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O cinema de animação,
que ficou fora da retomada do cinema nacional, prepara-se
para lançar o primeiro filme de longa-metragem,
mas já existem cinco projetos procurando investidor
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Waldeci Ribas, 20 anos fazendo
um filme |
Reza a lenda que o cinema brasileiro da
chamada retomada é o lugar da pluralidade. Segundo
crenças, a produção que se estende
de "Carlota Joaquina" até os dias cosméticos
de hoje é uma espécie de grande Pangéia
onde há espaço para tudo, desde que falado
em português e caracterizado em cores de verde e
amarelo. Mas, se há realmente a democracia, porque
quase ninguém se lembra de achar um quinhão
de terra, ainda que pequenino, para a animação
nesse latifúndio em formação e eterna
superação que é a arte cinematográfica
nacional? Por que a reclamação? Ora, quantos
longas-metragens animados podemos enumerar nesse intervalo
de tempo em que o Brasil voltou a aquecer as caldeiras
de seu cinema e botar filmes na rua? Nenhum. Os últimos
dois longas foram "Cassiopéia", de Clóvis
Vieira, um épico espacial em terceira dimensão
lançado há quase sete anos, e "O Grilo
Feliz", de Walbercy Camargo, uma encantadora viagem
pela gramática das fábulas infantis, que
estreou em 2001, mas levou 20 anos em produção.
Houve, entretanto, muita produção de curta-metragem,
incluindo da Turma da Mônica, que ganhou até
um espaço nobre na programação da
Rede Globo, entre um enlatado e outro. Os profissionais
brasileiros, que são bons, vivem na publicidade,
onde existe um mercado mínimo em funcionamento.
Grandes estúdios de finalização brasileiros,
como Mega e Casablanca, possuem núcleos de animação
e equipamentos de última geração
preparados para produzir tão bem quanto os estúdios
americanos e europeus. "Primeiro foi a vez da ficção
e depois do documentário, agora está chegando
a nosssa vez, a dos animadores", afirma Sérgio
Martinelli, ex-produtor executivo dos estúdios
Maurício de Souza, onde esteve por quatro anos
e agora prepara duas grandes séries animadas para
a televisão e um filme de longa-metragem. "O
Brasil tem muita história, mas ainda falta profissionais
para uma produção maior. Se fôssemos
fazer quatro filmes ao mesmo tempo não conseguiríamos",
conclui Sérgio, que tem uma ONG, Centro Cultural
de Animação, que há dois anos realiza
cursos para formação de mão-de-obra
qualificada em São Paulo.
"A gente tem de fazer sacrifícios em nome
da animação no Brasil. Ainda mais porque
muita gente aqui dentro sequer sabe que há pessoas
investindo em desenhos com cara brasileira", lamenta
Walbercy, que acaba de terminar o roteiro de "O Grilo
Feliz 2". Sua queixa é fruto de todos os problemas,
dores de cabeça e atrasos que levou para fazer
"O Grilo Feliz", que entre contratempos profissionais
e pessoais consumiu realmente 20 anos de trabalho e espera.
"Não levou esse tempo todo na prática.
Ele ficou muito tempo parado", confessa. Mas por
amor a sua animada vocação, Walbercy teima
em tentar manter seu terreiro em festa. Tem inclusive
um outro projeto, envolvendo uma espécie de musical,
um longa envolvendo heavy metal e rock‘n’roll.
E ele não é o único cheio de idéias
para bons produtos.
Este ano um filme de animação vai para
as telas, "Wood & Stock", do gaúcho
Otto Guerra, baseado nos personagens de Angeli, e mais
cinco longas estão com roteiros em captação
de recursos, "Tainá 2", de Pedro Rovai,
"Uma Aventura no Tempo" e "Horácio",
dos estúdios Maurício de Souza; "Cabral",
de Naildo de Brito e "Anabel, o Filme", de Lancast
Motta. "A produção de uma animação
é mais complexa que a de um filme normal, e por
isso demora muito para se concretizar. Os projetos que
estão no mercado nos últimos anos só
agora vão aparecer" esclarece Martinelli.
