa Nova", composta em 2001, e “Um Abraço no Thelonious", referência explícita ao compositor de jazz Thelonious Monk. “Esta composição-homenagem é a mais antiga no repertório deste disco. Foi feita por volta de 1974 pensando em Um Abraço no Bonfá, de João Gilberto. Trata-se de um choro no qual tento me aproximar do inconfundível estilo anguloso do grande Monk", justifica.
Na seqüência, vem a faixa “O Cantor de Jazz", pinçada do repertório do grupo baiano Dr. Cascadura, e “Heavy Metal", outra feita para o musical “A Farra da Terra". Na seqüencia, a instrumental “Rebolero", marcada pelo trompete de Cláudio Faria, e a transcendental “Blues", composta no início dos anos 80 e que ficou conhecida na voz de Caetano Veloso, que a gravou no disco “Outras Palavras", com participação de Péricles ao violão.

“Nossa Bagdá" é das mais contagiantes do caldeirão de blues

“No disco, Blues aparece numa versão mais africana, e tanto me agradou que pensei em chamar todo o CD de Blues, já que este gênero musical e o estado de espírito a ele correspondente estão presentes em vários momentos", diz, acentuando que a lembrança de um comentário de sua mãe sobre o caráter “bluesy" de suas primeiras composições, além da opinião favorável de filha, Nina, foram decisivas para que o Blues emplacasse na capa do CD.
A primeira parte de “Blues 55" é finalizada com as canções “Dançando" - outra encomenda de Calcanhotto, para o CD “Marítimo", e que Péricles Cavalcanti dedica, em seu disco, a Jorge Benjor -, e “Rock Stars", dedicada aos jovens casais apaixonados. “Em Blues 55 procurei me aproximar do clima dos discos anteriores ao advento do estéreo e dos múltiplos canais. Parti de um repertório com aproximadamente 30 canções até chegar a essas 13'.
55 é o “lado B" do novo CD de Péricles Cavalcanti. Aqui, ele também lança mão de composições antigas e que fizeram parte de “A Farra da Terra". Mas as batidas eletrônicas nada têm a ver com o “bate-estaca" abominado por ouvidos mais refinados. Ao contrário, deixa fluir seu lado erudito-experimental-contemporâneo e inventivo. São dez faixas a mais, todas impecáveis, com destaque para “Laurin Hill", “Vitamina de Samba" e “Nossa Bagdá", além da instrumentais “Ivesswing" e “Ivesswing Plus", inspiradas em texto do compositor americano Charles Ives sobre harmonias paralelas. A última, é dedicada a Augusto de Campos.
Ainda mais contemporânea, “Nossa Bagdá", dedicada aos Novos Baianos, é uma das mais contagiantes desse caldeirão de blues. A canção fala da Bagdá de hoje ('Quando na noite as sirenes/Começam a tocar/Antecipando as mil bombas/Que vão despencar') e de outrora ('Dos ataques de outros tempos/Sobre a nossa Bagdá/Que porém não conseguiram destruí-la/Nem riscá-la do mapa').