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Animação Brasileira   
Por Rodrigo Fonseca

O cinema de animação, que ficou fora da retomada do cinema nacional, prepara-se para lançar o primeiro filme de longa-metragem, mas já existem cinco projetos procurando investidor

Waldeci Ribas, 20 anos fazendo um filme

Reza a lenda que o cinema brasileiro da chamada retomada é o lugar da pluralidade. Segundo crenças, a produção que se estende de "Carlota Joaquina" até os dias cosméticos de hoje é uma espécie de grande Pangéia onde há espaço para tudo, desde que falado em português e caracterizado em cores de verde e amarelo. Mas, se há realmente a democracia, porque quase ninguém se lembra de achar um quinhão de terra, ainda que pequenino, para a animação nesse latifúndio em formação e eterna superação que é a arte cinematográfica nacional? Por que a reclamação? Ora, quantos longas-metragens animados podemos enumerar nesse intervalo de tempo em que o Brasil voltou a aquecer as caldeiras de seu cinema e botar filmes na rua? Nenhum. Os últimos dois longas foram "Cassiopéia", de Clóvis Vieira, um épico espacial em terceira dimensão lançado há quase sete anos, e "O Grilo Feliz", de Walbercy Camargo, uma encantadora viagem pela gramática das fábulas infantis, que estreou em 2001, mas levou 20 anos em produção.

Houve, entretanto, muita produção de curta-metragem, incluindo da Turma da Mônica, que ganhou até um espaço nobre na programação da Rede Globo, entre um enlatado e outro. Os profissionais brasileiros, que são bons, vivem na publicidade, onde existe um mercado mínimo em funcionamento. Grandes estúdios de finalização brasileiros, como Mega e Casablanca, possuem núcleos de animação e equipamentos de última geração preparados para produzir tão bem quanto os estúdios americanos e europeus. "Primeiro foi a vez da ficção e depois do documentário, agora está chegando a nosssa vez, a dos animadores", afirma Sérgio Martinelli, ex-produtor executivo dos estúdios Maurício de Souza, onde esteve por quatro anos e agora prepara duas grandes séries animadas para a televisão e um filme de longa-metragem. "O Brasil tem muita história, mas ainda falta profissionais para uma produção maior. Se fôssemos fazer quatro filmes ao mesmo tempo não conseguiríamos", conclui Sérgio, que tem uma ONG, Centro Cultural de Animação, que há dois anos realiza cursos para formação de mão-de-obra qualificada em São Paulo.

"A gente tem de fazer sacrifícios em nome da animação no Brasil. Ainda mais porque muita gente aqui dentro sequer sabe que há pessoas investindo em desenhos com cara brasileira", lamenta Walbercy, que acaba de terminar o roteiro de "O Grilo Feliz 2". Sua queixa é fruto de todos os problemas, dores de cabeça e atrasos que levou para fazer "O Grilo Feliz", que entre contratempos profissionais e pessoais consumiu realmente 20 anos de trabalho e espera. "Não levou esse tempo todo na prática. Ele ficou muito tempo parado", confessa. Mas por amor a sua animada vocação, Walbercy teima em tentar manter seu terreiro em festa. Tem inclusive um outro projeto, envolvendo uma espécie de musical, um longa envolvendo heavy metal e rock‘n’roll. E ele não é o único cheio de idéias para bons produtos.

Este ano um filme de animação vai para as telas, "Wood & Stock", do gaúcho Otto Guerra, baseado nos personagens de Angeli, e mais cinco longas estão com roteiros em captação de recursos, "Tainá 2", de Pedro Rovai, "Uma Aventura no Tempo" e "Horácio", dos estúdios Maurício de Souza; "Cabral", de Naildo de Brito e "Anabel, o Filme", de Lancast Motta. "A produção de uma animação é mais complexa que a de um filme normal, e por isso demora muito para se concretizar. Os projetos que estão no mercado nos últimos anos só agora vão aparecer" esclarece Martinelli.

