Cinema Digital   

O HDTV e a fotografia de cinema
'Xuxa e os Duendes": a opção digital viabiliza as filmagens em menos tempo

Fotografar o longa-metragem “Era uma Vez” (Arturo Uranga), em 1991, foi um grande desafio em virtude da enorme quantidade de efeitos visuais. Qualquer efeito tinha que ser feito durante a filmagem ou, posteriormente, em truca ótica. Ainda não tínhamos disponível, no Brasil, a finalização digital nem o transfer (passagem de vídeo para película). O filme levou um ano para ser concluído, devido ao processo artesanal em que os efeitos eram produzidos.

Anos mais tarde, fotografei os documentários: “O Sonho de Rose”, de Tetê Moraes e “Senta a Pua!”, de Erik de Castro. O primeiro foi captado em beta-analógico, finalizado em digital e kinescopado em arrilaser para 35mm. Na cópia, as cores sofreram alteração, principalmente o vermelho. As altas luzes perderam definição e cor. “Senta a Pua!” foi captado em 16mm, finalizado em digital e kinescopado para 35mm. O resultado final da cópia foi bem superior a de “O Sonho de Rose”. A definição da imagem ficou bem melhor e as cores ficaram mais equilibradas, mas o problema nas altas luzes continuou.

Outro problema comum quando se faz o transfer é a flicagem que surge nos movimentos de câmera, devido à passagem de 29.97 quadros (vídeo) para 24 quadros do cinema. Também é difícil igualar um trecho kinescopado, ao negativo original, principalmente se ele estiver no meio de uma sequência. Foi o que aconteceu quando fotografei “No Coração dos Deuses”, de Geraldo Moraes. Havia uma sequência em que uma espada virava uma bola de luz. O trecho foi telecinado para se fazer o efeito em digital. Ao ser transferido para negativo, o trecho não se igualou ao negativo original.

Em 2001, fui convidado para fotografar “Duendes” (“Xuxa e os Duendes”). O roteiro apresentava uma quantidade de efeitos visuais impossível de ser executada no tempo previsto. Achei que a única maneira de ganhar tempo seria fazer o filme em digital. Procurei a Panavision do Brasil (Motion) com o interesse de conhecer o equipamento HDTV – DVW 900 24P com lentes Panavision, que o George Lucas estava utilizando no filme “Star Wars – A Ameaça Fantasma”.

Em Los Angeles, testei o equipamento. Nos primeiros testes já dava para perceber que o processo HD e as lentes Panavision resolveriam os problemas de definição, distorção de cores e flicagem (da passagem de vídeo para cinema). A câmera HD possui um CCD equivalente a 2/3 de um fotograma 35mm, por isso, os efeitos de campo focal e dos filtros não são iguais aos produzidos pelo negativo 35mm. As lentes Panavision primodigitais são infinitamente superiores às lentes Canon e Fujinon que, a meu ver, produzem imagem de TV e não de cinema. Mas, devido ao CCD da câmera HD ser menor, os planos focais ficam menos definidos do que no filme 35mm.

Cezar Moraes realizou vários teste em HD



O visor da câmera HD é em P&B, por isso todo o acompanhamento da filmagem é feito por um monitor, que por ser grande e de difícil locomoção está sempre distante do que está sendo filmado. A latitude também é menor do que a do negativo e a definicão nas baixas luzes é muito boa. Nas altas, a perda é enorme. Não é possível alterar a velocidade da câmera – este efeito só pode ser feito na pós-producão, com um pouco de perda na qualidade da imagem.

A projeção do filme produzido em HD perde brilho e definição na tela do cinema, a não ser que esta projeção seja feita numa sala de projeção HD. Apesar destas limitações, o processo é fantástico pela rapidez de finalização e produção de efeitos especiais. Procurei o Marcelo Siqueira da TeleImage para saber se era viável fazer os efeitos visuais e a finalização do filme “Duendes” aqui no Brasil. Ele me deu todo o suporte para a realização do filme.

O Lutz da Panavision trouxe duas câmeras HD de Los Angeles especialmente para a filmagem, que foi feita quase toda em estúdio. Com a luz controlada, o rendimento na imagem digital é muito melhor do que em externas.Tínhamos um técnico da Panavision de plantão no set, regulando as câmeras e os monitores.

Em seis semanas, o filme estava praticamente pronto e montado. Só faltava finalizar alguns efeitos visuais e mixar o som. Além de baratear o custo da produção, a velocidade de realização do filme em HD é muito grande, o que viabiliza um número cada vez maior de produções de filmes de ficção e documentários. Acho também que vai ser muito utilizado nos filmes publicitários. Em poucos anos teremos várias salas de cinema com projeção digital. No Rio, já temos a primeira da América do Sul. Acredito que este novo suporte para o cinema não vai substituir o filme negativo, pelo menos por enquanto, mas vai aumentar o número de produções, gerando mais trabalho para os profissionais de cinema.