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Imagens
em Concerto
Péricles Cavalcanti
outubro de l998
Os
quatro curtas-metragens de Carlos
Adriano podem se inserir na classificação
mais geral de "experimentais",
pelo que apresentam de diferente,
de inusitado, de original. Pela
concepção obsessiva
e detalhista, enfim, pelo gosto
tão particular.
Mas isso não diz quase
nada sobre eles, na medida em
que não diz, por exemplo,
com que conhecimento de causa
estritamente cinematográfica
eles foram realizados, desde os
roteiros, passando pela filmagem,
até a montagem, nem da
concepção do que
seja música em cinema,
que eles apresentam.
“Suspens” é
um filme sobre cinema, cheio de
citações de filmes
policiais, sugerindo também
lindas novas imagens, com uma
trilha sonora tão ampla
— que vai de Bach a Noel
Rosa —, quanto eficiente.
Tanto se utilizando de outras
trilhas conhecidas — de
Bernard Hermann para Hichtcock,
por exemplo — como sugerindo
novas, perfeitamente funcionais
— incluindo músicas
de John Cage e Luciano Berio,
por exemplo.
“A luz das palavras”
propõe poemas ready-made
visuais a partir de anúncios
luminosos em neon, como cine-clipes
para a música de Debussy
e Ravel e, principalmente, para
momentos inspiradíssimos
do jazz de Paul Desmond e Dave
Brubeck, criando um interessante
clima de filme noir, paradoxalmente
colorido e sem trama aparente.
“Remanescências”,
feito a partir de uma única
imagem, presumidamente parte da
primeira filmagem realizada aqui
no Brasil, tal como a primeira
parte do samba de Tom Jobim e
Nilton Mendonça, uma das
peças utilizadas na trilha
sonora, faz um passeio de uma
nota só por acordes diferentes
— aqui visuais, em preto
e branco e diversas tonalidades
de cor —, apresentando,
uma vez mais, uma complexa integração
visual e sonora. Quebras e requebros
rítmicos, acentuações
surpreendentes, positivo e negativo,
tudo visando e alcançando
uma superação das
"fronteiras" entre o
abstrato e o concreto, o real
e o imaginário, a ficção
e o documentário.
Carlos Adriano é um cineasta
com um apurado gosto e um conhecimento
musical diversificado, tanto erudito
como popular, os quais ele utiliza
com extrema precisão e
funcionalidade nas trilhas que
realiza para os seus filmes.
Não é à toa
que o seu próximo projeto
é um filme que tem como
tema central o grande mestre-compositor
Koellreuter, e também não
é à toa que o seu
mais recente curta-metragem —
“A voz e o vazio”
— é uma interessantíssima
biografia do lendário cantor
de samba Vassourinha, morto precocemente
em 1942. Feito praticamente só
a partir de fotos de arquivo e
notícias de jornais da
época, narrado apenas pelas
doze gravações originais
do artista, este filme conserva
as mesmas qualidades e originalidades,
na montagem e na edição
de som, dos outros três
filmes que compõem essa
programação.
Resta dizer que estes quatro ensaios
audiovisuais são, além
de tudo o mais, uma rica e estimulante
reflexão sobre as relações
entre música e imagem cinematográfica.
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