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Foto de
Lita Cerqueira© |
Meu
violão de estimação
Péricles Cavalcanti
- maio/96
incluído no site
de Gilberto
Gil
Nenhuma
outra gravação
brasileira com solos de
violão foi, provavelmente,
tão bem sucedida,
do ponto de vista comercial
ou de sua influência
cultural, quanto o 78
rotações
de Dilermano Reis, no
início dos anos
cinqüenta, contendo
“Abismos de Rosas”,
de um lado, e a bela “Sons
de Carrilhões”,
do outro.
Nela, o violão
popular era implicitamente
consagrado com a dignidade
de um instrumento de concerto,
realização
de um sonho que Villa-Lobos
já acalentara com
seus lindos “choros”
com tons propositadamente
populares, escritos especialmente
para esse instrumento
que era antes usado quase
que só amadoristicamente
ou na secção
rítmica de pequenos
conjuntos, desempenhando
na maioria das vezes,
com bastante originalidade
e invenção,
a função
de baixo (mesmo antes
do uso mais intensivo
do violão de sete
cordas).
Foi com João Gilberto,
a partir do final dos
anos cinqüenta que,
naturalmente, o violão
uniu as suas duas vocações,
compartilhadas por seus
irmãos-ancestrais
ibéricos, de instrumento
de solo e de acompanhamento,
em prol de nosso gênero
mais popular, o samba,
tornando-o mais complexo
do ponto de vista conceitual,
harmônico e rítmico,
e colaborando estruturalmente
na criação
da maneira mais musical,
original e sofisticada
de cantar música
popular em português,
e uma das mais belas e
pessoais maneiras de cantar,
em qualquer língua.
Esse acontecimento foi,
ao mesmo tempo, uma “virada”
e um passo adiante no
desenvolvimento desse
instrumento tão
doméstico, e influenciou
(e ainda o faz) de diversas
maneiras a todos nós
que já o tocávamos
ou que passamos a tocá-lo,
transformando-o, naturalmente,
eu insisto, num personagem
principal no nosso “ambiente”
musical profissional,
mesmo quando coadjuvando
cantores e cantoras.
No violão de João,
na mão esquerda,
a harmonia canta plasmaticamente
com a voz. Cada acorde
soa como uma nota, única,
brilhante, firme, tal
a necessidade e integridade
de sua composição,
criando uma verdadeira
sub-melodia, tanto no
sentido de uma outra voz,
quanto de uma sutil melodia
paralela, originada em
um timbre específico,
tão ao gosto dos
impressionistas. Simultaneamente,
a mão direita pulsa
ativamente, dividindo
e sub-dividindo os compassos,
estabelecendo um diálogo
rítmico uno, no
mesmo ou em planos diferentes,
com o vocal a que acompanha
e pelo qual é,
muitas vezes até,
acompanhado.
Junte-se a isso, a adoção
generalizada, nessa mesma
época, das cordas
de nylon, que tem som
menos brilhante que as
de aço, mas permitem
uma execução
mais concisa, com a utilização
dos dedos e unhas livres
de “palhetas”
e “dedeiras”.
Gilberto Gil, um músico
nato e versátil,
começou tocando
tudo no acordeon e passou
para o violão por
causa dessa bossa nova
do João. Primeiro,
reproduzindo as técnicas
inovadoras e a peculiar
“batida” de
samba, e depois adaptando
aquele tudo que ele tocava
antes, e o que mais foi
aparecendo, isto é:
baiões, xotes,
frevos e marchas, samba
antigo, rock, afoxé,
reggae, etc., para o seu
novo instrumento, criando
um estilo rico, único,
de largo espectro, fortemente
influente (entre os seus
principais discípulos
estão João
Bosco, Moraes Moreira,
Djavan, Vicente Barreto
e Chico César),
contribuindo para o desenvolvimento
do uso do violão
dentro e fora de nossa
música popular.
E eu digo de que modo.
Primeiro, com a ampliação
das possibilidades rítmico-percussivas,
utilizando os dedos da
mão direita, com
exceção
do mindinho (usado apenas
por raríssimos
violonistas eruditos),
de forma quase que independente,
criando diferentes linhas
pulsantes, no entanto
complementares, soando
como uma “cozinha”
polifônica complexa
(ouça-se “Expresso
2222”). Vale observar
que Gil é excelente
e original no uso da palheta,
também.
Segundo, com o desatrelamento
da mão esquerda.
Isto é, muitas
vezes, o acorde (uma combinação
conveniente de “vozes”)
torna-se, no seu violão,
quando muito, apenas um
ponto de partida para
a execução,
e as confluências
de notas que se seguem,
passam a depender das
necessidades expressivas
de cada música
em particular. Nesse plano,
tonalidade e atonalidade,
consonância e dissonância,
podem co-existir normalmente
e, conseqüentemente,
provocar uma exploração
maior do braço
do violão e de
sua extensão sonora,
da região mais
grave até o extremo
agudo, incorporando, inclusive,
alguns “modos”
próprios à
viola caipira (ouça-se
“Jurubeba”).
Além de tudo isso,
é notória,
por sua riqueza, a maneira
como Gil escolhe e utiliza
os baixos do violão,
não só nos
seus improvisos, mas nos
arranjos para músicas
de outros autores e, ainda,
no momento de composição
de suas próprias
canções
(ouça-se “Vitrines”
ou a deslumbrante “Esotérico”),
o que o liga àquela
tradicional função
do instrumento de que
falei acima, como seu
continuador, enriquecedor
e inovador. Essas “armações”
são verdadeiras
“peças”,
plenas de imaginação,
surpresa, precisão,
“swing”, clareza
e distinção.
Enfim, de tudo que pode
haver de bom em qualquer
arte.
Diz-se de Gilberto Gil
que ele tem laços
com o estilo barroco.
Com respeito ao caráter
de seu violão,
isso é totalmente
verdadeiro, na medida
em que várias “vozes”
melódico-rítmicas,
de diferentes alturas,
podem cantar simultaneamente
através dele. E
isso é música
pura e, de modo geral,
a “essência”
de qualquer música,
e foi isso, também,
que motivou o desafio
irônico de Debussy:
“Para que harmonia,
se o maior compositor
de todos os tempos, J.
S. Bach, nunca a utilizou?”
De toda maneira, me interessa
aqui, principalmente,
o uso e o desenvolvimento
do violão no âmbito
de nossa própria
música popular,
e a contribuição
e o avanço que
os dois Gilbertos ainda
proporcionam (embora eu
ache que o violão
do Gil devesse estar muito
mais presente nos seus
discos) para a execução
desse instrumento que,
entre nós, já
nasceu com um nome na
sua forma aumentativa,
como que prenunciando
a sua grandeza.
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