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Tropicalismo,
reverberações
Péricles Cavalcanti
- abril de 2000
para o site tropicalismo
do Itaú Cultural
No
meu disco “Baião
Metafísico”
(Trama, 1999) há
uma faixa intitulada “Charles
e Alice”, que pode
ser tomada como um exemplo
da presença da herança
tropicalista, de uma forma
mais ampla, na temática
das composições
e, mais especificamente,
nos arranjos de gravações
de música popular
brasileira, depois dos anos
do movimento (segunda metade
dos sessenta).
A letra dessa canção
comenta poeticamente as
relações do
escritor inglês do
século dezenove Lewis
Carrol — pseudônimo
de Charles Dodgson, autor
de “Alice no País
das Maravilhas”, conhecido
tanto por suas experiências
vanguardistas com a linguagem,
como por seu pioneirismo
em fotografar menininhas
de uma maneira sexy —
com Alice Lidell, personagem
do livro e das fotos.
Em contrapartida, a melodia
e o “ritmo”
da canção
“Charles e Alice”
são de origem bem
popular. Trata-se, na primeira
parte, de um baião,
no qual o arranjo faz uma
referência explícita
ao “Xote das Meninas”,
de Luiz Gonzaga. Na segunda
parte, comparecem na composição
elementos de música
para teatro de revista.
Nesse momento, o arranjo
faz um pastiche de um outro
arranjo de cordas escrito
por George Martin para canção
dos Beatles, o que, por
sua vez, também pode
ser considerado um pastiche
de luxo de partitura erudita.
Bem, essa descrição
de minha gravação
já nos leva ao âmbito
da influência do Tropicalismo
no que diz respeito às
duas características
que quero destacar:
1) Era comum à melhor
música popular internacional,
nos anos sessenta, a tendência
de realizar, num mesmo produto
de massa, a fusão
das culturas consideradas
“high brow”,
isto é, de alto repertório
intelectual e artístico
(em literatura, poesia,
música etc.), com
as culturas mais populares
ou “de massa”,
consideradas “low
brow”, de baixo repertório.
Para entender melhor isso,
é só lembrar
o que John Lennon (que citou
Lewis Carroll em “I'm
the Walrus”) e os
Beatles fizeram, a partir
do disco “Revolver”:
artesanato musical com alta
tecnologia, música
do passado e do futuro,
ao mesmo tempo regional
e urbana, popular e de experimentação.
E isso foi parte fundamental
do projeto tropicalista,
junto com o que Caetano
chama de uma necessidade
de inclusão nacional
de estilos e gostos, vindos
de grupos, etnias e classes
sociais diferentes.
Nesse aspecto, pode-se dizer
que as gravações
recentes de Lenine e, principalmente,
de Chico Science e Nação
Zumbi, com suas misturas
orgânicas de guitarras
com tambores de maracatu,
de “hip hop”
com repente, são,
como já disse o próprio
Gil, a mais perfeita atualização
do sonho sessentista-tropicalista.
Se se quiser encontrar outras
“reverberações”
dessa característica,
a partir do encontro, no
início do movimento,
dos tropicalistas com o
grupo de poetas concretos
— também interessados
nas relações
entre “alto”
e “baixo” repertório
cultural —, é
só pensar em algumas
gravações
dos Titãs ou, mais
recentemente, nos trabalhos
de Arnaldo Antunes e Adriana
Calcanhotto.
Ou ainda, para o quesito
integração
de “culturas”,
basta ouvir os discos de
Carlinhos Brown, Paralamas
do Sucesso, Fernanda Abreu
e Zeca Baleiro, entre muitos
outros.
2)
A outra característica
que se encontra em “Charles
e Alice”, diz respeito
ao arranjo dessa minha gravação,
ou melhor, ao método,
neste caso, simples, de
construir o arranjo.
Para cada parte diferente
da música ou da letra
ou de ambas, há uma
citação, ou
uma mudança no gênero
e estilo musical, ou um
pastiche, ou uma paródia
ou outro tipo de referência,
realizando uma espécie
de “colagem”.
Sabe-se que a “colagem”
foi um dos métodos
preferidos das vanguardas
modernistas de quase todas
as artes, e os arranjadores
do período tropicalista,
especialmente Rogério
Duprat, dela se utilizaram
brilhantemente.
Se se quiser um outro exemplo,
atual, de uso exímio
da “colagem”,
basta ouvir o arranjo que
Ruriá Duprat (sobrinho
de Rogério) escreveu
para a versão de
“You're the top”
(“Você é
o mel”), de Cole Porter,
que Augusto de Campos fez,
e que Tom Zé interpreta
no disco “Cancões,
Versões” (Geléia
Geral, 2000).
Além disso, muitas
vezes, a “colagem”,
a exemplo da minha canção
citada, já está
presente em muitas das próprias
composições
tropicalistas como “Tropicália”,
de Caetano, que é
uma espécie de marcha
lenta, em tom menor na primeira
parte e em tom maior na
segunda, e um baião
em tom maior no refrão.
Ou naquelas com longa narrativa
como “Domingo no Parque”,
de Gil, que parte de uma
“levada” baseada
num toque de berimbau, passa
por uma canção
suave num momento triste,
até tornar-se rock
no final. Ou ainda “São
São Paulo, meu amor”,
de Tom Zé, ou “Dom
Quixote”, dos Mutantes.
Isso sem falar na “colagem”
como método para
escrever letras de canções,
também usado pelos
tropicalistas, mas que remete
a outras questões
e tradições
fora do âmbito deste
comentário.
De qualquer forma, é
preciso que se diga que,
embora se possa ouvir aqui
e ali alguns ecos dos sons
e das idéias do Tropicalismo
e de sua época, os
discos (e livros) que os
seus principais compositores,
Caetano, Gil, Rita Lee e
Tom Zé (e a gravação
dele de “Você
é o mel”, já
citada, é um exemplo
disto) vêm realizando,
estão aí.
Neles se pode rastrear as
suas origens, acompanhar
seus desenvolvimentos e,
por fim, verificar se e
como eles sofreram influências
de outros sons, outras idéias,
outros artistas e outros
tempos, posteriores aos
anos sessenta.
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