Péricles Cavalcanti
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Que rei sou eu?
por Hagamenon Brito - Correio da Bahia – Discomania – 13/06/2007

Péricles Cavalcanti reitera criatividade e faz auto-ironia

Compositor carioca há muito radicado em São Paulo, Péricles Cavalcanti, 59, várias vezes ouviu pessoas dizerem que escutaram suas canções na Cultura AM, uma rádio que só toca música brasileira. Infelizmente, a emissora da capital paulista, além de ser AM e não FM, possui um sinal muito precário.

Aliando isso ao seu nome de nobre origem grega, Péricles decidiu ironizar a situação e batizou o novo CD de O rei da cultura, editado pelo selo DeleDela sob o patrocínio da Petrobras. — Jamais faria uma canção e um CD com esse nome se não fosse auto-irônico. Seria cara-de-pau, diz, por telefone.

O álbum reitera a sua inventividade em compor de modo lúdico, criando temas originais que parecem atualizar algumas das lições dos tropicalistas. A associação com o movimento liderado pelos baianos é vista numa boa por Péricles, até por questões familiares, já que sua mãe, Adalgiza, nasceu na Bahia.

— Acho normal, mesmo porque, em 1965, ao chegarem em São Paulo, Gilberto Gil e Caetano Veloso freqüentaram a minha casa. Eles eram amigos de um primo meu, Luís Tenório Oliveira Lima (hoje psicanalista famoso), que na época era líder estudantil em Salvador e havia vindo passar um tempo lá em casa. Eu era adolescente, mas ficava muito ligado em tudo —.

Péricles também conviveu com Gil e Caetano no exílio dos dois em Londres. Na volta ao país, começou a compor profissionalmente exatamente em Salvador. A primeira canção, Quem nasceu?, foi gravada por Gal Costa no LP Temporada de Verão (1973), registrado ao vivo no Teatro Vila Velha. — Na verdade, comecei a compor porque me apaixonei por uma baiana —, lembra.

Nas décadas de 80 e 90, Péricles Cavalcanti consolidou a carreira de compositor, expandiu a área de colaboração musical para o cinema, teatro e televisão, e teve suas canções gravadas por Adriana Calcanhotto, Caetano, Arnaldo Antunes, Lulu Santos, Cássia Eller e Jussara Silveira, entre outros.

O rei da cultura é o quinto álbum dessa trajetória e une cultura pop e experimentalismo com muita engenhosidade. O artista considera o trabalho — uma expansão natural dos conceitos, experiências com composições e modos de produção musical — iniciadas no álbum anterior, Blues 55, editado em 2004.

Diferentemente dos antigos temas do autor, as canções inéditas (14 dentre 17) nasceram a partir das levadas rítmicas, mesmo método usado no hip hop; e o modo de produção, caseiro e eletrônico com o uso do computador, aproxima Péricles da geração de Kassin, Moreno Veloso e Pedro Sá, entre outros.

Não por acaso, Pedro Sá toca guitarra em O galope do guitarrista apaixonado (nascido sob a — influência de White city fighting, de Pete Townshend) e na faixa-título, que também tem Domenico na percussão eletrônica; Moreno assina o release; e Rodrigo Amarante (Los Hermanos), a capa e o projeto gráfico, além de participar de Samba do eterno retorno.

Entre as três releituras, destaca-se a deliciosa Quem parte quem fica. Lançada originalmente no disco com a trilha da peça A farra da terra, do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, produzido por Caetano Veloso em 1983, a música ganhou acento rock_n_roll com a guitarra luxuosa de Edgard Scandurra, do Ira!