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Na
trilha de Péricles Cavalcanti
parte
1
entrevista realizada pelo
cineasta Carlos Adriano, publicada
na Revista eletrônica “Trópico”,
em outubro de 2004
—
Por que lançar dois discos
diferentes (“Blues”
e “55”) ao mesmo tempo
e em um só CD?
Péricles
Cavalcanti: Depois de
“Blues”, que foi gravado
em três dias no estúdio
Bebop, a partir de um show que
eu vinha fazendo com o Lincoln
Antônio e o Claudio Faria
(disco que em princípio
tinha mais de 20 faixas), e antes
que tivesse acertado como e quando
lançá-lo, eu comecei
a montar o meu próprio
estúdio e a fazer outras
gravações numa direção
bem diferente daquelas.
Então
eu pensei que, se vivemos numa
época de “crise”
da indústria fonográfica,
porque não tomar a palavra
crise no seu sentido positivo,
como momento de mudanças
que podem ser enriquecedoras,
e experimentar um novo formato
e lançar dois discos ou
produções diferentes
e inéditas, num mesmo CD.
Pensando assim, eu encurtei o
tempo dos dois, para que tivessem
uma duração que
coubesse num só disco,
sem ficar longo demais, e chamei-o
de “Blues 55”.
— Queria que você
comentasse mais essa questão
da “crise” na indústria
fonográfica. Qual o diagnóstico?
Que respostas os músicos
poderiam dar à situação?
Péricles:
Acho que a chamada crise na indústria
fonográfica não
é só devido à
pirataria, mas também e,
principalmente, à proliferação
dos meios e das facilidades (por
causa dos preços relativamente
baixos) para gravações
e, enfim, para a produção
de discos. O mundo digital, com
seus equipamentos pequenos, leves
e adaptáveis a computadores
domésticos e altamente
eficientes, democratizou a produção
e até a distribuição
de material gravado, de qualidade
ou não.
Uma
pessoa aqui em São Paulo
pode trabalhar em conjunto, trocando
informação digital
com outra que more em Berlim através
de correio eletrônico, como
eu fiz no “55”. E
essas trocas são feitas
numa quantidade e velocidade enormes
e isso acaba gerando alguma qualidade,
criando novas originalidades.
É
por aí que os músicos
podem também dar suas respostas
e indicar novas saídas
até para a crise econômica
no mundo do disco. Em 1992 eu
compus uma canção
chamada “Mapa-múndi”,
que está no álbum
“Sobre as ondas” (1995),
que diz: “eu tô aqui,
eu tô na África /
tô em São Paulo,
tô em Pequim / o mundo é
uma grande praça / feita
p'ra mim”.
— Como você
pensa o trabalho de diálogo
e intervenção no
“passado” da música,
muito presente em seus novos CDS,
seja nos gêneros re-ouvidos
ou re-imaginados, seja na alusão
a compositores e cantores?
Péricles:
Desde o meu primeiro álbum,
“Canções”
(1991), que eu trabalho tendo
gêneros e até outros
artistas como tema das minhas
composições, utilizando
assim elementos metalingüísticos
-as faixas “Sem drama”,
“Dos prazeres, das canções”
ou “Farol da Jamaica”,
são bons exemplos disso.
Acredito
que tanto o “formato”
canção moderna quanto
os principais gêneros de
música popular de massa
mundial, como o blues e o samba,
tenham se consolidado na primeira
metade do século XX. Isso
torna a época posterior
a isso naturalmente propícia
a trabalhos com aspectos metalingüísticos.
É só pensar na Bossa
Nova e especificamente no que
faz João Gilberto com o
samba, ou no que os Beatles fizeram
com o rhythm 'n' blues.
No
“Blues 55”, eu continuo
trabalhando da mesma forma. A
primeira faixa retoma a inspiração
da canção de Cole
Porter, mantendo seus parâmetros
estéticos, para parodiá-la,
comentá-la e adaptá-la
introduzindo outros elementos,
brasileiros, do mesmo nível,
como as canções
de Ari Barroso e os filmes de
Rogério Sganzerla.
— Os discos também
dialogam com um repertório
que corre além ou à
margem da música popular,
não?
Péricles:
Há referências mais
explícitas ao jazz , como
no citado “Rebolero”
e na composição-homenagem
a Thelonious Monk, “Um abraço
no Thelonious”, que se refere
indiretamente ao João Gilberto,
já que me inspirei no seu
"Um abraço no Bonfá”
para fazê-la.
Além
disso, há no “55”
uma aproximação
maior com a música experimental
erudita, sempre trazendo-a para
o campo de referências da
música popular, através
dos dois exercícios feitos
a partir de um texto de Charles
Ives, “Ivesswing (vinil)”
e “Ivesswing plus (cd)”.