O primeiro longa da retomada

Personagens de Angeli ganham vida e chegam à telona ainda este ano

Otto Guerra, que já dedicou 27 de seus 46 anos de vida em favor dos desenhos, está vencendo as dificuldades técnicas e financeiras para levar às telas "Wood & Stock", um projeto que nasceu há cerca de cinco anos e já está nos preparativos finais para o arremate e o lançamento comercial, que deve acontecer em junho. Otto conta que o incentivo oferecido pelos mecanismos de captação do Ministério da Cultura a partir do prêmio para filmes de baixo orçamento deu uma alavancada em sua realização. "Essa história de baixo orçamento nos garantiu o aval para tirar ‘Wood & Stock’ do papel. Mas ainda falta captar uma parte da verba. Só conseguimos 70% até agora", conta Otto.

Mesmo assim, no peito e raça, driblando uma conta aqui, uma despesa acolá, ele foi tocando o projeto de ver o melhor da HQ nacional (leia-se Angeli) na tela grande. O problema é que, mesmo para um profissional tão tarimbado como ele, autor de obras premiadas como "O Natal do Burrinho" e "Novela", fazer e lançar são verbos que estão em margens opostas dentro da hidrografia que rega o solo do cinema neste país. Lembre-se que "Rock & Hudson", versão dele para os caubóis GLS do também gaúcho Adão Iturrusgarai, foi realizada em 1994 e até hoje permanece inédita. "E olha que o filme concorreu a prêmio no Festival de Gramado e passou em Brasília", lembra Otto, que não perde seu habitual otimismo na hora de avaliar o universo de trabalho. "Dizem por aí que a animação é a prima pobre do cinema brasileiro. Mas eu não acredito muito nisso. Acredito em persistência, uma vez que as oportunidades são iguais para todos", afirma Otto.

Para o animador, não há sequer um preconceito contra sua seara na hora da briga por captação. "Falam que os projetos de animação são tratados sem a mesma relevância que recebe um longa-metragem com atores de carne e osso, mas eu sempre fui tratado de uma forma justa".

Mercado em gestação

Outro profissional que também enxerga a animação no país hoje com entusiasmo é o produtor Sérgio Martinelli que criou, com o apoio da TV Cultura, a série "Anabel", dirigida por Lancast Motta, que narra as peripécias de uma menina sapeca. Para conferir sua cria, acesse o site www.anabel.com.br. "A indústria de animação é uma das melhores apostas que podemos fazer hoje no cinema brasileiro. Ela pode se transformar numa indústria estratégica e de grande poder de exportação como se tornou em vários países do Terceiro Mundo, como Filipinas, Índia e Vietnã, entre outros", crê Martinelli, que percorre o mercado internacional para onde está abrindo caminho para a venda da série "Anabel", que já tem pronto 13 episódios de sete minutos cada, seis deles em película. Outra série de animação de Martinelli é arrojada: chama-se "Terra das Letrinhas", com 26 episódios (19 já estão prontos e até maio todos estarão concluídos). Tem um conteúdo educacional e será dirigido às crianças. O longa-metragem "Anabel" está em andamento, com o roteiro em finalização.

O otimismo de Otto Guerra é de outra ordem. Ele se explica em boa parte pelo fato de ele ter sido ao mesmo tempo testemunha e agente de uma transformação que impulsionou o boom da animação no gargalo dos anos 70 e início dos anos 80, acompanhado de uma dupla de artistas de primeira, José Maia e Lancast Motta, que juntos dele realizaram os premiados curtas: "As Cobras – O Filme", "Treiler", "O Reino Azul" e "Zé Gotinha contra o Perna-de-Pau".

"Em relação proporcional com o que se faz de filmes no cinema hoje, o volume da produção de animações pode ser pequena, mas o cenário melhorou muito. Basta pensar que, na segunda metade do século 20, ainda não possuíamos uma tradição na área. Eu fui pioneiro na coisa nos anos 70. Isso espanta", lembra Otto.

Histórico tupiniquim

O namoro do Brasil com a animação começou há mais de 85 anos. Muitos estudiosos entendem como a pedra fundamental da relação de nosso cinema com a arte o curta "O Kaiser", de Álvaro "Seth" Marins, lançado no emblemático e revolucionário ano de 1917. Depois disso, lá pelos anos 20, "Macaco Feio, Macaco Bonito" (1929), de Luiz Seel, teve um papel importante para contagiar os diretores com o vírus animado.

