O cinema australiano como um exemplo
para o Brasil
Por Arnaldo Carrilho
Numa
conjuntura em que o Brasil toma parte ativa nas negociações
sobre serviços audiovisuais na OMC e agora na
ALCA; está em vias de consolidar os intercâmbios
desses serviços junto aos seus pares sul-americanos
e associados ao Mercosul; e se prepara para criar uma
Ancinav no lugar da Ancine, tal como fora em 2000-01
projetado pelo GEDIC – referências concisas
ao caso australiano parecem úteis, em termos
de subsídio comparativo à política
que implementaremos. É bem verdade que o mercado
brasileiro expõe potencialmente dimensões
maiores que o da Austrália, país que não
atingiu ainda a cifra de 20 milhões de seres
em seu ecúmeno demográfico. Não
é, contudo, assim que as coisas se passam.
A grande potência da Oceania dispõe, no
entanto, de número mais expressivo e proporcionalmente
bastante superior ao nosso em salas de exibição
(1.872), frequentadas por 92,5 milhões de espectadores,
responsáveis por uma arrecadação
anual de US$ 478 milhões, com 256 filmes exibidos
nos últimos doze meses. Quer isso dizer que,
mantidas as proporções população/telas,
teríamos um índice de 792 milhões
de espectadores/ano, cifra inimaginável em nosso
mercado atual. No quinquênio passado, sua produção
média de longas-metragens de ficção
registrou 34 filmes/ano, parecida com a nossa. O governo
federal administra o setor, que abarca versões
análogas, digitais e televisivas, pela ingerência
de oito órgãos, à frente dos quais
se encontra a AFC (sigla inglesa da Comissão
Australiana de Cinema). O país conta com cinco
redes de TV aberta (duas públicas), unindo-se
às privadas 28 regionais, repetidoras e independentes,
e cinco por assinatura, oferecendo 56 canais. Em 2002,
havia 7,1 milhões de lares com televisores, 6,3
milhões com vídeo-gravadores, 1,7 milhão
com DVDs e 1,5 milhão providos de assinaturas
de canais a cabo.
As outras unidades administrativas, sob a jurisdição
do Departamento (federal) de Comunicações,
Tecnologia da Informação e Artes, são
a FFC (Corporação Australiana de Financiamento
de Filmes, nestes incluídos longas de ficção,
telefilmes, minisséries e documentários);
a ACTF (Fundação Australiana de Televisão
Infantil); a AFTRS (Escola Australiana de Cinema, Televisão
e Rádio); o CTPF (Fundo de Produção
para a Televisão Comercial); a Austrália
Filmes (produtora e distribuidora de documentários
televisivos e programas educativos); o ScreenSound Australia
(Arquivo Nacional da Imagem e do Som: coleta materiais
cinematográficos, televisivos e sonoros); e o
SBSI (Serviço Especial de Broadcasting Independente,
ligado a uma das emissoras públicas: encomenda
dramas e documentários a grupos de cinema independente).
A AFC, com sede em Sydney e subsedes em Melbourne e
Brisbane, a FFC e a ACTF subsidiaram no corrente exercício
os serviços audiovisuais com US$ 57 milhões,
enquanto outras agências estaduais entraram com
US$ 16 milhões.
As demais fontes de financiamento resultam de “arranjos
fiscais” (nada a ver com as “renúncias”
brasileiras) e taxas sobre as emissoras televisivas.
Os subsídios estatais representaram 22% dos gastos
com a produção cinematográfica
e televisiva; 54% foram levantados junto ao setor privado
(US$ 119 milhões); e 24% provieram de fontes
no exterior, mediante co-produções (US$
53 milhões). Apesar de todas essas medidas, filmes
americanos tomaram quase todas as telas (83%), cabendo
aos australianos apenas 6%. Os 11% restantes corresponderam
a filmes de outras procedências. Tal, porém,
não acontece na televisão, onde a produção
nacional ocupou 76% da programação, cabendo
aos EUA somente 4%, o restante ficando entre produções
de países da UE (União Européia)
e outros. As emissoras abertas de TV divulgam filmes
de toda a natureza e nacionalidade, em horários
noturnos.
A título de exemplo, a rede pública SBS
transmitiu “Terra em Transe”, de Glauber
Rocha, no terceiro domingo de setembro passado, em horário
nobre (20h30). A esse propósito, as autoridades
locais não titubeiam em proteger seus espaços
hertzianos, em termos de “reservas culturais”,
expressão mais condizente à visão
local da diversidade ou exceção culturais.
O governo australiano também utiliza “isenção
cultural” em suas tratativas comerciais com os
americanos. A esse propósito, convém sublinhar
que, no momento, Washington e Camberra negociam um FTA
(Acordo de Livre-Comércio). Considerando a impossibilidade
de conter a avalancha cinematográfica de Hollywood,
como ocorre em quase todos os mercados, a AFC despachou
delegação para os EUA, com vistas a garantir
a defesa dos seus interesses no quadro do acordo bilateral.
As negociações têm sido penosas,
de vez que os americanos não levam em conta as
diferenças evidentes entre o seu e os outros
países. São por natureza impositivos,
julgando-se portadores de uma graça celestial,
impassível de discussão.
As diferenças não existem só em
termos de massa crítica e mercado. Por mais ligada
ao Ocidente, como seu ponto avançado na Oceania,
e sendo, com a Nova Zelândia, anglo-saxônica
em dominância geoestratégica, a Austrália
tem cultura própria, e a defende. Sua identidade
nacional é tratada com exemplar zelo diplomático,
sem forçar na retórica, em nome da eficácia.
O balanço entre os subsídios governamentais
e os investimentos ou financiamentos privados tem sido
positivo, inclusive sob o ângulo negociatório.
A atividade audiovisual do país, nela contemplada
também a de suporte digital, está em jogo,
de modo que não fique a porteira escancarada...
Os “novos” economistas confundem liberalismo
com permissivismo ou gangsterismo,... mais uma questão
de ser ou não-ser.
Todo o esforço da delegação australiana
concentra-se no setor televisivo, privilegiando conteúdos
nacionais mesmo nas modalidades de TV-paga e Internet.
Os americanos, a seu turno, insistem em reduzir esses
espaços. Como a data-limite para a assinatura
do FTA é agora no fim do ano, a pressão
interna de cineastas, técnicos e atores induziu
o ministro australiano do Comércio, Mark Vaile,
a procurar seu interlocutor em Washington, o inefável
Bob Zoellick. Este, bem conhecido por diplomatas e empresários
brasileiros, joga o peso econômico da Hiperpotência
que representa, com seu PIB de US$ 10,4 trilhões,
contra os US$ 536 bilhões da Austrália.
Acontece, porém, que tais cifras/habitante não
destoam excessivamente: respectivos US$ 37,7 mil e US$
27,2 mil. Tal empresta força aos argumentos australianos.
Trata-se, como se vê, de um confronto político
e econômico, por trás do qual se descortina
a sombra dos subsídios agrícolas praticados
pelos EUA. Onde a cultura fica no final das contas?
Essa pergunta não ficará no ar; será
objeto de comentários em próximo artigo,
tão logo se firme o acordo.
Arnaldo Carrilho, integrante do Cinema Novo, ex-presidente
da Riofilme S.A., é atualmente Cônsul-Geral
em Sydney. |