Nestas,
eu inverti o meu processo de composição
habitual, partindo de duas construções
formais abstratas, tendo como
base (em cada uma delas) duas
seqüências harmônicas
paralelas: uma em dó maior
e outra em fá maior, para,
em seguida, ir acrescentando sons
percussivos e, por último,
linhas melódicas. “Ivesswing
plus (cd)” é uma
das minhas faixas preferidas do
disco e acho que ela resultou
numa das minhas melhores composições.
Deve-se
considerar também, nessa
aproximação, a importância
da participação,
no “55”, do Sandòr
Kavallis que, embora acostumado
a trabalhar com música
pop, tem formação
erudita. Gosto muito da direção
e das dicas que ele deu no arranjo
de “Laurin Hill-Brigitte
Bardot”.
— A tradição
da nossa música ainda é
algo por ser valorizado? Há
movimentos nesse sentido na música
que hoje toca no rádio
ou na que não toca?
Péricles:
Quando uma tradição
é forte, como a nossa,
ou a cubana, ou a norte-americana,
naturalmente, cada nova geração
volta, de alguma maneira, a se
alimentar nela.
Se
a música que a gente faz
hoje é boa, é porque,
no passado, ela já era
boa ou melhor até. Meus
filhos que têm entre 20
e 25 anos, desde que se tornaram
adolescentes passaram a se interessar
fortemente pelos antigos.
Zeca
Pagodinho é o melhor exemplo
disso. Desde o começo de
sua carreira, no final dos anos
80, ele mescla em seus discos
novos sambas com outros compostos
nos anos 30 e 40. Este grande
artista sabe que esta “água
para a sua sede” vem de
um rio que nasce lá atrás.
— Você também
“usa” a música
como uma versão de crítica.
Como foi a história de
“Medo de amar nº 3”,
que é um “desagravo”,
mas também dialoga com
outras duas canções
brasileiras?
Péricles:
Adriana Calcanhotto me pediu para
fazer uma versão de “(has)
anybody seen my baby” dos
Rolling Stones para que ela gravasse
no seu disco “Público”,
mas os autores e a editora da
música não autorizaram
a gravação, mesmo
com a gravadora dela se empenhando
para isso.
Adriana
ficou furiosa com isso e me pediu
que fizesse uma outra canção
que servisse de desabafo para
ela e para mim. Foi assim que
nasceu “Medo de amar nº
3” que, na verdade, é
uma canção de amor
narrada por uma primeira pessoa
que, de acusada na primeira parte,
passa a acusadora amorosa na segunda;
porque afinal eu e ela amamos
os Rolling Stones.
O
nome é uma homenagem à
canção de Vinícius
de Moraes “Medo de amar”
e tem o numeral 3 agregado porque
já havia uma outra homenagem
anterior chamada “Medo de
amar nº 2”, de autoria
de Suely Costa e Tite de Lemos
— No disco “Blues”
há um chorinho chamado
“Um abraço no Thelonious”,
que você considera “o
maior compositor que o jazz já
produziu”. Essa faixa composta
em 1974 dialoga com “Um
abraço no Bonfá”
de João Gilberto, como
você disse. Queria que você
falasse da importância da
bossa nova, que fundiu samba e
jazz, para as novas gerações
do país e do mundo, como
influência e fonte de novas
abordagens musicais.
Péricles:
A raiz do jazz é o blues,
e Thelonious Monk é um
dos pontos mais altos da sofisticação
de ambos os “gêneros”.
O choro é um gênero
musical riquíssimo que
tem em comum com o jazz o fato
de ser música feita por
instrumentistas, em geral virtuoses,
e de ter o improviso como elemento
fundamental.
A
raiz da bossa nova é o
samba, e João Gilberto,
como cantor e instrumentista,
é o ponto mais alto da
sofisticação de
ambos os “gêneros”.
Não é por acaso
que a bossa nova através,
principalmente, das canções
de Tom Jobim e do canto, do violão
e dos improvisos estruturais de
João, faz parte também
da história do jazz. “Um
abraço no Thelonious”
é uma espécie de
síntese deste “silogismo”
histórico-musical. Acho
que isso explica em parte porque
ela está neste disco.
— Por que demorou
tanto para gravá-la?
Péricles:
Nunca a gravei porque ainda não
tinha feito um álbum com
essa temática geral e onde
coubesse um solo instrumental
de violão. Em todos os
meus discos o repertório
acaba se formando entre faixas
que de alguma forma se relacionam,
no tempo ou no “espaço”
do conceito geral.
— E qual a relação
com a canção “Bossa
nova”?
Péricles:
De um modo parecido, “Bossa
nova” foi composta em inglês,
pensando no significado que as
letras e que o gênero “bossa
nova” adquiriram no contexto
do jazz e do pop internacional.
Depois, ela foi arranjada e incluída
no disco, pensando na influência
genérica da música
eletrônica de pista sobre
a produção musical
brasileira contemporânea
e, especificamente, em trabalhos
de alguns artistas como Bebel
Gilberto, Fernanda Porto e Bossa
Cuca Nova.
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