Péricles Cavalcanti
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O som do equilíbrio (ou o equilíbrio do som)...
por Fábio Davidson

Como foi Péricles Cavalcanti no Blen Blen: 11/11/04

Quinta-feira, 11 de novembro de 2004. Os termômetros marcavam por volta de 20º, mas o vento e a fina garoa davam uma sensação de frio. Um bom motivo prá ficar em casa, embaixo do cobertor, certo? Se você respondeu "sim", está completamente enganado, p ois perdeu a oportunidade de assistir uma apresentação memorável do músico Péricles Cavalcanti.

O público presente no Blen Blen Club pôde curtir ao vivo as músicas do último CD de Cavalcanti, Blues*55, que optou por trazer diversas formações de banda e tocou violão e guitarra. Nos teclados e programação eletrônica, Lincoln Antônio, no trompete, Cláudio Faria e, na percussão, o destaque para o filho de Péricles, Léo Cavalcanti, que também canta, toca violão e fez backing vocal, além de ser o compositor da música "Tudo Sendo Lindo".
Aliás, para um show sem "cozinha" instrumental (baixo e bateria), Léo literalmente deu o ritmo do show, para orgulho do pai e alegria do público. Público este que pôde ver e ouvir como um músico (de verdade) consegue utilizar os recursos eletrônicos de forma equilibrada, dando um tempero diferente às composições e, de certa forma, criando novas linguagens musicais.

Uma coisa que chama a atenção nas músicas deste carioca, nascido em 1947, mas que se mudou para São Paulo aos três anos de idade, é a duração das músicas neste trabalho. Todas são curtas, por volta de 2 a 3 minutos, em média. Isso interfere positivamente no clima do show (e do CD). Somado ao ambiente intimista do Blen Blen, na zona sul de São Paulo, dá-se a combinação perfeita.

O repertório do show traz as músicas dos dois discos que formam o pacote "Blues*55", gravado entre 2002 e 2003. A parte "Blues" foi gravada "ao vivo" em estúdio, em apenas três dias e mescla um ar jazzístico, bossa nova e acústico, com poesia e bom humor, além de ser mais enxuta instrumentalmente. Já a segunda parte, o "55" (referência à idade de Péricles quando gravou disco em 2002), é essencialmente experimental, com o uso de efeitos eletrônicos e arranjos mais elaborados, influência da parceria com o maestro greco-húngaro Sandòr Kavallis.

No CD, merece destaque a música "Vitamina de Samba", que contou com o "tempero" do sul-africano Papa Fellow na programação eletrônica. Aliás, foi essa música que deu um tom diferente ao show do dia 11 de novembro no Blen Blen, como Péricles mesmo falou para o EntreCantos, depois do show. Tudo aconteceu de improviso, quando, após o "bis", a platéia não queria que acabasse a apresentação e o músico optou por repetir "Vitamina" de uma forma inusitada. A música tem quatro refrões de sambas, portanto com letras diferentes, que são cantadas uma após a outra e vão se sobrepondo, ficando, ao final, simultâneas. A platéia, então, foi dividida em quatro grupos e participou do espetáculo, em uma interatividade que cativou a todos, que formaram um grande "coral", dando uma nova nuance para a "vitamina" batida pelo mestre Cavalcanti.

Antes de executar "O Cantor de Jazz", do grupo baiano de rock "Dr. Cascadura", Péricles falou que se identificava com a música: "Acho que tem tudo a ver comigo", afirmou. Eis a letra da música:
"O cantor de jazz” Fábio Magalhães/ Paulo Oliveira
Sempre que ouço essa canção
Lembro de como ele cantava
Porém ele era o cantor de jazz
Eu sequer chego aos seus pés
Olha eu sou quase nada
Lembro de ouvir a platéia aplaudir
Assim que ele terminava
Porém não chego aos seus pés
Pois ele era o cantor de jazz
Sou só mais um na estrada


Foi uma noite fantástica, deste músico e compositor, que já foi “cantado” nas vozes de Caetano Veloso, Gal Gosta, Arnaldo Antunes, Adriana Calcanhoto e Cássia Eller, entre outros. E, ao contrário do que Péricles Cavalcanti pensa de si, ele representa muito para a música popular brasileira, ou seja, é “quase tudo”, e talvez se sinta "só mais um na estrada" pois a estrada da boa música brasileira não admite a massa de produtos fabricados que precisam de marketing, da repetição exaustiva nas FMs e até virar trilha de novela para alavancar a carreira.