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Produção Audiovisual - Cinema Digital   

A Tecnologia substituirá os atores ?

Desde pequeno sou aficionado por filmes. Cheguei a assistir a 15 filmes em um final de semana (pode não parecer muito, dado o público dessa revista). Com o tempo o gosto pelo cinema aumentou muito. Me formei em Desenho Industrial para obter uma visão mais prática, e Propaganda para entender a teoria. Não quis estudar cinema pois achava que isso não me traria futuro (engano meu...).

Meu primeiro contato com cinema foi numa produtora em que estagiei. Lá descobri que era isso que queria fazer da vida. Quando me formei não pretendia parar meus estudos por ali, pesquisei e descobri uma escola em Los Angeles que tinha um curso na área do meu interesse, efeitos especiais. Meu curso na American Film Institute durou um ano e meio.

Efeitos: 46 sensores revestidos com
material brilhoso, que são colocados
no corpo de cada dublê

Tive aulas com profissionais da Digital Domain, Sony Pictures, Disney, e com David Lynch, Robert Altman, Edward Norton, Vitorio Sttoraro, Alan Ball ( roteirista de “Beleza Americana”), entre outros. Após o curso fui indicado por um amigo para trabalhar com motion capture, pois o estúdio onde ele trabalhava havia sido chamado para um projeto grande.

Depois de duas semanas de treinamento, fui contratado e, para minha surpresa, o projeto seria a continuação de “Matrix”, filme que chamou muito a atenção quando estreou em 1999 e, na minha opinião, revolucionou o modo de utilizar efeitos especiais. Não podia acreditar, trabalhar num filme desse porte e ainda receber por isso.

Fizemos duas semanas de teste nos estúdios da Sony em Culver City. Lá tive o primeiro contato com os irmãos Wachowski, John Gaeta e Bill Pope. Passados os testes fomos para um hangar no aeroporto em Santa Mônica onde ficamos por um mês e meio fazendo motion capture para o videogame, o desenho animado da série Animatrix e para os dois filmes da continuação. Terminado o trabalho no hangar fomos para Alameda, próximo a San Francisco, onde “capturamos” os dublês e os atores nos estúdios da Mannex, empresa responsável pelos efeitos visuais. Passaram-se oito meses e durante esse período estive em contato direto com toda a equipe técnica e os atores do filme. Às vezes chegava em casa e ria sozinho do que estava acontecendo.

O poderoso Neo(Keanu Reeves) luta contra cópias do agente Smith(Hugo Weaving)

Para realização das cenas de luta envolvendo “Bullet-Time” no “Matrix Reloaded” e no “Revolutions”, além das coreografias do Mestre Wo Ping, chinês responsável por coreografar filmes como “O Tigre e o Dragão”, “Bruce Lee” e “Matrix”, os irmãos Wachowski ainda contavam com John Gaeta, vencedor do Oscar pelos efeitos visuais do primeiro filme da série. Gaeta sabia como adaptar a técnica e a tecnologia para a visão de Larry e Andy. No primeiro filme câmeras digitais disparavam frames simultâneos sobre um fundo croma verde. Posteriormente editadas e compostas, as cenas surpreenderam pelo movimento e qualidade das imagens. Com a inclusão de outros atores nas cenas de luta, esta tecnologia passou a não ser viável e Gaeta teve que adaptar outra técnica para criar o mesmo efeito e o motion capture foi utilizado.


Desenvolvido para medicina biomecânica e ortopédica, motion capture foi adaptado para animação e muito usado nos videogames. A captação necessita de 46 sensores revestidos com material brilhoso, que são colocados no corpo de cada um dos dublês e atores para representarem o tamanho dos ossos do corpo humano. Trinta e duas câmeras ligadas diretamente no computador são dispostas em triângulos em três níveis diferentes de altura para captarem uma área de 20m x 20 metros. Depois de ensaios e muito treinamento as cenas eram capturadas diretamente para o sistema da Motion Analysis, chamado EVA.

Eletrizante: Neo chuta cem cópias do agente Smith ao mesmo tempo

Cabos e máquinas mecânicas, especialmente desenvolvidas, eram utilizadas nas cenas mais complexas. Vinte atores eram capturados simultaneamente e no final de cada cena ficavam na posição ”T”, pernas próximas e braços abertos para que todas as marcas ficassem visíveis de uma só vez. Muitas vezes, pela brutalidade das cenas, os sensores caíam e tinham que ser repostos tridimensionalmente no programa, utilizando outras duas marcas como referência. Além dessa reconstrução, os animadores precisavam demarcar cada ator com uma configuração diferente dos sensores, para saber aonde deveriam ser colocados nas cenas.

Depois da animação, as imagens eram levadas para o Filmbox, programa desenvolvido pela Kayadara, onde eram “envelopados os esqueletos”. Posteriormente texturizados, os corpos e objetos de cena deveriam ser iluminados para finalmente animar as câmeras e, como tudo era virtual, o posicionamento e a velocidade das câmeras variavam de acordo com o gosto dos diretores.

Os Gêmeos viram "fantasmas", para conseguir atravessar portas e perseguir Neo, Morpheus, Trinity r o Key Maker

Não era raro ouvirmos dos atores: “Então é essa a tecnologia que irá nos substituir?” Na verdade, muito em breve motion capture poderá ser utilizado juntamente com Emotion Mapper, com o qual scanners de alta resolução representam igualmente texturas e formas faciais, fazendo com que seja possível representar um ser humano sem ele próprio estar presente. Logicamente nenhuma animação, por mais perfeita que seja, se compara com o realismo do movimento humano. Estamos muito próximos de vermos atores já mortos contracenando com atores vivos….

Mestre Wo Ping, chinês responsavel
por coreografar o filme

Terminado o projeto de motion capture para os Wachowski em agosto de 2001, senti que era hora de voltar para o Brasil. Desde então abri minha produtora, a SYNC Produção Digital, onde estamos dando andamento a vários projetos que envolvem efeitos, animação, e outras trucagens. Como adoro lecionar, passei a dar aulas no Mackenzie, na Faculdadde de Comunicação, nas disciplinas de desenho animado, computação gráfica, e cinema.

Posso dizer que me sinto realizado e muito grato pelas oportunidades que surgiram em minha vida.


Por Eduardo Gurma



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