Péricles Cavalcanti
Home Biografia Discografia Multimidia textos Agenda Contato   English
 
 


















Palavras Potentes
Péricles Cavalcanti
Publicado no “Jornal da Tarde” - Outubro de 1996


Groucho Marx disse, certa vez, que toda vez que escutarmos a palavra amor numa letra de canção devemos saber que significa sexo.

É claro que o genial escritor-comediante estava se referindo à grande tradição de musicais da Broadway, a fase de ouro da canção americana de que faziam parte o seu amigo Irving Berlin, Cole Porter, os Gershwing, Richard Rodgers, Jerome Kern, além de muitos outros. Faço questão de ressaltar isso para que não nos esqueçamos de que existem outras tradições como, por exemplo, a do Blues, ou a de nossa própria música popular, em que a presença do “amor elevado”, nas letras, desde sempre conviveu com alguma “sacanagem” ou linguagem mais realista, fato de que devemos muito nos orgulhar.

John Lennon e Paul Macartney, quando começaram a compor, no final dos anos cinqüenta, ambicionavam ser autores de canções como aquelas dos musicais, e serem tão populares como seus autores, e até gravados pelo grande Frank Sinatra. Nem seria preciso dizer que, em muitos sentidos, esses desejos se realizaram, embora de uma maneira própria, em dimensões muito maiores, provocando transformações na produção musical mundial a partir dos anos sessenta.

De qualquer maneira, com algumas exceções como Why don't we do it in the road” ou algumas letras de John Lennon na sua carreira solo com Yoko Ono, a frase de Groucho ainda se aplica à maioria das canções dos Beatles. Não nos esqueçamos, também, que eles foram inspiradores do movimento “Flower power” e de seu principal slogan: “Paz e Amor”.

Com os Rollling Stones – Mick Jagger e Keith Richards –, além da conservação de um certo lirismo, pode-se dizer que houve uma disposição real para subverter a linguagem moral-metafísica da canção pop, dizendo explicitamente e, no entanto ainda poeticamente, o que é em geral apenas subentendido. Unindo desta forma a tradição lírica branca com aquela mais direta, confessional, vitalista dos cantos e danças negros, honrando, assim, a piada profética do Marx humorista, e realizando amplamente um projeto que, na verdade, está nas origens do Rock and Roll, desde os anos cinquenta, e do qual já existem rudimentos na música de Little Richards e, especialmente, na do “poeta do rock”, Chuck Berry.

O certo é que as canções-rock dos Stones, muitas vezes subestimadas ou minimizadas quando comparadas às dos Beatles, são lindíssimas e originais, principalmente aquelas que fazem parte dos três grandes discos que eles realizaram no final dos anos sessenta e começo dos setenta: Beggar's banquet (l968), Let it bleed (l969) e Sticky fingers (l971).

Algumas delas foram regravadas e incluídas neste excelente “Stripped” (Virgin-1995) que, talvez por atenção à qualidade do material selecionado, traz um encarte com as letras, fato raro num álbum deste grupo. Deste disco faz parte Let it bleed, canção que ilustra perfeitamente o que foi dito acima e que define o tipo de atitude estética que os Stones passaram a ter depois da morte de Brian Jones e, também, sua relação com a música dos seus “rivais”, na exata medida em que foi escrita como uma resposta a Let it be, começando pela substituição do verbo ser por sangrar, no título.

Enquanto a voz de Paul pregava a necessidade de atenção às palavras sábias sussurradas pela virgem Maria (“mother Mary”) nas horas de “confusão” e “escuridão” nesta bela canção de amor místico, Mick esganiçava alegremente que “todos precisamos de alguém onde recostar, com quem sonhar, para nos alimentar, para sangrar sobre e para esporrar sobre” (traduzido mais ou menos literalmente). Paganismo contra alienação religiosa, “take my arms, take my legs, but babe, don't you take my head”. Nietzsche adoraria.

“Stripped” traz ainda uma nova gravação de Dead Flowers outro exemplo maravilhoso do espírito satânico-carnavalesco da dupla Jagger e Richards: “se você mandar flores mortas para o meu casamento, eu não me esquecerei de colocar rosas no seu túmulo”. Traz também Love in vain, esta canção-blues arquetípica de autoria de Robert Johnson, a quem os Stones insistem em não dar o devido crédito nas contracapas dos discos nos quais a incluem, e Street fighting man, composta no calor das revoltas estudantis de 1968, que, no refrão, rima “man” com “band”.

São muitas as canções deste período ou mesmo de antes ou depois que, além de originais e sorridentemente provocantes nos assuntos que abordam, são extremamente bem escritas, num inglês fluente, coloquial, rico de vocabulário e muita esperteza poética. Como Let's spend the night togheter, Brown sugar ou Stray cat blues que diz:

“but your mama don't know you bite like that,
bet your mama don't know you scratch my back”.

Ou em Live with me (para a qual fiz uma versão em 1974), e que descreve num tom surreal e sempre bem humorado um cotidiano familiar atípico, bem ao gosto dos “sixties”.

“se você quiser, tem um lugar entre os meus lençóis.
se você quiser, pode ficar, será um prazer pra nós”.

É evidente que a vitalidade e longevidade dos Rolling Stones não se deve apenas à capacidade física de seus integrantes, especialmente de Mick Jagger, ou à sua vontade e disposição de continuar trabalhando. O que todos podemos ouvir e ver no seus discos e vídeos ou pudemos constatar durante as apresentações do grupo aqui no Brasil é, antes, o contrário: a afirmação da necessidade e prevalência de uma forma estética forte, que não se acaba e ainda não disse tudo porque não quer dizer tudo, porque o que está aí, está o tempo todo significando, como diria Jean-Paul Sartre, o grande filósofo libertário deste século.

Não é à toa que a arte dos Rolling Stones é chamada de dionisíaca. Como a do deus, a paixão deles é o tempo, sua dança é no Tempo. Não é, também, sem razão que a canção que mais os identifica é Satisfaction (com letra e música do refrão escritas por Keith Richards).

“I can't get no satisfaction,
but I try and I try and I try...