O primeiro longa da retomada
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Personagens de Angeli ganham
vida e chegam à telona ainda este ano |
Otto Guerra, que já dedicou 27 de seus 46 anos
de vida em favor dos desenhos, está vencendo as
dificuldades técnicas e financeiras para levar
às telas "Wood & Stock", um projeto
que nasceu há cerca de cinco anos e já está
nos preparativos finais para o arremate e o lançamento
comercial, que deve acontecer em junho. Otto conta que
o incentivo oferecido pelos mecanismos de captação
do Ministério da Cultura a partir do prêmio
para filmes de baixo orçamento deu uma alavancada
em sua realização. "Essa história
de baixo orçamento nos garantiu o aval para tirar
‘Wood & Stock’ do papel. Mas ainda falta
captar uma parte da verba. Só conseguimos 70% até
agora", conta Otto.
Mesmo assim, no peito e raça, driblando uma conta
aqui, uma despesa acolá, ele foi tocando o projeto
de ver o melhor da HQ nacional (leia-se Angeli) na tela
grande. O problema é que, mesmo para um profissional
tão tarimbado como ele, autor de obras premiadas
como "O Natal do Burrinho" e "Novela",
fazer e lançar são verbos que estão
em margens opostas dentro da hidrografia que rega o solo
do cinema neste país. Lembre-se que "Rock
& Hudson", versão dele para os caubóis
GLS do também gaúcho Adão Iturrusgarai,
foi realizada em 1994 e até hoje permanece inédita.
"E olha que o filme concorreu a prêmio no Festival
de Gramado e passou em Brasília", lembra Otto,
que não perde seu habitual otimismo na hora de
avaliar o universo de trabalho. "Dizem por aí
que a animação é a prima pobre do
cinema brasileiro. Mas eu não acredito muito nisso.
Acredito em persistência, uma vez que as oportunidades
são iguais para todos", afirma Otto.
Para o animador, não há sequer um preconceito
contra sua seara na hora da briga por captação.
"Falam que os projetos de animação
são tratados sem a mesma relevância que recebe
um longa-metragem com atores de carne e osso, mas eu sempre
fui tratado de uma forma justa".
Mercado em gestação
Outro profissional que também enxerga a animação
no país hoje com entusiasmo é o produtor
Sérgio Martinelli que criou, com o apoio da TV
Cultura, a série "Anabel", dirigida por
Lancast Motta, que narra as peripécias de uma menina
sapeca. Para conferir sua cria, acesse o site www.anabel.com.br.
"A indústria de animação é
uma das melhores apostas que podemos fazer hoje no cinema
brasileiro. Ela pode se transformar numa indústria
estratégica e de grande poder de exportação
como se tornou em vários países do Terceiro
Mundo, como Filipinas, Índia e Vietnã, entre
outros", crê Martinelli, que percorre o mercado
internacional para onde está abrindo caminho para
a venda da série "Anabel", que já
tem pronto 13 episódios de sete minutos cada, seis
deles em película. Outra série de animação
de Martinelli é arrojada: chama-se "Terra
das Letrinhas", com 26 episódios (19 já
estão prontos e até maio todos estarão
concluídos). Tem um conteúdo educacional
e será dirigido às crianças. O longa-metragem
"Anabel" está em andamento, com o roteiro
em finalização.
O otimismo de Otto Guerra é de outra ordem. Ele
se explica em boa parte pelo fato de ele ter sido ao mesmo
tempo testemunha e agente de uma transformação
que impulsionou o boom da animação no gargalo
dos anos 70 e início dos anos 80, acompanhado de
uma dupla de artistas de primeira, José Maia e
Lancast Motta, que juntos dele realizaram os premiados
curtas: "As Cobras – O Filme", "Treiler",
"O Reino Azul" e "Zé Gotinha contra
o Perna-de-Pau".
"Em relação proporcional com o que
se faz de filmes no cinema hoje, o volume da produção
de animações pode ser pequena, mas o cenário
melhorou muito. Basta pensar que, na segunda metade do
século 20, ainda não possuíamos uma
tradição na área. Eu fui pioneiro
na coisa nos anos 70. Isso espanta", lembra Otto.
Histórico tupiniquim
O namoro do Brasil com a animação começou
há mais de 85 anos. Muitos estudiosos entendem
como a pedra fundamental da relação de nosso
cinema com a arte o curta "O Kaiser", de Álvaro
"Seth" Marins, lançado no emblemático
e revolucionário ano de 1917. Depois disso, lá
pelos anos 20, "Macaco Feio, Macaco Bonito"
(1929), de Luiz Seel, teve um papel importante para contagiar
os diretores com o vírus animado.
