Revista do Mercosul N° 74 Ano 2001

O drama dos brasiguaios
Brasileiros enfrentam a xenofobia dos paraguaios

Eles convivem com reações nacionalistas da fronteira

 

Atraídos pela promessa de terra e opor- tunidade, milhares de famílias brasileiras cruzaram a fronteira, nos últimos anos, para se estabelecer no Paraguai. A presença desses "brasiguaios", além de levar um surto de crescimento econô- mico à região, provocou um sentimento nacionalista e até xenófobo entre seus

relutantes anfitriões. A situação foi assunto de ampla reportagem no jornal americano The New York Times, cujo interesse pelo Mercosul cresceu após as pressões do governo Bush para antecipar a criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca).

Os paraguaios, segundo o jornal, reclamam que a identidade nacional nas províncias da fronteira está se diluindo por causa da predominância dos estrangeiros que falam sua própria língua, usam sua própria moeda, hasteam sua própria bandeira e são os donos das melhores terras. Outra queixa é que seus filhos crescem falando português como segunda língua, em vez do guarani. "Temos que proteger nossa identidade ou estaremos perdidos como nação nessa onda de globalização e Mercosul", diz Adilio Ramírez López, diretor de uma escola local.

Outra fonte de atrito é a questão racial, uma vez que a maioria dos brasiguaios têm olhos azuis e pele clara e os paraguaios são de origem indígena. Transmissões de rádio em guarani exortam os camponeses sem terra a atacarem os brasileiros, incendiando suas casas ou invadindo suas lojas, o que levou a imprensa brasileira a falar sobre limpeza étnica. As queixas dos brasiguaios são a discriminação contra seus filhos nas escolas locais e a intimidação das autoridades da imigração, já que grande parte deles nunca recebeu documentos de identidade paraguaios. Ao mesmo tempo, os brasiguaios nascidos no Paraguai não conseguem ter documentos brasileiros, o que impede algumas famílias cansadas da hostilidade de voltar ao Brasil.

Um censo da Igreja católica feito há quase 20 anos estimava que o número de brasiguaios era de 300 mil, cerca de 10% da população paraguaia na época. Hoje, podem chegar a 400 mil, mas esses dados são incompletos devido ao número de clandestinos. Em San Alberto de Mbaracayú, cerca de 80% dos 23 mil habitantes são descendentes de brasileiros e, votando em bloco, conseguiram eleger um dos seus, Romildo Maia de Souza, como prefeito. Maia diz que a solução para o problema virá à medida que as pessoas aprendam a conviver entre si. "Estamos começando a ver casamentos entre brasileiros e paraguaios; é assim que se forma uma nação", completa.

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