O longa animado número um, contudo, só apareceria na década de 50, depois que os olhos do mundo já estavam cansados de ver Mickey Mouse, Popeye, Looney Tunes e cia. Foi "Sinfonia Amazônica", produção feita com tamanho lirismo e entrega pelo diretor Anélio Lattini Filho que chega a lembrar a pérola mais valiosa (e incompreendida) de Walt Disney, "Fantasia". Anélio dedicou cerca de cinco anos de trabalho para transformar em desenho animado um pot-pourri de relatos folclóricos da região Norte, entre elas a lenda da Noite, que aborda o surgimento dos animais na floresta e a do Urutau, que narra a formação do rio Amazonas.

Daí para diante, nos anos 60, década em que o "Submarino Amarelo" introduzia cores psicodélicas na animação estrangeira, os brasileiros que sonhavam enveredar pelo caminho da animação aprontavam das suas deixando as experiências estéticas correrem fluídas. Foi o caso do escritor Rubens Francisco Lucchetti, que em 1961 fundou, ao lado do artista plástico Bassano Vaccarini, um núcleo para produzir filmes de animação: o Centro Experimental de Cinema de Ribeirão Preto. Tal centro teve uma produção pequena e 100% mambembe, utilizando como matéria-prima para os efeitos especiais produtos de papelaria – financiados por uma loja de peças de automóvel da qual Lucchetti era o proprietário e que faliu graças aos custos dos desenhos.

A dupla chegou a apresentar dois trabalhos interessantes: "Abstrações" e "Tourbillon". Contudo, só mesmo nos anos 70, graças à geração do grupo Fotograma, a animação nacional deu uma guinada. Essa turma sofreu com as pancadas de chuva e as trovoadas da ditadura militar, mas conseguiu impor seu lugar à base da raça e do improviso. Foi o caso da obra de Pedro Ernesto Stilpen, o Stil, que criou o antológico curta "Batuque" usando papel de embrulho e luz natural.

A década de 80 já foi mais feliz graças a um convênio entre Brasil e Canadá, que permitiu que alguns profissionais tivessem acesso aos ensi namentos de tutores canadenses. Dessa parceria, saiu parte do sêmen que germinou a produtora Anima Mundi, que desde 1993 vem realizando um dos mais importantes festivais do mundo na área. No fim de 2002, eles chegaram a lançar, via distribuidora Trama, um DVD com o melhor de suas últimas programações. Na Bahia, Chico Liberato, realizador de sete curtas de animação, realizou em 1984 o longa animado "Boi Aruá", obra que precisa ser revista e mostrada.

 

"O Coronel e o Lobisomem", curta metragem ganhador do anima mundi 2002

César Coelho, um dos diretores da mostra, lembra que ano passado, em sua 10ª edição, recebeu a inscrição de 180 filmes nacionais, dos quais 103 foram selecionados. Um deles, "O Lobisomem e o Coronel", de Elvis Kleber e Ítalo Cajueiro, escolhido como o melhor da seleção de 2002, já pode ser considerado um filma para marcar época por seu jogo metonímico com valores da cultura popular brasileira. "A melhor animação é aquela que combina habilidade de contar uma história com a qualidade formal. A animação brasileira precisa se guiar por uma valorização do conteúdo de seus filmes", afirma o premiado Elvis Kleber.

Para César, que é também animador e responsável pela criação de vinhetas para programas de TV, como a abertura da novela "A Padroeira", da TV Globo, lembra que boa parte do potencial da indústria de animação nacional se concentra no meio publicitário. "O Brasil sempre teve uma animação muito forte. Sobretudo na publicidade. Mas o espaço nesse meio é, em geral, para filmes de até 30 segundos", afirma Coelho. "Entretanto, recentemente, como as seleções do Anima Mundi vem sinalizando, a situação dos animadores que pretendem atuar fora dos comerciais melhora cada vez mais, uma vez que a animação começa a aparecer como uma opção acessível para quem quer fazer cinema. E a computação assume papel fundamental nesse crescimento".