O longa animado número um, contudo, só
apareceria na década de 50, depois que os olhos
do mundo já estavam cansados de ver Mickey Mouse,
Popeye, Looney Tunes e cia. Foi "Sinfonia Amazônica",
produção feita com tamanho lirismo e entrega
pelo diretor Anélio Lattini Filho que chega a lembrar
a pérola mais valiosa (e incompreendida) de Walt
Disney, "Fantasia". Anélio dedicou cerca
de cinco anos de trabalho para transformar em desenho
animado um pot-pourri de relatos folclóricos da
região Norte, entre elas a lenda da Noite, que
aborda o surgimento dos animais na floresta e a do Urutau,
que narra a formação do rio Amazonas.
Daí para diante, nos anos 60, década em
que o "Submarino Amarelo" introduzia cores psicodélicas
na animação estrangeira, os brasileiros
que sonhavam enveredar pelo caminho da animação
aprontavam das suas deixando as experiências estéticas
correrem fluídas. Foi o caso do escritor Rubens
Francisco Lucchetti, que em 1961 fundou, ao lado do artista
plástico Bassano Vaccarini, um núcleo para
produzir filmes de animação: o Centro Experimental
de Cinema de Ribeirão Preto. Tal centro teve uma
produção pequena e 100% mambembe, utilizando
como matéria-prima para os efeitos especiais produtos
de papelaria – financiados por uma loja de peças
de automóvel da qual Lucchetti era o proprietário
e que faliu graças aos custos dos desenhos.
A dupla chegou a apresentar dois trabalhos interessantes:
"Abstrações" e "Tourbillon".
Contudo, só mesmo nos anos 70, graças à
geração do grupo Fotograma, a animação
nacional deu uma guinada. Essa turma sofreu com as pancadas
de chuva e as trovoadas da ditadura militar, mas conseguiu
impor seu lugar à base da raça e do improviso.
Foi o caso da obra de Pedro Ernesto Stilpen, o Stil, que
criou o antológico curta "Batuque" usando
papel de embrulho e luz natural.
A década de 80 já foi mais feliz graças
a um convênio entre Brasil e Canadá, que
permitiu que alguns profissionais tivessem acesso aos
ensi namentos de tutores canadenses. Dessa parceria, saiu
parte do sêmen que germinou a produtora Anima Mundi,
que desde 1993 vem realizando um dos mais importantes
festivais do mundo na área. No fim de 2002, eles
chegaram a lançar, via distribuidora Trama, um
DVD com o melhor de suas últimas programações.
Na Bahia, Chico Liberato, realizador de sete curtas de
animação, realizou em 1984 o longa animado
"Boi Aruá", obra que precisa ser revista
e mostrada.
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"O Coronel e o Lobisomem",
curta metragem ganhador do anima mundi 2002 |
César Coelho, um dos diretores da mostra, lembra
que ano passado, em sua 10ª edição,
recebeu a inscrição de 180 filmes nacionais,
dos quais 103 foram selecionados. Um deles, "O Lobisomem
e o Coronel", de Elvis Kleber e Ítalo Cajueiro,
escolhido como o melhor da seleção de 2002,
já pode ser considerado um filma para marcar época
por seu jogo metonímico com valores da cultura
popular brasileira. "A melhor animação
é aquela que combina habilidade de contar uma história
com a qualidade formal. A animação brasileira
precisa se guiar por uma valorização do
conteúdo de seus filmes", afirma o premiado
Elvis Kleber.
Para César, que é também animador
e responsável pela criação de vinhetas
para programas de TV, como a abertura da novela "A
Padroeira", da TV Globo, lembra que boa parte do
potencial da indústria de animação
nacional se concentra no meio publicitário. "O
Brasil sempre teve uma animação muito forte.
Sobretudo na publicidade. Mas o espaço nesse meio
é, em geral, para filmes de até 30 segundos",
afirma Coelho. "Entretanto, recentemente, como as
seleções do Anima Mundi vem sinalizando,
a situação dos animadores que pretendem
atuar fora dos comerciais melhora cada vez mais, uma vez
que a animação começa a aparecer
como uma opção acessível para quem
quer fazer cinema. E a computação assume
papel fundamental nesse crescimento".
