Péricles Cavalcanti
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Zelia Duncan
Péricles Cavalcanti (julho de 1994)
Release para o CD de Zélia Duncan

A música pop, a partir dos anos sessenta, devido a sua diversidade característica, possibilitou o aparecimento de grande quantidade de autores ao mesmo tempo intérpretes e instrumentistas. Especialmente mulheres que desenvolveram estilos musicais a partir da sua maneira de cantar.

Digo isso pensando em Joan Baez, Carole King, Joni Mitchel, Carly Simon, Ângela Rorô, Marina Lima e Cássia Eller, entre outras. Zélia Duncan pertence a esse segmento de tradição.

Nesse sentido, uma faixa desse disco como “Um jeito assim”, letra de Zélia para uma música de Paulo André Tavares, em que ela aparece também como violonista (e muito boa), é emblemática do que quero dizer: o canto seguro, encorpado, afinado dizendo uma letra confessional, particular e conduzindo com naturalidade a melodia.

A escolha de uma canção de Joan Armatrading “Am I blue for you”, aliás maravilhosamente bem cantada, e de outra de autoria de Tanita Tikaram, “Cathedral song”, numa versão da própria Zélia com Christian Oyens, também reforçam ainda mais o que eu disse. E isso sem que eu tivesse ainda me referido à regravação de “Lá vou eu” , composição de Rita Lee, ela própria parte dessa linha autora-cantora-instrumentista, e às duas parcerias de Zélia com Lucina que, há muitos anos, faz parte da dupla “hippie” Lulli e Lucina.

Uma dessas duas canções, “Miopia” é umas das minhas faixas preferidas deste disco. Nela aparece a qualidade de Zélia como letrista, além da ótima presença do seu violão. “Miopia” descreve uma cena de despedida, com concisão e humor, em tons surrealistas. E o som da gravação , incluindo técnica , arranjo e execução, é ótimo.

Mas é claro que Zélia não está sozinha nesse disco. Começando por Christiann Oyens que, além de seu parceiro em quase todas as canções, tocou bateria, bandolim e violão na maioria das faixas e arranjou outras tantas. Tudo com excelência, no que foi acompanhado por Guto Graça Mello, que arranjou e produziu algumas faixas, e por outros ótimos instrumentistas e arranjadores como Márcio Miranda, Cidinho Moreira, Carlos Carvalho, Artur Maia, Marcus Teixeira, Nelson Faria, Jorge Helder, Paulo Rafael, Tavinho Fialho, Flávio Guimarães e Carlos Patriolino.

O repertório desse novo disco de Zélia Duncan passeia por aquela já citada diversidade pop, que tanto me agrada, incluindo um balançado reggae, “Nos lençóis do reggae”, e um quase hip-hop, “Tempestade”, com um toque social contundente no final da letra

... e os barracos
na beira do abismo
deslizam no cinismo da Vieira Souto
meus sonhos são outros.

E faço mais um destaque para o excelente arranjo e linda execução feitos para trombone por Victor Santos na canção “Um jeito assim”, a outra minha faixa favorita.

De toda maneira, sempre que a voz forte e bem articulada de Zélia Duncan cantar as palavras que ela escreve ou assinar as que outros escreveram, ainda mais, quando ela se deixar acompanhar por seu violão, estará dizendo: este é “O meu lugar”.