As vantagens oferecidas pelo meio digital realmente são atraentes para os animadores. Mas a área em 3D por aqui ainda não garantiu que novos longas pudessem ganhar o mercado, conforme lembra Walbercy Camargo. "Veja quantos longas em computação gráfica os americanos fizeram de "Toy Story" até hoje e olha quantos brasileiros foram feitos com a mesma técnica", diz.

Ora, se há técnica e existe talento, qual seria o empecilho para o boom de nossa indústria animada? A politicagem em torno da legislação de cinema talvez seja uma resposta, segundo César Coelho. "Os mecanismos da lei da captação não contemplam a animação, uma vez que fazer um desenho não obedece a mesma lógica do que fazer filme com atores de verdade. O tempo para animar um roteiro é muito maior. Leva quatro anos, no mínimo. Isso exige uma demanda de tempo e dinheiro", explica.

Teórico da história da animação, o designer André Barroso, autor do ótimo curta "A Vida é Dura!", fecha com a visão de César Coelho: "Mudanças na lei de captação de recursos são imprescindíveis, assim como mudar a cabeça do empresariado. Vejo uma luz no fim do túnel, com a facilidade que o computador deu aos profissionais de terem uma ferramenta a seu alcance para uma produção de baixo custo, porém de alta qualidade. Portanto, animadores, uni-vos", brinca.


"Wood & Stock" – Memorial ao bicho grilo

Nas mãos de um artista cinematográfico menos competente que Otto Guerra, a realização de "Wood & Stock, o Filme" talvez pudesse se esborrachar numa parede de insegurança e de medo. Afinal, a matéria-prima que inspira o longa-metragem, cujo lançamento pode acontecer ainda antes do segundo semestre do ano, envolve uma questão mais profunda do que ‘filosofices’ de tirinha de jornal. As aventuras de Wood & Stock podem ser entendidas como uma espécie de catarse. Memorial bicho grilo talvez fosse o termo mais indicado. Até porque, lá pela década de 70, o paulista Arnaldo Angeli Filho compartilhava do ideal Norman Brown de compreender o mundo: a crença na paz e no amor.

Diante da possibilidade de transpor esta experiência do sagrado para a tela grande, Otto, um dos maiores animadores de toda a América Latina, deixou religiosidades hippies de lado e apelou para a bandeirinha do escracho total. Com isso o deboche e até a auto-esculhambação passaram a ser os fios condutores da versão para o cinema da retomada dos anti-heróis chapadérrimos dos quadrinhos de Angeli. "’Wood & Stock’ não pretende dizer coisa alguma. Não propõe nada. Só destrói. Nem o roquenrol vai se salvar. Gosto dessa coisa. É um caminho para não se levar a vida a sério", afirma Otto.

Até o momento Otto conseguiu seguir um regime eficiente de direção de sequências e já tem animadas 720 das 770 cenas que integram a produção. O filme vai mostrar a fauna de tipos estranhos de Angeli. A trama é centrada nos hipongas Wood e Stock, que vivem com a corda no pescoço. Quando o pai morre, são obrigados a se virar sozinhos. Esse mote de um recomeço forçado serve a Otto como uma justificativa para mergulhar no universo de Angeli e buscar lá rostos conhecidos do público leitor de sua HQ "Chiclete com Banana" (publicada diariamente pelo Jornal do Brasil e pela Folha de São Paulo). Assim, os Skrotinhos, o guru Rhalah Rikota e até a popular Rê Bordosa, musa maior do quadrinho nacional underground dos anos 80, cruzam os caminhos de Wood e Stock. Fora o espírito zombeteiro de Raul Seixas, dublado no filme por Tom Zé, que vem do além para dar alento aos últimos seguidores da crença flower power.

"Wood & Stock é antes de tudo uma visão sobre o conflito de dois hippies perdidos no tempo com o mundo de hoje. É um relato de como eles pensam", afirma. O traço que poderá ser visto na tela grande traduzindo em imagens as inquietações de Wood & Stock não será o de Angeli. O estilo do cartunista serviu apenas de base para os desenhos que tiveram de ser recriados sob a supervisão do diretor de arte do filme, Jack Kaminski, que conseguiu reproduzir com perfeição as manhas do criador da tira.

 


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