As vantagens oferecidas pelo meio digital realmente são
atraentes para os animadores. Mas a área em 3D
por aqui ainda não garantiu que novos longas pudessem
ganhar o mercado, conforme lembra Walbercy Camargo. "Veja
quantos longas em computação gráfica
os americanos fizeram de "Toy Story" até
hoje e olha quantos brasileiros foram feitos com a mesma
técnica", diz.
Ora, se há técnica e existe talento, qual
seria o empecilho para o boom de nossa indústria
animada? A politicagem em torno da legislação
de cinema talvez seja uma resposta, segundo César
Coelho. "Os mecanismos da lei da captação
não contemplam a animação, uma vez
que fazer um desenho não obedece a mesma lógica
do que fazer filme com atores de verdade. O tempo para
animar um roteiro é muito maior. Leva quatro anos,
no mínimo. Isso exige uma demanda de tempo e dinheiro",
explica.
Teórico da história da animação,
o designer André Barroso, autor do ótimo
curta "A Vida é Dura!", fecha com a visão
de César Coelho: "Mudanças na lei de
captação de recursos são imprescindíveis,
assim como mudar a cabeça do empresariado. Vejo
uma luz no fim do túnel, com a facilidade que o
computador deu aos profissionais de terem uma ferramenta
a seu alcance para uma produção de baixo
custo, porém de alta qualidade. Portanto, animadores,
uni-vos", brinca.
"Wood & Stock" – Memorial
ao bicho grilo
Nas mãos de um artista cinematográfico
menos competente que Otto Guerra, a realização
de "Wood & Stock, o Filme" talvez pudesse
se esborrachar numa parede de insegurança e de
medo. Afinal, a matéria-prima que inspira o longa-metragem,
cujo lançamento pode acontecer ainda antes do segundo
semestre do ano, envolve uma questão mais profunda
do que ‘filosofices’ de tirinha de jornal.
As aventuras de Wood & Stock podem ser entendidas
como uma espécie de catarse. Memorial bicho grilo
talvez fosse o termo mais indicado. Até porque,
lá pela década de 70, o paulista Arnaldo
Angeli Filho compartilhava do ideal Norman Brown de compreender
o mundo: a crença na paz e no amor.
Diante da possibilidade de transpor esta experiência
do sagrado para a tela grande, Otto, um dos maiores animadores
de toda a América Latina, deixou religiosidades
hippies de lado e apelou para a bandeirinha do escracho
total. Com isso o deboche e até a auto-esculhambação
passaram a ser os fios condutores da versão para
o cinema da retomada dos anti-heróis chapadérrimos
dos quadrinhos de Angeli. "’Wood & Stock’
não pretende dizer coisa alguma. Não propõe
nada. Só destrói. Nem o roquenrol vai se
salvar. Gosto dessa coisa. É um caminho para não
se levar a vida a sério", afirma Otto.
Até o momento Otto conseguiu seguir um regime
eficiente de direção de sequências
e já tem animadas 720 das 770 cenas que integram
a produção. O filme vai mostrar a fauna
de tipos estranhos de Angeli. A trama é centrada
nos hipongas Wood e Stock, que vivem com a corda no pescoço.
Quando o pai morre, são obrigados a se virar sozinhos.
Esse mote de um recomeço forçado serve a
Otto como uma justificativa para mergulhar no universo
de Angeli e buscar lá rostos conhecidos do público
leitor de sua HQ "Chiclete com Banana" (publicada
diariamente pelo Jornal do Brasil e pela Folha de São
Paulo). Assim, os Skrotinhos, o guru Rhalah Rikota e até
a popular Rê Bordosa, musa maior do quadrinho nacional
underground dos anos 80, cruzam os caminhos de Wood e
Stock. Fora o espírito zombeteiro de Raul Seixas,
dublado no filme por Tom Zé, que vem do além
para dar alento aos últimos seguidores da crença
flower power.
"Wood & Stock é antes de tudo uma visão
sobre o conflito de dois hippies perdidos no tempo com
o mundo de hoje. É um relato de como eles pensam",
afirma. O traço que poderá ser visto na
tela grande traduzindo em imagens as inquietações
de Wood & Stock não será o de Angeli.
O estilo do cartunista serviu apenas de base para os desenhos
que tiveram de ser recriados sob a supervisão do
diretor de arte do filme, Jack Kaminski, que conseguiu
reproduzir com perfeição as manhas do criador
da tira.
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