Laurent Garnier

o super Dj e produtor francês diz que seus companheiros de pista lutaram muito para consolidar as linhas musicais que hoje formam a música eletrônica. Mas, Indo do house ao drum'n'bass no mesmo set, ele declara que não aceitar as diversidades musicais é não entender nada.

Não me lembro de ter visto no Brasil uma apresentação como a sua ontem no Lov.e, muito variada em estilos. É sempre assim?
Cool... (risos), obrigado, estou tocado. Eu sempre incorporei muita coisa nos meus sets, do house aos breaks. Há quinze anos, era normal misturar hip hop ao funk e ao soul, passando até por Gypsy Kings! Depois, os discos de música eletrônica começaram a chegar, os sets ficaram nessa esfera, e tornou-se um pouco datado tocar Mateo Parker no meio da noite. Ainda assim procuro tocar de tudo dentro da música eletrônica, até drum'n'bass. Lutamos para consolidar nossa linha musical, mas se não aceitarmos que há um todo é porque não entendemos nada.
A especialização é uma tendência que se instalou de uns oito anos para cá. Ah, mas eu nunca me especializei. Isso é coisa da imprensa que tem mania de ficar rotulando tudo para poder definir depois e enquadrar em seus playlists. Lançam nomes até não poder mais! Quem está na pista quer saber se a música é boa ou não. Sabe, em tudo quanto é lugar nós realmente brigamos para que a nossa música fosse aceita. Lutamos para tocar em festivais de jazz, de rock.

E qual foi a aceitação?
Hoje em dia estamos em todo lugar. Toquei em um live em Montreux há cinco anos, Sven (Vath, produtor e DJ alemão) tocou há seis. Toquei no Nancy Jazz também, nos EuRockéennes, na Route du Rock. Cheguei a substituir os Guns'n'Roses na Bélgica. Eles cancelaram uma apresentação num festival para 70 mil pessoas. Funcionou bem. Experimentação e ecletismo só fazem bem. Se não aceitam, é porque não entenderam. Gosto de pontuar as apresentações durante a noite, é muito legal. Há uma citação na Internet atribuída ao você que diz assim - "proponha um set de oito horas para a maioria dos DJs de hoje e eles se borram". Verdadeira! Eu venho de uma geração em que era normal tocar a noite toda, em que se misturava tudo, em que havia os clubs de rock. Eu mesmo toquei por anos em clubes de rock. Enquanto na pista superior tocava new wave e afins, na de baixo se ia dos anos 60 aos 80, para tocar bandas como The Cure, e depois retornar aos anos 60. Mais tarde, os DJs se tornaram estrelas e ocuparam os lugares dos residentes de noite inteira, passaram a tocar sempre os mesmos discos por 1h30 sem nunca variar, pegar seu dinheiro e ir embora...

Isso não seria resultado de falta de cultura musical?
Com certeza. De qualquer forma, na medida em que se diminuiu o tempo de discotecagem, reduziu-se também o leque de discos a serem tocados, impossibilitando as ousadias e experimentações. Imagine que ontem (no Lov.e) eu demorei duas horas para chegar ao drum'n'bass, depois toquei Nirvana e demorou mais de 1h para que eu descesse o tom e tocasse hip hop. Isso não dá pra fazer em 1h30 de set. Você também não pode fazer o que der na telha. Não dá pra dizer: 'foda-se, eu vou tocar o que der na telha'. Há o line-up e a restrição do horário.

por Alain Patrick



















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