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Quando
o Jazz não jaz
Péricles Cavalcanti
- novembro de 1996
Publicado no Jornal da Tarde.
"A
música que nós
(jazzistas) fazemos é
basicamente o Blues"
– assim falou Dizzy
Guillespie durante um show
no Rio de Janeiro em 1976.
Mas ele sabia, e todos nós
sabemos que o jazz, como forma
musical, foi muito além
das suas origens, incorporando
elementos de outras músicas,
populares ou não, e
que a sua principal característica
é o improviso, seja
do cantor ou do instrumentista.
Muitos já afirmaram
que esta arte, ao mesmo tempo
tão individual e coletiva,
teve seu apogeu no movimento
chamado “Free-Jazz”,
lá pelo final dos anos
cinqüenta e começo
dos sessenta, época
dominada pelo gênio
de John Coltrane e que mesmo
as maravilhosas fusões
com o Rock, o Funk ou o Rap
realizadas sob a direção
ou inspiração
de Miles Daves, nas décadas
posteriores, apenas confirmariam
esse fato, na justa medida
em que ele veio de bem antes,
desde o Be-bop, e tenha participado
desse momento brilhante de
invenção. Eu,
fã incondicional de
Thelonious Monk, excepcional
instrumentista e também
o maior compositor que o jazz
já produziu, por algum
tempo, compartilhei essa impressão.
Com Betty Carter foi diferente.
No início dos anos
sessenta, ela era ainda uma
jovem cantora, quando realizou
um belo, e não caracteristicamente
jazzístico, disco de
standards da canção
americana, ao lado de outro
gênio, o cantor-instrumentista
de formação
jazzista e inspiração
bluseira, Ray Charles (“Ray
Charles e Betty Carter”,
Movieplay-1961)
Agora ela reaparece, fulgurantemente,
ao lado dos talentosíssimos
Jack Dejohnette (bateria),
Dave Holland (baixo) e Geri
Allen (piano), num show e
depois disco, não sem
motivo, chamado "Feed
the Fire" (Verve-1994).
Com uma formação
instrumental e com uma intenção
de interpretação
vocal, tipicamente jazzísticas,
no sentido fundamental de
manter os improvisos a partir
de temas conhecidos ou não,
com palavras ou não,
fluindo por todos os componentes
do conjunto, o quarteto alimenta
o fogo a que o título
do álbum se refere.
O Jazz se inventa de novo.
Sem algum tipo de estranheza,
não há música
original. E, quando a isso
se associa intuição,
conhecimento e técnica
musicais, aí, então,
acontece grande música.
Este é o caso do jazz
de Betty Carter e seus “cúmplices”.
Nada é banal, usual,
chato ou com pouca imaginação,
mesmo na interpretação
de velhas canções
como “Lover man”,
“Sometimes I’m
happy”, “Day dream”
ou “All or nothing at
all”. Pelo contrário,
até quando os temas
melódicos com letra
são introduzidos, surgem
modificações
estruturais e de sonoridade,
com distensões, encurtamentos
e deslocamentos no compasso
e na harmonia, de notas ou
de grupos de notas (técnica
que João Gilberto e
outros grandes interpretes
de Jazz também utilizam),
e inflexões vocais
surpreendentes que precedem,
sucedem ou sustentam as notas,
provocando uma espécie
de efeito prestidigitador
na audição,
a ponto de fazer com que não
reconheçamos imediatamente
a canção. A
melodia tradicional está
lá, mas como que tomada
por um espírito alienígena.
Claro que, a partir daí,
os solos instrumentais e os
“verdadeiros”
improvisos que virão
já estarão “contaminados”,
e as conversas musicais que
passamos a escutar são
alguns dos mais surpreendentes
e originais exemplos do velho,
e, ao mesmo tempo, novo jazz
contemporâneo. No palco,
os movimentos que Betty Carter
realiza com os braços
e a cabeça enquanto
interpreta, parecem descrever
também estranhamente
aquelas frases, como que reforçando,
no plano gestual, a especificidade
daquela “mensagem”.
E assim, uma voz, o piano,
o baixo e a bateria, soam,
juntos ou separadamente, como
se fosse pela primeira vez,
agora. E ainda trazem consigo
a aspereza, as sinuosidades,
a necessidade, a manha, o
sentimento, a novidade e a
beleza do básico Blues.
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